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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: O Que Se Passa em Campo de Ourique? Conversa à Mesa do Café - IV - Os Bombeiros de Campo de Ourique - Até Onde - Parte II/III

Berta 542.jpgOlá Berta,

Sendo esta carta a segunda, de três, sobre “O Que Se Passa em Campo de Ourique - Conversa à Mesa do Café" – Os Bombeiros de Campo de Ourique – Até Onde. A narrativa, hoje versa, entre outras novidades, mais uma das surpresas que tive do diálogo com o Adjunto de Comando, o senhor André Fernandes, em representação dos Bombeiros de Campo de Ourique.

Fiquei a saber que a corporação ronda os quarenta bombeiros no ativo, descontando os oito estagiários e os alunos da Escola de Infantes e Cadetes, sim porque, querida Berta, esta associação também ensina, sendo que, de momento, a escola é frequentada por quinze pupilos, que também compõem os elementos ativos da fanfarra.

Para além do pessoal já referido a casa conta também com mais quatro pessoas entre o pessoal administrativo e de limpeza. Porém, não sei bem como, eles conseguem ir dando conta do recado, com um número relativamente escasso de soldados da paz, ainda mais que, como fiquei a saber, destes quarenta, apenas dezoito estão integrados como bombeiros profissionais, ou seja, os restantes bombeiros são voluntários e só estão disponíveis depois de acabarem os seus trabalhos na outra atividade, sejam eles enfermeiros, carpinteiros, lojistas ou trabalhadores de uma qualquer empresa. Fiquei a pensar que aqui existe muita alma.

Para meu espanto, e juro-te amiga Berta que estava assombrado, não tivesse eu já sido presidente dos Bombeiros Voluntários de Sintra, descobri que embora não tendo ligação direta ao INEM e não possuindo nenhuma viatura do organismo, tinham quatro ambulâncias ao serviço da população a funcionar através do DIPEPH, que mais não é que o Dispositivo Integrado e Permanente de Emergência Pré-Hospitalar.

Ora bem, o DIPEPH funciona como, deves estar tu, amiga Berta, a perguntar, pois pouco entendes de bombeiros? Ele é, para explicar resumidamente, um programa coordenado pela Câmara de Lisboa, através do Serviço Municipal de Proteção Civil, que trabalha, entre outras muitas valências, com o INEM, reforçando a assistência do mesmo, em viaturas, serviços e pessoal, quando esta é solicitada.

Berta 542 b.JPG(Imagens de Gil Saraiva - Parte da Sala Museu dos Bombeiros de Campo de Ourique)

Como fontes de rendimento as coisas não estão famosas para estes soldados da paz, pois os sócios (já para não falar nos voluntários) são cada vez menos, fruto da mudança de estratos sociais no bairro, penso eu que já lidei com estes assuntos. Com efeito, embora pareça contraditório, quanto mais educada e instruída é a população de um bairro, quanto mais este deriva da classe baixa para a média ou a média alta, como tem acontecido com Campo de Ourique, menor é o apoio económico dado aos bombeiros locais. Assim como também diminui drasticamente o número de gente disposta a ser bombeiro voluntário.

Aqueles que estão bem economicamente tendem a pensar que não é sua responsabilidade contribuírem para os seus bombeiros, porque estes devem ser obrigatoriamente apoiados pelo poder autárquico e pelo Estado. Ora, isso é verdade, mas apenas em parte, estas entidades cobrem as despesas mínimas da associação, mas não muito mais do que isso.

Assim, se é necessário adquirir mais uma viatura, reforçar o quadro de pessoal profissional, arranjar equipamento novo para substituir o obsoleto ou deitar mão a um novo serviço, os recursos vindos pela via institucional são, e serão sempre, muito inferiores às verdadeiras necessidades de uma corporação de bombeiros.

