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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Campo de Ourique - Uma História de Três Gerações

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(Campo de Ourique – 1º Andar de casa da R. Tenente Ferreira Durão - Foto de autor, direitos reservados)

Olá Berta,

Aos 102 anos de idade, a poucos meses de fazer 103, faleceu, no lar onde atualmente se encontrava, a Dona Irene. Uma senhora cuja morada oficial ainda é, na Rua Tenente Ferreira Durão, aqui, Bem na zona central do bairro de Campo de Ourique. Conheço o caso devido à minha amizade com a nora da Dona Irene, a minha amiga Ilda. Uma menina de 72 anos, com um sorriso afável, sempre pronta a ajudar quem precisa, amante convicta de animais.

A casa da Dona Irene, que fica no primeiro e último andar, tem estado ocupada pelo seu neto. Um jovem que ainda se passeia pela maravilhosa década dos quarenta. O funeral a que só puderam ir o filho, nora e netos, mas não os bisnetos, foi de caixão selado, sem que ninguém pudesse sequer identificar a senhora. Não houve direito a velório de igreja, nem a câmara ardente, nem mesmo a um último adeus. É que a Dona Irene faleceu vítima de Covid, no dia a seguir à família ter sido informada, pelo lar onde se encontrava, de que a centenária menina, se encontrava quase recuperada de uma febre que acusara Covid e que já apresentava melhorias significativas.

Na verdade, ao dia das melhoras significativas, seguiu-se uma noite da qual a Dona Irene não chegou a acordar. Há quem chame a este óbito uma morte santa. Para mim, se não está há espera que alguém faleça, é somente um choque e ao mesmo tempo triste, seja qual for a perspetiva em que se queira olhar toda a situação.

Independente do pesar da família, tema que não vou abordar por respeito, Campo de Ourique perdeu mais um dos seus centenários residentes. Até aqui, imagino eu, esta é a história, com mais ou menos drama, do que tem acontecido a quase quinze mil portugueses desde que a Covid entrou no pais. Seria até bom que todos tivessem partido com a mesma calma silenciosa da Dona Irene e, sabemos bem, que infelizmente não é essa a regra.

Estou a tentar, amiga Berta, não colocar demasiado sentimentalismo nesta carta, até porque, pessoalmente, eu não conhecia a Dona Irene, nem imagino sequer o tipo de pessoa que foi ou deixou de ser em vida. Apenas sei que faleceu, que era sogra de uma grande amiga e que as traseiras da sua casa dão precisamente para as traseiras da minha. A fotografia que junto é precisamente da parte de trás da casa dela.

O que me faz confusão, e que me levou a descrever toda a situação, tem três dias. Ou seja, ontem, no dia que se seguiu ao funeral, o neto da Dona Irene, um homem que trabalha num dos restaurantes, que ainda fazem entregas ao domicílio em Campo de Ourique, no caso a Padaria do Povo, recebeu, na caixa do correio, o aviso do senhorio dando-lhe 30 dias para entregar a casa. Assim, sem mais nem menos, porque é o que a lei permite, mas que a ética condena de forma severa. Não sei quem é o senhorio da casa, mas, num tempo como este em que vivemos, o ato é desumano.

Penso por mim, que em tempos também já fui senhorio. Eu teria não apenas transmitido os meus pêsames, como indagaria se ele pretendia manter-se na casa e se estaria preparado para a atualização da renda, de acordo com a legislação em vigor. Perguntaria também, caso ele não achasse ter condições para lá se manter, de quanto tempo precisaria ele para se mudar. Só perante a resposta, e sendo esta negativa, quanto à manutenção, é que tentaria encontrar um prazo razoável, mas com o acordo de ambos, se possível, para a entrega da chave.

Eu entendo até a pressa do senhorio em rentabilizar um bem que tem estado alugado a baixo preço há muitos anos. Mas a humanidade, a ética e a solidariedade nunca deixaram de fazer parte do perfil da pessoa humana ou deixaram? Provavelmente o problema deve ser meu que sou um romântico. Procuro sempre a melhor solução para evitar o conflito e para não criar stress ou nervosismo aos outros. Um sócio, que tive há mais de 20 anos, dizia-me que eu tinha a mania que era a Santa Casa da Misericórdia. Porém, ele estava errado, tratava-se apenas de procurar ser humano para com os outros humanos.

Não sou melhor nem pior que ninguém, nem me quero armar aqui em santinho. O que digo aqui é o que tenho praticado toda a minha vida e, confesso, nem sempre me saí bem pelo facto de ser como sou. Quando digo “saí bem” estou a falar económica ou financeiramente, mas sempre fiquei de consciência tranquila. Em paz comigo mesmo. Que é realmente aquilo que mais devia importar nas relações sociais. Para quem é ateu como eu, e que não tem a ajuda da fé e da religião, continuo a considerar que esta é a melhor forma de nos sentirmos bem connosco e de alcançar paz de espírito.

Afinal, a vida dá muitas voltas e um dia, sem sabermos ler nem escrever, podemos muito bem vir a encontrarmo-nos do outro lado de uma situação idêntica. A justiça é uma balança moral com dois pratos equilibrados e muitas vezes diverge dos ditames da lei. A economia de mercado, o capitalismo, a procura do maior lucro e a sociedade de consumo, não podem tornar-se, quase exclusivamente, nos únicos valores universais. Hoje, como ontem, foi mais um dia triste para mim (para alguém alegre como eu, dois dias assim, já é uma eternidade).

