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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Os Bombeiros Voluntários

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Olá Berta,

Escrevo-te para desabafar contigo sobre uma notícia que li hoje no Diário de Notícias. Não sei se já a leste também, entretanto, devido ao tempo que esta carta levará a chegar a ti. Contudo, não importa, o desabafo é mais lato do que a notícia em si.

Esta madrugada a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Borba foi atacada por um grupo de etnia cigana, talvez uns 20, diz o jornal, descontentes com o facto de a corporação ter desviado para o 112 uma chamada de urgência que os atacantes, ou gente próxima destes, tinha feito para o quartel. Para além dos danos psicológicos e do medo que ficou e ficará instalado entre os soldados da paz, ainda existiram 2 feridos ligeiros entre os voluntários. Sem a intervenção pronta da GNR o caso poderia ter tido ainda mais graves consequências.

Os Bombeiros estão também a ser criticados por, na sua página, se terem referido aos atacantes como “pessoas”, com a palavra escrita entre aspas. Indagados sobre o assunto, os Voluntários, já esclareceram que as aspas nada têm a ver com a etnia dos atacantes, mas com a força desmedida do ataque e a raiva que parecia possuir os meliantes.

Estou inteiramente solidário com a associação humanitária, bem como com as declarações que escreveram e prestaram. Não faz sentido que uma qualquer parte de uma dada população decida atacar os soldados da paz, devido a uma decisão de serviço, que se exige, para otimizar recursos e competências, a cada momento do dia. Os bombeiros não reencaminham uma urgência, para outro serviço de apoio, se disso não tiverem necessidade.

Contudo, e agora falando em termos genéricos, até os Bombeiros Voluntários deste país precisam de uma autoridade superior que monitorize as suas ações, servindo para isso a criação fiscalizações rigorosas no que concerne às atividades destes, às suas instalações, aos recursos e à gestão de instalações e de outros serviços e contratos existentes. Afinal, estes indivíduos também são pessoas, com todos os defeitos e qualidades que, genericamente as pessoas têm, ou seja, se uma grande maioria está ali por um bem mais elevado, nem todos seguirão esse padrão. Uma fiscalização cuidada evita erros, problemas, excessos, gastos indevidos e desperdícios.

Conforme sabes, fui presidente de uma associação de bombeiros voluntários no distrito de Lisboa e posso-te confidenciar que esse tipo de fiscalização deve ser sempre bem-vinda. Em primeiro lugar, é preciso não esquecer que os bombeiros, mesmo sendo voluntários, são pessoas pagas pelo serviço que prestam às suas associações e que recebem um ordenado mensal, 14 vezes por ano, isto sem contar com os diferentes suplementos e remunerações assessórias a que têm direito em determinadas situações.

Para além disso, as associações têm, na sua área de intervenção não apenas o combate ao fogo ou assistência rodoviária ou de saúde, mas outras, como o fornecimento de água às populações, passando pelo reabastecimento de piscinas, vigilância e controlo de condições de segurança em recintos de eventos e espetáculos e, há ainda, os que possuem atividades recreativas ou desportivas dedicadas aos seus sócios, sejam piscinas, ginásios, serviços de consultas médicas, entre muitos outros. Em resumo, uma associação destas movimenta muitas centenas de milhares de euros anualmente, tendo por isso de ser devidamente escortinada no respeitante às suas ações, gastos, despesas e receitas.

Não te passa pela cabeça as coisas que podem fazer facilmente com que uma associação passe de uma situação folgada em termos económicos para uma verdadeiramente aflitiva e deficitária. Muitas vezes nem se trata de marosca ou falcatrua, mas de puro desleixo. Existem contratos anuais com diversas empresas e entidades que precisam de muita verificação e, até as tabelas de serviços prestados, necessitam de uma atualização constante, para que os bombeiros não fiquem no prejuízo.

