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Carta à Berta / Desabafos de um Vagabundo / Miga, a Formiga / Estro

A partir de Julho de 2022 os blogs do Senhor da Bruma, assinados por Gil Saraiva, são reunidos em "alegadamente". Os blogs: Estro (poesia), gilcartoon (cartoons) e Desabafos de um Vagabundo (plectro) passam a integrar este blog. Obrigado.

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Carta à Berta n.º 591: Anatomia de um Pum

Berta 591.jpg Olá Berta,

Uma descoberta recente levou-me ao tema de hoje, ou seja, minha amiga, vou-te falar de puns, bufas, peidos, gases, traques, flatulências, farpas, alívios, descuidos, pantufas e bombas. Pelo que descobri, depois de uma cuidada investigação, este é um segredo bem guardado pelas mulheres e totalmente ignorado pelos homens.

A partir de hoje torno público, este segredo de género, para bem de toda a humanidade. Sim, porque ainda me estou a interrogar porque é que a minha mãezinha, nunca me confidenciou um facto como este, cuja evidência parece óbvia, mas se mantém oculta, querida Berta, para o género masculino, qual segredo guardado a sete chaves.

A única desculpa que as mulheres têm por não revelarem a verdade, o que te inclui também a ti, cara Berta, é que vocês nem sequer contam o vosso segredo umas às outras. Porquê? Talvez por acharem que este é um segredo só vosso e que a capacidade extraordinária que possuem é algo de pessoal e intransmissível que só acontece convosco.

Mas vamos à ciência do peido. Ora, em condições normais, a maior parte dos gases que formam o pum vem da nossa boca. Apenas 10% surgem na fermentação dos alimentos ao longo do nosso intestino grosso. O resto nada mais é do que ar que engolimos sem querermos quando comemos ou mesmo bolhas de ar presentes na saliva ou nas bebidas gaseificadas que ingerimos, principalmente, refrigerantes e cerveja, ou seja, Berta, começamos a formar a nossa futura bufa na boca e não lá em baixo, nos confins da retaguarda, longe do olhar que não do nariz.

Esse ar percorre todo o intestino até se encontrar com os gases produzidos pela ação das nossas bactérias sobre a comida. Juntos, cara Berta, eles chegam à zona retal, a uma espécie de bolsa ou ampola, a última parte do tubo digestivo, que termina no ânus.

É aí que ficam comprimidos até o ser que os acumulou abrir uma brecha para que possam sair e empestar o ambiente. Ora, isso acontece de 12 a 25 vezes ao dia, até porque toda a gente se peida enquanto dorme, libertando diariamente de 1 litro a 1 litro e meio de gases. E se tu pensas, minha querida, que homens se peidam mais do que as mulheres, estás redondamente enganada.

Peido não escolhe sexo, mas as mulheres, de uma forma geral, têm mais vergonha de aliviar seus gases em público. Assim sendo, ficas a saber, Berta, que cheiro e som tampouco escolhem sexo. O cheiro depende do que se comeu e o barulho é uma junção de variados fatores.  Matematicamente falando trata-se de uma correlação entre a velocidade de liberação, a contração do esfíncter, essa válvula que controla o abre e fecha do ânus, a humidade local e a quantidade de gordura das fezes, que lubrifica o tubo digestivo.

Desta intrincada fórmula matemática, que um dia, minha amiga, ainda acaba por virar algoritmo, resulta o tipo de peido que é produzido por cada individuo. Pode ser um suave pum, uma bufa fedorenta ou uma de pantufas, um traque bem sonoro, uma bomba que obriga ao evacuamento do espaço onde é produzida, uma flatulência delicada que mal se sente ou, em última análise, um alívio descuidado e fatal acompanhado de molho, qual esparguete servido com um molho que fede mais que queijo demasiado fermentado e que se liberta devido ao aumento da pressão. Sendo que o peido molhado é o mais radical e perturbador petardo que pode ser produzido em público.

Quando o peido é aprisionado dentro de nós, cara Berta, não sendo autorizado a chegar à liberdade, bem que podemos cantar a música dos Delfins, que Miguel Ângelo se recusou a vender para uma farmacêutica, “Libertam os prisioneiros, em todo o mundo há prisioneiros. Libertem-nos!”

Desde que somos bebés que tomamos remédios para libertarmos estes prisioneiros que, revoltados com o cárcere, nos provocam terríveis dores na barriga até receberem ordem de soltura. Porém, enquanto adultos, minha querida, somos muitas vezes obrigados a reter em prisão preventiva, qualquer gás que se queira soltar na presença de terceiros. É este ato, conhecido em Cascais como norma de etiqueta, que nos obriga a aprisionar estes libertinos, sem justa causa, porque a etiqueta jamais deveria ser motivo de prisão.

Mas voltando ao início desta carta, minha querida amiga, e ao segredo religiosamente guardado pelas mulheres, eu, embora espantado com a descoberta, acho importante a divulgação pública deste ficheiro secreto sobre a nobre arte de peidar, oculto no reino do feminino até aos nossos dias e que passo a revelar.

