Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Sócrates e a Nova Maioria Silenciosa

Berta 519.jpg

Olá Berta,

Não sei se já te chegou aos ouvidos, mas há quem defenda que há uma nova “Maioria Silenciosa” em Portugal, em crescendo. Provavelmente tu nunca ouviste falar da “Maioria Silenciosa”, mas eu, que estava a pouco mais de um mês de fazer 13 anos, ainda me recordo bem, talvez por ter vivido no seio de uma família que seguia de perto os acontecimentos políticos do país, como os tinha seguido antes do 25 de abril e como o continuou a fazer depois disso.

Porém, sendo tu uns anos mais nova do que eu, talvez não tenhas dado pelo evento. A dita maioria da altura tentava apoiar o General Spínola, o então Presidente da República, a fazer uma viragem à direita. O apoio nuclear vinha de antigos elementos do antigo regime, principalmente antigos membros da Legião Portuguesa, da ala militar mais conservadora do MFA e de um conjunto substancial de dirigentes dos partidos políticos ligados à direita do espectro político, entre eles, muitos elementos do PP/MFP (Partido do Progresso / Movimento Federalista Português), do PDC (Partido da Democracia Cristã) e do PL (Partido Liberal).

A intenção era gerar uma Manifestação da chamada “Maioria Silenciosa” no dia 28 de setembro de 1974, de apoio a um novo rumar político, com Spínola, à direita. Um golpe travado por Otelo Saraiva de Carvalho, que viria a colocar o General Costa Gomes na presidência e Vasco Gonçalves no lugar de Primeiro-Ministro. É a mudança do Primeiro PREC (Processo Revolucionário em Curso), com a ala direita da Revolução a tentar consolidar o poder, para o segundo PREC com os comunistas a instalarem-se na liderança do país, com unhas e dentes.

Há quem diga que os Estados Unidos da América estavam por detrás do apoio a Spínola (pois queriam evitar um regime comunista em Portugal) e que o nome da “Maioria Silenciosa” era uma inspiração vinda do Presidente Nixon, que a usara pela primeira vez para designar a parcela do povo americano que, segundo ele, o apoiaria na sua política da guerra no Vietnam, algo que historicamente nunca ficou provado existir na realidade. Nixon pediu a demissão em agosto de 1974 sendo substituído por Gerald Ford, quando a organização da “Manifestação da Maioria Silenciosa” em Portugal estava em marcha.

Mas, voltando ao rumor desta nova “Maioria Silenciosa” existente no país, agora, ela tem tudo a ver com os apoiantes declarados (poucos na atualidade) e os outros ocultos (muitos, segundo o rumor) de José Sócrates, que, tendo-lhe dado em eleições a única maioria absoluta que o Partido Socialista já teve em legislativas, nunca engoliram a tese do bandido preso em direto na televisão. Pela primeira vez, trata-se de um silêncio do centro e da esquerda moderada, gente que deixou de se pronunciar, para não ser alvo do populismo crescente dos últimos sete anos.

Ora, quem lê ou escuta os comentadores e analistas políticos na comunicação social em Portugal, não encontra sequer vestígios de que tal maioria possa existir. Segundo eles o povo está, na sua quase totalidade, contra o ex-Primeiro-Ministro, José Sócrates. Nem Miguel Guedes, que em agosto de 2020 falava de uma “Nova Maioria Silenciosa”, a identificava com o renascer deste político.

Todavia, há quem ache que aqueles que clamam e se revoltam contra o juiz Ivo Rosa, mais os que se indignam da pronúncia do mesmo relativamente à instrução do processo para julgamento da Operação Marquês, que fazem vergonhosas petições online, não passam de uma minoria barulhenta de gente de direita.

Há quem reforce que a estes se juntaram muitos dos intelectuais, pensadores e analistas míopes de uma esquerda ressabiada, associados aos populistas crescentes das “fake news”, das teorias da conspiração e do “novo riquismo pseudo-salazarista do passismo iluminado” de Passos Coelho, que provocou a queda do último governo de Sócrates, num passado, não assim tão remoto, como agora nos parece ser, mas que ainda está bem presente na memória dos que sofreram com os anos da austeridade imposta sob a bitola da ameaça e do medo.

Para os defensores desta dita “Maioria Silenciosa” os críticos de Sócrates são os analistas ingénuos, os políticos rivais, os crentes nas versões tabloides do “Correio da Manhã” e das teorias conspirativas de Manuela Moura Guedes, associados aos populistas e ao povo que ainda acredita nos noticiários.

Pessoalmente, minha querida amiga Berta, eu estou como São Tomé no meio de toda esta história. Por outras palavras, preciso de ver para crer. Se, daqui para a frente for visível um movimento crescente de apoio a José Sócrates, se daqui a cinco anos, em 2026, ele for candidato a Presidente da República e se ganhar a eleição (coisa que hoje penso ser inverosímil) eu juro que dou a mão à palmatória.

Até lá, ficarei instalado na primeira fila, pronto para acompanhar o espetáculo, a ver o renascer da Fénix Política na pessoa de Sócrates (situação da qual me afasto, enquanto crente ou defensor de tal ideia). Se a dita terceira “Maioria Silenciosa” existir (coisa que se provou ser falsa nas duas primeiras vezes), cá estarei para dar razão aos defensores deste milagre político português. Porém, até lá, conforme já referi, por muito que eu não goste do populismo em voga, dos analistas de sofá, dos tabloides com agenda política, dos acéfalos pseudointelectuais, dos linchadores de trazer por casa, dos alimentadores de “fake news”, dos políticos de direita assanhados e dos de esquerda acomodados no status quo das conveniências, ficarei pacientemente à espera de ver tão inacreditável resultado.

Se hoje trouxe o assunto a esta carta, minha amiga, foi para que não se diga no futuro que não dei pelo fenómeno, quer ele seja real ou apenas uma vontade de alguns socráticos. Por hoje é tudo, recebe um beijo deste teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Sócrates - A Montanha Pariu um Hámster - II/II

Berta 518.jpg

Olá Berta,

Termino hoje a carta a que ontem dei início sob o tema: Sócrates - A Montanha Pariu um Hámster - Parte II/II. Ora, tentando lembrar-te, minha amiga, a Operação Marquês não começou em novembro de 2014, altura em que Sócrates foi escandalosamente preso ao vivo na televisão. A história tem início cerca de um ano e meio antes, pelo menos, digamos que entre fevereiro e abril de 2013 quando o processo começou a ser montado. Portanto, faz agora, grosso modo, oito anos que tudo começou.

Nesses oito anos, um tempo longo em termos de justiça, Sócrates conseguiu transformar uma acusação de 31 crimes que lhe eram imputados, entre os quais três eram de corrupção, em seis, sendo que, agora que se encontra terminada a fase de instrução do processo, o crime mais grave é o de branqueamento de capitais. A própria Operação Marquês viu reduzida uma acusação de dezenas de milhares de páginas num despacho de pronúncia que não chega às sete mil páginas.