Espero que me tenhas entendido, querida amiga Berta, eu sei que tenho este feitio fora do tempo em que vivemos, porém, se queres saber, na verdade, acho que ainda há muita, mas muita gente, como eu. Despeço-me com o carinho do costume, este teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Campo de Ourique Está Triste

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(Campo de Ourique – Jardim da Parada - Foto de autor, direitos reservados)

Olá Berta,

Campo de Ourique está triste. Desde que este ano começou apenas sai duas vezes de casa. Em ambas as situações por razões de força maior. Na primeira foi para dar um salto à clínica de análises Joaquim Chaves, bem na esquina da Rua de Infantaria 16 com a Rua Tenente Ferreira Durão e a segunda para ir a uma consulta no Hospital Egas Moniz. É claro que em qualquer delas aproveitei para ir ao pão, à porta do Trigo da Aldeia, e passar no minipreço para comprar algumas coisas que gosto de ser eu a escolher, em vez de encomendar pela internet.

Contudo, porque já que me fazia falta andar um pouco, aproveitei para dar um pequeno passeio higiénico e rever o meu bairro. Acabei por regressar a casa invadido por uma melancolia imensa. O maior centro comercial de ar livre do país está quase totalmente encerrado. Como no meu quarteirão tenho três supermercados, não me tinha apercebido da diminuição das pessoas, nem do panorama que é ver loja atrás de loja encerrada, algumas das quais já dá para perceber que não voltarão a abrir portas.

Porém, foi no Jardim da Parada que se me apertou a alma e que senti o coração chorar. No percurso que fiz consegui contar apenas três pessoas atravessando, como eu, o jardim com destino a algum lado, certamente por razões de primeira necessidade.

A hamburgueria, encerrada, lembrava um jazigo do cemitério dos prazeres. Bem perto as mesas metálicas, pintadas de verde, pregadas no chão, acompanhadas das suas quatro cadeiras, a condizer, gritavam pela falta dos velhotes da sueca e dos mirones envolventes, como se fossem mobiliário de um longínquo Chernobil. Ao passar pelo lago não vi patos, nem cagados, nem mesmo pombos nas redondezas, apenas folhas mortas navegando perdidas à tona de água sem destino ou rumo certo.

Foi como olhar para uma paisagem e vê-la a preto e branco, distante, perdida, abandonada. Os bancos do jardim, todos eles, sem exceção, com fitas vermelhas e brancas e um autocolante garrido a proibir o seu uso. Ninguém por ali para dar de comer aos pombos que, aliás, nem existiam naquele momento. Deles apenas vislumbrei algumas penas, mais pequenas do que as que sentia no meu âmago, esquecidas no chão, como despejos de uma batalha fantasma.

A solidão das estruturas do parque infantil lembrava, vagamente, que aquele era um lugar para crianças, mas não se escutava o chilrear da pequenada cheia da energia que, noutras alturas, até me costumava incomodar e que hoje me chegava à memória com uma saudade imensa. Na solidão do jardim as enormes árvores agigantavam-se mais ainda e a luz do Sol parecia ampliar uma sinistra presença de um ambiente surreal. O pequeno quiosque de livros gratuitos, feito na cabine telefónica transformada, estava despido.

Aquele vazio, sem nada nas prateleiras, apenas me lembrava um equipamento abandonado e fora de contexto. Foi nessa altura, uns metros à frente, que me deparei com a estátua da Maria da Fonte e, não sei porquê, dei comigo a chorar, ao olhar para aquela figura de pedra que normalmente me fazia lembrar a revolta popular que a imortalizara.

Hoje, a Maria da Fonte parecia gritar de desespero e revolta pelo que a pandemia fizera ao seu jardim. A ideia de que ela reclamava o regresso do povo, como nunca o fizera nos cem anos da sua presença no jardim, ardia-me na alma, murchando-me o coração. Maria da Fonte parecia gritar, agitar-se em desespero e chorar ao mesmo tempo e eu, confuso, perdido nas memórias de outros tempos, ali fiquei durante uns minutos que me pareceram horas, tentando apaziguá-la, para no final terminar, novamente, a chorar com ela, solidariamente, essa mágoa imensa. Campo de Ourique está triste, muito triste.

Um beijo, querida Berta, até amanhã,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Pelos Caminhos de Campo de Ourique -II/II

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Olá Berta,

Continuando e concluindo hoje a minha abordagem sobre o Bairro de Campo de Ourique, em especial recordo-te mais alguns nomes que fazem parte do nosso coletivo nacional, mas também deste pequeno coletivo bairrista em especial.

Este é o bairro onde morou Artur Varatojo, Bento de Jesus Caraça e até Almeida Garrett, na casa depois transformada pelo ex-ministro Manuel Pinho e já, entretanto vendida, tem sido a escolha de quem gosta de viver na aldeia no centro de Lisboa. Que o diga Carlos Mendes, que continuamos a ver na TVI, na rúbrica «Autores,» e que não dispensa uma passagem regular pela pastelaria «Az de Comer».

