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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

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Carta à Berta: A Peça do Chinês - Parte V - E esta, hem?

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Olá Berta,

Obrigado por me teres informado que estavas curiosa em saber o final da peça do chinês, mas só amanhã é que termino. Hoje, porém, apenas te envio a quinta parte desta história, intitulei-a de “e esta; hem?...”.

Acordei no sábado de manhã, não sei a que horas, mas era bastante cedo, principalmente para mim que, como bem sabes, minha amiga, sou um notívago ferrenho. O dia serviu para me tirarem sangue para análises, testarem o nível de glicémia, medirem a pressão arterial, o ritmo cardíaco e a temperatura, no que à parte médica diz respeito.

Já pelo meu lado, aproveitei a conquista de uma cadeira de rodas para me poder deslocar, pois desde que ali chegara que não tinha o mínimo equilíbrio. Andar a pé era uma aventura que terminava, um ou 2 passos depois de começar, comigo esparramado no chão, ou de 4, que não considero uma posição que me dignifique. Para se ter uma ideia de como eu me sentia, no que ao equilíbrio dizia respeito imagina, amiga Berta, um hipopótamo na corda bamba. Agora pensa nele a correr na dita corda enquanto atende uma chamada no telemóvel. Parece-te impossível que se equilibre, certo? Assim estava eu. Desprovido desse sentido, mas ainda viciado em nicotina o que, face à minha mobilidade medíocre, me fizera usar de engenho para pôr as luvas numa cadeira de rodas.

Aliás, o tabaco foi, naqueles dias, a minha tábua de salvação. Por muito que o Governo advirta que fumar mata, não deixa de encher os bolsos, com impostos, à custa da minha caminhada para esse cadafalso, que tão hipocritamente anuncia. A coerência governativa deveria obrigar este nosso Estado a encher de caveiras e avisos de morte as garrafas de cerveja, vinho e bebidas destiladas que continuam a matar mais em Portugal que o cigarro. Ah, e já agora também este setor devia estar interdito à publicidade. Mas isso já não dá dinheiro. São uns hipócritas.

O domingo começou bem. O amigo Bonifácio continuava a animar as hostes e a fazer toda a gente rir a cada nova piada que dizia. Para quem tinha o Síndrome de Crohn, eu achava aquele homem um exemplo de resiliência. Pelo meu lado só não agredi uma enfermeira novata, porque a minha deslocação estava bastante condicionada. A jovem mulherzinha, de cada vez que ia tratar os 2 velhotes da enfermaria, passava o tempo a insultá-los, a gritar com eles e a queixar-se que tinha mais que fazer.

A megera era de tal calibre que até o Bonifácio se sentia intimidado na sua presença. Também tentara embirrar comigo, mas proibira-a de se aproximar de mim, nem que ela fosse a única enfermeira de todo o hospital. Quando me desafiou, e quase levou com a arrastadeira em cheio no focinho, resolveu que era melhor evitar aproximações o que eu achei um ato muito inteligente.

Quando ela saiu é que fiquei a saber que, quando o Bonifácio estava pior, e tinha crises que o deitavam completamente abaixo, era tratado da mesma maneira por aquela espécie de gente. Empenhado em resolver o problema, levei parte do dia a convencê-lo a chamar-me a enfermeira que chefiava o piso 3. Por fim, com a promessa de que não diria a ninguém que ele sabia para que é que eu queria falar com ela, lá acabou por a ir buscar.

Quando a veterana chegou pedi-lhe o livro de reclamações, pois precisava fazer uma participação grave, a chefe sentou-se na borda da cama decidida a evitar uma queixa escrita no seu piso. Ouviu-me quase 20 minutos a descrever os atos da malvada incompetente. Por fim, lá me pediu, com um jeitinho muito próprio das mulheres experientes e calejadas na liderança, se, antes de eu escrever no livro, podia ser ela a tentar resolver o assunto. Acedi de bom grado. Eu estava num estado meio almareado, nem as letras via bem, a não ser que fossem garrafais.

Aquela manhã foi a última vez que vi a víbora da bata branca. Consegui saber pelo Bonifácio, de quem muito do staff do hospital parecia gostar bastante que, segundo lhe tinham ido contar, a jovem fora alvo de um relatório escrito e que tinha sido mudada para outra zona do piso 3. Assunto resolvido. O domingo terminou para mim com a já esperada dieta zero, nesse dia, não sei porquê, designada por jejum. Todavia, desta vez, eu estava alerta e prevenido.