Os exemplos que te posso dar, com base da minha experiência, vão desde veículos que não são os da associação a serem reparados, como se o fossem, na oficina da instituição, ficando os custos todos a seu cargo. Uma marosca de alguns mecânicos para ganharem uns cobres extra, que pode custar milhares à associação, passando por avenças anuais, pagas mensalmente, feitas com canalizadores, eletricistas, formadores de atividades extra, técnicos de manutenção das piscinas, etc., que envolvem quantidades elevadas de dinheiro sem que, por exemplo, o prestador do serviço seja visto no quartel durante meses a fio, quando era muitíssimo mais económico contratar um técnico especializado caso a caso, ou ter alguém pago como funcionário a prestar esse trabalho. Mas os truques ou os devaneios podem ser encontrados em quase todos os setores, seria complicado enumerá-los.

Para não estar aqui a explicar tudo posso dizer-te que das verbas recebidas, num só ano, a instituição pode perder mais de 45 porcento das suas receitas, sem quase dar por isso. Até as vendas de veículos especializados, e o respetivo equipamento, à associação, carecem de enorme escrutínio. Sabias que, quando fui eleito presidente, para encher uma piscina de um sócio, o preço da tabela era de 25 euros, enquanto que para o fazer os bombeiros gastavam mais de 100? Como este exemplo podia dar-te outros 50. Enfim, é preciso profissionalizar a gerência das estruturas de direção. Alguns dos diretores ou o presidente, deviam passar a ser pessoas com requisitos de gestão obrigatórios e estar na associação a tempo inteiro sendo remunerados pelo serviço prestado. Só assim se pode evitar que as fugas, as maroscas e os truques aconteçam.

Em conclusão, o que te quero dizer é que os soldados da paz, são, na sua esmagadora maioria, instituições compostas por gente simples, muitas vezes sem grande nível académico, mas que tudo fazem por uma profissão pela qual são capazes de dar a vida, contudo, a gerência e a fiscalização são absolutamente necessárias, para se poder arrancar, uma a uma, todas as ervas daninhas que possam minar algo tão prestigiante.

Desculpa lá o desabafo de um vagabundo, mas gosto demasiado dos nossos corpos de bombeiros, para assistir indiferente a situações como a de hoje. Recebe um beijo deste teu saudoso amigo,

Gil Saraiva

O Tabaco e o Álcool

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Olá Berta,

Esta carta é mais um dos meus desabafos contigo. Estava a ler as outras que te enviei (sim, eu guardo uma cópia) e reparei em algo que escrevi, mas ao qual, nessa altura não dei relevância. Foi aproposito de o álcool matar mais gente em Portugal do que o tabaco, lembras-te?

Quando fiz a afirmação, nessa carta, foi porque me recordei de uma notícia de 2018 que tinha lido num qualquer jornal nacional. Para o caso não importa qual. O que é interessante é que depois de pensar no assunto achei que me devia ter enganado redondamente.

“Porquê?” Perguntas tu. Bem, porque se assim fosse certamente o Governo, que é tão moralista no que ao fumo diz respeito, tão preocupado com a saúde pública, tão pronto a encher de impostos, de imagens horríveis, de proibições de locais onde se pode e não pode fumar, de imposições de frases nos próprios produtos de consumo… certamente o Governo, dizia eu, já estaria a fazer o mesmo com o álcool, fosse este cerveja, vinho, bebidas espirituosas ou brancas, fosse lá o que fosse.

Ora, não é caso. Pois bem, se o Estado não ataca quem bebe da mesma maneira que o faz com quem fuma então, a notícia do jornal estava errada ou tinha uma gafe monumental e eu enganei-te sem o querer fazer. Não gosto de te dar falsas informações quando tu és a minha única confidente. Uma coisa é falar alegadamente de um certo assunto, outra é mentir mesmo com desconhecimento do ato. Devia ter ido verificar se o que estava a afirmar era confirmado por outras fontes. Mas não o fiz. Pronto a emendar o meu erro nesta carta, lá fui eu verificar o tema através da web, percorrendo todos os sites oficiais que consegui encontrar, bem como as notícias que durante os últimos 2 anos saíram sobre o assunto.

