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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Isabel dos Santos - Uma Saga de Família que vem do Século XVII - Parte III

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Olá Berta,

Hoje, ao entrar na terceira parte da nossa história, alegadamente credível, apercebi-me que, pelo material de que ainda disponho, não vou conseguir enfiar tudo nas 2 próximas cartas. Pelo que decidi fazer um epílogo após a quarta parte desta demanda. Deixo precisamente a primogénita de José Eduardo dos Santos, Isabel dos Santos para esse epílogo.

Quando me perguntam onde é que eu arranjei a Cédula Pessoal de José Eduardo, poderia pôr-me a inventar, mas isso não faz parte do meu feitio, como bem sabes minha amiga. Durante as últimas semanas de investigação sobre toda esta temática descobri-a num blogue moçambicano de 2017. Junto com um artigo confuso, obscuro e ressabiado de uma tal Melissa Santos. Julgo que um certo ramo da família dos Santos, sempre levou a peito o cruzamento com os Van-Dunem.

Contudo, não restam dúvidas que o avô paterno de José Eduardo tinha no seu nome, por parte da mãe, ganho o direito ao apelido dos Santos. Ou seja, a bisavó paterna de José era efetivamente uma dos Santos. O apelido desaparecera novamente com o seu pai, mas ele arranjara maneira de o fazer regressar ao seio do clã, obliterando deliberada e permanentemente o uso do Van-Dunem. Aliás, esta repulsa pelo apelido nem faz muito sentido, a não ser talvez para o próprio José Eduardo ou estarei errado?

Pelo que consegui apurar José Eduardo não queria ter um apelido holandês no seu nome por razões que considerava estratégicas na sua ascensão política, mas sabia que sem os Van-Dunem, muito mais próximos do poder, nunca chegaria a lugar algum. Resolvi, por isso, querida Berta, espreitar o protagonismo das famílias Santos e Van-Dunem em Angola, ao mesmo tempo que termino a história de José Eduardo.

Começo por Aristides Pereira dos Santos Van-Dunem, um antigo preso político, que acolhe em sua casa, em 1975, o José Eduardo. Ao proteger o primo, Aristides relembra a família que este é neto de Avelino Pereira dos Santos Van-Dunem, fazendo com que o homem acabe por ser reconhecido e devidamente integrado no clã.

Volto um pouco atrás no tempo, querida Berta, porque preciso contar-te o que falta do percurso de José Eduardo dos Santos até 1975. Íamos em 1963 quando este, apenas com 21 anos, foi o primeiro representante do MPLA, em Brazzaville, a Capital da República do Congo. Ora, como reconhecimento do bom papel representado José Eduardo ganha, em novembro do mesmo ano, uma bolsa de estudos soviética e vai estudar para o Instituto de Petróleo e Gás de Baku.

Quando termina, tem a Licenciatura em Engenharia de Petróleos e o Curso Militar de Telecomunicações soviético. Durante esse tempo casa com a campeã de Xadrez Tatiana Kukanova e é lá que acaba por nascer, a 20 de abril de 1973, na atual capital do Azerbaijão, a única filha do casal, Isabel dos Santos, em pleno solo da URSS à data.

Durante 4 anos entre 1970 e 1974, a vida de José Eduardo é repartida entre a guerrilha do MPLA, em Angola (onde, logo em 1970, passa a exercer funções nos Serviços de Telecomunicações da 2.ª Região Político-Militar do MPLA, em Cabinda) e a URSS. É durante este período, conforme já te contei atrás, Berta, que nasce, ainda em Baku, Isabel dos Santos. Em 1974, depois de um excelente desempenho de funções no MPLA é promovido a subcomandante. Foi representante do partido para a Jugoslávia, a República Democrática do Congo e República Popular da China, sendo eleito para o Comité Central e para o Politburo do MPLA em Moxico em setembro de 1974.

