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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Os Candidatos às Eleições Presidenciais de 24 de Janeiro - André Ventura

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Olá Berta,

André Ventura é o sétimo e último candidato às Eleições para Presidente da República de que te vou falar. Como tenho feito até aqui, nestas cartas que te escrevo, aquilo a que refiro nada mais é do que o que eu penso sobre cada candidato.

Eu vou tendo em conta o que deles li e ouvi na comunicação social, seja pelas entrevistas a cada candidato, seja pelo que deles foi dito pelos diferentes comentadores ou, ainda, o que retiro das notícias sobre eles publicadas, escritas na imprensa, faladas na rádio ou transmitidas pela televisão, seja qual for o canal.

Digo isto porque, pessoalmente, abomino André Ventura e tudo aquilo que ele representa. Gosto, quando assim é, de deixar claro o que me vai na alma, antes de me pôr a falar da pessoa em causa. O facto de apresentar a minha opinião não faz dela uma realidade de facto, embora seja baseada em factos do domínio público.

Por isso é que tudo o que te escrevo nestas cartas pertence ao campo restrito do alegadamente, pela forma como as coisas são narradas pelo meu próprio processo interpretativo. Se apresento este preambulo é porque com este menino… nunca fiando, e mais vale prevenir do que remediar.

André Ventura vem dos subúrbios de Lisboa, nomeadamente da Freguesia de Algueirão/Mem Martins, do Concelho de Sintra, onde nasceu há 38 anos atrás. Vem de um perímetro   repleto de migrantes que, por não se poderem instalar diretamente na capital foram, a pouco e pouco, povoando e sobrelotando a periferia e arrabaldes de Lisboa.

O negócio do pai, uma loja de bicicletas, e o trabalho de empregada de escritório da mãe, foram suficientes para conseguir pagar-lhe os estudos até ao secundário e, mais tarde, a universidade.

Para fugir à influência do berço, já com 14 anos de idade cumpridos, tornou-se católico, batizou-se, fez o crisma e ingressou no “Seminário de Penafirme” no Concelho de Torres Vedras para seguir uma suposta vocação religiosa que seria rapidamente interrompida porque, segundo alega, se apaixonou no entretanto.

Fez o curso de direito na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, onde se formou com 19 valores (prova de que de burro nada tem o mestre André). E, mais tarde defendeu, já em 2013, a tese de doutoramento em Direito Público pela Faculdade de Direito da Universidade de Cork, na Irlanda, financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, na qual criticou o "populismo penal" e "estigmatização de minorias", revelando preocupação com a "expansão dos poderes policiais”.

Poderás pensar, amiga Berta, que estou a inventar, mas não. O André Ventura de há oito anos atrás tinha sérias preocupações com as minorias marginalizadas e com o aumento notório do poder policial. Todavia, tal como o amor o fez desistir de ser padre, também a ambição lhe toldou as ideias e os ideais.

Na sua passagem pelo ensino superior acabaria por lecionar na Universidade Autónoma de Lisboa, de 2013 até 2019, e na Universidade Nova de Lisboa, de 2016 até 2018. Foi comentador desportivo na CMTV entre 2013 e 2019, até ser dispensado da função pela administração da Cofina. Durante 2018 e 2019 foi ainda consultor de uma sociedade de advogados e depois da empresa Finpartner, entre 2019 e 2020.

No campo partidário militou uns anos pelo PSD e foi candidato, pelo partido, à Presidência da Câmara de Loures contra o então Presidente, o comunista Bernardino Soares, em 2017.

Foi a partir daqui que André Ventura descobriu a sua vocação de troca-tintas ao manifestar algumas das suas ideias sobre aquilo a que apelidou de “povos ciganos”. No entanto, já no ano anterior, também gerara alguma polémica no seio do PSD ao defender publicamente "a redução drástica da presença islâmica na União Europeia”.

Em abril de 2019 fundou o CHEGA e com ele, pelo círculo de Lisboa, conseguiu ser eleito Deputado da Assembleia da República. Na época dizia que o seu partido defendia ideias "liberais economicamente, nacionalistas culturalmente e conservadoras em questões de costumes”. Aliás, não teve qualquer problema em ir adaptando a filosofia programática do seu partido de forma a congregar descontentes.

Descontentes e, acrescente-se, gente da direita radical, muita dela órfã de uma ditadura finda há quase meio século, e que lhe poderiam permitir criar um nicho político com elevado potencial de crescimento, bem à medida das suas ambições.

Muitas foram as polémicas a envolver André Ventura. Os setores foram variando entre a islamofobia, o preconceito étnico, a homofobia escondida em valores conservadores, o machismo, a xenofobia e o racismo, conforme ia dando jeito à angariação de simpatizantes e militantes do seu partido heterógeno, neofascista e disfuncional.

No meu entender, André Ventura, não acredita em nada do que defende ou diz defender. Ele ruma ao sabor da maré na busca fácil do populismo e do protagonismo político. O narcisismo e o egoísmo são as suas verdadeiras convicções.

 A tarimba de comentador desenvolveu-lhe um diálogo fácil de quem, sem responder ao que lhe é perguntado contra-ataca com afirmações ou questões que têm por objetivo único irritar e tirar discernimento aos adversários.

