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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta n.º 580: ALERTA - Marcha Popular de Campo de Ourique e Saída de Metro no Jardim da Parada

Berta 580.jpg Olá Berta,

Campo de Ourique, talvez porque vivo neste maravilhoso bairro volta a estar na minha ordem do dia. Estou feliz porque o Bairro de Campo de Ourique voltará a participar nas Marchas Populares de Lisboa este ano, como habitualmente no próximo dia 12 de junho de 2022.

Não se trata de um bairro qualquer a participar nas marchas, mas sim de um dos Bairros Fundadores e Participantes no Primeiro Desfile no Parque Mayer em 1932, há precisamente 90 anos, nesta que sempre tem sido uma das mais claras homenagens ao Santo António.

Sob o lema “Campo de Ourique, Arraiais, Fado e outras coisas tais” o Bairro de Campo de Ourique marchará, novamente, este ano, na Avenida da Liberdade. Os preparativos e ensaios, ficam muito a dever-se aos Alunos de Apolo, e não pela primeira vez, mas a colaboração tem também outras gente e instituições envolvidas como não podia deixar de ser. A 29 de março tiveram início os ensaios que envolvem jovens dos14 aos 60 anos.

Contudo, a organização tem um apelo muito importante a fazer a todo o nosso Bairro: É preciso arranjar mais homens que queiram e possam entrar na Marcha. Por isso rapaziada toca a contactar com urgência os alunos de Apolo, eles tratarão de vos envolver no elenco, com todo o gosto e satisfação.

Se as Marchas Populares de Lisboa este Santo António são uma excelente notícia, já o rumor, cada vez mais forte e preocupante de que o Metro de Lisboa quer fazer uma saída em pleno Jardim da Parada revolta até os estômagos mais resistentes de qualquer habitante do Bairro de Campo de Ourique.

Por isso mesmo faço um outro apelo hoje. Quem está contra uma saída do Metro de Lisboa no Jardim da Parada, por favor envie um email, com os nomes e identificação do vosso agregado familiar, a dizer o seguinte: “Esta Família (ou apenas eu, se for o caso de viver sozinho) está contra a Saída do Metro no Jardim da Parada e igualmente contra o abate das suas árvores centenárias.”

Amiga e querida Berta, como também já cá viveste, peço-te que não te esqueças de enviares o teu email. O endereço para enviar esta opinião é: geral@jf-campodeourique.pt, deixo um beijinho do teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta n.º 579: Apelo aos Habitantes de Campo de Ourique!

Berta 579.jpg Olá Berta,

Faz algum tempo que não conversava contigo. A vida não tem sido fácil, nos últimos tempos isso calhou-me a mim. É desesperante estar há meio ano na expetativa da chegada de uma reforma, que tarda mês após mês, já sem meios de subsistência. A luta por uma sobrevivência tem o poder de retirar a quem luta a capacidade da partilha. Desculpa o meu feitio minha querida Berta.

Como sabes odeio os coitadinhos e as coitadinhas deste mundo que se queixam de barriga cheia, porque não ganharam no Euromilhões ou porque partiram uma unha. Tudo serve para uma pieguice pegada, que nos faz esquecer quem verdadeiramente precisa de ajuda.

Hoje, depois do Festival da Canção da Eurovisão 2022, em que venceu, ontem à noite, a canção da Ucrânia, venho fazer um apelo de Campo de Ourique para o mundo, mas principalmente para ti, minha querida amiga, e para o meu Bairro, o Bairro de Campo de Ourique. Neste domingo, 15 de maio, pelas 19 horas e amanhã, segunda, 16, à mesma hora, toca, toquem, nos vossos telemóveis, aparelhagens e computadores a música da Ucrânia.

As minhas dificuldades são uma pieguice pegada se comparadas com o que tem passado o povo da Ucrânia. Invadidos, mortos, torturados, arrasados por um invasor vizinho, prepotente, que se instalou em Guerra apenas por cobiça do país de quem dizia ser irmão.

Sejamos solidários para com a Ucrânia. Já estou cansado e desgastado de ver esta guerra em direto na televisão, quase já não consigo ouvir as suplicas do seu Presidente, que o nosso governo promove até à exaustão para esconder que é o único país da Europa que passou a esconder: os dados diários da Covid-19, os problemas com a subida do custo de vida, os serviços que não funcionam, um governo em quem votei mas que se esquece facilmente dos seus eleitores, por muito que isto me custe dizer.

Estou farto da guerra pela televisão, mas continuo firmemente solidário com a Ucrânia e com a sua luta. Aceita o meu apelo, querida Berta e hoje e amanhã, pelas sete da tarde, toca a música da Ucrânia, que venceu o Festival da Eurovisão. Deixo o link do YouTube: https://youtu.be/Z8Z51no1TD0. Recebe um beijo de despedida deste teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta n.º 569: Ser Ancião em Campo de Ourique ou em Portugal

Berta 569.jpg

Olá Berta,

Esta tarde, farto de estar confinado há já três anos. Dois pela Covid-19 e um devido à minha repetição de AVC (por nove vezes) em 2019 a que acresceu o entupimento por um calhau, do meu canal biliar, que depois me provocou uma infeção grave, resolvi ir dar um pequeno passeio pelo bairro de Campo de Ourique. É raro fazê-lo, mas de vez em quando, sabe imensamente bem.

Nunca tive problemas em viver com gente ou sozinho, mas hoje, não sei porquê, algo me fez pensar no assunto assim que coloquei um pé no passeio. Estou a falar da solidão das pessoas idosas, sendo que idoso, para mim, são aqueles e aquelas que já ultrapassaram os três quartos de século de idade há mais de um ano. Existem dois tipos desses idosos. Os que aparentam a idade que têm e os que a combatem.