Contudo, não podemos esquecer outros que por cá viveram ou que ainda vivem, desde a diva do Fado, Amália Rodrigues, por mais de cinquenta anos, como Fernanda Lapa, falecida em agosto último, e a irmã, São José Lapa, Luís de Sttau Monteiro, Rão Kyao, o ator João D’ Ávila e até o Maestro Jorge Costa Pinto, que inclusivamente nasceu em Campo de Ourique.

A diversidade é imensa e, para não ser exaustivo, lembro um (mas há mais, muitos mais) Campeão Europeu de Futebol, Ricardo Quaresma que aos sete anos de idade jogava no Desportivo Domingos Sávio de Campo de Ourique, tendo depois, já com dez, onze anos, praticado hóquei em patins no Clube Atlético de Campo de Ourique, mais conhecido por «CACO».

Espero que tenhas ficado a conhecer um pouco mais deste bairro, minha querida amiga, onde viveu, durante muitos anos, o autor do livro “Cuidar dos Vivos” e que todos conhecemos pelo nome de Fernando Assis Pacheco, a quem a autarquia presenteou (faz tempo) com a devida toponímia. Por hoje é tudo. Recebe o meu adeus, e o até à próxima carta, com um beijo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Pelos Caminhos de Campo de Ourique -I/II

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Olá Berta,

Campo de Ourique tem tido ilustres habitantes no seu seio ao longo dos anos. Este não é só o bairro de Fernando Pessoa. Quem não se lembra de ver, por exemplo, Miguel Sousa Tavares, na «Tentadora», de jornal aberto, ao sábado de manhã?

Porém, este está longe de ser um caso único. Rita Ribeiro, abriu, em outubro do ano passado, com as filhas, Maria e Joana, o «Restaurante Isto é o da Joana», em homenagem evidente a uma das suas descendentes, numa esquina da Rua de Infantaria 16. A atriz Guida Maria, de quem tu gostavas muito, residiu, até falecer, na Rua Coelho da Rocha e a lista continua.

Em 2016, «O Magano», foi local de repasto de Harrison Ford, que celebrava o seu sexto aniversário de casamento e viera espreitar o Euro2016. Um fenómeno de entusiasmo desportivo pouco comum entre os americanos. Os mesmos que chamam de futebol a um jogo maioritariamente jogado com as mãos.

Aliás, fez hoje três anos e oitenta dias que morreu Fernanda Borsatti, um dos monstros sagrados da representação em Portugal. Lembrei-me dela porque, enquanto viveu no bairro, não era difícil encontrá-la no Jardim da Parada, n’ O Meu Café, no Canas ou na Tentadora. Adorava Campo de Ourique e só daqui saiu quando se mudou para a Casa do Artista, em 1999, aos sessenta e oito anos. Se fosse viva teria feito noventa e nove anos. Ela que entrou em cinquenta e cinco produções para televisão, que foi personagem em mais de trinta e cinco peças de teatro e que foi anúncio de cartaz em dezoito peliculas para o grande ecrã.

Muitos têm sido os nomes de gente, de que já todos nós ouvimos falar, a passar por este adorado bairro. Amanhã termino este tema com mais alguns apontamentos. Já era para te ter enviado algo do género no passado, todavia, e mais uma vez será por certo o caso, temia pecar por defeito.

Deixo, nesta despedida um abraço franco e pleno de saudades, deste que é e será eternamente um imenso amigo do peito, sempre ao teu dispor,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: "António Costa - O Grande Golpe - Peça em Três Atos" - "Ato I - Meeting na Aldeia de Campo de Ourique"

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Olá Berta,

«António Costa – O Grande Golpe – Peça em Três Atos» seria o nome que escolheria para me referir áquilo que eu penso que alegadamente se terá passado no teatro da política e da diplomacia internacional. Aliás, se as coisas se passaram como eu penso que realmente se passaram o nosso Primeiro-Ministro merece o Grammy, o Óscar e o Nobel, tudo em simultâneo, pela mestria da sua magnífica, secreta e espetacular atuação.

Não só conseguiu um feito considerado impossível de concretizar, como o fez nas barbas dos Media nacionais e internacionais sem que ninguém desse por este genial «Golpe do Século». O mais interessante é que a operação, montada nos corredores da arte de bem negociar, ainda dura e irá durar até ao final de junho de 2021 e decorre naquele que para mim é o mais impressionante cenário político e diplomático montado no decorrer do presente século.

Enquanto operação secreta da diplomacia portuguesa, este feito devia ter direito, inclusivamente, a nome de código, como as antigas operações especiais entre americanos e russos no tempo da guerra fria, no caso eu chamar-lhe-ia «Operação Bifes à Portuguesa» ou «A Conjura da Raposa», uma vez que qualquer das escolhas é ótima para ilustrar a mestria política e diplomática daquele que é atualmente um dos mais hábeis políticos da cena mundial do século XXI.