Esperto, inteligente, ambicioso e sem princípios morais que não lhe advenham do umbigo. É assim que eu vejo este Ventura que, um dia, fruto destas mesmas “qualidades” poderá, por fim, cair em desventura, desde que os adversários nunca o menosprezem.

Por hoje é tudo, amiga Berta, vou beber uns sais de fruto, pois que escrever sobre este individuo me dá uma tremenda azia. Despede-se este teu amigo com um beijo de até amanhã,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Um olhar sobre o CHEGA e André Ventura - Parte III/III

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Olá Berta,

Termino hoje esta minha análise sobre o CHEGA. Antes de mais agradeço que tenhas deixado os teus comentários para o final desta carta. Com efeito, um partido como este, que reúne em seu torno uma quantidade de apoiantes tão diferentes e até divergentes entre si é, por si só, um verdadeiro fenómeno.

Mas não é um partido unido e consistente se lhe retirarmos o líder. Um bom exemplo disso foi o próprio congresso do CHEGA que, sob a ameaça de saída do seu comandante supremo, correu a aprovar as listas por este propostas que tinham sido anteriormente rejeitadas consecutivamente. Estamos, portanto, perante um saco de gatos, com um cão de guarda na porta de saída.

A queda de André Ventura, só por si, acabará por gerar o estilhaçar deste partido numa parafernália de pequenos movimentos, em que cada um puxa o saco para o seu lado. Sem o chefe, os bandos dividem-se nas suas partes e esquecem o benefício do todo que os constituía.

Até este momento o partido Chega é André Ventura e André Ventura é o partido Chega. Isto, mesmo assim, poderia ser e constituir algo de perigoso se a inteligência, o conhecimento, o discernimento e a cultura geral e política do líder fossem algo fora dos padrões aceites como comuns e extravasassem para as margens da genialidade.

Contudo, e para meu alívio, Ventura é apenas um oportunista sem ideias, que navega à vista e que não apresenta qualquer evidência de vir a ter o tão desejado rasgo de génio. Porém, dirão muitos, já reúne 10% das intenções de voto numas eleições legislativas. Com efeito essa é a realidade. Mas achas, amiga Berta, que sabermos que temos 10% de gente desta neste país é verdadeiramente preocupante?

O Partido Comunista Português nem quando tinha 15% dos eleitores portugueses, nas suas hostes, conseguiu implantar uma ditadura do proletariado e isto nos idos tempos do PREC (Processo Revolucionário em Curso), com uma inteligência invulgar como a de Álvaro Cunhal à cabeça e com o apoio da antiga URSS. Ora, nem Ventura é Cunhal, nem os apoios de ventura se comparam à URSS. Por isso, minha querida, deixemos o partido CHEGA implodir, naturalmente, por si mesmo, um destes dias ou quando perder o líder. Tal como aconteceu com o PRD, partido de Ramalho Eanes, quando se viu sem o seu líder.

Por agora basta de um CHEGA que não chega a lugar algum, onde coabitam aqueles que nos interessa saber quantos são e onde estão. Despede-se este teu amigo que muito se lembra de ti, minha querida Berta, com um beijinho, saudosamente,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Um olhar sobre o CHEGA e André Ventura - Parte II/III

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(discurso de Passos Coelho sobre o candidato do PSD à Câmara de Loures, nomeadamente o Sr. Dr. André Ventura)

Olá Berta,

Continuando a minha narrativa sobre o suposto perigo do crescimento do partido de André Ventura, que devo encerrar amanhã, espero deixar clara a ideia que tenho sobre ele. Com efeito, não consigo ver onde está o perigo. Dizem uns que em seu redor se reúnem os racistas, muitos fascistas, os xenófobos e os homofóbicos, entre outras categorias de gente de valores e princípios intoleráveis neste fim do primeiro quartel do século XXI.

Não duvido minimamente da possível veracidade destas afirmações, contudo, e isso é importante, elas não fazem parte do perfil ideológico que consta no programa partidário em causa. Essa ideia advém, principalmente, das posições concretas que vamos vendo Ventura a tomar sobre situações específicas da atualidade política.

Com efeito, basta analisar a evolução, nestes curtos dois anos de existência, do programa do partido, para termos a certeza que este se desenvolve e expande mais pelas oportunidades e oportunismos, do que por ideias próprias bem alicerçadas e cimentadas.

O CHEGA congrega e arrebanha descontentes, em todas as áreas. Venham eles de que partido ou tendência vierem são todos bem-vindos ao polvo aglutinador. Sejam eles os militaristas, os defensores da segurança como um valor que se sobrepõe à liberdade e dos gangues organizados de gente sem caráter, mas também dos tais saudosos do fascismo, dos preconceituosos relativamente a algo, onde encaixam os racistas, os xenófobos e os homofóbicos, entre outros, como os que acreditam que o lugar da mulher é entre a cozinha e a cama e que a igualdade de género é uma história mais fantasiosa do que a da própria Carochinha.

Com efeito, antes de me despedir até amanhã, espero sinceramente, minha querida amiga Berta, que estejas a acompanhar o meu raciocínio e que não julgues o que digo antes de eu terminar a próxima carta. Despede-se saudoso, este amigo sincero, com um abração muito virtual,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Um olhar sobre o CHEGA e André Ventura - Parte I/III

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Olá Berta,

Ao contrário de muitos daqueles que comandam a nossa vida política, daqueles que aspiram ao poder, dos comentadores e analistas políticos e de muitos cronistas, eu, que gosto muito de pensar por mim, não considero que um partido como o CHEGA seja perigoso. Nem sequer acho que constitua uma ameaça à nossa forma de estar, de ser e de viver ou ainda que o mesmo possa estar ferido de qualquer inconstitucionalidade.

