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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Não é em Campo de Ourique, mas não há duas sem três. Mais um Incêndio em Águas-.Furtadas

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Olá Berta,

Eu sei que tu não vais acreditar, amiga Berta, mas voltamos a ter mais uma coincidência em incêndios, em Lisboa, desta feita na Freguesia da Misericórdia, dos números 5 ao 15 da Rua das Gaivotas, a 1, 666 quilómetros (em linha reta) do primeiro fogo em Campo de Ourique. Pela Calçada da Estrela são 2100 metros de distância, a cerca de 9 minutos de carro da primeira ocorrência.

Desde sexta-feira esta é a terceira cobertura a arder, no espaço de 5 dias, num raio de 2 quilómetros, no coração da cidade. É verdade, todos os casos foram coberturas (mais propriamente águas-furtadas, num total de dez), em todos eles o corpo de Sapadores Bombeiros de Lisboa foi lesto a chegar ao local, todos os incêndios aconteceram do lado dos números ímpares da via, todos os três edifícios terminam em números ímpares, com especial incidência no 9, todos os prédios ficaram inabitáveis e todas as ocorrências aconteceram durante a tarde.

Desta vez a situação foi acompanhada por 60 bombeiros acrescidos em quase mais duas dezenas de operacionais e cerca de 16 viaturas. Situação muito semelhante também às 2 anteriores. Dos intervenientes no combate aos 3 fogos, apenas estiveram ausentes, os Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique. Porém, PSP, Polícia Municipal, Proteção Civil e o Corpo dos Sapadores Bombeiros de Lisboa, voltaram a marcar presença. Também a Câmara Municipal fez questão de acompanhar a situação.

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O Comandante dos Sapadores acompanhou de perto toda a situação, uma vez que se tratou de um caso ocorrido numa rua estreita e com muitas viaturas em serviço, a dar toda a assistência ao trabalho dos soldados da paz no local. Este é o mais complicado dos três incêndios dos últimos 5 dias em Lisboa, principalmente devido à exiguidade da rua e dos pinos colocados, para evitar estacionamentos selvagens, nos passeios estreitos. Aliás, são estas dificuldades que justificam que o fogo se tenha alastrado aos prédios contíguos em oposição aos fogos anteriores.

Ao todo arderam 6 águas-furtadas relativas aos edifícios dos números 5, 7, 9, 11, 13 e 15. Alguns dos prédios foram dados como inabitáveis, já no rescaldo da operação, assim como subiram de 13 para 20 os desalojados, embora todos tenham onde ficar e não tendo sido necessário a autarquia fornecer qualquer tipo de acomodação. Ora, minha querida Berta, espero terem terminado aqui os incêndios em coberturas em Lisboa. É preciso que esta situação termine com este caso, sem mais sequelas ou novos episódios nos próximos dias que se avizinham.

Com um beijinho me despeço de ti, minha amiga, esperando trazer outras notícias brevemente, que não as de trágicas ocorrências de incêndio,

Gil Saraiva

Para ver o vídeo do drone:

https://www.cmjornal.pt/portugal/detalhe/exclusivo--imagens-de-drone-mostram-destruicao-pelo-fogo-de-varias-coberturas-em-predios-de-lisboa-ha-13-desalojados

 

 

 

Carta à Berta: A Peça do Chinês - Parte III - Nova Viagem, Nova Estadia...

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Olá Berta,

Hoje, vou continuar a contar-te a minha história sobre a peça do chinês. É uma descrição, minha querida amiga, que requer ainda uma boa caminhada até ao final, no episódio 6, e este é apenas o terceiro. Contudo, julgo que não darás o tempo de leitura por mal empregue.

Esta terceira parte da peça do chinês, fala de uma nova viagem, nova estadia… um pouco mais para a frente entenderás o título. Para já, vamos ao mote deste momento único: morfina, morfina, morfina e mais morfina. Qual janado, apaixonado por uma nova droga, dei comigo na firme disposição de trair, sem o menor dos embaraços, a minha velha, boa amiga e companheira, Nicotina. A traição, um ato que sempre repudiei por achá-lo característico de pessoas estilo Donald Trump, Andrés Aventureiros, Carlos Alexandrinos e dos consumidores genéricos de metadona, aparecia no meu horizonte como algo natural, lógico e até desejado.