No entanto, querida amiga Berta, isto sou eu a divagar, alegadamente imaginando uma genialidade tão simples e eficaz que se calhar nem está realmente a decorrer e tudo não passará de um fruto imaginário da criatividade deste teu amigo jornalista, armado em romântico escritor de enredos diplomáticos. Contudo, a ter acontecido (e ainda estar a decorrer), é realmente brilhante e deveria ter direito a destaque, com a obrigatoriedade a ser convertido em superprodução de Hollywood, pela argúcia e sentido de estratégia apresentada na elaboração de tão magistral arte política. Daqui para a frente vamos imaginar que as coisas se passaram como eu descrevo, mesmo que tudo possa ser apenas uma fantasia criativa deste teu amigo:

“Primeiro Ato: Reunião Urgente do Gabinete de Crise.

A primeira cena decorre no centro da capital portuguesa, Lisboa, mais propriamente na pequena Aldeia de Campo de Ourique, no edifício da Presidência do Conselho de Ministros, sem o conhecimento prévio da imprensa. Um pequeno grupo de pessoas, secretamente conhecido como os irredutíveis lusitanos, reúne-se de urgência, ao final da tarde, daquela segunda-feira. Presentes na reunião, convocada à última hora, com parangonas de secretismo, estão António Costa, Primeiro-Ministro, João Leão, Ministro das Finanças, Augusto Santos Silva, Ministro dos Negócios Estrangeiros, Mariana Vieira da Silva, Ministra de Estado e da Presidência e Pedro Siza Vieira, Ministro de Estado e da Economia.

Estamos no dia 31 de agosto de 2020 e para António Costa aquele que é o núcleo duro do seu Governo constitui também, igual e secretamente, o seu Gabinete de Crise. Em cima da mesa está o turístico corredor aéreo com o Reino Unido.

Costa é o primeiro a tomar a palavra:

       - Se os ingleses nos fecham o corredor aéreo com o Algarve e a Madeira, conforme a imprensa britânica prevê, estamos desgraçados. Isto pode muito bem desencadear uma bola de neve de fecho de empresas e falências, que se iniciará no setor do turismo e se alastrará rapidamente a todos os setores do tecido económico nacional. Temos de arranjar, a todo o custo, uma forma de impedir que Boris Jonhson feche o corredor. Temos de evitar a todo o custo que isto se torne na gota de água que faz transbordar o copo da crise económica nacional.

       - Estamos fodidos! — adianta Santos Silva. — Desculpa a linguagem Mariana, mas o embaixador britânico já me informou que na próxima quinta-feira devem fechar o corredor com Portugal. Ligou-me no sábado, pela hora de almoço. Querem evitar que sejamos apanhados de surpresa como na última vez. O tipo irrita-me, com aquele ar altivo e superior de «bife do lombo» tira-me do sério.”

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Para não me esticar demasiadamente numa só carta, amanhã continuarei “O Grande Golpe”. Recebe um amigável beijo de despedida deste teu fiel amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Novo Incêndio em Campo de Ourique

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Olá Berta,

É comum ouvir-se a expressão: “Não acredito em bruxas, mas, que as há, há!” É precisamente esse o caso do que se anda a passar em Campo de Ourique. Sexta-feira tivemos o incêndio na cobertura do prédio (umas águas-furtadas) na Rua Francisco Metrass, número 59, pelo início da tarde (13, 30). O resultado final foi um edifício dado como inabitável lá para a hora de jantar. Com o piso superior a desabar (interiormente) sobre o piso de baixo.

Relativamente à minha morada, a distância é curta e apenas a Rua Almeida e Sousa me separa da zona do infeliz incidente. Uma distância, em linha reta, bem abaixo dos 100 metros, talvez a uns 30 apenas, mais coisa menos coisa, da minha porta.

Ontem, segunda-feira, 3 dias, 4 horas e 10 minutos depois da deteção do primeiro fogo, temos, segundo me informou o senhor Victor Gil, chefe dos Sapadores de Lisboa de serviço no local, pelas 17,40 da tarde, os Bombeiros foram avisados de um novo incêndio, tendo a primeira viatura chegado ao local apenas 6 minutos mais tarde. No total tratava-se de um edifício com 11 habitações das quais 7 estavam habitadas por um total de 11 pessoas. O fogo, cujas chamas foram filmadas das traseiras do edifício localizado na Rua Tenente Ferreira Durão, na cobertura do número 19, segundo o chefe Victor Gil foi dominado às 19 horas e 12 minutos.

Posteriormente, sempre com o apoio pronto dos Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique, passou-se à fase de rescaldo. A ocorrência foi dada como terminada já depois das 20 horas. Entre sapadores, voluntários, proteção civil, polícia municipal e PSP, este fogo teve a intervenção de mais de 50 operacionais. A rua esteve cortada ao trânsito até depois das 21 horas e já se sabe que o prédio está inabitável.

Na internet encontram-se disponíveis vários videoclipes do incidente. Tratou-se de um fogo intenso e teve até direito a ser registado pela objetiva de um drone, segundo fonte do Correio da Manhã.

Este fogo localizado na rua para onde dão as traseiras da minha casa, está localizado, mais uma vez a menos de 100 metros, em linha reta do meu prédio. Qual é a possibilidade de uma coisa destas se repetir desta forma, consecutivamente num espaço de 76 horas de diferença, com esta proximidade e com caraterísticas tão semelhantes às do primeiro incêndio? Vejamos as coincidências.