Lembrei-me da solidão talvez pelo facto de ter reparado no touro gigante  e só, na fachada do edifício do antigo Cinema Europa, ou de me ter lembrado da grua gigante que instalaram na nova obra ao pé de minha casa, erguendo-se altiva e solitária acima dos prédios, ou, quem sabe, por ver uma velhinha quem já conheço há mais de uma década a competir com um caracol, na sua marcha lenta em direção a um almoço costumeiro e frugal na pastelaria Az de Comer, sendo que, até ao momento continua a ser ela a bater o danado do caracol.

A mesma velhinha irá, depois de conversar com as suas amigas no café, uma vez mais, ao Pingo Doce, comprar o seu costumeiro jantar e o pequeno-almoço para o dia seguinte. A ementa varia pouco, normalmente as compras alternam entre uma perna de frango ou uma lata de atum, por vezes um saco de arroz, raramente, uma embalagem de creme de cenoura, mas nem sempre, mais uma garrafa de água, um pão, um iogurte e uma banana ou uma maçã e talvez, uma vez por semana, uma alface fresca.

Atenção, amiga Berta, que a senhora em causa, não tem uma aparência pobre, de quem vive com dificuldades, nada disso. Pelo contrário, aparenta ser alguém que se aposentou, há mais de uma década atrás, de um qualquer serviço público após quarenta anos de trabalho. Mantém um ar limpo e tratado onde o vergar das costas, num arco já prenunciado, desmascara a sua idade real. Descobri há mais de seis anos que a senhora é viúva. O marido faleceu cedo do coração.

Pelo que me é dado a perceber o seu grupo da pastelaria tem vindo a perder elementos. Das seis ou sete senhoras que se encontravam ali, na mesa do costume, junto à janela, restam agora ela e mais três. Antigamente, quase todas as tardes, também a encontrava sozinha a olhar para os pombos como quem olha para o infinito no Jardim da Parada, outras vezes, perdida nos seus pensamentos, junto ao parque infantil, onde os seus olhos escolhiam esta ou aquela criança para recordar tempos há muito ultrapassados.

Esta anciã, tem uma filha, um genro e uma neta que nunca a visitam. Numa conversa que escutei, faz tempo, na pastelaria, a falta de convívio deve-se ao facto de ela não ter querido vender a sua casa, para partilhar com a filha parte da herança do marido. Esta queria a toda a força que a mãe vendesse a casa e se mudasse para um lar. Como a idosa senhora não concordou o corretivo por parte da descendente passou a ser a sua ausência na vida da senhora.

Esta pessoa, minha amiga, vive só, privada do conforto e do carinho dos que lhe eram próximos, apenas porque optou por viver onde sempre viveu. A solidão, desta senhora, como de tantas outras e outros no nosso país é aflitiva, injusta e constrangedora. Todavia, mais do que isso tudo, é inaceitável. A sociedade, no seu conjunto, devia ter formas de combater o isolamento e o abandono dos seus anciãos.

Isto é, sem dúvida, o mínimo que lhes devemos. Eu vi a minha mãe a definhar, aos poucos, muito lentamente, vítima de Alzheimer. Algo que não desejo a ninguém que assista. Mas, a minha mãe, nunca esteve só, um único dia, dos quase seis anos que a doença levou para a vencer. É tempo de olharmos com respeito e orgulho para os nossos idosos e de começar a fazer algo por eles. Principalmente pelos que estão sós, seja em Campo de Ourique ou em Portugal…

Por hoje é tudo, desculpa a nostalgia, mas todos nós temos dias assim, recebe um beijo deste que não te esquece, um amigo para sempre,  

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta n.º 562: Campo de Ourique e a Clonagem de Cartões Multibanco (versão alterada a pedido de Nuno Martins)

Berta 562.jpgOlá Berta,

Campo de Ourique não é a minha terra natal só porque nasci numa outra parte do campo, lá para os lados de Campo Grande. Porém, foi o bairro que me acolheu com um carinho como nenhum outro. Conforme já te contei por diversas vezes, minha querida amiga, já me encontro por cá há mais de treze anos.

Adoro o bairro, embora para muitos dos meus vizinhos, ainda hoje, eu seja um novato (pese embora os meus sessenta anos) que acabou de chegar à freguesia. Com efeito, muitos deles já ultrapassaram os quarenta e os cinquenta anos, alguns ainda mais, de convivência íntima com a terra. Esta é a mais linda aldeia da minha cidade berço, Lisboa, a capital do país. Muitos lembram, saudosamente, que o bairro já não é o que era e eu acredito. Mas é assim, Berta, num pequeno espaço de 1,65 quilómetros quadrados, esta é, hoje em dia, a segunda freguesia da cidade com mais habitantes por quilómetro quadrado.

Aliás, enquanto Lisboa tem perdido bastante população para a periferia, Campo de Ourique nunca parou de crescer e aumentar as suas gentes. Enquanto em 2011 a população era de 22.120 habitantes, em 2021 passou para 22.169, com este aumento de quarenta e nove pessoas a freguesia foi das poucas de Lisboa a crescer em número de habitantes. São, mais trinta pessoas por quilómetro quadrado.

Isto quer dizer que hoje, querida Berta, Campo de Ourique tem 13.436 pessoas por quilómetro quadrado, ou seja, vivem 13 indivíduos por cada metro quadrado. Quer isto dizer que se não existissem prédios, muitos com bastantes andares e vários apartamentos por andar, e que se toda a população do bairro viesse em simultâneo à rua, nós não caberíamos, uns ao lado dos outros, coladinhos, nas ruas do bairro em que vivemos.