A nova paixão, essa deliciosa, refinada e recém-chegada Morfina, tornava não só o meu quotidiano mais fácil de suportar, como me ajudava a ter esperança num futuro sobre o qual ainda não possuía qualquer vislumbre. A nova droga transformava o tempo ao meu redor. Com ela, as dores pareciam paisagens no horizonte e a realidade era como um filme, onde os dias se passavam apenas em horas.

Sabes, minha amiga, como ficamos no inverno, depois de estar umas horas ao computador, com a mão no rato? Pois é, gelam-nos os dedos primeiro e depois toda a mão. Porém, eu interrogo-me se aconteceria o mesmo se em vez de um rato o aparelho tivesse uma rata, que te parece? Por certo a mão estaria bem mais quente e seria um prazer deslizar os dedos por ali. Ora, nesta coisa de me tirar as dores o rato aparece representado pelo famigerado Nolotil, enquanto a rata se chamaria, sem qualquer dúvida, Morfina.

Contudo, o namoro foi breve. A rata, quero eu dizer a morfina, ficou confinada e diluída na solução analgésica intravenosa durante cerca de 3 dias, sumariamente à espera da reação provocada pela atuação de outros fármacos, sendo ela, mal a coisa se tornou viável, arrancada de meus braços pelos carinhosos, mas vigilantes, responsáveis pelo meu estado de saúde. Não me queriam ver viciado na rata, digo, morfina, e esta é muito dada a criar dependência.

No quinto dia (relembro-te, Berta, que esse tempo me pareceu durar apenas algumas horas), ainda sob o efeito da minha nova paixão, mas a vê-la desvanecer-se na bruma hospitalar, fui informado que o meu problema era de cálculo. Estranhei a informação. Como poderia eu ter errado no cálculo se eu não fazia contas há dias? Não, não era nada disso. Eu estava a confundir as coisas, ainda por culpa dos efeitos secundários da droga administrada. Rapidamente voltaria a entender tudo de novo, diziam.

Aliás, um cirurgião com quem troquei algumas palavras, durante uns poucos instantes de lucidez, achara imensa graça ao meu comparativo do Nolotil e da Morfina com o rato e a rata, principalmente, pelo ar carrancudo da enfermeira que o acompanhava. Todavia, dizia-me que essa criatividade se iria dissipando à medida que a droga desaparecesse do sistema.

Por fim, com a paciência dos sábios, e usando uma linguagem que o meu cérebro meio perturbado pudesse entender, lá me informaram que um calhau, que tinha residido clandestinamente na minha vesícula, uma espécie de tonel devidamente preparado para lidar com a bílis, tal como os toneis lidam com o vinho, junto à adega, que neste caso era o meu fígado, tinha sido desmascarado e, consequentemente, posto de imediato em fuga, talvez com receio que eu lhe cobrasse renda ou solicitasse uma musculada ação de despejo.

Porém, na pressa de fugir, o meliante acabara por ficar retido numa viela, à qual o meu douto sábio cirurgião chamou de canal biliar. Em resumo, no meu entender, o velhaco calhau, disfarçado de gôndola que desliza por um canal em Veneza, tentou esquivar-se, sem ter reparado que a sua estadia o engordara ao ponto de ele nunca se conseguir fazer passar por um barco veneziano, mas sim, tomar a forma de um paquete turístico transatlântico. A consequência óbvia foi ter encalhado, nas águas pouco profundas, no meu canal biliar.

Soube mais tarde que a descoberta do vadio paquete se ficou a dever a um jovem médico, que decidira não abandonar o seu turno, terminado há algum tempo, sem pôr em pratos limpos o que era aquilo, que só ele julgava estar a ver e que lhe parecia ser efetivamente uma sombra. Uma sombra que poderia estar a ocultar algo mais, tipo o meu famigerado transatlântico. A sua observação aos resultados das diferentes ecografias, que mandara repetir por 3 vezes, contrariava a palpação e a douta opinião do experiente cirurgião de serviço e chefe da equipa da urgência, que nada sentira.

Contudo, à chegada da terceira ecografia, finalmente, o calhau, a pedra, o paquete transatlântico, foi localizado. Estava encravado ou, na linguagem marítima, encalhado, e sem hipóteses de fuga, num recanto do tal canal, ou seja, no canal biliar, que nada tem a ver com O Tal Canal, protagonizado na RTP pelo comediante Herman José, que para aqui não é chamado e cuja alusão parece referir um outro canal não só mais desejado, como também absolutamente feminino.