Com efeito, no meu modesto entender, o CHEGA é um partido de direita (uma direita muito à direita) que defende, bem no âmago dos seus militantes e apoiantes, um regresso a uma espécie de Salazarismo requentado, sem o brilhantismo político e estratégico de Salazar.

Se o antigo ditador estivesse na génese deste partido seria coerente dizer que o elefante pariu, tardiamente, um hámster, já dentro da rodinha e a exercitar as patitas enquanto a mesma gira e volta a girar. É mesmo assim que vejo este grupo de gente que se aglomerou à volta de André Ventura.

Também não me admiro muito de ver o PSD, de Rui Rio, a ver com bons olhos possíveis alianças à sua direita, afinal muitos dos antigos Barões dos Sociais Democratas e alguns dos Monárquicos do PS, que tentaram, e ainda tentam a todo o custo, que os filhos lhes sucedam nos lugares antes ocupados pelos seus monárquicos assentos, só não mudam para lá por terem vergonha de assumir a sua verdadeira matriz familiar e dinástica.

Fosse André Ventura um líder com os tomates de Pedro Passos Coelho e tivesse ele o nível cultural e intelectual de Diogo Freitas do Amaral e a história seria contada de forma bem diferente daquela que leremos daqui a uns anos sobre o CHEGA.

Amanhã continuarei esta minha análise, todavia, por hoje, este teu amigo despede-se com um beijinho carinhoso, sempre ao teu dispor, caso necessites de ajuda ou de um ombro amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Livro - O diário Secreto do Senhor da Bruma - Os Primeiros Apontamentos - I.4

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Olá Berta,

Na verdade, respondendo às tuas questões sobre o “Diário Secreto do Senhor da Bruma”, este é realmente um somatório daquilo que me chama a atenção numa ou noutra situação pela qual eu vou passando.

Muitas vezes ficam omissas as razões desta ou daquela observação, apontamento, pensamento ou raciocínio, mas também não é esse o objetivo de algo que se escreve só para nós mesmos e que, a dada altura, resolvemos partilhar com mais alguém.

Contudo, está à vontade para colocares todas as dúvidas que tiveres sobre seja o que for que eu por aqui escreva. Não terei qualquer problema em te esclarecer. Voltemos, pois, à nossa temática:

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I

Os Primeiros Apontamentos (continuação I-4)

 

Janeiro, dia 25:

Desconfinado (a):

  • Aquele indivíduo que regressa ao convívio social. Importa salientar que, como no caso contrário, o seu uso é indevido nos antónimos inapropriados da palavra de que deriva. Como esclarecimento adicional também se clarifica que, em caso algum, a palavra pode indicar “aquele que tirou algo do rabo”.

Janeiro, dia 26:

Confinamento:

  • Designação que indica o ato de estar confinado (já explicado).

Desconfinamento:

Designação que indica o ato de deixar de estar confinado (já explicado).

Reconfinar:

  • Voltar a repetir, de forma involuntária, mas legalmente exigível, o ato de confinamento já efetuado em, pelo menos, uma situação anterior. Nunca se aplica a expressão para se explicar uma qualquer reintrodução anal.

Reconfinamento:

  • Voltar à situação anterior de Confinamento. Mais uma vez se esclarece que não se trata de ajustar qualquer tipo de pacote num local onde este já esteve de forma apertada e claustrofóbica.

Janeiro, dia 27:

André Ventura:

  • Nome como é socialmente tratado um político de direita português, erradamente utilizado para significar ignorante, estúpido, cretino, falso, vira-casacas, idiota, fascista, homossexual não assumido e preconceituoso para com os seus semelhantes, entre outros impropérios vários, que, nalguns casos, entram no domínio do palavrão.
  • Etimologicamente, nenhuma destas 2 palavras, nem mesmo enquanto conjugadas por esta ordem (André Ventura), têm qualquer pista na sua génese que justifique a sua associação aos referidos classificativos. Pelo que, daí se conclui que o seu uso é por demais indevido no contexto onde tem aparecido aplicado.
  • Tanto assim é que chamar de “André Ventura” a um paciente com trissomia 21 pode ser considerado um insulto, principalmente, para o individuo portador dessa terrível deficiência genética ou malformação por qualquer problema desse teor.
  • Contrariamente a algumas teses, a expressão ou nome composto “André Ventura” também não se refere a qualquer tipo de troglodita ou mesmo de um género de vírus, bactéria ou a uma específica espécie de excremento malcheiroso, especialmente desagradável.