Dois incêndios seguidos no mesmo bairro, a uma distância de menos de 100 metros um do outro e a menos de 100 horas de intervalo temporal, ambos em coberturas, igualmente ocorridos da parte da tarde, tendo o piso da origem do fogo desabado também no piso debaixo, os dois em portas ímpares, os dois com números terminados em 9, verificando-se como resultado final a inabitabilidade de ambos os locais. A única diferença visível é não se conhecer ainda a origem deste último fogo. Talvez, mais tarde, as peritagens o indiquem.

Por tudo isto é que eu sou levado a repetir, minha querida amiga Berta, nesta hora em que me despeço de ti com o habitual beijo virtual, que: “Não acredito em bruxas, mas, que as há, há!”

Gil Saraiva

 

Nota um dos vídeos pode ser visto em: https://www.cm-tv.pt/atualidade/detalhe/video--chamas-consomem-cobertura-de-predio-em-lisboa-veja-as-imagens

 

 

 

Carta à Berta: Campo de Ourique - Incêndio III - Um Fogo Que Arde Sem Se Ver - Edifício Inabitável

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Olá Berta,

Afinal, contrariando a ideia de serenidade que me tinha sido transmitida quando te escrevi a última carta, parece que o Incêndio à Minha Porta em Campo de Ourique, na Rua Francisco Metrass, 59, é como as novelas mexicanas, ou seja, tem sempre mais uma volta na ponta. Desta vez com possibilidade de vir a gerar ainda mais danos, para além daqueles que o próprio fogo infligiu.

Vou resumir os episódios passados e somar em simultâneo os novos dados, porque, infelizmente, por ser vizinho acabo por vir a saber mais do que o que é aparente.

Na passada sexta-feira um incêndio (provocado por uns grelhados na varanda de umas águas-furtadas, devido à distração de um ancião de 80 anos, a que chamei carinhosamente de “senhor Manuel”) fez arder as coberturas do edifício, direito e esquerdo do número 59.

Os danos foram afinal bastante superiores aos que primeiramente me foram relatados. No relatório oficial da fiscalização às condutas do gás, que abastece o prédio, acabou por prevalecer a conclusão que o mesmo teria de ser integralmente reinstalado, ou seja, o edifício teria de colocar uma nova infraestrutura para abastecimento de gás, sem a qual continuaria inabitável por força dos danos causados na conduta geral. Este dano afetou igualmente o Restaurante Cervejaria Europa, por a instalação ser a mesma.

Face a isso, não só deixou de haver abastecimento de gás para os vários andares como o restaurante Cervejaria Europa, conforme referi, se viu privado de confecionar os habituais acompanhamentos para as refeições tendo que fechar.

Assim, nesta segunda-feira, a Cervejaria Europa estará encerrada. Só a Farmácia Porfírio continuará a funcionar porque não utiliza qualquer fonte de gás para a sua atividade.

Já os estragos no prédio foram bem piores do que aquilo que se pensava no início. Os três andares (direito e esquerdo) foram declarados inabitáveis e o edifício encontra-se vazio de moradores. No terceiro piso as duas águas-furtadas (direita e esquerda) terão de ser reconstruídas de raiz, o mesmo acontecendo com o segundo andar direito, pertencente à proprietária da Farmácia e que de momento se encontrava vago para alugar.

Contudo, todos os apartamentos restantes precisam de obras de restauro. Quanto aos inquilinos, à parte do senhor Manuel (que segundo fonte do prédio, foi transferido ontem da casa de um dos filhos para um lar), todas as outras 4 famílias estão alojadas provisoriamente em casa de parentes próximos, solidários com a situação.

De solidariedade também fica a precisar o restaurante Cervejaria Europa e de uma forma urgente.

O fogo que arde sem se ver vem precisamente da situação em que ficam as 6 pessoas que trabalham no estabelecimento. Na verdade, ainda a tentar recuperar dos danos causados pelo fecho imposto pelos tempos de confinamento, o senhor Paulo, gerente da empresa de restauração em causa, vê-se agora a braços com mais um encerramento forçado, sem conseguir fazer uma ideia de quanto tempo esta situação poderá vir a demorar, face à problemática entretanto criada, na divergência de opiniões entre a Cervejaria Europa e o filho do “senhor Manuel” que aparentemente se assumiu como o responsável pelo pagamento da substituição das condutas do gás.

A coisa apresenta agora, com alguma tristeza, todos os ingredientes de um diferendo que poderá muito bem vir a terminar na insuportável teia dos tribunais portugueses. Mas o que se passa afinal? De uma forma simples são duas opiniões opostas. O filho do “senhor Manuel”, que assumiu pelo pai a responsabilidade das obras nas condutas de gás, exige a orçamentação de todos os custos inerentes aos trabalhos por parte de um conjunto de empresas especializadas, enquanto o restaurante prefere usar o mesmo empreiteiro que já foi responsável por quase todas as últimas obras do prédio, desde a da rede elétrica à da reconversão do apartamento do segundo andar, direito, propriedade da Doutora Graça, da Farmácia Porfírio. A razão desta preferência prende-se com a rapidez na execução dos trabalhos a realizar.

O senhor Paulo alega a possibilidade deste construtor poder ainda hoje substituir tudo e pedir inspeção amanhã ou depois, porque não só conhece bem o edifício, como tem disponível tudo o que é necessário para a completa realização dos trabalhos. Isso permitiria ao restaurante não ter 6 pessoas sem trabalhar durante demasiados dias e evitar que a situação da Cervejaria Europa se possa afundar mais, numa altura em que ainda mal começara a recuperar do fecho obrigatório derivado do confinamento.