Em resumo, depois de 2 dias e meio de fuga, ficou claro que se impunha uma intervenção para remover o patife obstrutor da propriedade alheia, esse paquete de trazer por casa, que me levara, sem aviso prévio, a conhecer paragens localizadas muito para além dos quintos do inferno, algures em terras de Dante.

Não só já não ia ser recambiado para casa, sem sequer levar comigo um diagnóstico conclusivo, como defendera primeiramente o chefe da equipa, como teria de ser intervencionado, tipo campo agrícola, depois da passagem revolucionária da reforma agrária. Tudo isto porque, um abençoado jovem médico, daqueles teimosos e obstinados, jejuou, nadou contra a corrente e resolveu bater o pé, qual prova de triatlo original, na senda da sua nobre demanda de descobrir que raio de coisa era aquela que ele achava ser, na melhor das hipóteses, uma sombra.

Dizem que a sorte protege os audazes. Acredito que sim, contudo, também me protegeu, numa altura em que a diferença entre mim e uma múmia paralítica era apenas a dos meus gemidos de dor, sem ter sequer a consciência de estar a gemer. Portanto, o ditado devia ser alterado para esta situação bem mais abrangente, talvez para: a sorte protege os audazes e as múmias paralíticas.

Tive de esperar pelo fim de quarta-feira e o início de quinta-feira para ser transferido, definitivamente, para os serviços de gastroenterologia do hospital que guarda a memória do nosso Nobel da Medicina, na forma referenciada e clara do uso do mesmo nome. Estou a falar da minha transferência, não confundir com trasladação, até porque continuava vivo e bem vivo, para o Hospital Egas Moniz. A decisão da minha mudança de instalações fora tomada logo após a descoberta da obstrução do canal biliar e era definitiva.

Por mim aguardava essa nova viagem e nova estadia num outro lugar, num outro hospital, já devidamente diagnosticado e pronto para uma intervenção que colocaria um ponto final nas minhas mágoas e sofrimento. Mas, como em tudo na vida, cada coisa tem sua hora, o seu momento, porque tudo tem um tempo certo para ocorrer. Não vale a pena ter pressa em demasia porque, por mais que se deseje o inverso, as coisas só acontecem no tempo certo, quando, efetivamente, têm de acontecer.

No meu caso, seria uma nova viagem a efetuar, mas só quando vagasse uma cama no terceiro piso do Egas Moniz, onde estavam localizados os respetivos serviços, que interessavam à minha situação, nesta instituição. Pondo a coisa de outra forma eu só tinha 3 hipóteses para ser transferido para o local da minha nova estadia.

No primeiro caso, era se um dos pacientes do terceiro piso dos serviços de gastroenterologia morresse e eu fosse ocupar o lugar do morto, o que seria algo como me ficar destinada a cama fúnebre, a segunda situação era um paciente descobrir que ia ser operado por um seguidor do criador de Frankenstein e pôr-se em fuga do hospital indo eu ocupar o leito do apressado fugitivo, a terceira probabilidade era a de alguém ter alta hospitalar e eu receber a cama que vagasse por essa auspiciosa saída. Não existia uma quarta hipótese, nem qualquer outra alternativa para que a transferência tivesse lugar.

Vale a pena referir, que graças às “troikices” de Passos Coelho e ao desinvestimento e cativações de Centeno, já na sua mágica cadeira ministerial de guardião financeiro do pecúlio do povo português, os serviços do Hospital Egas Moniz estavam assoberbados de pacientes e carentes de recursos. Algo que nos 3 anos seguintes se tornaria no calvário de quem fosse caindo nas garras forçadas e afiadas do Serviço Nacional de Saúde, vulgo SNS.

Porém, mais uma vez, a sorte protegeu a múmia paralítica, ou seja, eu. Lá fui, uma vez mais, de ambulância, acompanhado ainda e sempre pelos prestáveis bombeiros, para a minha nova estadia, a cama 316 do Hospital Egas Moniz, acabada de vagar por um paciente que tivera alta ao meu quinto dia de Hospital São Francisco Xavier.