Lá me colocaram o papel plastificado, por cima do leito, com o aviso fatal, não fosse uma auxiliar distraída alimentar-me o ego ou o bandulho.

Faço aqui um pequeno desvio da narrativa para elogiar a dedicação de todos os trabalhadores do piso 3 em particular e do hospital em geral. Fiquei deveras impressionado pelo modo como se dedicavam, principalmente aos acamados sem a independência para tratarem de si, muito para além das normas, do dever e da obrigação.

A única exceção, como em toda a regra, fora a enfermeira idiota, catraia demais para saber e entender o que significa dignidade e respeito, que já te referi atrás, minha amiga, mas a coitada nem conta, nesta incrível estatística hospitalar.

Por volta da meia-noite, mais minuto, menos minuto, acordei com uma fome brutal. Abri a gavetinha da mesa de cabeceira, tirei um chocolate Mars, que comi rapidamente e depois um segundo. Depois bebi uma lata de Sumol de ananás, e fiquei bem. Tinha trazido um abastecimento de comes e bebes do quiosque-snack que ficava perto da entrada do hospital e onde eu, de cadeira de rodas, ia umas 5 ou 6 vezes por dia para fumar. Perfeitamente consolado e tendo escondido as evidências do repasto, deixei-me levar calmamente para o outro lado. O mundo dos sonhos parecia-me bem mais nítido e equilibrado, naquela altura, do que a vida real que por agora atravessava.

Segunda-feira desci às profundezas do piso zero para a muito aguardada intervenção. Soube que seria o segundo daquele dia a ser intervencionado. Era para ser o primeiro, mas, para minha pouca sorte, aparecera um caso ainda mais urgente do que o meu. Ia lindo, na cama, com uma bata branca, que pela frente parecia mais um vestido em minissaia e que pela parte de trás tinha um decote imenso até aos calcanhares.

Acordei da anestesia geral pouco depois de terem passado duas horas desde que partira do universo consciente da realidade para o sonho cirúrgico dos especialistas. Despertei irritadíssimo, a arrancar tudo, cateter, oxigénio, pulseira identificativa, soro, roupa da cama, eu sei lá. Parecia que fugia de alguém com intenções pouco católicas, que apreciara o meu referido decote traseiro. Foi uma coisa perfeitamente indescritível.

A enfermeira do bloco acalmou-me. Falou comigo muito pacientemente, lá me disse que havia pacientes que acordavam assim alvoraçados da anestesia geral. Contudo, que ela tivesse visto até àquela data, nunca lhe aparecera um com tanta genica. Não sei bem se me recordou que o Passos Coelho já não era Primeiro-Ministro, mas também não importa para o caso. Não devia ter falado sobre isso que eu estava estupido demais para análises políticas. O que realmente foi importante foi a informação que me deu sobre a minha intervenção.

Lá me contou como correra toda a operação. Infelizmente ficara a meio. Achavam que tinham partido a pedra, mas sem certezas, nem tinham tido tempo de colocar o tubo no canal biliar, um tal de stent, nem conseguido rever convenientemente se eu estava livre da pedraria clandestina que me invadira, o tal de calhau, como eu habitualmente lhe chamava.

Espantado fiquei a saber que a peça da China avariara de novo (talvez não fosse da China pensei eu, mas sim uma Peça do Chinês, com a devida qualidade que lhe deu a fama). Enfim, teria de voltar dali a um mês. Iam pedir nova peça à China. Normalmente era uma coisa de 30 dias.

Puxando pela conversa, preocupado com o sucedido, lá fiquei a saber que era normal a peça avariar e que não havia peças em stock. Sem a dita cuja não era possível fazer CPRE, ou seja, mais ou menos de 2 em 2 meses o hospital ficava privado da única máquina que tinha para o efeito por 30 dias. Uma coisa totalmente absurda tendo em conta a quantidade de gente a necessitar do equipamento.

Na terça-feira deram-me alta, esquecendo-se de me medicar para o fígado, uma vez que a CPRE me tinha deixado com um fígado a funcionar em péssimas condições. O médico gastroenterologista, que me estava indicado, apenas falou comigo depois da intervenção e nem me entregaram os exames que tinha efetuado, nem me receitaram medicação para tomar em casa.

Como consequência de tudo isso, querida amiga Berta, passei quase 4 meses terrivelmente maldisposto, sem grande equilíbrio, completamente zonzo e sem saber o que tinha. Pior do que isso, a pensar que parte do calhau ainda tinha ficado no canal biliar. Só quando fui buscar os exames e análises passados 4 meses é que descobriram que o médico se esquecera de me medicar. Nesses 4 meses estive 2 vezes com a conclusão da minha intervenção marcada, mas nas 2 vezes voltaram a desmarcar por novas avarias na peça do chinês. Foi nessa altura que me lembrei do velho Fernando Pessa: E esta, hem???