A situação é de tal forma grave que a gerência da Cervejaria pondera levar o caso para tribunal, exigindo indeminizações (à empresa e aos funcionários) à outra parte, por todo o tempo em que estiverem de estar fechados, por força na demora nas orçamentações, na escolha de empreiteiro consoante os orçamentos apresentados, no tempo imposto para a conclusão da obra e, finalmente, na respetiva inspeção das condutas por parte da entidade responsável pela verificação dos trabalhos.

Porém, vistas as coisas na perspetiva do filho do “senhor Manuel”, a orçamentação por vários empreiteiros poderá evitar custos acrescidos numa despesa que não se avizinha pequena. Ambas as situações me parecem plausíveis de terem argumentos válidos.

Do meu ponto de vista, amiga Berta, o melhor seria que todos se entendessem por forma a evitar mais conflitos, problemas e situações que podem acabar mal.

A melhor solução, mas quem sou eu para opinar, seria um entendimento de meio termo. O empreiteiro do costume faria as obras já, em troca de não haver pedidos de indeminização fosse de que tipo fosse por parte da gerência do restaurante. Todavia, isto sou eu que estou de fora a falar. De qualquer maneira espero que impere o bom senso. Com um beijo me despeço, querida amiga, seguido de um até amanhã, deste que nunca te esquece,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Um Incêndio à Minha Porta - O Rescaldo

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Olá Berta,

Conforme te informei ontem houve um incêndio aqui perto de casa, a menos de 50 metros, num terceiro andar, como o meu, mas esse de águas-furtadas. Estive lá a falar com os comerciantes e alguns moradores, mas não existiam ainda algumas certezas no que se referia à segurança e estabilidade do prédio. Quando abandonei o lugar ainda se estavam a avaliar condições técnicas e de habitabilidade para o edifício e também para o funcionamento dos 2 espaços comerciais do rés-do-chão. Estou a falar do fogo que deflagrou na Rua Francisco Metrass no número 59, onde por baixo fica a Cervejaria Europa e a Farmácia Porfírio, aqui bem no centro da minha aldeia de Campo de Ourique.

Soube já, durante este último sábado, que a estrutura do prédio não foi afetada e que está tudo dentro das normas nas condutas de gás que abastecem os moradores, que era a situação mais preocupante. Devido a isso quer o Restaurante Cervejaria Europa quer a Farmácia Porfírio poderam laborar, todo o dia, dentro da normalidade e sem problemas de maior. O senhor Paulo, gerente do restaurante, foi quem teve mais trabalho, ainda na sexta-feira, pois passou o resto da tarde em limpezas devido a alguma fuligem que lhe entrou porta adentro e também à água suja que lhe deixou a esplanada num estado caótico. Contudo, tudo ficou resolvido e ao final do dia já sabia que poderia voltar a abrir portas este sábado.

No rescaldo do incêndio também consegui saber que os 4 feridos ligeiros já se encontram bem e que nunca estiveram em perigo, na generalidade, a inalação de fumo foi a causa das assistências hospitalares. Também soube que todos os que não puderam regressar a suas casas foram realojados ou pela autarquia ou junto de familiares. Ficará a faltar tratar da cobertura de todo o edifício antes da chegada do próximo inverno.

Infelizmente não consegui descobrir para onde foi o senhor Manuel (nome fictício que usei para falar do ancião na habitação de quem, por descuido, se iniciou o fogo). Esse senhor é a pessoa que mais me preocupa, não apenas devido à idade, que já ultrapassou as oito décadas, mas principalmente porque deve estar bastante afetado com a tragédia que agora vive. Por ser fim de semana não consegui saber nada na Junta de Freguesia, contudo, penso que não terá sido descurada a sua situação.

Espero que continues a passar um bom fim de semana e até amanhã cara Berta. Recebe um beijo de despedida deste saudoso amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Campo de Ourique: Um Incêndio à Porta de Casa...

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Olá Berta,

Ontem, à hora de almoço, quase às 13 e 30, tive o fogo a aquecer um início de tarde, já por si quente, embora arejado por uma brisa que se sentia na pele. Por outras palavras, um incêndio no terceiro andar, umas águas-furtadas, da minha rua, a Francisco Metrass. Por baixo, no rés-do-chão, ficam a Cervejaria Europa e, ao lado no mesmo prédio, a Farmácia Porfírio.

Relativamente à proximidade do edifício onde vivo distam uns 30 metros, mais coisa menos coisa, mas existe uma rua (a Almeida e Sousa) a separar-me do ocorrido. Foi perto, mas não demasiado próximo de mim. Não tendo o meu terceiro andar sido sequer penalizado pelo fumo intenso provocado pelo incêndio e, muito menos ainda, pelo trabalho dos Bombeiros Sapadores de Lisboa, coadjuvados pelos Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique.