Para meu enorme espanto, não só a notícia é verdadeira como o álcool cada vez mata mais gente do que o tabaco. Pelo que averiguei foi em 2015 que o álcool apanhou o tabaco no número de vidas que ceifa alegadamente por ano. Contudo, qual campeão, cada vez se distancia mais do outro vício. No ano passado já matava mais 4 pessoas por dia do que tabaco e, este ano, parece disposto a ultrapassar as 5 pessoas. Isto quer dizer que, se o tabaco mata quase 33 pessoas por dia em Portugal (32,9 para ser exato), o álcool deverá atingir no final deste ano as 38 vítimas diárias, chegando quase aos 14.000 óbitos anuais por terras lusas.

Face a estes espantosos e chocantes números, que, se somados e extrapolados para 10 anos, nos reduzem a população do país em 2,6 por cento a cada década que passa (260.000 pessoas), que a manterem-se assim, abateram 26 porcento dos portugueses em apenas um século (2,5 milhões de indivíduos), considero imperativa a tomada de medidas por parte do Estado.

Já estou a imaginar as garrafas de Vinho do Porto cheias de rótulos a dizer “Beber Mata!”, imagens de acidentes de automóveis cheias de peças retorcidas e pedaços de corpos, misturados com estas numa só imagem, namoradas e esposas pontapeadas pelos maridos ébrios em retratos de horror, tudo, a bem da saúde pública, escarrapachados nos rótulos das bebidas com álcool. Seja uma mini da Sagres, que logicamente deixará de poder fazer publicidade e terá de retirar o patrocínio à seleção nacional de futebol, seja no vinho, tinto, branco, às bolinhas ou lá o que for.

Uma vez iniciada a campanha vou poder ver o vinho a subir 10 cêntimos a cada 3 meses, as bebidas brancas e espirituosas na ordem dos 50 cêntimos, a cerveja, quiçá, uns 2 cêntimos por trimestre. Os rótulos das garrafas, mostrarão fígados quase liquefeitos sob o efeito do álcool, corpos com mais manchas que as vacas malhadas da Suécia, bêbados a dormir à sombra dos Jerónimos ou debaixo da Ponte 25 de Abril. Ficarão famosas as frases inscritas em milhares, talvez milhões de garrafas: “O álcool causa impotência depois de lhe ter aberto o apetite”, “85% das violações ocorrem sobre o efeito do álcool”, “o álcool potencia a violência doméstica e os maus tratos incutidos aos animais”, “o álcool pode gerar violência gratuitamente de forma inesperada”, “é proibido beber em restaurantes, bares e recintos fechados”, “não é permitido o consumo de álcool em manifestações da Função Pública ou outras manifestações sindicais ou políticas, em concertos e festivais de música, parques de campismo e florestas”… enfim, as hipóteses são imensas, não será de espantar que apareça numa publicidade turística qualquer um anúncio do género: “beber causa perda de memória, cuidado, pode acabar por ser sodomizado e não saber”. Sim, porque vai certamente haver alguém, uma entidade qualquer, preocupada com o facto de podermos levar no cu e não nos lembrarmos disso, por termos bebido em excesso.

Sabes que mais minha querida Berta, acho que a hipocrisia devia ter um fim. O tabaco é taxado e perseguido apenas por ser uma boa maneira dos Estados ganharem com isso e fazer o cínico papel de estarem preocupados com o povo. No fundo, apenas os cifrões lhes interessam. Se eu fosse milionário punha o Estado em tribunal pela aplicação de medidas que não visam a saúde pública, mas que apenas fazem do tabaco um bode expiatório para que outras coisas sigam o seu caminho sem que ninguém repare.

Tem um resto de bom dia, deixo um beijo deste teu saudoso amigo,

Gil Saraiva

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