Importa esclarecer que muitos destes meus relatos não foram vividos diretamente por mim, embora eu estivesse presente em todos eles. Foram-me transmitidos por quem também os acompanhou, ou a minha amiga que se provou incansável em toda a saga, ou os bombeiros, os auxiliares, os enfermeiros e os médicos que, nos meus períodos muito curtos de lucidez, me foram inteirando dos diferentes factos e situações.

Só já na nova estadia, a tal cama 316 do Egas Moniz, é que o efeito da morfina passou por completo e eu regressei, qual migrante contrariado, à realidade e ao presente abandonando a bruma onde fora Senhor por alguns dias.

Sempre me lembrarei desse tempo de Senhor da Bruma, sem qualquer noção de existir, absolutamente irresponsável pelos meus atos, entregue a uma amante chamada de Morfina, mas que, para mim, fundia Vénus e Minerva numa só entidade mítica e maravilhosa. Iria ter saudades, minha querida amiga Berta.

Foi no dia seguinte que, pela primeira vez, me falaram da Peça, sim, a do Chinês. Contudo, amiguinha, isso fica para a quarta parte da nossa curta novela. Despeço-me com um beijo de saudades, este teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

Carta à Berta: A Peça do Chinês - Parte II - E Vieram os Anjos...

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Olá Berta,

Ontem comecei a contar-te a minha saga sobre a peça do chinês. Vou continuar o relato, minha querida amiga, esperando que tenhas a paciência de leres todos os episódios, até ao fim, sem saltares nenhum. Garanto que a tua paciência será recompensada por alguns sorrisos e uma ou outra gargalhada.

Esta segunda parte da peça do chinês, relata a vinda dos anjos, contudo, não me vou adiantar demais, para já, mas lá chegaremos. Continuando onde ia, cumpre-me dizer-te, minha amiga, que, vindo do nada, qual raio fulminante, oriundo dos quintos de algum sítio que desconheço, uma dor aguda atingiu-me, numa zona que normalmente designo por pança ou bandulho, transformando-me numa espécie de boneco de trapos, daqueles que têm o mesmo ar idiota, como de um certo anúncio de amaciador de roupa, que vemos na televisão de tempos em tempos, atirando-me ao chão.

Esta dor aguda, lancinante e indescritível, apareceu em menos de centésimas de segundo, conseguindo ter a habilidade extrema de tornar o tempo imóvel. Era como se os relógios do universo tivessem todos decidido estacionar os ponteiros. Naquele momento apenas existia dor, sofrimento, agonia e nada mais. A vista deixou de ver, o palato perdeu o gosto, o nariz ficou sem cheiro, o olhar tornou-se surdo, os olhos deixaram de ouvir e os braços, cotovelos, pulsos, mãos e dedos partiram, quais migrantes ilegais, para parte incerta, abandonando o tato, o sentir e a capacidade de me ancorar.

Primeiro, fiquei de joelhos, prostrado, rendido a uma tortura pérfida que me invadia por dentro, consumindo-me o sistema nervoso, que gritava, em pânico, gritos mudos de rendição e suplicas babadas de piedade. Ainda ajoelhado, nessa posição adequada e própria para a época natalícia e festiva que se aproximava, tentei, com as escassas forças e entendimento remanescente, descobrir se existiria alguma estratégia possível de rendição, todavia, o inimigo, fosse lá ele qual fosse, apenas transmitia sofrimento e nada mais, aparentemente, nada preocupado, nem curioso, por saber por quanto tempo eu aguentaria até perder os sentidos e me render à sorte ou ao destino agora projetado.

Ainda hoje não consigo descortinar onde fui buscar recursos e reforços para logo depois, de rastos, armado em comando em prova de choque, munido de uma dificuldade que me parecia surreal, me conseguir transportar, por uns parcos 10 a 12 metros, até a um leito onde, instintivamente, adotei a posição fetal, que durante nove meses me protegera há 55 anos atrás. A situação era de tal configuração, dramática e aflitiva, que, por breves instantes, quase entendi pelo que passam as vítimas da guerra em Aleppo e outros locais semelhantes, quando surpreendidas por um ataque súbito.

O teto da casa fundiu-se com as paredes, a colcha da cama, os móveis e os bibelôs, numa massa disforme que voluteava espirais vertiginosas, compostas de escuridão e dor, algures no limite da velocidade da luz, fazendo-me partir, sem bagagem nem cintos de segurança, para o buraco negro da total inconsciência. Pelo que me foi descrito mais tarde apenas desmaiei.