Haverá, porque existem sempre os que assim pensam, quem diga que, mesmo assim, o ex-Primeiro-Ministro vai a julgamento acusado de três crimes graves e de outros três de menor relevância. Ora, tal facto seria verdade se o Ministério Público não fosse recorrer do despacho do processo de instrução agora concluído pelo juiz Ivo Rosa.

Porém, nos próximos 120 dias, o Ministério Público irá preparar a sua contra-argumentação para levar para o tribunal da relação uma acusação mais forte do que aquela que foi efetivamente pronunciada por Ivo Rosa. Ora, estes 120 dias a serem aceites são, na verdade, 150, porque o prazo termina nas férias judiciais de agosto próximo. Depois disso a defesa dos arguidos terá direito a um tempo equivalente para contrapor o que for refutado pelo Ministério Público. O resultado deste embate determinará algures no primeiro trimestre de 2022 o que irá efetivamente a julgamento nessa altura.

Até lá, esperamos nós, ficaremos também a saber, porque o juiz Ivo Rosa mandou retirar nesse sentido uma certidão do processo, se a escolha do juiz Carlos Alexandre, responsável pela elaboração do processo nos primeiros anos, desde 2014, até à instrução de Ivo Rosa, foi ou não escolhido de forma isenta, ou seja, de acordo com a lei. Não sei se estás lembrada, minha querida Berta, mas este foi um dos maiores cavalos de batalha da defesa de Sócrates, agora, finalmente, plasmada nesta decisão do juiz de instrução.

A primeira consequência desta certidão, caso venha a ser provado que houve uma escolha concertada do juiz Carlos Alexandre, é a total nulidade do processo, ou seja, a Operação Marquês poderá nem chegar à barra do Tribunal da Relação. Poderás argumentar, minha amiga, que esse cenário é remoto, contudo, eu acho-o bem provável.

Aquilo para que eu te quero alertar, minha amiga, é que toda a Operação Marquês corre o risco de cair por terra algures durante este ano e o início do próximo. A conclusão da certidão mandada extrair por Ivo Rosa, sobre este assunto concreto, pode vir a gerar um primeiro cenário: o arquivamento da Operação Marquês. Ora, se tal acontecer, não vejo que se consigam reunir condições efetivas para o Ministério Público avançar com uma segunda Operação, porque esta correria sérios riscos de se tornar na Operação Fantochada, o que poderia arrasar, ainda mais, o próprio Ministério Público.

Apesar de tudo, este é apenas o primeiro cenário dos três que de momento são possíveis. O segundo é, não havendo arquivamento, o Ministério Público conseguir levar a sua avante e a relação mandar para julgamento o ex-Primeiro-Ministro com acusações superiores às agora apresentadas por Ivo Rosa, isto é, Sócrates poder ir a Tribunal acusado novamente entre 7 até 31 crimes, bem como se ver revertida parte ou a totalidade dos crimes imputados a outros arguidos que assim teriam de voltar a julgamento.

Contudo, tentando ser realista, não deverá acontecer uma reversão total das decisões de Ivo Rosa, até porque a população não compreenderia que a justiça pudesse decidir algo e o seu contrário num caso desta natureza. Aliás, é preciso não esquecer que se o Ministério Público tem cerca de 150 dias para apresentar a sua dama à Relação, também a defesa dos arguidos possuirá de um tempo igual para a rebater. Porém, na prática, nada impede a defesa dos arguidos de começar já a rebater e a preparar a contra-argumentação, dispondo dos recursos que o dinheiro dos acusados proporciona, acabando na prática por ter o dobro do tempo da acusação e dez ou vinte vezes mais meios e verbas, para impedir a reversão das decisões do juiz Ivo Rosa, pelo Tribunal da Relação.

O terceiro cenário é o de, efetivamente, a Relação mandar para tribunal o caso exatamente da forma como o caso foi pronunciado por Ivo Rosa, devido ao facto de a acusação não ter conseguido convencer os novos juízes da sua razão, até porque a defesa terá muito mais tempo e recursos para contra-argumentar. Neste caso, só avançará para tribunal o que foi apurado por Ivo Rosa.

Assim sendo, seja qual for o cenário que aconteça, José Sócrates está, pela primeira vez, em grande vantagem. Já conseguiu semear a dúvida na opinião pública e agitar aqueles que o apoiam, e que até aqui se mantinham calados, a seu favor. As condições do Ministério Público para gerar uma acusação como a anterior são inversamente proporcionais às que foram na primeira acusação. Quer isto dizer que Sócrates, depois de 8 anos de processo, sempre na mó debaixo, parte para a segunda ronda com uma vantagem enorme sobre a acusação. Quer isto dizer que, daqui para a frente, a vida de Sócrates é mais risonha.

Se estás com dúvidas, amiga Berta, eu explico. Os meios da acusação, daqui para a frente, em qualquer dos cenários, resumem-se aos dois procuradores e pouco mais. Por outro lado, os meios dos arguidos aumentam exponencialmente. Não só já sabem de que são acusados, pela primeira vez, como têm manifestamente mais verbas, tempo e mão de obra, para combater e contrapor todos os prossupostos da acusação, passando o papel de Golias a ser representado pela defesa, inversamente ao que vinha acontecendo até aqui. Em qualquer dos casos a astúcia de Sócrates sai vencedora, faltando apenas apurar até que ponto ela será capaz de se elevar na contenda.

Há ainda um quarto cenário, que só tem possibilidades de se desenrolar se o caso chegar a julgamento. Se o juiz nomeado para conduzir os destinos do julgamento for, digamos assim, um socrático (para não falar em mais corrupção) e for favorável à defesa, então Sócrates arrisca-se a sair ilibado de todos os seus crimes e a pedir uns milhões de indeminização pelos danos que lhe foram causados. Aliás, mesmo que seja um juiz isento, ao recorrer, voltam a estar em cima da mesa as mesmas possibilidades de Sócrates conseguir “arranjar” um juiz que lhe seja favorável e assim sucessivamente até ao caso chegar ao Supremo Tribunal de Justiça. No meu modesto entender, querida Berta, a pronúncia de Ivo Rosa, colocou, definitivamente, Sócrates na mó de cima e o homem, para quem já se possa ter esquecido, é um feroz animal político muito combativo.

Conforme expliquei, daqui para a frente, não está em causa sequer se Sócrates é ou não culpado seja do que for que acabar por ser acusado, mas sim, que ele possui todas as possibilidades e muitas das probabilidades de vir a ser ilibado de todas as acusações. Não é claro que seja esse o desfecho final, tal como João Pinto eu só faço prognósticos no final do jogo, mas tudo joga a favor de Sócrates.