Janeiro, dia 28:

CHEGA:

  • Escrito assim, só com maiúsculas, designa o nome de um partido político português com representação parlamentar, cuja sigla adotada é CH.
  • Neste caso concreto convém esclarecer que a palavra não significa o mesmo que a homónima “chega” que é uma expressão usada para mandar parar uma ação ou para fazer calar, não sendo, no caso concreto sinónima de basta;
  • Nem tem nada a ver com a conjugação do verbo chegar, indicativo de alguma deslocação ou mobilidade de um determinado local para outro.
  • Independentemente de outras fontes, que desconheço, não existe qualquer confirmação, que se possa considerar provada ou verdadeira, que a palavra possa igualmente significar: um bando de populistas, malfeitores e de gente sem caráter ou que até seja utilizada como sigla para uma congregação de racistas, xenófobos, machistas, homofóbicos e fascistas;
  • Também me parece totalmente falsa a afirmação de que o uso deste nome pode ocultar uma aglomeração de vigaristas, oportunistas, mentirosos e cretinos, com ares de supremacia seja de que espécie for.
  • Igualmente está por provar que represente, de alguma forma, os inadaptados, os revoltados, os invejosos, os filhos de pai incógnito, os pedófilos, os sádicos, os totalmente idiotas e os torturadores, bem como alguns assassinos, sendo, no meu entender, perfeitamente legitimo que este partido possa interpor toda e qualquer ação judicial sempre que indicações deste tipo, se não comprovadas, possam ser, de alguma forma, a si associadas.

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Ena, ena, já ia por aqui lançado nestas definições, entusiasmado com a temática. Peço perdão, amiga Berta. Despede-se este teu bom amigo, com um beijo repimpado e sorridente, que só pode ser entregue à distância de uma carta, sempre pronto para o que possas necessitar, feliz pela presente amizade,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: O Renascer do Racismo com o Populismo de Direita

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Olá Berta,

O tema da violência policial, aqui há uns anos abordado em Portugal, por causa do espancamento abusivo e injustificado de um adepto de futebol, que pacificamente transitava na rua, perto de uma zona onde tinham acabado de acontecer diversos distúrbios sociais ligados a um jogo, já fez correr alguma tinta no país. Porém a coisa agrava-se quando juntamos a isto a palavra racismo.

O Renascer do Racismo com o Populismo de Direita

A ascensão de André Ventura nos meandros da política pode tornar este afastado e quase esquecido episódio numa prática, assustadoramente corrente, num abrir e fechar de olhos.

Com efeito, amiga Berta, os discursos de Ventura apontam para o desejo de transformação das nossas forças de segurança e não só, numa polícia de intocáveis, ameaçando a população civil com prisão, se ousarem, quiçá, insultar polícias ou magistrados.

O rastilho foi recentemente aceso com o caso do homem de raça negra que clemente dizia: “não consigo respirar”. Um homem que morreu pelo joelho de um polícia, que não abrandou, por mais de 8 minutos a pressão intencional, que exercia sobre o pescoço da vítima. Foi assim que morreu George Floyd, um óbito registado por telemóvel para o mundo ver, se poder indignar e, finalmente, condenar publicamente. A situação decorreu nos Estados Unidos da América, o país da alegada liberdade, e tem gerado protestos de revolta à escala mundial.

Para acicatar ainda mais os ânimos o Presidente Americano, um tal de Donald Trump, ordena à polícia que desmobilize uma manifestação pacífica perto da Casa Branca, a fim de atravessar a rua e, usando uma igreja como fachada, vir mostrar a bíblia, enquanto promete retaliação repressiva aos manifestantes revoltosos que considera terroristas.

Uns graus de latitude mais abaixo, a situação piora quando, também neste passado mês de maio, se descobre o macabro caso de um jovem de 30 anos, abatido pela polícia mexicana por resistir, imagine-se, ao uso de máscara na via pública. O facto foi ocultado por uns dias graças a uma tentativa de suborno, com pagamento de cerca de 8 mil euros à família, sem recursos, da vítima, mas acabou por ser denunciado e exposto na praça pública.

O infeliz sujeito chamava-se Giovanni López, a sua detenção foi filmada pelo irmão da vítima, que só o voltaria a ver, já morto, no hospital da cidade onde foi declarado o óbito. A tentativa de suborno foi imaginada e conduzida pelo perfeito da cidade que agora se encontra a ser, também ele, investigado. A indignação disparou com o galardoado, com o Óscar de melhor realização de 2018, Guillermo del Toro, a demonstrar publicamente a revolta perante o sucedido na sua terra natal. Estes acontecimentos obrigaram o Governador do Estado de Jalisco a vir a público prometer que os culpados serão punidos, a meu ver, minha amiga, tarde de mais, uma vez que a indignação já invadiu as ruas.

A tempestade perfeita parece formar-se quando, mais uns graus de latitude abaixo do México, mas precisamente na mesma altura, no maior país da América Latina, o Presidente da República do Brasil, que responde pelo inconcebível nome de Jair Bolsonaro, vem afirmar publicamente, e perante a televisão, que os grupos de populares que se manifestam contra ele, e contra o seu Governo, são não apenas marginais como também terroristas. Tudo a acontecer num país onde 9 em cada 10 dos mortos causados pela polícia brasileira no Rio de Janeiro são negros ou mestiços.

Numa altura em que muitos observadores internacionais apontam para a possibilidade crescente de o Brasil descambar numa guerra civil, entre os apoiantes do Presidente e os que o condenam, tudo parece cozinhado para uma monstruosa crise, sem precedentes, no admirável novo mundo.