Por outras palavras, em Portugal vivem cerca de 112 pessoas por cada quilómetro quadrado, isto tendo em conta a população e a área do território nacional, ilhas incluídas, enquanto em Campo de Ourique vivem cento e vinte vezes mais pessoas concentradas por cada quilómetro quadrado.

Ora, minha amiga, a acreditar nos dados das eleições autárquicas de 2021 e simultaneamente nos valores apresentados nos censos deste ano, existem 3.087 menores de 18 anos no nosso bairro. Um valor muito baixo, a ser real.

Dito isto não é para admirar que, este mês, ao sair da Pastelaria Trigo da Aldeia, onde vou frequentemente buscar bolinhas de pão malcozidas e o melhor bolo de laranja do bairro, uma rapariga na casa dos trinta anos, me tenha clonado o cartão de débito que eu acabara de meter no bolso detrás das calças. Minutos depois já me tinha sacado 60,21 euros da conta numa compra internacional, online, na aquisição de um qualquer produto de estética. Por sorte eu tinha seguro do cartão e o banco fez a reposição da verba.

Mas isso só acontece porque vivemos num local onde a população é considerável e os recursos são cada vez mais escassos. Eu nem sabia que era possível um cartão multibanco ser clonado desta forma, porém, essa é a triste realidade. E nem Campo de Ourique, na sua pacatez de aldeia escapa aos novos métodos dos bandidos e burlões. É o excesso de população em relação aos recursos a fazer-se sentir. Por isso, Bertinha, tem cuidado, se aconteceu comigo aqui, pode muito bem acontecer contigo por aí. Ainda mais nesta época natalícia onde andamos sempre de cartão multibanco à mão de semear.

Por hoje é tudo, fica com os meus votos de Boas Festas. Com um beijo de saudade, deste teu amigo de sempre, me despeço até à próxima carta,

Gil Saraiva

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PS: A imagem anterior foi removida a pedido do senhor Nuno Martins. Transcrevo o texto que originou esta mudança.

Nuno Martins (13:58) - Bom dia. Agradeço que apague a publicação que tem no seu Facebook relativamente ao trigo da aldeia. Não queremos ser associados às suas publicações sem a nossa autorização, ainda para mais sendo o assunto sobre um tema que nada nos diz respeito. Atentamente, Nuno Martins

Gil Saraiva (17:08) - Caro Nuno Martins, entendo a sua posição.  Mas é esta a realidade de um jornalista. Coloquei efetivamente a vossa publicidade na esquina da fotografia apenas para não identificar quem lá se encontrava. Podia ter tirado outra que não seria tão apelativa. Isto no que se refere à publicidade. Quanto à Carta à Berta são crónicas de um Jornalista Profissional em atividade e sinceramente não preciso da vossa autorização, nem a vou remover, evidentemente. Contudo, se desejar, posso alterar a fotografia que ilustra a peça, com a divulgação desta troca de mensagens entre os dois, no final da mesma. Uma vez que se dirigiu diretamente a mim. Aguardo a sua decisão. Sem outro assunto de momento, atentamente, Gil Saraiva

Nuno Martins (18:09) - Boa tarde. Agradeço que altere a fotografia, e de preferência que não apareça a nossa imagem. Atentamente, Nuno Martins

Gil Saraiva (19:40) – Caro Nuno Martins mudança de imagem efetuada para uma de minha autoria. Estou a proceder à respetiva alteração nos grupos do Facebook onde esta entrou e espero ter a situação resolvida ainda hoje. Contudo, nos grupos e nas partilhas que não controlo não poderei fazer grande coisa. Obrigado. Com a mais elevada consideração, Gil Saraiva

Nuno Martins (19:45) - Muito obrigado. Boa semana.

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Carta à Berta n.º 562: Campo de Ourique e a Clonagem de Cartões Multibanco

Berta 562.jpgOlá Berta,

Campo de Ourique não é a minha terra natal só porque nasci numa outra parte do campo, lá para os lados de Campo Grande. Porém, foi o bairro que me acolheu com um carinho como nenhum outro. Conforme já te contei por diversas vezes, minha querida amiga, já me encontro por cá há mais de treze anos.

Adoro o bairro, embora para muitos dos meus vizinhos, ainda hoje, eu seja um novato (pese embora os meus sessenta anos) que acabou de chegar à freguesia. Com efeito, muitos deles já ultrapassaram os quarenta e os cinquenta anos, alguns ainda mais, de convivência íntima com a terra. Esta é a mais linda aldeia da minha cidade berço, Lisboa, a capital do país. Muitos lembram, saudosamente, que o bairro já não é o que era e eu acredito. Mas é assim, Berta, num pequeno espaço de 1,65 quilómetros quadrados, esta é, hoje em dia, a segunda freguesia da cidade com mais habitantes por quilómetro quadrado.

Aliás, enquanto Lisboa tem perdido bastante população para a periferia, Campo de Ourique nunca parou de crescer e aumentar as suas gentes. Enquanto em 2011 a população era de 22.120 habitantes, em 2021 passou para 22.169, com este aumento de quarenta e nove pessoas a freguesia foi das poucas de Lisboa a crescer em número de habitantes. São, mais trinta pessoas por quilómetro quadrado.

Isto quer dizer que hoje, querida Berta, Campo de Ourique tem 13.436 pessoas por quilómetro quadrado, ou seja, vivem 13 indivíduos por cada metro quadrado. Quer isto dizer que se não existissem prédios, muitos com bastantes andares e vários apartamentos por andar, e que se toda a população do bairro viesse em simultâneo à rua, nós não caberíamos, uns ao lado dos outros, coladinhos, nas ruas do bairro em que vivemos.

Por outras palavras, em Portugal vivem cerca de 112 pessoas por cada quilómetro quadrado, isto tendo em conta a população e a área do território nacional, ilhas incluídas, enquanto em Campo de Ourique vivem cento e vinte vezes mais pessoas concentradas por cada quilómetro quadrado.