Ainda ciente dessa parte do percurso desdenhei, com ganas de perplexidade, o uso da palavra apenas. Apenas o tanas, aquilo fora, certamente, a descoberta dantesca de um dos múltiplos portais do inferno, isso sim.

Porém, contou-me, dias mais tarde, a minha senhoria e querida amiga (que dividia nessa altura a casa comigo, há pouco mais de 8 anos), que eu, nesse dia, a tinha convidado para jantar comigo e que assistira a toda a cena sem muito poder fazer. Informou-me que eu nem a via, ouvia ou mesmo a sentia ali presente, qual autista perdido num mundo fora do quotidiano dos dias e das noites, gritando perdido, metaforicamente, por uma ajuda que não tinha como receber, por não poder ser escutada fora de mim, como é usual nos gritos mudos.

Precisando eu de ajuda divina, foi ela quem encontrou a alternativa mais próxima do auxílio dos céus, através de apelo telefónico desesperado, aos Anjos da Noite, uma organização empresarial que envia médicos ao domicílio, sem asas, infelizmente, e de aspeto bastante humanoide. Aliás, de Anjos, aqueles seres da noite, somente deviam ter o nome, tal como um oásis mantém o seu, mesmo depois de se ter rendido há muito ao deserto, seca que ficou a sua fonte de vida.

Todavia, a palavra noite, que lhes assentava como uma luva e que poderia muito bem significar trevas, a ter em conta os preços, verdadeiramente demoníacos, cobrados pelos serviços ficticiamente prestados. A mim calhou-me uma doutora que, a julgar pelo rosto indisposto e descomposto, pela voz de cana rachada e pela ausência de formas, pouco ou mesmo nada deveria à divina intervenção do Altíssimo.

Falhou integralmente o diagnóstico, na sua douta ignorância de quem se deve ter formado, inteligentemente, à custa das passagens administrativas dos tempos revolucionários, mas conturbados, do pós 25 de abril. Segundo a especialista, o meu problema, como me doía a pança, era certamente uma gastrite.

Tivesse eu tido, naquela altura, a mínima capacidade de reação intacta, ter-lhe-ia dito, como todas as letras, onde é que ela podia meter a gastrite, mais a estupidez do diagnóstico de trazer por casa, acrescido da ignorância escondida num diploma médico, conseguido de modo dúbio, nalguma feira da ladra, realizada pelos adros tortuosos do sistema educativo. Contudo, infelizmente, a minha nula capacidade de agir, quanto mais de reagir, permitiu que a fulana do estetoscópio escapasse impune à minha revolta.

Ora, sem qualquer surpresa, Berta, nada disso me trouxe qualquer desconto, nem o tratamento apontado me tirou as vertigens, o suor frio e as dores que, por essa altura, já me faziam imaginar uma miraculosa gravidez, bem no seu término, em momento de parto, sem dilatação e a necessitar de fórceps. Porém, a referida desasada, portadora do tal canudo (posso garantir, em boa hora, que o dito nunca me foi mostrado), num golpe de lucidez, que jamais se adivinharia vir daquele tipo de gente, lá aconselhou que era melhor chamar os bombeiros e ir para o hospital.

Nada a criticar, todos os anjos são bem-intencionados, e, mesmo sem entenderem um boi daquilo que deviam praticar e exercer, por falta de conhecimentos ou de vocação, não lhe posso negar, minha amiga, a extrema utilidade de um conselho que me custou quase cem euros, nessa noite.

Muito, mas muito mais difícil é imaginar dois bombeiros a levar o meu incapacitado metro e oitenta e dois, quase que inconsciente, escada abaixo, três pisos até à rua, num prédio sem elevador, edificado muito cedo, algures no princípio do último século do milénio passado.

Penso que foi a força da gravidade que acabou por ajudar a colocar os 85 quilogramas da massa, contorcida e em guerra consigo própria, que me representava, na maca da viatura dos soldados da paz, ainda para mais se tivermos em linha de conta que a velha escada de carvalho, era, nos 2 primeiros lances da descida, complicada de ultrapassar.

Afinal, os 18 degraus e os 2 patamares, estavam adornados com 52 vasos de plantas de interior, uma coleção de que muito me orgulho e que absorvem, para seu belo proveito, a luz, que a claraboia, a uns 5 metros de altura, convida a entrar, com a função de dar vida ao espaço, aliás, tu conheces bem, Berta, até o elogiaste muito, da primeira vez que jantaste aqui em casa.