Por enquanto, os reflexos desta violência irracional em Portugal, não nos remetem nem para a gravidade dos acontecimentos vindos das Américas, nem apontam ainda qualquer possibilidade de que isso possa transpirar para esta terra de costumes pacíficos, onde apenas o ex-comentador benfiquista da CmTV, o alegadamente mentecapto André Ventura, tenta gerar alguma exaltação de ânimos. Mesmo assim, seria interessante tentar saber se, após este último empate do Benfica em casa, frente ao Tondela, a posterior vandalização das casas de Bruno Lages, Pizzi e Rafa têm ou não a ver com o papel inflamatório do ex-comentador televisivo e atual deputado do Chega. Contudo, importa relembrar que, desde que este fulano apareceu a divulgar as suas ideias e baboseiras na praça pública, pelo menos a partir do verão de 2018, os relatos têm vindo a ganhar gravidade e frequência. Coincidência ou não, o inflamador não se livra da sombra que a ele se colou.

Quem é que já se esqueceu do raid levado a cabo pela polícia de Alfragide à Cova da Moura, que terminou com a detenção de um grupo de indivíduos de raça negra, que foram posteriormente sovados no interior da dita esquadra, e cujo caso ainda continua aberto e em julgamento? Ou da senhora também de raça negra que, por causa de um bilhete de autocarro, se viu terrivelmente maltratada e sovada pela polícia na Amadora, cujas notícias fizeram furor no início deste ano?

Ainda há também o vídeo de outro jovem de raça negra, maniatado pela polícia e a ser obrigado a respirar o fumo de escape de um automóvel ou o outro individuo da mesma raça, no final de janeiro, filmado por duas turistas a ser detido, enquanto um polícia proferia “tens um ar suspeito”, à noite na baixa de Lisboa, perante a suplica do fulano alegando nada ter feito. No entanto, não escapou a uma revista pública efetuada abusivamente por 4 polícias, que depois o levaram preso, sem nada ter sido aparentemente encontrado.

Uma coisa é certa, eu, querida Berta, sou dos que não acredita em coincidências. Não é difícil gerar descontentamento à boleia da pandemia, do aumento do desemprego e da chegada anunciada da pior recessão das últimas décadas a Portugal. Se queremos manter o equilíbrio pacífico e ponderado que nos carateriza maioritariamente enquanto povo temos, urgentemente, de pôr um ponto final nas carreiras públicas daqueles que, usando de um populismo demagogo, tentam criar o conflito e o confronto. Basta olhar as sondagens para ver que a mediocridade medra facilmente e isso é realmente uma grande merda.

Será mera coincidência que, com tanta ocorrência, nos últimos 10 anos, não exista um único caso de condenação policial por atitudes racistas, pese embora as variadíssimas queixas da Amnistia Internacional e do SOS Racismo sobre os vários e frequentes casos em Portugal?

Já me sinto melhor depois de desabafar. Este teu amigo despede-se com um beijo de saudades,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: O Regresso do Fantasma de Passos Coelho

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Olá Berta,

Como já deves ter visto nas notícias, morreu, devido ao problema oncológico, que a afetava desde 2015, Laura Maria Garcês Ferreira, a esposa de Pedro Manuel Mamede Passos Coelho. O facto não seria notícia se a senhora em causa não fosse a mulher do ex-presidente do PSP e ex-primeiro-ministro, Passos Coelho. Com o seu falecimento o regresso do político, ainda com 55 anos, às lides partidárias, deixará, algures após um período de nojo natural, de ser apenas uma ameaça fantasma para Rui Rio.

Pelas minhas contas esse regresso ocorrerá no final do próximo verão, após as férias dos políticos em agosto. Até lá, Passos Coelho, respeitará uns dignos 6 meses de luto enquanto, sem dar muito nas vistas, recupera, junto do partido e no seu seio, o capital político de que precisa para se voltar a afirmar.

No meu entender, Laura Ferreira era o único e verdadeiro travão que mantinha o ex-primeiro-ministro longe da luta política. Uma doença da gravidade da identificada à esposa, e o seu agravamento progressivo, terá funcionado como freio, mantendo Passos longe do circuito da luta pelo poder. Uma vez desaparecido o impedimento o que poderá deter agora este homem de avançar com as suas convictas ambições? Eu respondo-te, minha querida amiga, absolutamente nada.

Passos Coelho está, na linha de partida da corrida ao poder, prontíssimo. Conforme já referi, é claro que os 6 meses de recato se vão respeitar, por 2 motivos: primeiro, porque o eleitorado conservador veria com maus olhos um regresso logo após o falecimento da consorte, segundo, porque o calendário da luta política apenas se começa a tornar favorável a partir de setembro ou outubro próximos. Aliás, sendo 2021 um ano de eleições, com umas presidenciais logo em janeiro e as autárquicas por volta de outubro, o regresso de Pedro Passos Coelho terá tudo a ver com a proximidade dessas datas.

Quanto a mim, acontecerá logo em setembro, porque algures em outubro, ainda este ano, decorrerão as eleições legislativas referentes aos Açores. Um excelente ponto de partida para alguém que se quer reposicionar no xadrez político e partidário. Para quem pensa que estou a fazer uma mera futurologia política, embora admita que assim pode parecer, respondo com o facto de tudo se poder vir a esclarecer já daqui a 6 parcos meses.

Para além de Rui Rio existe mais um político preocupado, com o regresso do filho pródigo e com o renascer desta fénix da austeridade gratuita. Com efeito, o ressurgir político de Passos faz mossa nos seguidores de Ventura. A direita passará a ter, novamente, um protagonista de peso, que poderá abalar os planos de expansão de um Chega para quem um deputado não basta.