A 11 de Novembro de 1975 é proclamada a independência de Angola e José Eduardo dos Santos, que entre 1974 e 1975 voltara à sua antiga função de representante do MPLA em Brazzaville, é nomeado Ministro das Relações Exteriores do Governo de Agostinho Neto. Com uma habilidade ímpar consegue levar a bom porto a tarefa do reconhecimento diplomático do seu governo entre 1975 e 1977. É nesta altura que, enquanto ministro das Relações Exteriores, conhece Filomena Sousa, uma alta funcionária do seu ministério com quem se junta e de quem tem um filho, numa tentativa de esquecer a relação matrimonial, entretanto terminada com Tatiana Kukanova, com quem sempre manteve excelentes relações e a quem encarregou de acompanhar a educação e os estudos da filha de ambos, Isabel dos Santos.

Graças ao seu papel no Ministério das Relações Exteriores, sobe mais um degrau na escada do poder e é nomeado Vice-Primeiro-Ministro. Segue-se a sua reeleição, em finais de 1977, para o Comité Central e para o Politburo, onde reforça a sua posição, passando a ter um lugar de destaque em ambos.

Cerca de um ano depois, consegue um dos seus principais objetivos ao ser escolhido para Ministro do Planeamento e Desenvolvimento Económico. Contudo, querida Berta, a Guerra Civil de Angola não lhe permitia brilhar da melhor forma. De um lado tinha a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e do outro a UNITA, a União Nacional para a Independência Total de Angola.

Nem um ano passara desde que se assumira como um dos principais ministros de Agostinho Neto, quando este falece, vítima de um cancro no fígado, na União Soviética, a 10 de setembro de 1979. Doze dias mais tarde substitui o presidente interino por inerência, por ser à data presidente do MPLA, Lúcio Lara, que governou o país por 11 dias, e é eleito a 20 de setembro, pelo partido, Presidente do MPLA e, no dia seguinte, assume os cargos de Presidente da República Popular de Angola e de Comandante-em-Chefe das FAPLA, as Forças Armadas Populares de Libertação de Angola.

Contudo, como se isso não bastasse, no ano seguinte, a 9 de novembro de 1980, José Eduardo dos Santos assume também o cargo, após eleições, de Presidente da Assembleia do Povo, que substituíra o antigo Conselho da Revolução e que, em 1991, com as reformas administrativas, se passaria a chamar de Assembleia Nacional, na mesma altura em que Angola deixaria cair a expressão “Popular” para se passar a designar República de Angola. Porém, para o seguimento da história, amiga Berta, apenas importa a tomada total do poder.

Com esta tomada me despeço até amanhã, ainda há muito que dizer, mas, para o que realmente me importa, a compreensão começa a ser evidente. Beijos deste teu amigo do peito,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Isabel dos Santos - Uma Saga de Família que vem do Século XVII - Parte II

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Olá Berta,

Uma vez que já te expliquei como surgiram os Van-Dunem em Africa e na América, está na altura de te passarmos à fase seguinte da nossa história em 4 atos. Esta fase, a número II, refere os antecedentes familiares de José Eduardo dos Santos. Um Van-Dunem em linha direta de um tal de Baltazar de que já te falei na carta anterior.

Contudo, já me estou a adiantar demais, nesta carta alegadamente real. Voltemos à vaca fria: os Van-Dunem prosperaram ao longo destes quase 4 séculos de história, sendo a maioria da descendência proveniente de mulheres africanas escravas, com quem Baltazar Van-Dum se cruzou.

Importa referir que a noção de racismo como algo de errado e condenável era ou praticamente inexistente ou o conceito a existir seria totalmente diferente do que é hoje. De notar que muitas tribos africanas escravizavam localmente os inimigos de outras tribos com quem lutavam e a quem venciam. Ver os brancos a fazerem o mesmo, na época, teria parecido mais natural do que nós, com uma mentalidade de século XXI, estamos dispostos a aceitar.

Muitas das escravas que tiveram filhos de Baltazar subiram nas hierarquias regionais, facto que rapidamente foi assimilado pelas cativas de então. A dada altura o que antes eram atos de dono para com os escravos tornaram-se mais voluntariosos por parte das mulheres abrangidas.

A subida na escala social, mesmo ao nível dos escravos, trás imensos benefícios. Trabalhos mais leves, menos tempo de trabalho diário, mais comida, e até chefias de grupos de escravos ou de comando de outros dentro de uma certa casa, propriedade ou localidade.