Dito isto, amiga Berta, não me admiraria se, daqui a cinco anos, Sócrates se possa apresentar como candidato a sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa. Mas isto sou eu a pensar, que não passo de um poeta e um lírico. Por hoje é tudo, resta-nos esperar pelo resultado do próximo embate a acontecer algures no primeiro trimestre de 2022. De qualquer maneira, e para já, a montanha pariu um hámster muito querido e fofinho, digam os críticos o que quer que digam. Despeço-me com um beijo e até à próxima carta,

Gil Saraiva

P.S.: Esqueci-me de te dizer que a primeira agitação será a dos indignados contra Ivo Rosa, porém, por muito barulho que façam, nada resolverão porque a justiça não se pode nunca submeter a julgamentos de praça pública. Fica bem, minha querida amiga,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Sócrates - A Montanha Pariu um Hámster - I/II

Berta 517.jpg

Olá Berta,

Começo esta carta de hoje por te recordar duas cartas que te escrevi. Uma a 1 de novembro de 2019 e outra a 24 de novembro de 2019. Chamei-lhe à primeira, na altura: “José Sócrates: O Caso”. Conforme vais poder reler eu tinha toda a razão no que dizia então, mas vamos à primeira carta sobre o assunto que te escrevi nesse longínquo dia “pré-covidiano”:

“Carta à Berta: José Sócrates – O Caso em 01/11/2019

Minha querida amiga, é com alguma tristeza na alma que te escrevo hoje. Descobri, confesso que por acaso, que o caso do julgamento do ex-primeiro-ministro, José Sócrates, está outra vez na atualidade política. Por fim, começou a fase de instrução do processo, e, finalmente, a defesa tem voz ativa no decorrer dos trabalhos. Como tenho visto pouco as notícias, a situação estava a passar-me ao lado. Contudo, pelo que apurei, o juiz Ivo Rosa tem vindo a ouvir as alegações de Sócrates contra tudo aquilo de que o acusam, desde a corrupção, aos seus sinais exteriores de riqueza, passando pelo branqueamento de capitais e sei lá que mais. Não me interessa.

Aliás, nem me interessa, neste momento, saber se o homem é ou não culpado. O que eu sei é que, graças à nossa comunicação social e à forma como se criam e produzem as notícias neste país, Sócrates já foi há muito considerado culpado e condenado pelo povo que governou. Deve haver pouca gente que não tenha uma opinião formada, e normalmente negativa, sobre o ex-governante, em Portugal.

A coisa é de tal forma que, os seus irmãos de partido, fogem dele como o diabo da cruz. Todos evitam ao máximo estar associados a acusado e às coisas lhe são apontadas. Repara, estes são os amigos mais próximos porque, os antigos adversários políticos, fazem bem pior. Parecem cães raivosos a espumar pela boca, exigindo a pena máxima para aquele que não conseguiram derrotar em democracia. Por fim, não menos importantes, são os invejosos e os que gostam de dizer mal de tudo, os que não podem ver alguém melhor do que eles na vida, e que afirmam, do alto da sua douta inteligência e sabedoria, que sempre disseram que o homem é corrupto.

Enfim, podem ter todos razão, Sócrates até pode ir a julgamento, ser condenado, preso e o caso terminar dessa forma triste para a imagem nacional, para gáudio das hostes enfurecidas, que isso não melhora a situação. Assim sendo, internacionalmente, ficaremos vistos como um país de poucachinhos, de terceiro mundo, onde todos roubam, da peixeira na banca do mercado, que inchou os camarões com água, aos mais altos representantes nacionais.

Pergunto-me se isso é bom? A única coisa que se poderá dizer ser positiva sobre a situação, caso aconteça, é que prevaleceu a justiça e que ninguém está acima da lei. Mas isso não iliba a nossa imagem, como país, e iremos certamente ficar na lama, enquanto as pessoas realmente de bem terão de esconder o rosto de terceiros, pela vergonha a que seremos todos votados com esse resultado.

Por outro lado, o que acontecerá se Sócrates for considerado inocente, ou, pior ainda, nem sequer for a julgamento, por falta de provas factuais convincentes? Os inimigos dirão certamente que a justiça foi comprada. Porque eles, imaculados portadores da verdade, têm a certeza sobre o que realmente aconteceu. Alguns apresentarão como prova o que senhor Manuel, do quiosque de "troca-o-passo" lhes contou, ou seja, que, um dia, presenciou uma situação de tal forma clara que torna irrefutáveis as provas da acusação. Os amigos não se verão assim, tão linearmente, em festa a celebrar a ocasião. Tudo dependerá de como o ciclo se fechar. Se for deixada no ar a suspeição sobre o político, continuarão a sentir a mesma alergia que os fez afastarem-se do antigo amigo, simpatizante ou camarada. Se a coisa se resolver, de forma inequívoca, aparecerão então a gritar aos quatro ventos que sempre souberam que o sujeito era inocente.

Ainda a Páscoa vem longe, mas, para mim, o único crucificado aqui será sempre, seja qual for o resultado, José Sócrates. Esse ficará o resto dos seus dias com a honra e a dignidade manchada, porque o escândalo vendia notícias e dava trabalho e audiências a muita gente. Aliás, haverá quem, se o caso nem seguir para julgamento, afirme ter encontrado evidências cabais de que a cor grisalha dos pintelhos de Sócrates é prova de stress e não da idade, o que é demonstrativo que deve ser aberto um novo processo, porque um estado emocional destes implica que há fogo por detrás do fumo.

Pois é Berta, a minha tristeza provém do facto de toda a história não ter como chegar a um final feliz. Fazer o quê? Eu ainda sou do tempo em que as histórias tinham um final feliz. Contudo, olhando mais profundamente para toda esta trama, existe um padrão que vem à tona mais uma vez. A dada altura, são lançadas às feras algumas figuras públicas, com requintes de uma perícia especializada, com o intuito de que não se olhe para mais nada. Pode ser coincidência, todavia, eu não acredito em coincidências. Foi assim no caso José Sócrates, no Caso de Ferro Rodrigues, no caso de Carlos Cruz e até no caso de Tomás Taveira.

Quem tem poder e astúcia para conseguir atirar para a ribalta situações tão cirúrgicas como estas? O que estão a esconder ou a querer que passe impune por entre as gotas da chuva? Será a maçonaria, a Opus Dei, a organização Rosa-Cruz ou uma qualquer outra força oculta no seio da sociedade portuguesa, bem distribuída nos lugares de influência e decisão? Não sei, minha amiga, mas adoraria saber. Quando determinados padrões se repetem em demasia algo os faz emergir e te garanto que não é magia.