Ora, minha amiga, a acreditar nos dados das eleições autárquicas de 2021 e simultaneamente nos valores apresentados nos censos deste ano, existem 3.087 menores de 18 anos no nosso bairro. Um valor muito baixo, a ser real.

Dito isto não é para admirar que, este mês, ao sair da Pastelaria Trigo da Aldeia, onde vou frequentemente buscar bolinhas de pão malcozidas e o melhor bolo de laranja do bairro, uma rapariga na casa dos trinta anos, me tenha clonado o cartão de débito que eu acabara de meter no bolso detrás das calças. Minutos depois já me tinha sacado 60,21 euros da conta numa compra internacional, online, na aquisição de um qualquer produto de estética. Por sorte eu tinha seguro do cartão e o banco fez a reposição da verba.

Mas isso só acontece porque vivemos num local onde a população é considerável e os recursos são cada vez mais escassos. Eu nem sabia que era possível um cartão multibanco ser clonado desta forma, porém, essa é a triste realidade. E nem Campo de Ourique, na sua pacatez de aldeia escapa aos novos métodos dos bandidos e burlões. É o excesso de população em relação aos recursos a fazer-se sentir. Por isso, Bertinha, tem cuidado, se aconteceu comigo aqui, pode muito bem acontecer contigo por aí. Ainda mais nesta época natalícia onde andamos sempre de cartão multibanco à mão de semear.

Por hoje é tudo, fica com os meus votos de Boas Festas. Com um beijo de saudade, deste teu amigo de sempre, me despeço até à próxima carta,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Campo de Ourique - Maria da Fonte, Símbolo de Liberdade

Berta 557.jpgMaria da Fonte - Campo de Ourique - Lisboa – Portugal (Gil Saraiva -Fotos de autor, direitos reservados)   

OS 101 ANOS E 21 DIAS DA ESTÁTUA DA MARIA DA FONTE EM CAMPO DE OURIQUE EM 6 DE OUTUBRO DE 2021

Olá Berta,

Não sei se sabes, mas dá-se o nome de MARIA DA FONTE à revolta no seio do povo cuja primeira chama teve origem no Minho, no decorrer dos idos de maio de 1846, tendo acabado por se propagar a todo o reino de Portugal, desencadeando uma cruel contenda popular que ficaria na história como «A GUERRA DA PATULEIA», que deixou a rainha D. Maria II em muito maus lençóis.

Não me vou armar em historiador, nem pôr-me aqui a desenvolver um grandioso ensaio sobre este período da nossa História, bem pelo contrário, apenas pretendo te apresentar um pequeno vislumbre do ocorrido explicando o como e o porquê da estátua da Maria da Fonte se encontrar desde há cento e um anos no Jardim da Parada em Campo de Ourique.

Pelo que nos dizem os cronistas da época, a causa do conflito teve origem na proibição real de se enterrarem os mortos nas igrejas, como era hábito até então. Este facto serviu de rastilho à revolução, movida pelo ódio popular contra o Governo, contra a política fiscal, e contra a pessoa do Conde Costa Cabral que o liderava e que apelidaria a revolta como a «REVOLUÇÃO DO SACO AO OMBRO E DA ROÇADEIRA NA MÃO».

No dia quinze de setembro de 1920, a propósito dos cem anos da proclamação do regime liberal, foi lançado um marco comemorativo que se traduziu na inauguração de um monumento a Maria da Fonte, a mulher de Fonte da Arcada que terá tido um papel relevante na sublevação das mulheres minhotas, que culminaria com o fim do governo de Costa Cabral, exonerado a 17 de maio de 1846.

Porém, a estátua da Maria minhota de Fonte da Arcada é basicamente usada como um símbolo da libertadora revolta popular que foi fulcral para a consolidação da liberdade e do regime liberal em Portugal, mais do que uma homenagem, propriamente dita, à mulher do Minho que se terá destacado no início dos conflitos de 1846.

A estátua da Maria da Fonte, representa uma mulher de armas, num movimento guerreiro e decidido e é inspirada nas artísticas correntes Naturalista e Realista, sendo de autoria de Costa Motta. Trata-se da imagem, em mármore branco, de uma jovem mulher minhota descalça, que avança bramindo um apelo guerreiro, de arma de fogo na mão direita, ao alto, e com um rudimentar pau com ferrão sobre o ombro esquerdo, antigamente denominado por chuço, num perfeito movimento de incitamento à luta.

A sua colocação no Jardim da Parada, em Campo de Ourique, não é um mero acaso, pelo contrário, serve para realçar o local onde teve origem, nos idos de 1803, o movimento revolucionário gerador das revoltas populares que implicariam o estabelecimento do regime liberal em Portugal.

É a escultura desta mulher do Norte que faz a ponte emblemática e liberal entre o Minho e Lisboa, num claro simbolismo de unidade nacional, a qual, ao ser colocada na capital, no sítio preciso onde o Liberalismo português nasceu, tenta mostrar às gentes que vale a pena lutar pela liberdade.

A demonstração, por intermédio de uma escultura colocada a centenas de quilómetros do local onde a respetiva heroína se notabilizou, traduz assim, de uma forma clara, que locais tão díspares como o Minho ou Lisboa (e que poderiam ter ocorrido entre outros quaisquer pontos do país, como, por exemplo, Ponta Delgada ou Faro) podem contribuir com igual relevância na consolidação da unidade nacional e do valor mais alto que a liberdade representa.

A estátua de Maria da Fonte representa assim, mais do que a consolidação do liberalismo, sob uma forma feminina, decidida e guerreira, a luta de um povo pela unidade nacional contra tiranias, na vontade inequívoca, decidida e persistente da implementação da liberdade.

