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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: O Que Se Passa em Campo de Ourique - Entrevistas à Mesa do Café - II - Vitor Sarameco - O Homem da Bicicleta - Parte II

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Olá Berta,

Termino hoje a entrevista ao “Homem da Bicicleta”, sob o tema “O Que Se Passa Em Campo de Ourique” que denominei de “Entrevistas à Mesa do Café”, ou seja, a entrevista ao senhor Vitor Manuel Fontes Rodrigues, vulgo Sarameco. Esta segunda e última parte decorreu na esplanada da pastelaria “AZ de Comer”.

Tenho a certeza que não foi o facto do Vitor ser do signo de Touro que o fez ganhar uma outra alcunha, esta durante os cinco ou seis anos em que passou pelos Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique, mas sim a destreza demonstrada durante os primeiros treinos da sua formação profissional enquanto bombeiro.

A destreza, rapidez e à vontade férrea de provar que estava à altura do desafio, tudo junto, somado à impressionante agilidade com que atravessava telhados, trepava andaimes ou emaranhava pelas paredes fizeram-no ganhar o cognome de Tarzan.

Nos comentários que li nos grupos de Campo de Ourique, a quando da publicação da primeira parte desta carta, houve bombeiros a lembrar o grande trepador como se as coisas se tivessem passado ontem. Achei delicioso o carinho com que ainda é recordado nos Bombeiros de Campo de Ourique. Só quem é boa gente deixa um registo positivo por onde passa, eu acho.

Mas, voltando à entrevista, tratemos de esclarecer o que faz o Tarzan de Campo de Ourique. Conforme já tinha informado o senhor Vitor é aquilo a que se costuma chamar de um “faz-tudo”, mas o que é tudo? Foi essa a pergunta que lhe dirigi. Como resposta fiquei a saber que pode ajudar numa mudança, se faltar força de braços à transportadora, que é pintor, que coloca mosaicos e vários tipos de chão, que efetua trabalhos de pedreiro, aplicação de tijolo e rebocos, que trata de diversos problemas ligados à canalização, esgotos ou até de eletricidade.

Mas pode fazer mais, se alguém precisar de mandar algo pelo correio, se necessitar de levantar e transportar umas compras do supermercado ou da mercearia, de aviar uma receita, de ir buscar ou levar coisas à lavandaria e por aí fora, o amigo Vitor faz o serviço. Não tem preço, mas diz que é barato. É o que a pessoa puder e quiser pagar, foi o que eu entendi sobre o tema. Basta ligar para o 911 75 80 86 e combinar com o Vitor.

Aliás, a bicicleta só funciona quando não está a trabalhar ou quando a usa para fazer esse tipo de recados e isso durante o dia. Afinal, esse ímpeto de ciclista já celebrou vinte anos de atividade. É, segundo me afirmou, uma grande paixão, pedalar e ir deixando música por onde passa. A bicicleta só para por avaria ou nos períodos de dois ou três meses em que se encontra fora do país, em trabalho, enquanto trabalhador emigrante.

O Vitor emigrante já fez um pouco de tudo. Apanha de pimentos e outros vegetais, apanha de fruta, trabalho na indústria dos frangos e na construção civil. “- É o que vier, a gente não escolhe, é o que vier.” Afirma, quando interrogado e acrescenta: “- Nos últimos anos já estive em Maiorca, noutras partes de Espanha, em França, na Alemanha, em Itália, na Bélgica (já lhe disse que tenho 2 filhos em Antuérpia) e em Inglaterra, haja trabalho, e eu saiba, e lá vou eu.”

Agora, aos 58 anos, a bicicleta já lhe pesa nas pernas. A que usa foi ele que a arranjou. Foi um senhor, a quem fez umas pinturas na casa, que lhe a deu, avariada, mas recuperável. Porém, é muito pesada e as pernas ressentem-se. O atual autorrádio que usa não tem “pen drive” e atualmente só consegue usar o rádio.

Quando lhe perguntei como vai fazer para continuar ele sorriu e disse-me que ainda tem três sonhos na vida e que acredita que vai conseguir chegar a todos eles, porque tem fé, muita fé. Os sonhos do Vitor “Sarameco Tarzan” Rodrigues são simples e apenas três.

Primeiro: Arranjar uma bicicleta mais leve e se possível com mudanças.

Segundo: Arrumar um autorrádio que tenha entrada para colocar uma “pen drive”, que possa tocar muitas músicas de seguida (eu já lhe gravei uma “pen” com quase mil canções portuguesas).

Terceiro: Conseguir voltar a ter o amor e o carinho de uma mulher, que o queira como companheiro e a quem ele possa amar, para poder atravessar com ela a velhice, ou seja, o Vitor procura uma esposa.