Fica bem minha querida, beijo do teu saudoso amigo,

Gil Saraiva”

Passado menos de um mês dessa carta escrevi-te outra ainda sobre o nosso ex-Primeiro-Ministro, chamava-se: “O Peso do Dinheiro de Sócrates”, vou, mais uma vez reproduzi-la aqui para te relembrar o assunto:

“Carta à Berta: O Peso do Dinheiro de Sócrates – 24/11/2019

Olá Berta,

Nem te pergunto como estás porque isso, aliás, é o tenho feito todos os dias e a coisa ainda vira exagero. Eu por aqui continuo satisfeito a gozar esta época saudável, que parece ter regressado para ficar, depois das chatices que tive até junho passado.

Não sei se tens acompanhado toda a saga do ex-primeiro-ministro José Sócrates que, desde que voltou a ser chamado a testemunhar pelo juiz Ivo Rosa, regressou às primeiras páginas dos jornais, aos noticiários das rádios e às reportagens televisivas.

Provavelmente fizeste como eu, não leste, ouviste ou viste nem um quinto do alarido à volta da Operação Marquês. Fizeste bem. Diga-se, de passagem, que a continua exposição mediática do caso começa a jogar a favor do principal arguido em vez de o prejudicar.

A malta começa a ficar farta. Ainda por cima à medida que vamos tomando conhecimento da inexistência de provas cabais e demonstrativas da acusação proferida pelo Ministério Público. Caramba! Mas não haverá um raio de um papel que prove, de uma vez por todas, que o político meteu a mão na massa e que, por isso mesmo, é culpado dos 31 crimes de que é acusado? Como é que se acusa alguém, num país onde o enriquecimento elícito não é crime, sem ter na mão os papeis, fotografias ou gravações com provas?

Não consigo entender que tudo, pelo menos até ao momento, não passem de deduções, explicações elaboradas do que possivelmente aconteceu, acusação do homem ter andado com muito dinheiro, que não poderia de forma alguma ser seu, e, por isso mesmo, só poder ser fruto de corrupção, mas, e lá vem sempre a porcaria do mas, sem o conseguirem demonstrar com provas irrefutáveis e absolutas, para que não fique nenhuma dúvida.

Tu entendes uma coisa assim? Eu não e juro-te que também, como tu, não sou parvo nenhum. É que, quando o acusado diz que tem um amigo que lhe dá milhões, por mais que isso nos custe a engolir, não há lei que o impeça de o fazer.

Talvez se enriquecer sem explicação fosse crime já o caso estivesse arrumado, porém, minha querida Berta, isso é coisa que não convém ao Estado colocar no papel, passando essa prática a ser crime perante a lei. O resultado seria trágico para muita gente, neste país, que vive milionariamente, sem razão aparente que justifique essa vida e onde, infelizmente, muitos deles circulam nos corredores do poder.

Se os investigadores da Polícia Judiciária, e o Ministério Público, tivessem e pudessem investigar todos os milionários de Portugal, quantos achas tu que conseguiriam justificar cada cêntimo que detêm? Uns 20 porcento? Talvez menos? Eu também não sei. Todavia, espero ansiosamente pelo dia em que um Governo tenha a coragem de mudar a lei.

Até lá, ou arranjam as tais provas cabais ou está tudo muito complicado, quer para os investigadores, quer para o Ministério Público.

Outra coisa que me irrita, é a forma como se criticam as declarações de José Sócrates, nos debates e nos programas de comentário político, na televisão. Vi gente, e por alguns deles eu nutro um enorme respeito (principalmente pela sensatez daquilo que dizem e pela forma clara e ponderada com que o fazem), pôr em causa os 5 milhões que Sócrates teria em casa (os tais que alega terem sido herdados pela mãe), com base no volume do dinheiro e na dimensão que um cofre caseiro teria de ter para guardar tal fortuna. Mas esta gente deu-se ao trabalho de investigar o volume e o peso de 5 milhões de euros em notas de 500 euros?

É por estas e por outras que o ex-primeiro-ministro, mesmo que seja efetivamente culpado, vai passando por entre os pingos da chuva sem se molhar.

Primeiro temos a obrigação de tentar perceber se algo é absurdo antes de fazermos a afirmação de que o é, apenas e só, porque não temos a mínima noção das proporções, medidas e pesos em causa, numa coisa que nem é difícil de investigar. Revolta-me o desleixo com que, quem tem a seu cargo o comentário político e sério, trata matérias importantes e relevantes, para consolidar as coisas que afirma. Na ignorância de algo, só existem 2 maneiras de se resolver o problema: investigar devidamente ou não falar no assunto.

Não é correto cuspir verborreia sem se ter qualquer ideia sobre o que se fala. Essa é a hipótese que nunca deveria chegar ao comentário político. Por isso mesmo, e para não passar por estúpido, como muitos outros, resolvi investigar. Garanto que fiquei admirado com o que descobri.

Afinal, 5 milhões em notas de 500 euros, cabem numa malinha que tenha 58 centímetros de comprimento, por 48 de largura e apenas 20 centímetros de altura, ou seja, qualquer cofrezinho caseiro, mediano, de gente abastada, suporta, com algum conforto, a verba em causa. Quanto ao peso, tudo se torna ainda mais ridículo, 8 quilogramas, sem tirar nem pôr. Apenas 8. O que quer dizer que 5 milhões de euros só pesam pelo trabalho e esforço que custam quando se trata de os ganhar. Nada mais.

Para poderes ter uma ideia, minha amiga, mando-te uma fotografia com esta carta, que ilustra o volume e peso de 500 mil euros. Despeço-me saudosamente com um beijo, deste teu confidente de sempre,

Gil Saraiva”

Estas duas cartas exclusivamente sobre Sócrates, são apenas o exemplo do que era e sempre foi a minha opinião, desde o início do caso até 2019, altura em que te enviei ambas as cartas, a que poderias juntar algumas das que te escrevi em 2020. Conforme se vem hoje a verificar e não é que eu seja bruxo, mas eu tinha razão nas análises que fui fazendo desde que o caso começou. Por hoje, não me vou alongar mais, mas amanhã enviar-te-ei a minha conclusão já atualizada, face às novidades do dia de hoje.

A história não ficará, por certo, por aqui, mas no final, conforme previ em 2014, toda esta grande montanha terá parido um pequenino hámster inofensivo e querido. Despeço-me, com o compromisso de terminar amanhã este assunto, recebe um beijo deste teu grande amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: O Pança de Porco

Berta 516.jpg

Olá Berta,

Cá estou eu, minha amiga, a tentar, com algum esforço, manter-te a par da minha recuperação pós-operatória. Fui tentar investigar o significado de ter sido operado pela chamada “técnica dos furinhos”. Descobri que o nome correto para a coisa é: laparoscopia, que significa que esta é uma técnica cirúrgica mais moderna, menos invasiva, e que utiliza pequenas incisões (com cerca de 5 mm) para realizar uma grande variedade de procedimentos cirúrgicos.