A fotografia que te envio ilustra a minha perspetiva do local do incêndio e foi tirada já quase no final dos trabalhos a meio da tarde. Não me perguntes porquê, mas optei por não colocar imagens do incêndio propriamente dito. Não sei se é devido à proximidade e vizinhança, se por outro motivo que agora não discorro, mas poderás ver online, se tal te interessar, bastantes fotografias ilustrativas do fogo e até vários clips, com pequenos filmes, descrevendo o que se passou. Eu preferi só incluir a imagem que te envio.

Reconheço que, mesmo sendo jornalista, a cobertura de um evento que me é próximo me tira algum discernimento e lucidez, mas vou tentar dar-te uma ideia aproximada dos acontecimentos.

Pese embora o facto de saber o nome da pessoa residente no sótão onde o incêndio teve início, não pretendo aqui crucificá-lo, nem nada que se pareça, pelo que vou utilizar o nome fictício de Manuel.

O senhor Manuel é um ancião do bairro. Vive sozinho, nas águas-furtadas de um prédio sem elevador, que corresponde a um terceiro andar. A sua idade, que já ultrapassou as 80 primaveras dá-lhe o direito de se achar sabedor das coisas da vida e de rejeitar conselhos de vizinhos atrevidos e metediços na vida privada e alheia, com que nada tem a ver, muito menos a comentar.

Na realidade o senhor Manuel já fora advertido, vezes sem conta, pelos vizinhos do seu prédio e pelos outros do prédio das traseiras do edifício, que assar sardinhas ou fazer grelhados, na varanda oposta à fachada da casa, era perigoso e que um dia ainda causaria um problema qualquer. Contudo, pensava o nosso ancião, ele não estava xexé nem sequer para lá caminhava, sabia perfeitamente aquilo que fazia. O problema deste raciocínio é que os imponderáveis acontecem, independentemente da idade dos protagonistas, e muitas vezes sem nada ter a ver com a sua atenção ou falta dela relativamente ao que estão a fazer.

Foi o caso de ontem. O ancião desta narrativa, afastou-se por uns minutos do almoço que estava a grelhar na varanda, quiçá para ir ver se os acompanhamentos já estavam confecionados e o desastre aconteceu. Poderia ter acontecido a qualquer um, porém, para azar do senhor Manuel foi a ele que lhe calhou a fava.

O incêndio espalhou-se rapidamente e o discernimento do protagonista, aflito com a situação, não foi suficiente para que reagisse em tempo útil. Tanto que, quando foi retirado das águas-furtadas, quase meia hora mais tarde, ainda andava, no meio de um fumo imenso, à procura do telemóvel e da chave da entrada para fechar a porta antes de abandonar a habitação. Com algum esforço acabou por entender que a porta teria de se manter aberta para que os bombeiros pudessem atuar e foi conduzido, atordoado e confuso, à saída do prédio.

Foram quatro as vítimas de inalação de fumo e as duas águas-furtadas do edifício ficaram sem cobertura e com estragos avultados. Até o prédio vizinho, mais recente, foi afetado pela água utilizada para apagar o fogo. Também os andares imediatamente anteriores às habitações do topo se viram afetados pela água, como não poderia deixar de ser. Quando às 18 horas vim para casa para escrever esta carta, amiga Berta, ainda os homens da Companhia do Gás, tentavam aferir se as condutas do prédio teriam ou não sido afetadas pela tragédia. Não cheguei a saber o resultado.

Conforme já dei a entender a pronta atuação dos bombeiros do bairro e dos sapadores da capital impediu uma tragédia de maiores dimensões. Contudo, embora seja fácil colocar a culpa no senhor Manuel, eu acho que se trata apenas de um retrato menos bonito da situação social em que vivemos desde finais do século passado. Todos sabemos que por toda a cidade e pelo país fora temos anciãos a viver sozinhos em suas casas sem a mobilidade necessária e muitas vezes o discernimento requerido, para que situações trágicas possam ser evitadas.

Deveria existir algum mecanismo social que ajudasse a prevenir estas situações. Mas entre dever e haver vai muito mais do que a diferença dos verbos. Aliás, recordo-me que no prédio onde habito, já lá vão umas dezenas de anos, vivia um casal de reformados no rés-do-chão (e ainda hoje vivem). O homem estava ausente e a senhora resolveu ir ao mercado municipal, situado no início da rua, fazer uma pequena compra. Porém, esqueceu-se da comida do cão ao lume.

O incêndio que se gerou foi igualmente debelado, atempadamente, pelos mesmos corpos de bombeiros que atuaram hoje e também não houve consequências de maior a relatar, exceto na referida cozinha. Hoje o casal vive com uma neta, o que me deixa muito mais descansado, ainda mais porque a memória e o discernimento da senhora se têm vindo sempre a degradar.

O que eu quero dizer, amiga Berta, é que o caso de hoje não é, nem será proximamente único e excecional. Na mesma situação aflitiva estão centenas de anciãos no nosso querido Bairro de Campo de Ourique (já para não falar do país). Muitos deles sem a totalidade e plenitude das suas capacidades. Algum tipo de acompanhamento e aconselhamento deverá ser alargado, pois já existem algumas iniciativas neste sentido, por forma a se poder ajudar a prevenir futuras situações trágicas desnecessárias e que nalguns casos podem até mostrar-se fatais.