Por sorte, segundo me contou o Adjunto de Comando, existe um benemérito que tem ajudado com a aquisição de equipamento, só não me foi dito quem ele é porque a pessoa pretende manter o anonimato. Apesar deste auxílio as necessidades são muito superiores às receitas e era bom ver a população a aderir à condição de sócio dos bombeiros.

Como complemento extra a associação tem ainda um parque de estacionamento, para os residentes do bairro que aí pretendam guardar as suas viaturas, bem como um bar e restaurante, aberto a toda a população, mas concessionado, o que faz com que os bombeiros não tenham qualquer desconto nas refeições. Aliás, a escassez de recursos tem feito desenvolver o espírito inventivo dos homens da paz.

Com efeito, estão a ser pensadas ações de formação pagas para os sócios, empresas e população em geral, seja no âmbito dos primeiros socorros, seja na prevenção e combate a incêndios. Esta ideia de gerar novos recursos e de cativar a população numa modalidade de quartel aberto a todos veio do próprio combate à pandemia de Covid-19, e à diminuição ainda maior dos recursos disponíveis, sendo que o Plano de Contingência da Câmara Municipal de Lisboa sempre ajudou com o fornecimento atempado, dentro do razoável, de equipamento de proteção individual.

Berta 542 c.JPG(Mostra de equipamentos - usados em formação)

Porém, embora este extra fosse precioso, isso não tem impedido que, no decorrer deste ano e meio, não existam sempre dois ou três bombeiros infetados e outros tantos remetidos ao isolamento profilático, o que tem reduzido o número médio de ativos ao serviço em dez ou quinze por cento, desde o início da pandemia.

Mas o que me espantou, minha querida amiga Berta, aquilo que me fez ficar de boca aberta foi a novidade seguinte. Estava eu a dizer a André Fernandes (já sem o senhor, a pedido do mesmo), o Adjunto do Comando, que Campo de Ourique era um bairro e uma freguesia densamente populosa, e que considerava que eles estavam abaixo dos recursos necessários para fazer face a uma emergência maior que pudesse surgir, quando o vejo a sorrir para mim, como se eu estivesse a dizer uma asneira que, no entanto, não deixava de ser engraçada por ser tão fora da realidade.

Falta de recursos para o bairro não era coisa que alguma vez tivesse passado pela cabeça do Comando dos Bombeiros de Campo de Ourique. O problema era que a área dos bombeiros que eu julgava, induzido pelo nome, serem só para serviço da área da freguesia, também se estendia para além das fronteiras do bairro.

André Fernandes sorria enquanto me informava, orgulhosamente, que eles também eram os Bombeiros da Freguesia de Campolide, cobrindo todo o território do bairro vizinho, indo a sua área de influência até Benfica, São Domingos de Benfica, Avenidas Novas e Santo António com quem estabeleciam fronteira. Estava eu a argumentar que o espaço a cobrir em Campolide era quase duas vezes a de Campo de Ourique e o meu novo amigo André já não sorria, em vez disso, ria descaradamente.

Quis saber em que é que o meu espanto o fazia rir daquela maneira. Ele acalmou-se e esclareceu-me que os Bombeiros de Campo de Ourique, também eram os Bombeiros da Freguesia da Estrela, indo até ao Tejo e fazendo fronteira com Alcântara e Misericórdia, sendo que aí a área abrangida era mais de três vezes a do nosso bairro. A vantagem era que, em termos de densidade populacional, quer a Estrela quer Campolide, tinham cerca de um terço da densidade de Campo de Ourique. Não era uma tarefa fácil, reconhecia André Fernandes, mas até agora, com mais ou menos sacrifício, sempre tinham dado conta do recado.