“- Como o Gil sabe bem eu já não sou novo, nem para novo vou. É muito triste envelhecer sozinho, muito triste.”

Pois é, amiga Berta, desejos simples de uma pessoa simples, transparente e, no meu entender, pura, como a generalidade do nosso povo. Oxalá ele arranje a bicicleta e o rádio mais a companheira para o resto da vida. Oxalá. No rádio e na bicicleta talvez esta carta o possa ajudar, já no campo do amor... isso são contas de outro rosário. Espero que o Vitor tenha sorte nessas coisas do coração. E assim termino, com estes votos, a entrevista sobre o Sarameco Tarzan de Campo de Ourique. Com um beijo me despeço de ti, minha querida Berta, até à próxima carta, este teu amigo do coração,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Campo de Ourique - 2019 em Revista - janeiro

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Olá Berta,

Conforme te tinha prometido na nossa última conversa telefónica vou-te enviar o ano de 2019, em revista, no que ao Bairro de Campo de Ourique diz respeito. Dividi o ano em várias partes, porque esta é, conforme sabes pelo que te costumo contar, uma “aldeia” muito dinâmica. Não se trata de uma descrição exaustiva nem completa do ano de 2019 no meu bairro, pois apenas te vou referir as coisas que, de uma forma ou outra, me foram chamando à atenção. Contudo, não deixa de ser uma curiosidade interessante, que espero que leias com gosto.

Campo de Ourique em revista, janeiro de 2019:

Logo a 3 de janeiro, quinta-feira, no Mercado de Campo de Ourique abriu o Hummusbar, um novo restaurante para quem não vive sem húmus, o espaço só tem saladas, pitas e pratos feitos com a conhecida pasta de grão. O restaurante tem uma ementa onde quase todas as sugestões são preparadas com húmus. O Hummusbar, querida Berta, é um conceito internacional que já conta com espaços na Hungria, Bulgária, Eslováquia e agora também em Portugal. Este é o primeiro no País. Todos os pratos são acompanhados com pão pita normal ou feita com farinha integral. Todas as sanduíches são recheadas com húmus, creme de tahine e legumes frescos. Depois escolhe as restantes opções.

A Junta de Freguesia abriu o mês de janeiro, no dia 4, sexta-feira, a promover o Concerto de Reis e Ano Novo, com entrada livre, na Igreja Santa Isabel, no nº. 2 da Rua Saraiva de Carvalho, pelas 21,30 com o “Coro Menor de Campo de Ourique” a abrir a primeira parte, seguido do “Bayan Quartet”, um harmonioso e bem estruturado quarteto de acordeões.

Foi no princípio do dia 10 de janeiro que abriu o restaurante Sublime na Rua Silva Carvalho. O restaurante servia (já não serve, pois, encerrou portas no final de 2019) “croquetes de farinheira” e “bowls de quinoa”. A decoração era excelente e o espaço magnífico. Toda a ementa primava por um certo requinte e inovação, porém, a escolha da rua, numa esquina pouco visível acabou por ser fatal a quem precisava de singrar desde o início. Poderia descrever-te aqui, Berta, as imensas potencialidades do espaço e as ideias da gerência, mas visto que já se encontra encerrado, não acho que valha a pena.

No dia 11 de janeiro, logo no início da tarde, pelas 13 horas, dessa sexta-feira, amiga Berta, um incêndio que deflagrou no topo do prédio nº. 91, da Rua de Infantaria 16, mobilizou 37 elementos do Batalhão de Sapadores Bombeiros e 11 veículos, a que acresceram mais 2 viaturas e 6 homens dos Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique. O incidente foi rapidamente dado como extinto às 13 e 33, tendo ficado circunscrito à cobertura do referido edifício. Por precaução foram ainda obrigados a evacuar, pelos soldados da paz, os moradores dos 2 prédios contíguos.

Na senda da boa música e sem cobrança de entrada, no dia 12 de janeiro a cantora Francisca Costa Gomes, que responde pelo nome musical de Kika, que não sei se conheces minha amiga, efetuou uma atuação ao vivo a partir das 21 e 30 da noite, no Mercado de Campo de Ourique. O estilo musical, muito característico desta voz, manteve-se enquadrado dentro dos parâmetros do rock-blues com as costumeiras pitadas de soul e pop à mistura.

A 16 de janeiro a Casa Fernando Pessoa continuou a apresentar, uma vez por mês, a visita Fernando Pessoa e Paris. De Paris, o autor português recolheu inspiração para os seus poemas franceses e o seu pré-heterónimo Jean Seul; e era também de Paris que chegavam as aguardadas cartas do amigo Mário de Sá-Carneiro. Fernando Pessoa nunca visitou a capital francesa, mas cruzou-se com ela ao longo da sua vida. Nestas visitas guiadas especiais, demos a conhecer esses pontos de ligação entre o escritor português e a francofonia. Esta visita guiada teve como anfitrião Ricardo Belo de Morais.