O cirurgião utiliza para esse fim um laparoscópio, que é uma câmara de alta resolução ligada a um cabo de fibra ótica, que lhe permite visualizar num ecrã os diferentes órgãos, por exemplo no abdómen. É assim possível tratar a área afetada de uma forma pouco invasiva e cómoda, tanto para o cirurgião como para o paciente, sem necessidade de fazer grandes incisões, sendo usada para a remoção de órgãos doentes, como a vesícula biliar ou o apêndice.

A noção é agradável e fiquei mais tranquilo depois de me inteirar do assunto, afinal, hoje era dia de mudar, pela primeira vez, os quatro pensos que tenho na barriga. Saber que ia ver quatro pequenas incisões com cerca de 5 mm cada, deixava-me completamente sossegado. Ainda me lembrava de o médico me ter dito que a minha operação tinha sido complicada, o que o obrigara a aumentar o tempo da mesma, da meia hora prevista, para duas horas e meia.

Porquê? Porque ele não encontrava a vesícula, que estava escondida debaixo do estômago e por detrás do meu intestino. Ainda por cima a dita cuja era enorme, muito espessa e estava repleta de aderências, queira lá isto dizer seja o for (sendo que cheira a complicações).

Ao olhar para a barriga, desprovida do habitual tapete de pelos caraterístico do macho latino, achei estranho o tamanho dos pensos originais. Eram enormes, tendo cerca de 5 cm de largura por 8 cm de comprimento. Ri-me. Tanto tamanho para tapar incisões de 5 mm. Via-se logo que eu fora operado num hospital privado, onde tudo é à grande e à francesa.

Removi os pensos e ia-me dando um ataque.  O furinho mais pequeno tinha 1,5 cm de diâmetro e os dois maiores 6,5 cm cada um, sendo que ainda havia um quarto de 2,5 cm, ou seja, no total a minha pança fora retalhada em 17 cm de extensão. A segurar as incisões estavam 17 agrafos metálicos arrepiantes cravados na carne.

Se aquilo era a famosa “técnica dos furinhos” eu era o Santo António a pregar aos peixes. A expressão vernácula que termina em “que o pariu” veio-me imediatamente à mona. As crateras abertas no meu bandulho insinuavam uma zona de guerra, onde não existira clemência. Os buracos situados nos extremos da pança distavam 25 cm um do outro e ainda havia outros dois de permeio, sendo que um orbitava na orla do meu umbigo com 7 agrafos a ornamentá-lo.

Ficou claro para mim que jamais poderia voltar a servir de modelo de nu para os alunos de Belas Artes. A arte do meu cirurgião, que se gabara à minha frente, já no recobro, de ter executado uma obra prima, parecia-me muito equivalente à do avô do meu primo, após acabar de retalhar o animal por altura das festas da aldeia, na matança do porco.

De um momento para o outro deixei de ser o “cara de cu” da antevéspera para passar a ser o “pança de porco”. Por isso as minhas dores eram o que eram. Qualquer movimento, tosse, espirro, repuxavam os 17 agrafos cravados na carne. Se somarmos a isso os órgãos remexidos pelo talhante, ainda à procura do seu lugar natural, não tinha porque me admirar de sentir o tipo de dores que efetivamente sentia.

Agora vivo na contagem decrescente para voltar a ver face a face o cirurgião que me operou. Faltam 9 dias. De momento parece uma eternidade, mas eu hei de olhar o homem olhos nos olhos e nessa altura discutiremos ombro a ombro o conceito de obra-prima “que o pariu”. Por hoje é tudo, Bertinha, um abraço do amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: O Cara de Cu

Berta 515.jpg

Olá Berta,

A operação já passou. Segundo o médico cirurgião que me operou (e que afirmou estar farto de fazer este tipo de operações) nunca lhe tinha calhado uma vesícula enorme, bastante espessa, repleta de aderências e escondida por detrás do intestino.

Ainda hoje não sei se esta descrição me foi transmitida para justificar as duas horas e meia de operação, em vez dos 30 minutos costumeiros. O que sei é que o cirurgião pensou várias vezes em me abrir, pois teria sido mais fácil de conduzir a cirurgia.

Também me foi explicado que não podia ficar dois dias no recobro porque o meu vale, aquilo que o SNS contratou com o Hospital Trofa Saúde da Amadora, apenas requisitava serviço ambulatório, não estando previsto qualquer internamento.

Pelo que me foi dito, parte das imensas dores que sinto devem-se ao facto de o estomago e os intestinos terem sido tremendamente mexidos e remexidos para que o médico conseguisse acesso à famigerada vesícula e de forma a conseguir cortar-lhe o acesso.

O que isto quer dizer é apenas que o Serviço Nacional de Saúde não estava disposto a pagar aos privados uma operação que se podia tornar complicada, como veio a ser o caso, mas apenas uma operação de rotina, não deixando sequer uma alternativa ao Trofa Saúde para me poder internar se algo não corresse dentro do previsto, como, aliás, veio a acontecer.

As dores que sinto, para tentar explicar mais claramente, são equivalentes às que teria se um cão, estilo Dobermann, me estivesse a abocanhar seis diferentes partes internas da minha pança ou bandulho. Ainda por cima são permanentes e não passam com os dois analgésicos e o antibiótico que estou a tomar. A sensação de dor aguda constante só me lembra uma matilha de hienas a banquetear-se na minha barriga, num festim macabro a que eu sou obrigado a assistir vivinho da silva.

Segundo o médico este conjunto de dores só amanhã é que começará a abrandar. Espero, minha querida amiga, que assim seja. Caso contrário estou seriamente tentado a chamar uma ambulância e a apresentar-me nas urgências do Hospital São Francisco Xavier.

Rir, soluçar, tossir, espirrar ou soltar um traque, são atos que provocam uma dor equivalente ao arrancar de um dente do siso, a frio. E não penses que sou daqueles que se queixam por tudo e por nada. Pelo contrário, costumo aguentar sem um esgar a maioria das dores que tenho.

Quando fui operado à boca, para colocar implantes totais, em cima e em baixo, tiveram de usar uma rebarbadora, em miniatura claro, para me aplanarem as bases dos maxilares onde iam aplicar os implantes. A operação foi até ao fim sem a anestesia ter pegado e mesmo assim, não sofri metade do que sinto hoje.

Segundo o meu médico só quinta-feira é que posso comer alimentos sólidos. Lá vou eu perder mais uns quilitos até ficar bem. Porém, minha querida amiga Berta, como tu bem sabes, eu arranjo sempre um motivo ou outro para fazer sorrir os que me rodeiam. No caso desta operação existiram vários que só dá para rir. Como eu não o consigo fazer, ris tu em meu lugar, combinado?