Por hoje fico-me por aqui, amanhã envio-te a conclusão desta história que não lembra ao diabo. Fica com um beijo saudoso, deste que não te esquece,

Gil Saraiva

 

Carta à Berta: A Peça do Chinês - Parte IV - A Peça Entra em Cena...

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Olá Berta,

Eis-me de volta com mais uma carta para ti. Confesso que esta nossa troca de correspondência me tem feito muito bem. Dou comigo mais alegre e mais aliviado sem saber bem porquê e, depois de pensar no assunto, acho realmente que tudo se deve a esta nossa troca de palavras. Obrigado por me escutares com tanta atenção. Eu, pelo meu lado estou sempre pronto a receber notícias tuas.

Hoje, continuando a minha aventura da peça do chinês, julgo que é chegado o momento de a peça entrar em cena. Deves estar curiosa e, embora não seja nada de surpreendente, sempre tem um ou outro aspeto cómico, por entre toda a estupefação que provoca.

Quando despertei, na quinta-feira, fiquei a saber que tinha de entrar em dieta zero. Ora, como tu sabes, minha amiga, o que eu entendo de dietas é o que escuto nas conversas que tenho contigo ou outras pessoas do sexo feminino, que, em certas alturas, falam dessa necessidade de moderar o que comem. Contudo, nunca tinha ouvido falar em dieta zero e, portanto, estava, em absoluto, na mais perfeita e maior das ignorâncias.

Ainda tentei fazer algum tipo de raciocínio. Por exemplo, no caso da Coca-Cola, quer na cola “Diet” quer na Zero, são reduzidos ou eliminados açúcares que existiam na bebida normal. Ainda pensei que ia ter que beber algo com sabor a formigas que me introduzissem numa água tipo Pedras Salgadas corando-a e cujo efeito, por entre o fervilhar das bolinhas de gás, plenamente carbonizado, teria como resultado, ao escorrer pela goela abaixo, a eliminação de qualquer tipo de açúcares que eu ingerisse com a comida. Santa ingenuidade. Nada disso.

Dieta zero, no meio hospitalar, é uma expressão amaricada para nos informarem que vamos atravessar um certo tempo de fome e sede enquanto, por cima da tua cama, estiver a placa com aquelas palavras escritas. Dito de outra maneira, o que acontece é que passamos a viver um determinado período de total abstenção de comida e bebida em que, por vezes, nos dão o direito a usufruir de um soro intravenoso, e isto se tivermos sorte, com o intuito desse soro nos suprir as carências a que ficámos sujeitos.

Tretas, comida e água que não me passe no estreito não é alimento, é sadismo. Mas afinal, porque raio é que, para além de ter de estar enfiado num hospital (mesmo padecendo de nosocomefobia ou de síndrome de “hospitalite”, ou seja, pânico de hospitais), ainda tinha que ser impedido de me alimentar?

Era tudo por causa de uma operação não intrusiva, servida de bandeja com uma anestesia geral como acompanhamento, pelas mãos de um cirurgião. A intervenção, opacamente apelidada de CPRE, tinha por objetivo partir-me o calhau.

O calhau, relembro-te, era o tal libertino fugido do estaleiro, o paquete transatlântico, que disfarçado de gôndola, se evadira de um lago chamado vesícula, e que me estava agora a obstruir o canal biliar. Assim, afundado, partido, dilacerado, desfeito ou eliminado o obstrutor, seria em seguida introduzido um tubo com vista a alargar o tal canal (o biliar, obviamente), para que esta mesma situação não se voltasse a repetir.

Era esta cirurgia, amiga Berta, eufemisticamente chamada CPRE, que significa “colangiopancreatografia retrógrada endoscópica”, e que é uma técnica que utiliza, simultaneamente, a endoscopia digestiva, procedimento que consiste na aplicação de tubos flexíveis internamente no paciente e que permitem a visualização de imagens do tubo digestivo em monitores de televisão, e o emprego da  imagem fluoroscópica para diagnosticar e tratar doenças associadas ao sistema biliar e pancreático.

