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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Campo de Ourique Está Triste

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(Campo de Ourique – Jardim da Parada - Foto de autor, direitos reservados)

Olá Berta,

Campo de Ourique está triste. Desde que este ano começou apenas sai duas vezes de casa. Em ambas as situações por razões de força maior. Na primeira foi para dar um salto à clínica de análises Joaquim Chaves, bem na esquina da Rua de Infantaria 16 com a Rua Tenente Ferreira Durão e a segunda para ir a uma consulta no Hospital Egas Moniz. É claro que em qualquer delas aproveitei para ir ao pão, à porta do Trigo da Aldeia, e passar no minipreço para comprar algumas coisas que gosto de ser eu a escolher, em vez de encomendar pela internet.

Contudo, porque já que me fazia falta andar um pouco, aproveitei para dar um pequeno passeio higiénico e rever o meu bairro. Acabei por regressar a casa invadido por uma melancolia imensa. O maior centro comercial de ar livre do país está quase totalmente encerrado. Como no meu quarteirão tenho três supermercados, não me tinha apercebido da diminuição das pessoas, nem do panorama que é ver loja atrás de loja encerrada, algumas das quais já dá para perceber que não voltarão a abrir portas.

Porém, foi no Jardim da Parada que se me apertou a alma e que senti o coração chorar. No percurso que fiz consegui contar apenas três pessoas atravessando, como eu, o jardim com destino a algum lado, certamente por razões de primeira necessidade.

A hamburgueria, encerrada, lembrava um jazigo do cemitério dos prazeres. Bem perto as mesas metálicas, pintadas de verde, pregadas no chão, acompanhadas das suas quatro cadeiras, a condizer, gritavam pela falta dos velhotes da sueca e dos mirones envolventes, como se fossem mobiliário de um longínquo Chernobil. Ao passar pelo lago não vi patos, nem cagados, nem mesmo pombos nas redondezas, apenas folhas mortas navegando perdidas à tona de água sem destino ou rumo certo.

Foi como olhar para uma paisagem e vê-la a preto e branco, distante, perdida, abandonada. Os bancos do jardim, todos eles, sem exceção, com fitas vermelhas e brancas e um autocolante garrido a proibir o seu uso. Ninguém por ali para dar de comer aos pombos que, aliás, nem existiam naquele momento. Deles apenas vislumbrei algumas penas, mais pequenas do que as que sentia no meu âmago, esquecidas no chão, como despejos de uma batalha fantasma.

A solidão das estruturas do parque infantil lembrava, vagamente, que aquele era um lugar para crianças, mas não se escutava o chilrear da pequenada cheia da energia que, noutras alturas, até me costumava incomodar e que hoje me chegava à memória com uma saudade imensa. Na solidão do jardim as enormes árvores agigantavam-se mais ainda e a luz do Sol parecia ampliar uma sinistra presença de um ambiente surreal. O pequeno quiosque de livros gratuitos, feito na cabine telefónica transformada, estava despido.

Aquele vazio, sem nada nas prateleiras, apenas me lembrava um equipamento abandonado e fora de contexto. Foi nessa altura, uns metros à frente, que me deparei com a estátua da Maria da Fonte e, não sei porquê, dei comigo a chorar, ao olhar para aquela figura de pedra que normalmente me fazia lembrar a revolta popular que a imortalizara.

Hoje, a Maria da Fonte parecia gritar de desespero e revolta pelo que a pandemia fizera ao seu jardim. A ideia de que ela reclamava o regresso do povo, como nunca o fizera nos cem anos da sua presença no jardim, ardia-me na alma, murchando-me o coração. Maria da Fonte parecia gritar, agitar-se em desespero e chorar ao mesmo tempo e eu, confuso, perdido nas memórias de outros tempos, ali fiquei durante uns minutos que me pareceram horas, tentando apaziguá-la, para no final terminar, novamente, a chorar com ela, solidariamente, essa mágoa imensa. Campo de Ourique está triste, muito triste.

Um beijo, querida Berta, até amanhã,

Gil Saraiva

 

 

 

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