Por hoje despeço-me, minha querida amiga Berta, cento e um anos e vinte e um dias depois da colocação da escultura de Maria da Fonte no Jardim da Parada, em Campo de Ourique, neste dia seis de outubro, um dia depois do feriado que comemora a implantação da República em Portugal, neste ano de 2021, enviando um beijo saudoso deste teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Pedro Costa e o "Eu É Que Sou o Presidente da Junta" - Parte III

Berta 556.jpgOlá Berta,

Termina aqui, hoje, a trilogia de: de “Pedro Costa e o “Eu É Que Sou o Presidente da Junta”. Se dividi este assunto em três partes foi porque, minha querida, não gosto de falar das coisas pela rama, mesmo quando o assunto, é, apenas e só, a minha visão dos factos. Mas voltando à vaca fria e servida com o devido requinte gourmet:

 Pedro Costa filia-se no PS em 2016 após, segundo afirmou à Sábado, pouco depois: "ver a luz". É ainda através da mesma revista semanal, querida Berta, que fiquei a saber que três anos depois de se filiar no partido do pai, Pedro Costa tem duas experiências autárquicas: Primeiro, na Junta de Freguesia do seu primo, António Cardoso, em São Domingos de Benfica, enquanto elemento independente. E, finalmente, em 2017, em Campo de Ourique, onde reside com a mulher e “se apaixonou”, pelo que diz, definitivamente, pela vida autárquica.

Foi eleito para a Junta de Campo de Ourique em terceiro na lista, de onde derivou como candidato “naturalmente” vindo de São Domingos de Benfica, por cá habitar e ter tido os seus negócios, mas ascenderia ao segundo posto depois de a número dois, Susana Ramos, mulher de Duarte Cordeiro (o socialista, amigo e atual vizinho, que assinou a sua ficha de entrada no PS), passar para a presidência da mesa da assembleia de freguesia. Pedro Costa fica, então, com o pelouro da Higiene Urbana e na rampa de lançamento para o primeiro lugar caso a “fortuna”, querida Berta, lhe viesse a bater de novo à porta.

Porém, a sua “estrela” continuava a brilhar e quando Pedro Cegonho, o então presidente da junta, escolhido previamente, nas eleições legislativas anteriores, como candidato a deputado, resolve ingressar no Parlamento, ocupando o seu lugar de eleição, deixa o seu número dois, com o lugar que antes ocupava, ou seja, Pedro Costa ascende assim, a meio do mandato autárquico, a presidente da Junta de Freguesia de Campo de Ourique. Uma verdadeira viagem de foguetão, minha saudosa amiga, não achas? Daí até à sua recandidatura nas eleições de ontem, ao cargo de Presidente da Junta já tudo é o que parece, ou seja, um processo perfeitamente natural.

Aquilo a que eu acho graça, amiga Berta, é ao facto de Pedro Costa, ainda em declarações à Sábado, se achar um político "discreto" e "reservado", que diz não querer viver na sombra do pai, António Costa. Afirmou até, na altura: "Não é justo nem para ele nem para mim que eu me exponha excessivamente a essas colagens".

Mas Pedro Costa acha que está a ser sincero, como se fosse normal, um militante que ingressa no PS aos 26 anos, acabado de ser associado aos mais bem colocados futuros líderes do CDS-PP, chegar, digamos que naturalmente, apenas cinco anos depois, aos 31 anos de idade, à Presidência de uma Junta de Freguesia do Concelho de Lisboa, depois de ter sido proposto como o cabeça de lista e candidato do Partido Socialista à mesma.

A linhagem hereditária da monarquia, querida Berta, que já terminou em Portugal há um século e uma década, continua a impelir muitos dirigentes políticos nesta senda familiar derivada do direito consuetudinário. Pode Pedro Costa achar que foram tudo “afortunadas” coincidências, pode o seu pai negar a pés juntos nunca ter interferido na tentativa de dar um futuro promissor ao seu filho na política, pode até cair o “Carmo e a Trindade” novamente que eu não acredito no Pai Natal, mesmo que ele chegue à minha varanda do terceiro andar montado num trenó, puxado a renas, com o Rodolfo na dianteira.

E mais não digo, porque, depois deste desabafo à minha maneira, desejo que o rapaz até tenha mesmo muita sorte, e isto porque, nesta batalha final, em que o castelo feudal de Medina desabou, ele teve que batalhar seriamente, nem que tenha sido pela primeira vez, para sobreviver politicamente. Ora, isso sim, já é, definitivamente, mérito do próprio. Assim sendo, despede-se com um beijo, sem mais comentários, este teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Pedro Costa e o "Eu É Que Sou o Presidente da Junta" - Parte II

Berta 555.jpgOlá Berta,

Voltando ao assunto de ontem, para continuar esta segunda parte sobre: Pedro Costa e o “Eu é Que Sou o Presidente da Junta”, não quero que penses que estou apenas a falar, à laia do tempo de Gil Vicente, como se estivesse a cantar apenas mais uma “Cantiga de Escárnio e Mal Dizer”. Nada disso. Gosto é que se saibam as coisas ou, pelo menos, de explicar como elas são vistas por mim. Volto, portanto, ao tema em causa:

Há que referir que o jovem, o Pedro Costa, depois de ter passado pela JS (um ingresso feito aos 14 anos), tendo sido aluno do Colégio Moderno, acabou por, ainda no entusiasmo da adolescência, se encostar aos seus amigos centristas, dos tempos da sua entrada na Faculdade de Direito na Universidade de Lisboa, com quem fez parte da associação académica e com quem acabaria por fazer a  sociedade para o negócio do bar Winston (eram três no total), um dos quais o centrista Francisco Laplaine Guimarães, atual vice-presidente do CDS-PP, altura em que privava a miude com o atual presidente do CDS-PP, à data, o afamado Chicão.  Aliás, Francisco Rodrigues dos Santos, recorda Pedro Costa, numa entrevista, há já uns anos, à revista Sábado, minha querida Berta, da seguinte forma:

"O Pedro não é socialista, é um liberal utópico em toda a aceção do termo. É um tipo empreendedor que não gosta de ser escravizado e um criativo com um rasgo de inteligência. Nos costumes é muito mais progressista do que conservador". Acrescenta ainda: "Já lhe disse isso várias vezes e ele responde-me sempre com um riso bonacheirão, concordando sem o dizer.” Finalmente conclui: “Pedro Costa é um tipo para todas as ocasiões. Além de bom conversador e um grande companheiro de copos, é leal. A nossa amizade extravasa as ideologias… O Pedro teria sempre uma carreira promissora na política independentemente do pai. Ele tem mérito próprio."

Ora, Pedro Costa, ainda com o bar, em 2013, criou uma marca de roupa com os amigos, a Pyramid Collective, e em 2016 investiu num projeto, de outro amigo, de molas para meias, tendo tido ainda uma participação minoritária de 7,50% na marca de roupa Nuno Correia, que acabou por falir, isto é, minha cara amiga, não teve grande sorte nos negócios.

Porém, também em 2016, Pedro Costa abandona o seu falhado mundo de empreendedor, já com o curso de direito no bolso, e, diria que como por “milagre”, vira-se para a política e novamente para o PS. Por “sorte” do destino, sim, porque na vida é realmente preciso ter sorte nos momentos certos e, inteligentemente, fazer o melhor uso dela, a vida voltou a sorrir para o primogénito varão do nosso Primeiro-Ministro, António Costa.

Não me vou adiantar mais por agora. Este é o momento de começar a chegar ao final desta saga de três cartas, já contando com aquela que te enviarei depois desta. Por isso, recebe a minha despedida saudosa num beijo sincero, deste que está sempre ao teu dispor,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Pedro Costa e o "Eu É Que Sou o Presidente da Junta" - Parte I

Berta 554.jpgOlá Berta,

Cá estou eu feliz por retomar estes meus desabafos contigo. Foste votar? O que achaste das eleições autárquicas? Votaste bem? Certamente que sim. Só vota bem quem vota em consciência e sabe porque o faz. Eu também votei fazendo justiça às minhas convicções políticas e não me saí nada mal. Adorei os resultados e as surpresas eleitorais. Hoje envio-te a primeira parte do que eu chamei de “Pedro Costa e o “Eu É Que Sou o Presidente da Junta”.

Sabes, minha amiga, fez-me lembrar o tempo em que pertenci a uma comissão política distrital de um partido e depois à sua comissão executiva, juntamente com lugar na comissão política do mesmo partido num conselho algarvio. Ainda me lembro das duas eleições autárquicas em que participei como responsável de campanha autárquica e ajudei a eleger, em ambas, o Presidente da Câmara.

Como deves saber porque me conheces, amiga Berta, eu sou um pacato vagabundo de esquerda, embora nada tenha de radical. Mas é essa origem, tão contrária à minha família, que me faz ter pena de ver o PS perder a Câmara de Lisboa. Porém, embora me custe, não foi nada de que eu não tivesse à espera. Fernando Medina descurou todos os sinais e deixou-se estar soberbamente deitado à sombra da bananeira.

As duas grandes barracas deste ano deviam ter sido bandeiras vermelhas para o autarca, mas não foram. O mal é que ninguém avisou Medina, minha querida, que as suas atitudes perante as situações não estavam a ser bem aceites.

Não se defendeu convenientemente das celebrações da vitória do Sporting no Campeonato e, pior ainda, geriu pessimamente o caso das comunicações das manifestações às embaixadas. Em ambas as situações, Berta, se sentiu negligência e soberba, como se ele estivesse, enfim, bem acima da carne seca. Fernando Menina, digo, Medina, ficou na manicure, fiou-se na virgem, ou seja, nas “santas sondagens” e não saiu da sombra fresca da bananeira.

Em sentido contrário agiu o antigo dono do Winston Bar, situado na Rua do Sol ao Rato, em Campo de Ourique. Pedro Costa, filho de António Costa, é o exemplo perfeito de um percurso político, planeado ao detalhe (não me perguntes por quem). Contudo, esse planeamento só se iniciou há cinco anos, em 2016, mas já lá irei.

Aliás, continuo esta trilogia na próxima carta, para não me alongar demasiadamente hoje. Deixo um beijo de despedida, certo de que estás curiosa por saber como vai terminar esta saga, porém, para já, vais ter de aguardar um pouco mais, com amizade, saudosamente,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: O Que Se Passa em Campo de Ourique? Conversa à Mesa do Café - IV - Os Bombeiros de Campo de Ourique - Espírito Pioneiro - Parte III/III

Berta 543.jpg(Fotografias de Gil Saraiva - Bombeiros de Campo de Ourique)    

Olá Berta,

Esta é a última de três cartas, sobre “O Que Se Passa em Campo de Ourique - Conversa à Mesa do Café" – Os Bombeiros de Campo de Ourique – Espírito Pioneiro. A presente carta trás consigo, pelo menos, mais duas situações que eu desconhecia de todo. Hoje o assunto versa, entre outras novas informações, aquelas que para mim constituem surpresa.

Efetivamente o Adjunto de Comando, André Fernandes, conseguiu fazer-me abrir a boca de espanto mais uma vez, nesta recolha de novos e surpreendentes conhecimentos, sobre os Bombeiros de Campo de Ourique, eles que são uma das sete corporações de Soldados da Paz existentes no Concelho de Lisboa.