Há registos históricos dos Van-Dunem que apontam para cerca de 18 gerações, nestes 375 anos, desde Baltazar até aos nossos dias. Digo apontam, minha amiga, porque a escravatura na África portuguesa se manteve até quase ao raiar do século XX e os registos não são assim tão precisos que permitam uma exatidão infalível. Contudo, os privilégios dos sucessores de Baltazar, deram frutos e um número significativo desses servos viram a liberdade muito antes da restante maioria.

A sua muita descendência ganhou reputação ao longo da história. Desde muito cedo encontramos mercenários, assassinos, ladrões e prostitutas, entre os Vam-Dunem, mas, também, comerciantes, traficantes de escravos, piratas, agiotas, líderes de aldeamentos e localidades, homens de negócios, muitos até com estudos avançados. As linhagens foram-se cruzando com outras famílias e uma delas, nos finais do século XIX, foi a família dos Santos.

Ora o bisavô de Isabel dos Santos, pelo lado paterno, um tal de Avelino Pereira dos Santos Van-Dunem, deu aos seus filhos e consequentemente ao avô de Isabel dos Santos apenas o apelido Van-Dunem, conforme nos mostra a Cédula Pessoal de José Eduardo dos Santos. Este avô chamar-se-ia Eduardo Avelino Van-Dudem. O qual registou os filhos a quando dos respetivos nascimentos apenas como Van-Dunem no que aos apelidos diz respeito.

Antes de avançar nesta narrativa convém saber que o pai de José Eduardo era calceteiro e pedreiro (natural de São Tomé) e a sua mãe, Jacinta José Paulino (uma descendente de guineenses e cabo-verdianos, ela própria uma cabo-verdiana que cedo imigrou para São Tomé, fugindo à fome que afetava Cabo Verde naquele tempo) era doméstica.

Neste contexto fica demonstrado que o pai de Isabel dos Santos iniciou a sua vida não como José Eduardo dos Santos, mas como José Eduardo Van-Dunem (um santomense que viveu e estudou na sua terra até à quarta classe). No entanto, até a sua certidão de nascimento apareceria, bem mais tarde, dando-o como natural de Angola, nascido em Luanda, no bairro de Sambizanga, apenas se mantendo certa a data de nascimento.

É neste ponto que a história fica confusa. Há quem defenda que em 1958, 3 anos antes de se juntar ao MPLA, apenas com 16 anos de idade, José Eduardo Van-Dunem conhece, por um acaso, o seu primo, nascido em Angola, um tal de José Manuel dos Santos Torres.

É, alegadamente, este primo que lhe transmite a história dos Van-Dunem. Uma família repleta de marginalidade e com muito crime à mistura na luta pela sua ascensão social. Fica também a saber que o seu avô, tal como o primo, tinha o nome dos Santos no seu registo de nascimento.

Não há consenso sobre quando a família conseguiu mudar de nome, apenas a certeza que isso aconteceu entre 1959 e 1975. O incrível é que, de um dia para o outro, quer os irmãos e irmãs de José Eduardo, quer os pais, quer ainda os parentes mais próximos, vêm os seus registos de nascimento todos alterados, passando, como por milagre, a deixar de carregar o apelido Van-Dunem para, no seu lugar, apenas encontrarmos o apelido dos Santos. Há quem diga que a União Soviética deu uma ajuda.

Em 1961, quando rebenta a guerra colonial, já José Eduardo era membro ferrenho do MPLA. Abandona Angola e desaparece para a União Soviética, passando a coordenar a juventude do movimento no exílio. Em 1962, apenas com 20 anos, integra o Exército Popular de Libertação de Angola (EPLA), a força armada do MPLA, não se sabe bem como, porque não lhe eram conhecidos créditos ou feitos militares dignos de relevo. Mais uma vez é atribuída grande influência aos soviéticos nesta integração, mais ainda porque, em 1963, apenas com 21 anos, foi o primeiro representante do MPLA, em Brazzaville, a Capital da República do Congo.

Por hoje, querida Berta, fico-me por aqui, espero que a história te esteja a agradar, recebe um beijo de saudade, deste teu velho amigo,

Gil Saraiva

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