Muita água vai correr debaixo da ponte da direita política e será interessante ver que tipo de estratégias seguirão estes partidos. De qualquer maneira, desperto que fique o fantasma de Passos e logo após a sua genuína materialização, uma reorganização à direita parece ganhar força. A Iniciativa Liberal provavelmente vai diluir-se em pouco mais do que nada, o partido de Santana Lopes vai fazer um esforço enorme por ter o raio do anel a reluzir e já estou a ver um tal de Chicão, em bicos de pés, a gritar do meio da sala, das futuras alianças, “- Então e eu, ó Passos, então e eu?”

Por outro lado, lá para as bandas socialistas, a preocupação não existe no que concerne aos próximos 2 anos. Até porque as movimentações dos partidos à sua direita, antes de crescerem podem até ficar mais enfraquecidas. A grande preocupação do PS existirá, isso sim, nas próximas legislativas, porém, até lá, faltam quase 4 anos, e enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.

Com isto termino, amiga Berta, veremos se esta carta se transformará numas meras páginas de ficção ou se, pelo contrário, se aproximará de um Oráculo por devir. Despeço-me com um beijo. Este teu eterno amigo,

Gil Saraiva

 

Carta à Berta: A ASAE pode degenerar numa nova PIDE/DGS?

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Olá Berta,

Nestes tempos de mau tempo e de vendas em ventania rumo ao dia de Natal, espero que os nossos concidadãos se comportem com a inteligência habitual e não se deixem levar pela euforia das compras. Para a minha carta de hoje resolvi retomar um documento que escrevi há 9 meses atrás e que acabei por nunca te dar a ler.

Sendo eu, por nascimento, português, faço parte, tal como tu, de um povo de brandos costumes e de uma tolerância à prova quase de choque. Mas sou, também, um daqueles que gosta de refilar por tudo e por nada, porque nós temos essa tendência meio masoquista de criticarmos o que é nosso (nacional) mas que, por acaso, até pertence ao próximo, seja ele vizinho, conhecido, pessoa mais ou menos famosa ou até um dos VIP cá do burgo, enfim, não importa muito o quem para o assunto em causa.

Somos assim, podemos nem estar a sofrer com a crise, mas, como convém que ninguém saiba que até estamos bem, não se vão lembrar de nos chatear, lá alinhamos nós na desgraça nacional da crise que nunca mais passa. Temos a tendência incompreensível de nos acharmos vítimas de tudo e de todos. Muito mais nesta altura em que se discute o Orçamento do Estado.

Foi num ambiente parecido com este, de consciência negativa, que nasceu, tem uns anos, uma nova organização.

Ela era, na realidade, fruto de fusões, transformações, maiorias absolutas e sede de poder, enfim, uma autoridade nacional de repressão, feita de encomenda para os nossos masoquistas sentimentos de que as coisas não estão bem no que ao quintal do vizinho diz respeito. Estou obviamente, a falar da ASAE, leia-se a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, um órgão de Polícia Criminal.

Quando foi criada, nos idos de 2005, minha querida amiga, a ASAE deveria ser a resposta nacional à EFSA, em português a Autoridade Europeia de Segurança dos Alimentos, mas o governo não podia, nem queria, criar um organismo de apenas defesa alimentar dos seus cidadãos, dependente de um menos significativo Ministério da Agricultura. Não! Era necessário pôr o povo na ordem. Tal e qual, Berta, como nos fazem com as imagens e as frases nos maços de cigarros ou agora com o recente IVA moralizador de 23 porcento sobre as touradas nacionais.

O plano desenvolveu-se em 2 fases. A primeira fase, em 2005, foi a dos pezinhos de lã, com o objetivo de relançar a política de defesa dos consumidores, criando uma entidade para avaliar os riscos na cadeia alimentar e fiscalizar as atividades económicas a partir da produção e em estabelecimentos industriais ou comerciais.

Essas funções, que antes estavam dispersas por vários serviços e organismos, faziam da ASAE um organismo principalmente fiscalizador, tendo como pano de fundo o espírito da Autoridade Europeia de Segurança dos Alimentos, pese embora já com a sementinha da economia plantada no seio do organismo.

A segunda fase, em 2007, foi a da tomada do poder, sendo uma das alterações com maior impacto a da transformação da ASAE num órgão com poderes de autoridade, ou seja, um órgão de polícia criminal.

Como tal, querida Berta, pode fazer buscas, apreensões e escutas telefónicas, desde que autorizadas por uma autoridade judiciária. O mesmo acontece com as restantes polícias. Assim sendo, na prática, a ASAE é uma polícia, ainda por cima criminal, que não foi ratificada pelo Parlamento como constitucionalmente o deveria ter sido. Mais grave é que um organismo criado, em princípio, para defesa dos consumidores se torna numa polícia criminal de métodos e objetivos bem mais repressivos.