Juro-te, querida Berta, que se tivesse levado o meu chapéu, aquele teria sido o momento ideal para o tirar àquele bem-disposto Adjunto de Comando. Adversidade e resiliência pareciam palavras tão corriqueiras como pandemia ou teimosia e orgulho. Nesta altura a minha admiração sobre os Bombeiros de Campo de Ourique estava em níveis elevadíssimos, contudo, ainda haveria de subir mais com a surpresa que deixo para a parte final, amanhã, desta entrevista à mesa do café. Por hoje é tudo, beijos,

Gil Saraiva

Berta 542 d.jpg(Imagem de Gil Saraiva às Homenagens sempre presentes aos bombeiros mortos no cumprimento do dever)

 

 

 

Carta à Berta: O Que Se Passa em Campo de Ourique? Conversa à Mesa do Café - IV - Os Bombeiros de Campo de Ourique - Da Origem ao Futuro - Parte I/III

Berta 541 C.JPGOlá Berta,

Nesta carta, e nas duas seguintes, regresso ao tema sobre “O Que Se Passa em Campo de Ourique? Conversa à Mesa do Café" – Os Bombeiros de Campo de Ourique – Da origem ao Futuro. A conversa, que terei de dividir em três cartas, porque foi longa, esclareceu-me imensos detalhes sobre estes voluntários que antes de serem bombeiros já eram, por natureza, providos de uma imensa alma repleta de altruísmo.

Aliás, sobre estes soldados da paz fiquei a saber três coisas verdadeiramente surpreendentes que, querida Berta, te revelarei durante estas próximas cartas. A conversa, que por opção da corporação, não foi o Presidente da Direção dos Bombeiros, o doutor João Ribeiro, um homem com laços muito fortes às forças da ordem, porque, querendo eu saber da história da instituição, se considerou que o Comando era mais habilitado para este tipo de diálogo.

O senhor André Fernandes, adjunto de Comando, foi quem substituiu o Comandante Luís Neto, que não pode estar presente na entrevista devido a uma urgência, pelo que entendi, relacionada com problemas numa viatura. Tendo eu, obviamente, aceite e compreendido a ausência do Comandante, e sendo esta uma viagem entre o passado e o futuro, foi com agrado que descobri que André Fernandes é um bombeiro de terceira geração e que quer o seu pai quer o seu avô foram comandantes da associação.

A ideia desta Conversa à Mesa do Café, veio de outro bombeiro, o senhor Miguel Oliveira, que graciosamente se dá ao trabalho de ir mantendo a instituição viva e pulsante nas redes sociais, nomeadamente, no Facebook. Sempre que a vida lhe permite este bombeiro, e carpinteiro de primeira água, lá se vai dando ao trabalho de fotografar, filmar e registar nos anais da internet, para quem quer ver, a ação e intervenção dos Bombeiros de Campo de Ourique nas diferentes vertentes do seu imenso trabalho. Tem sido, aliás, graças a ele, a quem agradeço de coração, que eu tenho acompanhado a corporação com alguma regularidade.

Saindo deste aparte, do parágrafo anterior, e voltando ao André Fernandes e à Conversa à Mesa do Café, foi com surpresa, a primeira de três, que fiquei a saber que os Bombeiros de Campo de Ourique nem sempre o foram, ou seja, a fundação da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique a treze de novembro de mil novecentos e dezasseis, que brevemente celebrará cento e cinco anos de existência, era, anteriormente uma associação de saúde transportando como símbolo a Cruz Branca.

Berta 541 B.JPGPor outras palavras os Soldados da Saúde, juntaram o fogo e o combate a incêndios às suas atividades ao serviço da população, para se tornarem, de pleno direito, Soldados da Paz. O que faz desta gente uma corporação centenária dedicada a servir, proteger, cuidar e salvar os seus conterrâneos, faça sol, chova ou faça frio, sempre que para tal são solicitados por aqueles que nas proximidades nem imaginam os sacrifícios acumulados ao longo dos anos, sem que o sorriso dos rostos o demonstre.

Por agora fico-me por aqui, querida Berta, pois não quero que um assunto tão importante se torne aborrecido por ser demasiado extenso, numa só carta. Amanhã e depois contar-te-ei as outras duas surpresas que esta Conversa à Mesa do Café revelou. Fica com um beijinho,

Gil Saraiva

Berta 541.JPG

 

 

 

 

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