Quanto ao incêndio de hoje não me posso esquecer de deixar demonstrada a minha solidariedade para com a Cervejaria Europa e para com o seu gerente, o senhor Paulo, que não só perdeu hoje a receita dos 19 clientes, que a quando do incêndio se encontravam a almoçar, mas que, quando me vim embora, ainda não sabia se poderia voltar a usar o gás proximamente.

Hoje foram 400 euros perdidos num almoço que até estava a correr melhor do que o costume, para os tempos de pandemia que vivemos. Porém, no momento a situação para ele e funcionários ficou mais incerta e insegura. Os mesmos votos deixo à farmacêutica, a Doutora Graça, e a todos os funcionários da Farmácia Porfírio que hoje se viu obrigada a fechar portas. Que as coisas corram pelo melhor a ambos é o que desejo. Despeço-me com um beijo amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: DGS condena à morte o Desporto em Portugal. (o que vai ser do Clube Atlético de Campo de Ourique - CACO?)

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Olá Berta,

Hoje, por causa das últimas notícias da DGS relativas ao Desporto, estava a pensar num clube pelo qual tenho um especial carinho. Estou a falar do CACO, o Clube Atlético de Campo de Ourique. O que vai ser desta gente se a DGS não alterar o seu comportamento? E o Ginásio Clube Português? E os Alunos de Apolo? E tantos outros pelo meu bairro e pelo país fora. Como poderão desenvolver-se as modalidades? Quem suportará a imensidão de testes à Covid requerida pela Autoridade de Saúde?

Aliás, generalizando, amiga Berta, sabias que existem em Portugal quase 700 mil atletas federados? É uma quantidade imensa de gente que faz mover o país como não fazia há 20 anos atrás, onde os praticantes eram menos de 50% do número atual. Se juntarmos a estes, aqueles que criaram os seus negócios e serviços para poder servir os desportistas e se lhes juntarmos a malta da dança, da música e dos eventos, e todos os que se movimentam à sua volta, estamos a falar de mais de 25% da população portuguesa.

Ora a DGS, fechada na sua sapiente redoma de idiotas intelectuais, está a condenar à morte o Desporto em Portugal. A quantidade de condições impraticáveis, que anunciou para que o desporto possa retomar, de alguma forma, à vida das populações, está a pôr em perigo eminente hábitos saudáveis e ativos com mais de 20 anos.

Ninguém diz que não devem ser tomadas medidas e cautelas para evitar a propagação da pandemia. Agora, criar normas e regras, para uma área tão vasta, sem ouvir os intervenientes, é absolutamente obtuso e absurdo, até mesmo intolerável.

Estará a DGS a apelar à desobediência civil? Quererá a DGS criar uma guerra aberta com mais de um quarto do país? O que se passa no mundo estranho e “pseudo-visionário” de Marta Temido e Graça Freitas?

Terá o poder subido à cabeça destas senhoras? Por favor, pela saúde e bem-estar de todos, regressem ao bom senso. Falem com as federações, as confederações, até mesmo com as associações, empresas do setor, sindicatos, todos os que sejam úteis, e o quanto antes, para não se verem com uma crise nacional de insurreição, dentro de pouco tempo, entre mãos.

O povo português é calmo, sereno e tolerante. Todos sabemos disso. Porém, não admite ser pisado e tratado sem respeito por muito tempo. Mais de dois terços das normas da DGS são inconstitucionais, violam descaradamente direitos fundamentais numa altura em que não existe um estado de emergência declarado, que as justifique. Isto tem de acabar o quanto antes. É preciso inteligência ativa no seio do Governo e muito rapidamente.

Nos termos presentes, a DGS condena à morte o Desporto em Portugal. Todavia, arrisca-se a mais cedo ou mais tarde ter de se sentar no banco dos réus. A pena de condenação efetiva sucederá, certamente, pouco depois. Deem um passo atrás enquanto é tempo. Não fiquem sentados de camarote à espera que o povo se revolte. Ele já foi paciente com a brincadeira de põe e tira máscara de Graça Freitas e do seu chorrilho de asneiras na altura.

Por favor governantes deste país não estiquem mais a corda, porque na ponta pode estar um laço, que se vai apertando, e que poderá vir a ser a vossa condenação à forca popular. Ganhem juízo e senso enquanto há tempo. Tomem todas as medidas que tiverem de ser tomadas, porém com a devida ponderação e consultando sempre os setores afetados. É negligência e soberba não ouvir os interessados ou os seus representantes antes de anunciar comportamentos, normas e medidas. As coisas têm de ser exequíveis, ponderadas e delineadas cuidadosamente.

A DGS não é o Ministério da Agricultura, nem as pessoas podem ser tratadas como varas de porcos ou manadas de gado que se mandam abater. O respeito mútuo tem de ser um prossuposto imperativo.

Além disso, eu quero ver o CACO jogar, quer ganhe ou perca, principalmente no Hóquei em Patins, uma das modalidades mais queridas dos portugueses. O que vamos dizer às crianças? O que podem fazer clubes como estes que mal sobrevivem no contexto atual, e se sobrevivem é à custa do esforço conjunto dos seus dirigentes, atletas e apoiantes? O que mais quer a DGS deles?

Mais não digo, minha muito querida Berta, sinto-me triste por ver o desrespeito como o povo a que pertenço tem sido tratado. É preciso agir e quanto antes. Recebe um beijo de despedida, deste teu velho amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

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