Afinal, os “meus” bombeiros, e digo meus porque transportam consigo o nome do meu bairro (a que chamo meu, porque nele vivo e nele me sinto parte de um todo) que estão sempre prontos para socorrer e assistir quem deles precisa (ainda há poucos dias estiveram em Monchique), sem que disso sejam obrigados, tinham, minha cara amiga, muito mais para me revelar.

A conversa com o Adjunto do Comando já ia longa sem que André Fernandes demonstrasse qualquer pressa em lhe pôr um fim. A certa altura, enquanto me falava das viaturas ao serviço no quartel, que iam das quatro ambulâncias, ao veículo urbano de combate a incêndios, passando pela história adorável de como tinham transformado, estando já em fase de ultimação, um camião de transporte de leite num autotanque, até ao veículo de combate florestal e ao veículo ligeiro de combate a incêndios, veio à baila a necessidade de renovar este último.

No meio do diálogo, querida Berta, acabei por não anotar se tinham apenas um a funcionar e precisavam de renovar um segundo ou se se tratava de renovar o único existente. Porém, o relevante era mesmo a necessidade de atualizar devidamente uma das viaturas da corporação. Estas necessidades poderiam ser superadas mais rapidamente se o apoio da população, e de um ou outro mecenas, fosse mais relevante, o que atualmente era, cada vez menos, o caso.

Berta 543 b.jpg(Corredor de Fardamentos - Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique)   

Como não podia deixar de ser, eu, que desde que entrara no quartel vira o estado de degradação em que todo o edifício se encontrava, encaminhei a conversa para a humidade visível, e para a falta de manutenção adequada, que era notória em todas as instalações no seu conjunto. Ora, cara Berta, sem qualquer vergonha o Adjunto do Comando reconheceu o óbvio. Aquele quartel fora antigamente uma fábrica de contadores de água, que por se encontrar ao abandono, fora ocupada pelos Bombeiros de Campo de Ourique, e transformada em novo quartel, precisamente porque as antigas, pequenas e obsoletas instalações da Rua Francisco Metrass tinam começado a meter água à séria.

Atualmente, a manutenção era efetuada à custa das artes e ofícios dos próprios bombeiros. O eletricista desenrascava o que era necessário para manter as ligações operacionais, os carpinteiros ajudavam na reparação de algum mobiliário, os canalizadores faziam o mesmo, bem como os pintores e outros ramos de operários que, simultaneamente, acumulavam as funções de bombeiros voluntários com a sua normal atividade laboral. O problema não era, portanto, o custo da mão de obra, porque essa era oferecida, mas o custo dos materiais para se fazerem as reparações.

Um sorriso no rosto de André fez-me perceber que vinha a caminho mais uma revelação, aliás, minha querida amiga, uma verdadeira surpresa. Porém, contava-me o Adjunto de Comando, a situação das instalações dos Bombeiros de Campo de Ourique, estaria certamente resolvida nos próximos anos, não mais que uma mão cheia deles e isso no máximo, afirmava ele convicto da situação.

Ao que parecia o imenso terreno, onde a corporação estava instalada, tinha-se valorizado de sobremaneira ao longo dos anos e era agora um território a que a Câmara Municipal de Lisboa queria deitar mão, para depois o valorizar em termos imobiliários, devido à situação estratégica e à excelente vista que proporcionaria a quem viesse a viver naquele local. Não apenas vistas para Monsanto, mas até ao Tejo se a construção fosse baseada em estruturas verticais de maior altura e porte.

Ora, para isso acontecer a Câmara iria em breve mandar construir um novo quartel para os soldados da paz, muito bem localizado, dentro do bairro e com facilidade de acesso a algumas vias principais da cidade de Lisboa.

O local mais provável, amiga Berta, parecia ser  a perpendicular à rua Ferreira Borges, na Rua de Campo de Ourique, do lado direito de quem vem a subir a Rua do Sol ao Rato, mesmo antes de chegar à Ferreira Borges, onde hoje se encontram uma imensidade de edifícios vazios e devolutos, prontos a dar lugar a um novo quartel de bombeiros. O local permitiria que os bombeiros ficassem com três saídas estratégicas das instalações, consoante a necessidade e urgência de cada situação, para outras tantas vias.

A alienação do atual terreno dos bombeiros dava e sobrava para a construção de raiz do novo espaço. É claro, dizia-me André, que continuariam com necessidades e carências para poderem ter um funcionamento menos preocupante, mas a atualização das tabelas de preços dos serviços prestados pela corporação, que se mantinham os mesmos desde há doze, treze ou catorze anos poderia ajudar.

Havia ainda a possibilidade de poder gerar algum rendimento através de dar formação aos lisboetas nas áreas dos primeiros socorros e outras, bem como às empresas, ou até de conseguir alguém capaz de elaborar um crowdfunding dirigido a necessidade específicas da instituição.

Berta 543 e.jpg(Sala de Formação - Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique)     

Explicar às empresas e às pessoas que donativos em dinheiro ou em espécie, estavam abrangidos ao abrigo da Lei do Mecenato e que, portanto, eram donativos deduzíveis aos impostos, era ainda outra grande tarefa que eles tinham em mãos, minha querida amiga Berta.

Se alguém doasse, por exemplo, uma televisão ou casaco de cabedal ou uma bicicleta, o donativo aceite é traduzido pelo seu custo de mercado e a pessoa pode descontá-lo no IRS, sem precisar de ser ela a o transformar em dinheiro, elucidava-me André. Tinham era de arranjar formas de cativar a comunidade e gerar o envolvimento com eles, de forma a que todos se pudessem vir a sentir parte deste todo que se desejava implementar, ajudando a criar e fomentar esta interação.