Ora, por outras palavras, isto não é mais do que uma interposição direta no seio do meu tronco, com uma série de tubos de plástico (que ainda hoje não sei ao certo por onde entraram), espero que pela goela abaixo, a que acresce um emissor de raios x e sei lá que mais, que não só me observam as entranhas, através de um circuito de televisão, como reparam determinados tipos de problemas do íntimo humano, neste caso, no meu. A minha intervenção recebera luz verde para avançar no dia seguinte.

Quando da minha entrada no Hospital Egas Moniz, depois de devidamente depositado na cama 316, fora de imediato informado que já existiam outros pacientes internados a aguardar o mesmo procedimento. Até se deram ao trabalho, nessa altura, de me explicarem que isso se devia ao facto de a máquina usada para a operação ter estado avariada e que, só nessa semana é que a peça chegara, vinda da China, tendo sido necessário desalfandegá-la. Tal facto significava que, só agora, tinha havido possibilidade de ser colocada no equipamento, corrigindo a deficiência.

Ora, imagina lá, minha querida Berta, como se sente um individuo que tem pânico de hospitais, a quem dizem que vai ter de sofrer uma anestesia geral, para depois lhe meterem tubos, aparelhos de raios x e sei lá que mais, pelo corpo adentro, assim que a maquineta que o cirurgião usa para a intervenção for reparada, com uma peça do chinês… consegues imaginar?

Assim sendo, como o meu caso era muito urgente e como os outros já tinham marcação, ficara decidido que eu entraria numa aberta, entre as marcações, ou no final das mesmas, isto se ainda houvesse tempo. Para me acalmar, alguém simpático ainda me referiu que estes tipos de intervenções demoravam entre uma a 2 horas e que era normal fazerem-se mais de meia dúzia por dia. Era um procedimento muito comum diziam-me e raramente apareciam complicações durante ou depois da operação.

Fiquei mais aliviado, eu não queria estar ali, até porque o meu pânico àqueles sítios aparecia e desaparecia conforme o cheiro a hospital me entrava mais ou menos pelas narinas, fazendo-me suar frio, criando-me náuseas, gerando-me cefaleias e mais uma boa dúzia de sintomas absurdos, mas, infelizmente, minha amiga, bem reais para mim. Contudo, a dada altura, lá consegui respirar fundo e ficar mais descomprimido, de tal maneira que até passei melhor aquele dia de estômago vazio.

Tinham-me acabado de dizer que, afinal, aquilo era uma operação de rotina e que a taxa de mortalidade estava reduzida a uns meros… um por cento. Pronto, respirei fundo novamente, o meu tratamento era algo de banal, rotineiro, customizado. Aquelas palavras soaram-me a baladas românticas e os meus ouvidos, magoados com os berros da minha própria voz nos dias antecedentes, pareciam agradecer e relaxar, finalmente.

A ajudar à festa, um outro paciente, alojado naquela mesma enfermaria, o Bonifácio, mantinha a “caserna” em alta, com um sentido de bom-humor malandro, alegre e superpositivo. Para ele, qualquer elemento esteticamente interessante do género feminino era, de imediato, apelidado de paisagem. A que ia juntando adjetivos e superlativos conforme a vista. Uma excelente escolha de termo uma vez que, quando falamos de paisagens, estamos a referirmo-nos a imagens que nos atraem pela sua beleza ou singularidade.

Acontece que, pelo piso 3 do Hospital Egas Moniz, nessa altura, apareciam algumas paisagens de 2 pernas que desafiavam, de pleno direito, as maravilhas naturais que vemos em canais como o “Nacional Geographic”. Depois, ouvir o Bonifácio falar da inveja, que umas cataratas quaisquer teriam, se vissem uma ou outra paisagem, entre as que passavam pelo corredor, era meia cura para os males daquela enfermaria.

Chegou, graças aos céus, a sexta-feira e, bem no final do dia, fui informado, com muito jeitinho, que a vaga não surgira e que podia parar a dieta zero. Depois veio a segunda vaga de informação com novidades ainda melhores, pois já me tinham pedido o jantar. Entretanto, enquanto retirava do topo da minha cama o letreiro da dieta zero, fui informado que a minha operação fora transferida para a segunda-feira seguinte, logo pela manhã.

A fome era tal que, depois de finalmente jantar, achei que a comida do hospital era bem superior à confecionada por um daqueles chefes de cozinha, famosos e premiados. Adormeci a soro e de barriga cheia, a sonhar com paisagens que me faziam sorrir e lembrar que era bom estar vivo.

Hoje ficamos por aqui, minha querida Berta, despeço-me com amizade, carinho e um sorriso para a paisagem que tu própria representas, este teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

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