Foi no sábado, dia 19 de janeiro, que o Mercado de Campo de Ourique recebeu a atuação do pianista Manel, conhecido pela dinâmica das suas performances. O estruturado recital de piano, mais uma vez de entrada livre, iniciou-se pelas 20 horas, tornando a noite numa melodia de horas musicadas pelas cordas de um piano que se fez ouvir com muito agrado e mestria.

A 20 de janeiro, entre as 18 e as 22 horas, a banda de jazz, “Out of the Blue”, iniciou a sua primeira atuação ao vivo das “Jam Sessions”, que se iria repetir à mesma hora todos os domingos até 29 de dezembro, numa parceria bem conseguida com o Mercado de Campo de Ourique. As tardes de domingo ganharam sonoridades de “jam” e “jazz” para serem disfrutadas a solo, com a família ou com os amigos neste espaço do bairro, sempre com a entrada livre, o que, se estivesses por cá Berta, teria dado para termos passado uns momentos bem agradáveis.

Foi na sexta-feira, dia 25, que se pôde assistir ao vivo, sem pagar nada, ao concerto da Banda Groovelanders no Mercado de Campo de Ourique. A atuação no recinto iniciou-se pelas 9 e meia da noite. Esta banda portuguesa tem sonoridades muito próprias pois constrói os seus próprios arranjos de clássicos que vão desde os anos 50 e anos 60 do século passado até aos mais recentes sucessos da rádio. O estilo mantém-se fiel ao perfil do grupo, com a sua caraterística batida balizada entre o pop-rock e a Soul e o Funk e o Disco.

Para quem conhece a casa não são de estranhar as iniciativas da loja “Maria Granel”. Foi no sábado, a 26 de janeiro, que teve lugar o Workshop n’A MesaAlimentar as emoções- Impacto da alimentação na saúde mentalcom a formadora Alexandra Barros, psicóloga clínica e psicoterapeuta, coadjuvada pela nutricionista Carolina Santo. Esse workshop, era algo em que devias ter adorado participar, amiga Berta. O preço era em conta, cerca de 25 euros e a participação limitada devido ao espaço. Nesta ação Alexandra abordou essencialmente a forma como a alimentação pode influenciar as emoções e a saúde do cérebro, mas falou igualmente da relação inversa, para percebermos o impacto das emoções e do stress na digestão e no comportamento alimentar. Houve ainda lugar para uma pequena degustação com alimentos amigos do cérebro. A sessão iniciou-se às 10 e 30 da manhã e terminou pelas 13 e 30 da tarde.

O dia 27 de janeiro começou com uma tragédia. Mais um incêndio, que deflagrou pelas 6 e 10 da manhã desse domingo, num edifício devoluto, no nº 138 da Rua de Campo de Ourique. As chamas foram combatidas por 18 elementos do corpo do BSB (Batalhão de Sapadores Bombeiros). A lamentar houve apenas um homem ferido, que foi conduzido pelos ativos do batalhão de sapadores bombeiros ao hospital. Segundo a Agência Lusa, minha querida amiga, pelas 10 horas da manhã, os bombeiros entraram na fase de rescaldo.

Também a 27 de janeiro, o Mercado de Campo de Ourique começou a tarde com as “Jam Sessions” do trio “Out of the Blue” e realizou à noite a sua celebração do Dia Internacional do Vinho do Porto, com a presença de várias marcas de referência em provas de degustação e pratos muito especiais para assinalar a data.

O mês fechou, na minha lista de acontecimentos, com “O piano no meio da sala”, com Filipe Melo, que se realizou, com lotação esgotada na Casa Fernando Pessoa, durou uma hora e tinha um custo de 8 euros. Para falar um pouco do músico convém referir que Filipe Melo nasceu em Lisboa.  Cedo descobriu a música Jazz e o seu gosto pela improvisação levou-o a estudar no Hotclube de Portugal e posteriormente no Berklee College of Music, em Boston. É pianista, compositor, professor e arranjador. Realizou filmes, escreve Banda Desenhada e tem mais de 12 discos gravados, entre projetos conjuntos e colaborações. Com quase 25 anos de atuações Filipe Melo estreou-se a solo neste dia, no auditório da Casa Fernando Pessoa.

Podia ainda falar-te, minha amiga, de lojas que fecharam e abriram neste mês no Bairro de Campo de Ourique, das iniciativas dos clubes desportivos ou das coletividades, mas corria o risco de parecer exaustivo e talvez menos interessante.

Despeço-me querida Berta, com um beijo pleno de saudades, este teu amigo do fundo do coração, que não te esquece nunca,

Gil Saraiva

 

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