Uma enfermeira novita (não teria mais do que 25 anos) veio-me buscar à sala de espera, para me levar para o bloco operatório. No caminho, passámos por um vestiário, onde ela me pediu que trocasse a minha roupa, pela bata, chinelos, touca e máscara que usaria no bloco. Assim fiz. Num cacifo coloquei as minhas coisas, vesti a bata branca, e meti a touca azul, na cabeça, com dois buracos para as orelhas e a máscara e os chanatos. Sobrava-me uma espécie de pulseira verde que eu não sabia para que servia.

A rapariguita bateu à porta e fez uma cara estranha de espanto quando me viu fardado. Fiquei sem saber o que pensar. Ao fim de uns segundos a miúda lá arranjou coragem para falar. “-Senhor Gil, as cuecas é para pôr em baixo e não na cabeça.” Disse ela visivelmente atrapalhada. Eu que julgava que os buracos da touca eram para as orelhas fiquei assim informado que serviam antes para pôr as pernas. A touca era a espécie de pulseira verde-alface, que se abria toda, para se conseguir enfiar depois na cabeça. Segundo a rapariga tudo aquilo era evidente e eu lá lhe expliquei ter pouca experiência daquele tipo de kits.

Afinal, os buracos da cueca pareciam mesmo feitos à medida para as orelhas, para depois se conseguir encaixar a máscara com facilidade. Só que, como tudo aquilo era elástico também neles acabaram por caber as pernas. Finalmente, a jovem abriu de novo a porta e pareceu mais tranquila quando me viu devidamente composto. No caminho para o bloco ainda disse duas vezes; “O senhor Gil desculpe, mas ainda não acredito que achou mesmo que a cueca era para pôr na cabeça…”

E com esta minha aventura termino a carta de hoje. Como vês, minha amiga, devo ter cara de cu, pois usei a cueca no sítio errado. Recebe um beijo deste teu saudoso amigo, que não te esquece,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Finalmente Vou Ser Operado ou Quem Espera Sempre Alcança

DSC_0078.JPG

Olá Berta,

Já ultrapassei as 500 cartas diárias para ti desde finais de outubro de 2019. Olha que é muita carta, minha querida amiga. Estávamos ambos a precisar de um intervalo. Foi este, aliás, conforme tínhamos combinado, o motivo da minha ausência nos últimos tempos.

Claro que retomarei a nossa rotina, mas agora sem a obrigação diária. Não só nem sempre se justifica, como nenhum de nós quer fazer da escrita ou da leitura, uma chata obrigação. A minha carta de hoje prende-se com um acontecimento previsto para amanhã:

Vou finalmente, depois de um ano e 5 dias em lista de espera, ser operado à vesícula, a uma hérnia e nem sei bem a que mais. A minha entrada no Hospital da Trofa Saúde, na Amadora, está prevista para as 7,30 da manhã. Ontem fiz o teste PCR à Covid-19, cujo resultado veio negativo e, portanto, estou apto para ser intervencionado.

Embora esta seja uma operação de rotina, que os cirurgiões costumam fazer com uma perna às costas, no meu caso há algum risco acrescido. Em primeiro lugar, fui obrigado a parar a medicação preventiva de AVC e a fazer um tratamento alternativo. Em segundo lugar, de acordo com o meu médico, tenho uma vesícula grande e mais espessa do que a média o que dificulta o trabalho. Em resumo, as hipóteses de não ficar internado depois da intervenção são de 50%.

Claro que eu, enquanto otimista nato, estou convencido de que regresso a casa já amanhã. Todavia, a realidade é que essa é apenas uma de duas hipóteses. Seja como for eu prefiro pensar que retornarei no próprio dia e que o resto é somente um cenário hipotético.

Fui ver as estatísticas e as operações do tipo da minha têm uma taxa de sucesso de 95% e uma probabilidade de sair no próprio dia de 80%. Assim sendo, como sempre fui um rapaz com sorte, tudo aponta para um imediato regresso a casa, sem problemas de maior.

Em síntese, minha querida amiga Berta, amanhã “desconfino” a minha vesícula e mando-a à vida, para que esta possa ter as suas próprias aventuras sem ter de me arrastar com ela nesses processos. Por hoje é tudo, aproveita bem os “dias do desconfinamento 2.0” que amanhã começam. Deixo um beijo saudoso, este que nunca te esquece,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: “A Prova dos Nove da Profecia de Haragano” ou a “Crónica do Impossível” - Epílogo

Berta 513.jpg

Olá Berta,

Entramos hoje no epílogo da “Prova dos Nove da Profecia de Haragano” ou, mais concretamente, a “Crónica do Impossível”. Ontem acabei a falar na capicua do número total de óbitos no mundo que chegou ao muito trágico valor de 2.722.272, o qual fazendo a operação dos noves fora não perfazia nenhum 666, mas apenas um único 6. Felizmente, embora sendo o primeiro algarismo do demo não era o número completo.

De repente vi o que ainda não vira, os 384 dias entre a primeira infeção e o dia 21/03/21 dera-me também um 6, ou seja, os algarismos dos quadros que faltavam (dias passados, total de recuperados e total de óbitos) cada um deles apresentava o algarismo 6. Ora, colocando todos, porque estavam intimamente relacionados num quarto e último quadro, teria outra vez o número de Satanás: 666 (ver quadro abaixo). Fiquei a olhar para o quadro de boca aberta. Era impressionante aquilo. Completamente incrível.

Berta 513 4º Número.jpg

Fascinado com os quatro quadros, a apresentarem todos o número do cornudo, resolvi fazer um estudo paralelo. Apesar de tudo o que já tinha visto, estes números não podiam ser apenas fruto do acaso, nem sequer dizer respeito à profecia de acertar que entre março de 2020 e março de 2021 aconteceriam 123.456.789 infeções no mundo inteiro. Todos aqueles dados pareciam apontar para algo mais. Esta carta estava a transformar-se numa Crónica do Impossível e parecia apontar para a verdadeira Profecia de Haragano e não para um caso de sorte, em que aleatoriamente eu acertara no número de infeções mundiais a ocorrer no espaço de um ano e pouco.

Peguei nos meus livros de ciências ocultas e botei mãos à obra. Consultei vários livros, desde as “Profecias de Nostradamus” ao “Livro de São Cipriano”, passando pelo Oráculo Egípcio, pelo I Ching, pelas Runas, pela numerologia, pela astrologia (onde fiz a carta astral do dia 21/03/21) até ao “Relógio de Haragano”. Porém, não vou descrever aqui de onde fui tirando as minhas conclusões, pois nunca mais acabava, mas cheguei à conclusão que os quatro quadros representavam os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, sem tirar nem pôr.

O primeiro quadro representava a pandemia de Covid-19 (ou a Peste), o segundo quadro revelava a Guerra, os conflitos cada vez maiores contra os confinamentos em todo o mundo associados aos problemas climáticos e aos restantes conflitos mundiais, o terceiro quadro mostrava a Fome, também associada à grave crise económica a que as medidas da pandemia tinham conduzido, quando integradas nos outros já referidos problemas mundiais e, por fim, o quarto quadro, o mais complexo por ser o somatório de três números diferentes, apresentava-se como a Morte, o último dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse.