Assim sendo, continuando a narrativa, carregar um peso morto de quase 100 quilogramas, embora vivo, por esta selva decorativa e vegetal, onde a largura deixada em cada degrau apenas permitia a presença de uma pessoa e não de 2, lado a lado, foi uma obra digna dos poemas épicos de Camões ou uma lança em África, enterrada à custa do suor e engenho de 2 ilustres e abnegados bombeiros.

Cheguei às urgências do céu algum tempo depois, a um local que dá pelo nome de Hospital São Francisco Xavier, onde fui alvo de carinho e atenção. Bem, estou a exagerar neste ponto. Deveria dizer, para ser correto no relato, que me contaram que fui bem tratado, que toda a gente se mostrou solicita e carinhosa. Contudo, eu não faço a menor ideia pois, nos momentos de consciência, muito poucos por sinal, apenas me recordo da tortura e das dores dentro de mim e mesmo nada mais.

Aliás, consegui imaginar-me um rato de laboratório, passando pelo raio x, análises sem fim, macas que chiam, chocalham e batem nas esquinas, ao serem transportadas de um lado para o outro, três ecografias, quatro médicos e um cirurgião, onze enfermeiros e seis auxiliares, soro, cateteres, medicação intravenosa e sei lá que mais…

Finalmente, no meio do martírio, acabei por concluir que, provavelmente, estava num purgatório, onde ainda teria muito para sofrer. A verdade, todavia, era outra bem diferente. Passaram 3 dias (que a mim apenas me pareceram cinco horas) e, dos quais, confesso, não tive grande consciência.

Lembro-me das dores, de vozes de fundo, de ser transportado entre espaços, e muito pouco mais, para a imagem ser mais clara, minha querida amiga, pensa como se deve sentir uma encomenda dos correios, no seu trajeto infindo entre o ponto de partida e o destino. Já imaginaste? Agora acrescenta uma boa dose de inconsciência, intercalada com dores lancinantes e agonia, e poderás ficar com uma ideia.

Graças a alguma divina intervenção, algures, no meio deste percurso, tudo acalmou e eu viajei para um adorável spa de primeiríssima classe. Descobri mais tarde que a partida para o dito spa, se traduzira, na realidade, na chegada abençoada da "Santa Morfina dos Aflitos"…

Por hoje é tudo, amanhã entraremos na terceira parte. Recebe um beijo amigo deste que nunca te esquece,

Gil Saraiva

Os Bombeiros Voluntários

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Olá Berta,

Escrevo-te para desabafar contigo sobre uma notícia que li hoje no Diário de Notícias. Não sei se já a leste também, entretanto, devido ao tempo que esta carta levará a chegar a ti. Contudo, não importa, o desabafo é mais lato do que a notícia em si.

Esta madrugada a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Borba foi atacada por um grupo de etnia cigana, talvez uns 20, diz o jornal, descontentes com o facto de a corporação ter desviado para o 112 uma chamada de urgência que os atacantes, ou gente próxima destes, tinha feito para o quartel. Para além dos danos psicológicos e do medo que ficou e ficará instalado entre os soldados da paz, ainda existiram 2 feridos ligeiros entre os voluntários. Sem a intervenção pronta da GNR o caso poderia ter tido ainda mais graves consequências.

Os Bombeiros estão também a ser criticados por, na sua página, se terem referido aos atacantes como “pessoas”, com a palavra escrita entre aspas. Indagados sobre o assunto, os Voluntários, já esclareceram que as aspas nada têm a ver com a etnia dos atacantes, mas com a força desmedida do ataque e a raiva que parecia possuir os meliantes.

Estou inteiramente solidário com a associação humanitária, bem como com as declarações que escreveram e prestaram. Não faz sentido que uma qualquer parte de uma dada população decida atacar os soldados da paz, devido a uma decisão de serviço, que se exige, para otimizar recursos e competências, a cada momento do dia. Os bombeiros não reencaminham uma urgência, para outro serviço de apoio, se disso não tiverem necessidade.