A outra preocupação do Adjunto de Comando era fazer-me ver a importância do reforço de sócios dos Bombeiros de Campo de Ourique. Afinal, com apenas cerca de vinte euros pagos por ano, um novo sócio, se somado a muitos outros, pode contribuir de sobremaneira para suprir as necessidades mais urgentes dos soldados da paz.

André achava até que as pessoas deviam vir conhecer o quartel, visitar a sala-museu ou vir comer ao restaurante de forma a que a interação com o seu corpo de bombeiros pudesse crescer de forma sustentável e com isso ajudar a tornar mais fortes os laços comunitários. Era contagiante o carinho, dedicação e amor daquele homem aos bombeiros.

Uma pessoa pode não precisar dos bombeiros durante anos, mas quando precisa quer certamente ter a certeza de que pode contar com eles. A conversa à mesa do café aproximava-se do fim, minha querida amiga, e eu ainda não perguntara a André como faziam, nos dias de hoje, para arranjar pessoal, a mão de obra tão necessária para a existência de bombeiros voluntários.

Segundo o Adjunto de Comando, os voluntários estavam destinados a acabar em todo o país. Cada vez menos gente conseguia estar disponível para ir passar horas e horas, dias e mais dias, depois do seu horário de trabalho, afastado da família, a dar o tempo aos voluntários.

Antigamente era mais fácil, por exemplo, em Campo de Ourique, e sabendo que apenas as classes mais baixas estão, maioritariamente, disponíveis para servirem como bombeiros, a angariação de jovens era feita nas franjas menos abonadas do bairro, fosse na zona da Maria Pia ou da Meia Laranja, fosse mesmo no Casal Ventoso, onde, segundo André Fernandes, centenas de jovens foram, ao longo dos anos, salvos da droga, porque precocemente integravam os bombeiros voluntários como infantes e mais tarde cadetes, na esperança de chegarem a bombeiros.

Berta 543 c.jpg(Parte das Salas Museu dos Bombeiros de Campo de Ourique)    

Fiquei impressionado com mais esta surpresa, para mim uma verdadeira revelação, contudo, a lógica era inegável, se um jovem, ainda criança, tinha um objetivo nobre era, por força da situação, mais difícil que se metesse na droga.

De repente ao escutar o que o Adjunto me contava comprovei que, pelo que eu próprio conhecia que ele tinha toda a razão. Cheguei mesmo a inventar, para o interior dos meus pensamentos, um novo provérbio: “Gente fina não veste à bombeiro nem segura mangueira.” Sorri para mim mesmo. Era uma realidade… aos poucos os voluntários iriam, nos próximos anos, dar lugar a um cada vez maior número de bombeiros profissionais pagos pela sua função, devidamente, com uma carreira e devida progressão ao longo da vida. Era engraçado, querida Berta, que eu nunca tivesse pensado nisso.

Olhei para o relógio, a conversa estava a chegar às três horas de duração e o meu caderno já tinha cinco páginas cheias de apontamentos relevantes. O Adjunto de Comando devia querer ir-se embora, porém, fosse por educação ou gosto de me informar sobre assuntos que para ele eram uma evidente paixão, não dava qualquer mostras de cansaço da entrevista, nem de mim, por sinal.

Andávamos agora às voltas pelo quartel, enquanto ele me ia explicando tudo, passámos pela sala de formação, pelas instalações do comando e do comandante, sala de reuniões e foi nas salas do pequeno museu da instituição que uma fotografia me chamou a atenção. A foto, que me esqueci de apanhar com a máquina fotográfica que tinha ao peito, mostrava um grupo de raparigas, todas fardadas com a farda de bombeiro. Ingenuamente perguntei se era algum coro.

André Fernandes riu-se. Não, não eram coro algum, nem faziam parte de fanfarra ou de banda dos bombeiros. Aquela fotografia era a prova de que os Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique, tinham sido o primeiro quartel de bombeiros de Portugal continental e ilhas a promover a igualdade de género e a incorporar no seu seio um corpo de bombeiros femininos de doze ou treze mulheres, já não tinha a certeza. Decorria o ano de mil novecentos e oitenta e um e, mais uma vez, o comandante via-se na dificuldade de angariar novos voluntários. Ao consultar os regulamentos e normas dos bombeiros, notou que estes nunca se referiam a bombeiros masculinos, mas sim a indivíduos.

Decidiu então consultar a autoridade máxima dos bombeiros nacionais a quem perguntou se a palavra indivíduos nos regulamentos e normas se referia apenas a indivíduos ou também a individuas. O seu superior nacional pareceu incomodado com a questão. Não havia individuas, a palavra indivíduos não tinha género, era como dizer pessoas, esclareceu indagando o porquê de tal disparate. O Comandante dos Bombeiros de Campo de Ourique esclareceu prontamente que aproveitava a ocasião para comunicar superiormente que no fim daquele mês o seu quartel teria uma nova secção de bombeiros femininos.

A polémica gerada foi imensa, mas o Comandante levou a sua avante e foi assim, querida Berta, que os quarteis de bombeiros passaram a ter homens e mulheres na sua constituição. Esta foi a minha maior surpresa nesta entrevista à mesa do café. Senti-me orgulhoso por saber que os “meus” bombeiros foram geradores e pioneiros na promoção da igualdade de género dentro da instituição que compõe os nossos soldados da paz. Mais ainda por saber que a minha rua, a Francisco Metrass, foi berço das primeiras bombeiras de Portugal. Caramba, vivam os Bombeiros de Campo de Ourique. Com isto termino, espero que tenhas gostado, minha querida Berta, recebe um beijo deste teu camarada,

Gil Saraiva

Berta 543 d.jpg(Entrada Principal - Bombeiros de Campo de Ourique) 

 

 

 

 

 

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