Ora, o mais interessante, foi que também cheguei à conclusão que o dia 21/03/21 é o momento zero, o ponto de partida da profecia. Assim sendo, posso afirmar que a humanidade tem dois caminhos daqui para a frente: um leva à vitória do caos e à glória dos Quatros Cavaleiros do Apocalipse, o outro conduz a população mundial ao regresso à normalidade e a um caminho parecido ao que tínhamos antes da pandemia.

A escolha é de todos, porém, existem dois números que não se podem voltar a repetir, pois já aconteceram em janeiro deste ano (embora em dias diferentes) e acabaram por despertar os Cavaleiros. Se os dois acontecerem em simultâneo entraremos numa nova Idade das Trevas. Assim se num mesmo dia tivermos mais do que 765.432 num único dia, no mundo inteiro, e, nesse mesmo dia, atingirmos no planeta, devido à pandemia, 15.651 óbitos o Diabo ficará à solta, o que é o mesmo que dizer que o caos já não terá retorno e o mundo enfrentará uma extinção em massa sem precedentes na história humana.

As capicuas são números enigmáticos e quando se ligam a desgraças tendem a instalar o caos. Já tivemos em termos de óbitos no mundo duas capicuas fatais: a primeira quando o número total de óbitos atingiu (a 21 deste mês) o fatídico número de 2722272 de óbitos registados e causados desde o início da pandemia. Também já tivemos 15651 mortos num mesmo dia, no mundo, em janeiro. Temos de evitar a todo o custo uma repetição deste triste total.

Portanto, em conclusão, “A Profecia de Haragano” diz que podemos sair de tudo isto se não tivermos um dia em que apareçam 765.432 infetados no mundo que causem 15.651 óbitos ou mais. A parte positiva é que, embora os casos estejam de novo a aumentar na Europa e na América do Sul, tudo aponta para que não voltemos a ultrapassar os 15,000 falecimentos num só dia. Há que ter fé, esperança e sobretudo muito acreditar. Espero ter-te agradado, minha querida amiga, despeço-me cansado desta Crónica do Impossível. Ainda bem que eu não passo de um aprendiz que brinca com os números. Deixo um beijo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: “A Prova dos Nove da Profecia de Haragano” ou a “Crónica do Impossível” - Parte III/III

Berta 512.jpg

Olá Berta,

“A Prova dos Nove da Profecia de Haragano” ou, mais sobriamente, a “Crónica do Impossível”, terminaria hoje a revelação da profecia projetada para o dia de ontem e com consequências no futuro que podem ou não ser graves, consoante o caminho escolhido pela humanidade, isto, claro está, se eu for um profeta que se veja, contudo, amanhã ainda publicarei o epílogo com as últimas observações e conclusões finais.

Vamos, pois, aos números e aos seus possíveis significados. Vou começar pelo número total de infetados no mundo que foi atingido ontem, dia 21/03/21, e que fez parte da minha previsão em março de 2020 para este março de 2021. Trata-se do número 123.456.789 os primeiros algarismos do 1 ao 9 seguidos, daí resulta o n.º de Lúcifer: 666, (ver quadro).

1º Número.jpg

Ora, se fizermos a Prova dos Nove ao dia 21/03/21 obtemos o seguinte resultado: 2+1+0+3+2+1= 9, noves fora = 0. Zero é, pois, um dia de início de qualquer coisa, o ponto de partida, por exemplo, para uma profecia. Não é à toa que, ao contrário do que eu pensava, o n.º 123.456.789 de infetados só foi atingido um ano e 19 dias depois do primeiro caso de Covid-19 em Portugal. Afinal, se somarmos os 365 dias do ano aos 19 dias extras que precisámos para termos chegado ao n.º de Lúcifer obtemos: 365+19=384, ou seja 3+8+4=15, número que, se tirados os noves fora, dá 6 (1+5=6), o primeiro algarismo do Demo. Faz todo o sentido que assim seja.

Porém, o dia 21/03/21 trouxe mais surpresas, pelas quais eu não esperava. Assim, ao olhar para o total de casos ativos no mundo, descobri que tínhamos atingido os 21.285.612, o que (como mostra o gráfico abaixo apresentado) volta a fazer aparecer o nº de Mefistófeles, ou seja, pela segunda vez: 666. Ora, eu nunca fui muito de acreditar em coincidências.

2º Número.jpg

Apesar de tudo, achei que poderia acontecer algo assim, mas com alguma sorte à mistura ou muito azar, falando mais corretamente. Certamente que os ciclos do demo ficariam por aqui e ainda me faltavam verificar mais dois parâmetros importantes: os totais de casos encerrados globalmente e o número total de mortos atingidos no mundo. Por mais que as coisas tendam todas a correr mal quando algo corre mal, como diz a Lei de Murphy, seria difícil continuar a ter números estranhos e arrepiantes.

Fui consultar o número de casos encerrados no mundo. O quadro do worldometer.com, que costumo consultar na internet, mostrava o seguinte número total de casos encerrados no planeta: 102.156.966. Pela terceira vez o 666, o n.º de Belzebu, voltou a aparecer (ver o quadro abaixo). Aquilo já não era uma banal coincidência fortuita.

3º Número.jpg

O dia continuou a passar e eu tinha abandonado esta carta um pouco impressionado com tanta repetição de números do demo. Faltavam-me ver o total de recuperados no mundo, que anotei como 99.429.333 e o número total de óbitos no globo, aquela palavra que tenta disfarçar que se fala de pessoas que morreram mesmo, cujo somatório era 2.722.272. Fazendo a conta e tirando os noves fora, para cada um dos números, o resultado apresentava apenas o algarismo 6.

Por hoje fico-me por aqui, querida Berta, voltarei amanhã com o epílogo desta Crónica do Impossível. Deixo um beijo de despedida, este teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: “A Prova dos Nove da Profecia de Haragano” ou a “Crónica do Impossível” - Parte II/III

Berta 511.jpg

Olá Berta,

A prova dos nove é algo que aprendemos na escola primária ou, pelo menos, assim era quando eu a frequentei. Pegamos num número qualquer, por exemplo o n.º 4879, somamos os algarismos que o constituem (4+8+7+9), obtemos um resultado (=46), dividimos esse resultado por 9 e o n.º que sobra (o resto) é aquele que nos interessa obter, neste caso o resultado seria 1. A numerologia, uma das muitas ciências ocultas usa essa prova, com algumas exceções que lhe são próprias para obter determinados números sobre os quais faz previsões.

Também atribui a cada letra do alfabeto um número de 1 a 9 sendo que, quando uma sequência chega ao 9, a atribuição recomeça no 1 outra vez. É por isso que o A e o J têm o n.º 1 como seu. Esta tabela de correspondência alfanumérica é conhecida como Tabela Pitagórica e é um dos pilares da numerologia.