Ora, a História tem a propriedade espetacular de a podermos estudar e, se o fizermos com o devido cuidado, vamos descobrir que foi exatamente assim que a Polícia Internacional e de Defesa do Estado / Direção Geral de Segurança, vulgo PIDE/DGS, nasceu: com funções administrativas e funções de repressão e prevenção criminal, também com contornos de defesa dos cidadãos e da sua suposta segurança (conforme consta no Art.º 2º. do edito que a constituiu) só que a irmã mais nova, a ASAE, que por desígnio tem muitas funções, não deixa de ter, no meio das suas inúmeras alíneas, o desenvolvimento de ações de natureza preventiva e repressiva, conforme poderás constatar, minha amiga, no Decreto-Lei número 274 de 2007, sendo, por isso mesmo, bem mais esperta do que a irmã e clamando uma legitimidade que afinal nem tem.

Será que a ASAE, corre o perigo de se tornar a Nova PIDE/DGS? De momento parece-me um exagero considerar tal coisa. Afinal, Berta, temos tido no poder, partidos mais ou menos democratas, amarrados pelas imposições da Europa e da Comissão Europeia, mas, mesmo assim, dentro dos limites da democracia. O problema é se um Chega, ou algo semelhante, consegue, um dia, chegar ao poder. Pelo articulado da lei a ASAE pode fazer bem mais que uma PSP ou uma GNR, pode até agir sozinha ou solicitar a ajuda de qualquer outra força de segurança. Dá que pensar, não dá? E ainda agora a procissão vai no adro…

Deixo-te uma beijoca carinhosa, deste teu saudoso amigo, em jeito de despedida,

Gil Saraiva

 

Carta à Berta: Livre Resolvido, Chega sem Basta...

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Olá Berta,

Cá estou eu de novo a “falar” contigo. Mesmo que não oiças os sons tenho a certeza que me consegues imaginar a articular as palavras e, se bem concentrada, quase que te parecerá estares a escutar o som do meu diálogo provido do entusiasmo do costume.

Como sabes, realizou-se ontem a Assembleia Geral do Livre, toda a comunicação social esperou ansiosamente por assistir à luta titânica entre os escassos elementos de um partido, que pouco mais tem que uma direção e um grupo de contacto. De um lado do ringue deveria estar o aguerrido e imenso líder do Livre, Rui Tavares, e, do outro, seria de esperar, de lenço da Guiné Bissau a prender-lhe os cabelos, à laia de pirata que roubou o protagonismo ao partido, a única deputada eleita pelo mesmo nas últimas eleições legislativas, Joacine Katar Moreira, pronta a pôr “knockout”, atirando palavras soltas, como se de lâminas ninja se tratassem, ao líder do partido.

No final, a montanha pariu um rato, pequeno, minúsculo, invisível mesmo. Tudo continua igual. Isto é, sem alterações, se nos esquecermos das feridas mortais que toda a história gerou. Há já quem diga que o partido é um quase nato morto que não sobrevive mais de 4 anos na incubadora da democracia com assento para lamentar. E lamentar muito, pois muito de bom se augurava ao líder, um homem arguto que levou a liberdade demasiado à letra.

Enquanto que, para os lados do Livre se vai assistindo a este Carnaval antecipado, nas bandas do PSD a luta interna faz esquecer a política nacional, um galo, um pinto e um frango da Guia disputam o poder. Se eu fosse de dar prognósticos diria que o animal com maior crista sairá vencedor.

Por falar em cristas, no seguimento da bancada, o CDS continua a descer a escada nas sondagens rumo à porta de saída do Parlamento, o PC e os Verdes ainda lambem as feridas da machadada eleitoral e esforçam-se por recuperar o controlo dos sindicatos que, por estes dias, parecem querer nascer independentes e livres do jugo vermelho, que nem cogumelos.

Ainda importa referir que o Bloco de Esquerda, distraidamente, serve de ama seca a Greta Tunberg e se preocupa com a política internacional ligada à COP 25 e à Emergência Climática, descorando a problemática nacional. Já o Iniciativa Liberal reorganiza a sua estrutura, face ao abandono do seu líder, depois das eleições. Por fim, o PAN ainda não deixou de se ver ao espelho depois de ter quadruplicado de tamanho, qual porco antes da matança.

O partido socialista, orgulhosamente sozinho no Governo, anda atarefadíssimo a tentar fazer passar o Orçamento de Estado para o ano de 2020, como quem não quer a coisa, enquanto a oposição anda ocupada.

Aproveitando tamanhas distrações as ervas daninhas prosperam e propagam-se. A levar em linha de conta o que dizem as sondagens o Chega cresce, diz que não basta e afinal quer mais. A acreditar nos especialistas, ultrapassou já as intenções de voto no CDS e continua de bola em campo, movendo um ataque consertado às balizas do poder.

Dando outra imagem: o Chega é como que um touro enraivecido, de cornos em riste, apontados à arena da democracia serena e pacífica de Portugal, a quem convém travar a investida, antes que este derrube e massacre os forcados distraídos, armados em deputados, em altura de pega brava.

Espero que esta carta te receba alegre e feliz. Despede-se este teu amigo de sempre, com um beijo,

Gil Saraiva

Carta à Berta: A Primeira Manifestação de André Ventura

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Olá Berta,

Como diz a canção, estou a pensar em ti. Mais precisamente no facto de a nossa correspondência ter sido diária. Não te habitues mal. Haverá, certamente, dias em que nada terei para te dizer. Contudo, enquanto assim não for, continuarei esta minha missão de regular ligação postal informática. Deixa-me feliz saber que me lês e me entendes, minha amiga do coração.