Ora, aqui há atrasado, como dizem os meus amigos do Norte, para se referirem ao que se passou há uns tempos atrás, eu andei dois ou três dias a urinar não da forma normal, ou seja, através de um jato bem direcionado para  a sanita, mas em forma de duche de chuveiro, com xixi a atingir a loiça da sanita, o chão e até os pés. Alguma coisa no canal, minha amiga, estava a obstruir a passagem e a obrigar-me a libertar esta forma estranha de regadio urinário.

Nas primeiras duas ou três vezes ainda continuei a urinar de pé, na esperança de que a mangueira se corrigisse a si mesma. Porém, Berta, a partir dai, desisti. Passei a urinar sentado, para não ter o trabalho de andar a lavar e a limpar tudo à minha volta de cada vez que fazia um xixi.

Aconteceu tudo logo na primeira vez que me sentei para libertar o xixi. Juntamente com o fluxo da urina, o meu traseiro libertou aleatoriamente e sem ordem expressa uma boa mão cheia de puns. Achei engraçado, longe de saber que se tratava de uma regra, mas rapidamente descobri que a coisa acontecia sempre que me sentava para o xixi. Aquilo, cara amiga, não só me aliviava a barriga, como me evitava a libertação indevida de gases em contexto público com muito mais facilidade.

Intrigado com o assunto perguntei discretamente a algumas amigas minhas, a sós, se aquilo era sempre assim. E não é que todas, mas todas, Berta, se riram da minha descoberta ao mesmo tempo que me confirmavam ser um facto, ou seja, sentar para fazer xixi causa a libertação de puns, quer se queira, quer não.

Quer isto dizer, que eu, e como eu todos os homens, passámos e passamos uma vida inteira a “mijar de pé” sem sabermos que aliviaríamos a tripa de uma série de peidos inconvenientes se, em vez disso, urinássemos sentados. É uma injustiça, minha cara, vocês manterem uma informação deste nível de importância em segredo.

Entretanto, a areia que obstruía o meu canal deve ter-se libertado e passei a fazer de novo o meu xixi em jato regular, normal e bem direcionado, mas confesso que agora, sempre que estou em casa, urino sentado, para alívio da minha retaguarda que, muito agradecida, se vai sentindo aliviada.

Peço desculpa por abordar este tema contigo, porém, Berta, pelo menos tu já me devias ter dito algo, não achas? Fica um beijo de despedida deste teu eterno amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: A Teoria do Amor - Parte III - Viagem Para o Paraíso

Berta 68.jpg

Olá Berta,

Desculpa ontem ter enviado 2 cartas, mas tive que desabafar. Há coisas que não devem ficar para o dia seguinte. Sei que não te importas destes pequenos abusos da minha parte, mas mesmo assim, por seres a amiga que és, acho que fica bem uma justificação.

Mando-te a terceira parte do poema que te tenho enviado aos poucos porque, ao fim ao cabo, são 4 poemas num só. Não quero que apanhes um enjoo de linguagem poética. Assim, aos poucos digeres melhor. Aqui vai:

 

"OS OUTROS - TRAGÉDIA EM QUATRO ATOS"

 

                   III

 

"VIAGEM PARA O PARAÍSO"

 

Perante os migrantes vindo do Oriente,

A Europa justa vai abrir os portões,

Dizem os líderes da União Europeia,

Criam cotas, repartem apoios, vão à televisão…

Mas a verdade esconde-se, abriga-se,

E o que se fala nada quer dizer, nem tem tradução;

Mas todos prometem intenções tão boas,

Numa teoria que jamais será Tese, Lei ou Saber.

 

Aceitam milhares, dizem os jornais,

Mas fazem-se muros, que é farpado o arame,

Entram meia dúzia, um pouco mais, mas de pouco não passa,

A custo, a medo, que a vergonha não esconde a cara…

 

Impera o cinismo, dizem que é cedo,

Mas para os migrantes o tempo parou,

E tentam entrar de qualquer maneira nessa Europa

Onde solidariedade se escreve a borracha,

Onde esperança é palavra oca que o vento varreu…

 

Por entre os milhares, fugidos da Síria curda,

Entre fome e sangue, entre dor, pânico e sobrevivência,

Uma família que o lar perdeu na perdida Kobane,

Já na Turquia, procura uma forma de chegar à Grécia, a Kos,

Nem terra, nem ar, que apenas o mar é solução…

 

E ali, em Bodrum, a dois passos da Europa,

Um casal com dois filhos decide arriscar,

Um entre os milhares que já são milhões.

 

Da praia de Ali Hoca partem de barco feito borracha

Que apaga vidas…

Onde cabem dez viajam cinquenta,

E dá-se a tormenta, o naufrágio, mais um,

Sobrevive o pai, sucumbe a mãe e as duas crianças,

De três e cinco anos que a idade é tenra

Mas a morte não.

 

A viajem acaba, como começou, em calamidade,

Igual a tantas outras que a precederam,

E assim chegaram, todos ou quase, por fim, finalmente,

A um paraíso que não tem país.

 

Sabes, minha amiga, costumo dizer que a maior sorte que tive em toda a minha vida foi ter nascido em Portugal. Para esta gente que nasceu nestes lugares, para onde o inferno tem os portões abertos, sobreviver já é uma aventura. Quando penso nisso e nos meus problemas acho que reclamo de barriga cheia.

Deixo-te um beijo de despedida, com as saudades que imaginas deste teu velho amigo de sempre,

 

Gil Saraiva

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