Fiz este pequeno aparte para te dar uma ideia de como cheguei a alguns dos números que te apresentarei em seguida e que, como é óbvio, são a base da “Profecia de Haragano”, que te prometi apresentar hoje. Contudo, tive de usar a astrologia e o “Relógio de Haragano” (podes ler a explicação na carta de ontem) para depois interpretar os números e gerar a profecia. A astrologia importa porque a localização dos signos do zodíaco ajuda à interpretação.

Quero eu dizer que os dias em que as coisas ocorrem e a sua relação com o mapa astral desses dias, onde se incluem a localização dos planetas ajuda na sua interpretação, na perspetiva das ciências ocultas, claro. Assim, no seguimento deste raciocínio, também fui buscar o “Relógio de Haragano” para finalizar a profecia. Porquê?

Porque o relógio não apresenta verdades absolutas. Pelo contrário, mostra caminhos que são consequência das nossas próprias escolhas. Assim, por exemplo, ao chegarmos a um ponto da vida em que existem duas ou mais opções para onde podemos seguir em frente, o relógio, aconselha uma, mas quem o consulta, tem o livre arbítrio de escolher outra qualquer. A previsão pode mostrar ou não as consequências dessa nova opção nessa consulta ou numa outra que a pessoa venha a fazer posteriormente. Todavia, a conjetura inicial fica invalidada porque a pessoa não seguiu a matriz apresentada pelo oráculo do relógio.

Espero ter sido claro nestas explicações prévias porque é nelas que assenta “A Prova dos Nove da Profecia de Haragano” ou, mais simplesmente, a “Crónica do Impossível”, que amanhã, finalmente irei expor. Sendo tu, amiga Berta, uma pessoa pouco ligada à área das ciências ocultas deves estar farta de te rir com as minhas conjeturas místicas. Porém, tens de reconhecer que eu não tinha como adivinhar a dois de março de 2020 o número de infetados a nível mundial a 21 de março de 2021.

Até me podes dizer que estou a inventar e que só agora escrevi a profecia. Isso é verdade apenas na parte em que só agora a interpretei e lhe acrescentei outros novos números e o seu significado para o presente e para o futuro. Todavia, faz hoje um ano e 19 dias em que eu lancei a hipótese de que, algures em março deste ano, o número de infetados pela pandemia atingiria, finalmente, o valor absoluto de 123.456.789 infetados no globo.

Esse número calhou hoje, dia 21 de março de 2021, ainda dentro do mês da previsão do ano passado e isso, por si só e para mim, já é espantoso. Repara bem que não é um número qualquer. São os algarismos de 1 a 9 todos seguidos, indicando a infeção por Covid-19 de milhões de pessoas no planeta Terra. A completa elaboração da profecia foi verdadeiramente terminada hoje (dia 21) e enviar-ta-ei amanhã (dia 22). Por hoje é tudo, fica bem com este beijo do teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: “A Prova dos Nove da Profecia de Haragano” ou a “Crónica do Impossível”

Berta 510.jpg

Olá Berta,

Hoje, neste dia 20 de março de 2021 e ainda amanhã e depois de amanhã, vou-te falar de um dos meus hobbies, nomeadamente o tempo que dedico às ciências ocultas. Aliás, este passatempo faz parte de um conjunto de matérias que me agradam, quer pelo mistério que encerram quer pelo lado místico e fantástico, como também é o caso das mitologias (principalmente a grega e a romana), da parapsicologia ou do fantástico. Fiz várias formações na área, ao longo dos anos, pois tal como sou fã de um filme de suspense ou policial, todo este mundo surreal me fascina.

Desde os dezasseis anos de idade que adoro cartomancia, runas, oráculos, I Ching e por aí em diante. Há muitos anos atrás, misturei algumas das teorias de adivinhação do I Ching às do Oráculo Egípcio e acabei por ocidentalizar ambas criando uma leitura de cartas original a que chamei de “Relógio de Haragano”.

Contudo, pese embora esta minha paixão, não te assustes, não me julgo nenhum mago ou adivinho, nem mesmo bruxo ou feiticeiro de qualquer espécie. Faço, isso sim, uma tentativa de interpretar o que as cartas podem dizer sobre alguém que, ao abrir um novo baralho e depois o baralhar e partir, passa parte da sua energia única para aquele monte 54 ou 55 cartolinas (divididas em quatro naipes e com dois ou três jokers),  como são únicas as impressões digitais, o código genético ou as nossas iris.

No entanto, e contra mim falo, não me levo muito a sério neste campo. Julgo que talvez seja porque não gosto muito do que vejo a representar o setor: as leitoras de tarot para os famosos, os bruxos de Fafe e os ditos “Professores Africanos de Submundo”.

Todavia, não sendo qualquer destes temas nenhuma ciência, existe aquele lado oculto e misterioso que me agrada imenso. Para além de que nunca ninguém, a quem eu tenha feito o “Relógio de Haragano”, me disse que o que “lia” nas cartas estava errado. Enfim, já lá vão 44 aninhos, a desenvolver o método, alguma coisa deve estar certa, se bem que não sei bem o quê.

Eu gosto de pensar que capto algum tipo de energia subconsciente da pessoa que abriu, baralhou e partiu um baralho virgem, para eu depois interpretar o que dizem as cartas, que vão saindo e sendo lidas em trios no sentido dos ponteiros do relógio em grupos circulares de 12 cartas. Por favor, não comeces agora a rir com o que te estou a dizer. Não te estou a tentar converter a este mundo de impossíveis que me fascina. Aliás, não te quero convencer a ti, amiga Berta, nem a ninguém. Estas coisas, são apenas um tipo de assuntos, onde muitas vezes, ao longo dos anos, ocupo os meus tempos livres e nada mais do que isso.

Tive que dividir em três partes o assunto desta carta para não me alongar demais com um tema que não sei se é do teu agrado. Tudo isto vem a propósito da atual pandemia. Aquela que ninguém previu que invadiria o mundo a partir de finais de 2019. No dia dois de março de 2020, quando tivemos o nosso primeiro caso eu fiz uma consulta mística usando aquilo que aprendi nas ciências ocultas. Desta consulta, usando a numerologia, o relógio e a astrologia saiu uma previsão tola que fiz para o dia 21 de março de 2021, isto é, para amanhã.

Eu chamei-lhe “A Prova dos Nove da Profecia de Haragano” ou, mais simplesmente, a “Crónica do Impossível”, mas não vou explicar agora em que consistiu e naquilo em que resultará amanhã (dia 21/03/21). Isso fica para a próxima carta do dia da profecia ou para o seguinte. Por agora despeço-me, com um abraço do tamanho do mundo, deste teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

Em destaque no SAPO Blogs
pub