Não sei se viste na televisão as imagens da manifestação das forças de segurança. Eu vi… e o que vi fez-me sentir o toque de vários e preocupantes alarmes. Estou de acordo e afirmo-o, para que não se pense o contrário, que as forças de segurança, sejam elas a PSP, a GNR ou os Guardiões dos Sanitários Públicos de Lisboa, precisam de mais atenção e que muitas das suas reivindicações são totalmente justas e urgentes.

Todavia, também são justas algumas das exigências dos professores, dos auxiliares de ação educativa, dos enfermeiros, dos médicos, do pessoal dos tribunais, dos condutores de pesados, começando pelos condutores de matérias perigosas, dos trabalhadores a recibo verde, dos pensionistas e reformados, dos lesados do BES e de todos os outros bancos, dos guardas prisionais, dos funcionários autárquicos, dos pescadores, dos mariscadores, dos jornalistas, dos vendedores de castanhas, das minorias, etc..

Ora, o problema, continua a ser o mesmo, ou seja, Portugal não tem dinheiro que chegue para tudo, nem mesmo para 10 porcento do que é justamente reclamado pelos diferentes ramos de atividades e pelas situações que constituem o país que somos e do qual, mesmo assim, nos continuamos a orgulhar muito. Eu, pelo menos, continuo.

Também sei que nós, os Lusitanos, que sempre acolhemos e nos misturamos com todos os povos que passaram pelo espaço geográfico que hoje ocupamos, somos um povo de brandos costumes e com uma enorme dificuldade de aprender com os erros da nossa história. Não penses que se trata de burrice, é mais uma questão de barriga. Sim, de barriga, algo genético que nos faz passar a vida a usá-la para empurrar para a frente todo e qualquer problema.

É por essa razão que não existe realmente um verdadeiro programa de reformas estruturais, seja qual for o governo que, num dado momento, esteja no poder. Pelo contrário, temos a mania e o vício (porque só pode ser vício) da política do desenrasca. Constituímos o povo mais desenrascado da Terra, quiçá do Universo. Porém, falta-nos visão estratégica e capacidade de perspetivar o futuro. Em termos de planearmos com a devida antecedência os próximos 10, 20 ou 50 anos, fazemo-lo na escala dos meses, mas sem atingir essa miragem absurda do número 50. Planeamos mais à dúzia, não sei se por pensarmos que é mais barato, se por não nos apetecer pensar demais.

Desculpa, minha querida, deixei-me levar pelos meus pensamentos e afinidades… já me estava a esquecer do que me levou a escrever esta carta: A manifestação frente à Assembleia da República das Forças de Segurança, com vista a alertar o Governo e toda a população para o seu justo caderno reivindicativo (quando digo justo apenas me refiro ao que se passa no umbigo das forças da ordem e no seio claro da sua perspetiva sobre o assunto).

Ora bem, quem viu as imagens televisivas (e estas são as que realmente importam, no que ao passar da mensagem diz respeito) já nem se lembra do que ali estavam a fazer as ditas forças de segurança. A ideia reivindicativa perdeu-se por completo. O que as pessoas não esqueceram foi a imagem dos manifestantes a ovacionar o deputado do Chega, André Ventura. O que todos se recordam é do discurso empolgado do mesmo, no palanque e ao microfone, levando ao êxtase apoteótico, e quase histérico, as forças de segurança. Só faltou mesmo ver os polícias (aqueles que faziam guarda às escadarias da Assembleia), a dançarem o vira ou o importado samba, ao som melodioso, carismático e oportunista da voz de André Ventura.

Claro que os organizadores da manifestação vieram logo dizer que Ventura foi o único deputado que "botou faladura", por ter sido o único que pediu para o fazer. Não explicaram foi o porquê de quase ter sido conduzido à tribuna ao colo de todos os presentes. Nem mesmo reconheceram o erro.

Quando falo de erro, sei bem ao que me refiro. A manifestação do André apagou por completo toda e qualquer reivindicação. O ajuntamento virou palanque do discurso distorcido do Chega e deu voz a um alegadamente perigoso megalómano.

Quando nessa noite fui jantar, a um restaurante do meu bairro lisboeta, logo na entrada, deparei-me com o diálogo entre 2 empregados de mesa. Eles não discutiam os problemas das forças da ordem, aquilo de que falavam era que Ventura, pode parecer radical, o que punham em dúvida, mas que até tinha muita razão em muitas das coisas que dissera. Berta, eu conheço os 2 jovens e sei que, nas últimas legislativas, ambos votaram PS. É alarmante a facilidade com que um comentador desportivo da CMTV, consegue, usando um discurso fácil e populista angariar simpatizantes em áreas que eu julgaria totalmente impensáveis.

Esta manhã, ouvi exatamente o mesmo discurso, entre dois velhotes, daqueles que dizem que isto precisava era de um novo Salazar, sem terem a noção da barbaridade que pronunciam, a louvar a manifestação de Ventura. Já nem falavam das forças de segurança.

Ora, ainda agora o homem se tornou deputado. Ou reagimos rapidamente ou as próximas eleições podem trazer graves e desagradáveis surpresas. Os alarmes já começaram a tocar. A minha dúvida é se haverá quem os escute.

Deixo-te um beijo de despedida, deste que não te esquece, saudosamente,

Gil Saraiva

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