Contudo, e agora falando em termos genéricos, até os Bombeiros Voluntários deste país precisam de uma autoridade superior que monitorize as suas ações, servindo para isso a criação fiscalizações rigorosas no que concerne às atividades destes, às suas instalações, aos recursos e à gestão de instalações e de outros serviços e contratos existentes. Afinal, estes indivíduos também são pessoas, com todos os defeitos e qualidades que, genericamente as pessoas têm, ou seja, se uma grande maioria está ali por um bem mais elevado, nem todos seguirão esse padrão. Uma fiscalização cuidada evita erros, problemas, excessos, gastos indevidos e desperdícios.

Conforme sabes, fui presidente de uma associação de bombeiros voluntários no distrito de Lisboa e posso-te confidenciar que esse tipo de fiscalização deve ser sempre bem-vinda. Em primeiro lugar, é preciso não esquecer que os bombeiros, mesmo sendo voluntários, são pessoas pagas pelo serviço que prestam às suas associações e que recebem um ordenado mensal, 14 vezes por ano, isto sem contar com os diferentes suplementos e remunerações assessórias a que têm direito em determinadas situações.

Para além disso, as associações têm, na sua área de intervenção não apenas o combate ao fogo ou assistência rodoviária ou de saúde, mas outras, como o fornecimento de água às populações, passando pelo reabastecimento de piscinas, vigilância e controlo de condições de segurança em recintos de eventos e espetáculos e, há ainda, os que possuem atividades recreativas ou desportivas dedicadas aos seus sócios, sejam piscinas, ginásios, serviços de consultas médicas, entre muitos outros. Em resumo, uma associação destas movimenta muitas centenas de milhares de euros anualmente, tendo por isso de ser devidamente escortinada no respeitante às suas ações, gastos, despesas e receitas.

Não te passa pela cabeça as coisas que podem fazer facilmente com que uma associação passe de uma situação folgada em termos económicos para uma verdadeiramente aflitiva e deficitária. Muitas vezes nem se trata de marosca ou falcatrua, mas de puro desleixo. Existem contratos anuais com diversas empresas e entidades que precisam de muita verificação e, até as tabelas de serviços prestados, necessitam de uma atualização constante, para que os bombeiros não fiquem no prejuízo.

Os exemplos que te posso dar, com base da minha experiência, vão desde veículos que não são os da associação a serem reparados, como se o fossem, na oficina da instituição, ficando os custos todos a seu cargo. Uma marosca de alguns mecânicos para ganharem uns cobres extra, que pode custar milhares à associação, passando por avenças anuais, pagas mensalmente, feitas com canalizadores, eletricistas, formadores de atividades extra, técnicos de manutenção das piscinas, etc., que envolvem quantidades elevadas de dinheiro sem que, por exemplo, o prestador do serviço seja visto no quartel durante meses a fio, quando era muitíssimo mais económico contratar um técnico especializado caso a caso, ou ter alguém pago como funcionário a prestar esse trabalho. Mas os truques ou os devaneios podem ser encontrados em quase todos os setores, seria complicado enumerá-los.

Para não estar aqui a explicar tudo posso dizer-te que das verbas recebidas, num só ano, a instituição pode perder mais de 45 porcento das suas receitas, sem quase dar por isso. Até as vendas de veículos especializados, e o respetivo equipamento, à associação, carecem de enorme escrutínio. Sabias que, quando fui eleito presidente, para encher uma piscina de um sócio, o preço da tabela era de 25 euros, enquanto que para o fazer os bombeiros gastavam mais de 100? Como este exemplo podia dar-te outros 50. Enfim, é preciso profissionalizar a gerência das estruturas de direção. Alguns dos diretores ou o presidente, deviam passar a ser pessoas com requisitos de gestão obrigatórios e estar na associação a tempo inteiro sendo remunerados pelo serviço prestado. Só assim se pode evitar que as fugas, as maroscas e os truques aconteçam.

Em conclusão, o que te quero dizer é que os soldados da paz, são, na sua esmagadora maioria, instituições compostas por gente simples, muitas vezes sem grande nível académico, mas que tudo fazem por uma profissão pela qual são capazes de dar a vida, contudo, a gerência e a fiscalização são absolutamente necessárias, para se poder arrancar, uma a uma, todas as ervas daninhas que possam minar algo tão prestigiante.

Desculpa lá o desabafo de um vagabundo, mas gosto demasiado dos nossos corpos de bombeiros, para assistir indiferente a situações como a de hoje. Recebe um beijo deste teu saudoso amigo,

Gil Saraiva

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