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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte XVIII

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Olá Berta,

Dando seguimento à última carta, que agradeço que tenhas referido ter-te deixado curiosa, sigo de imediato para a narrativa. Assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte XVIII

“Se devidamente analisado, à luz do seu tempo, Aquilino Ribeiro mostra-se muito à frente da sua época e das ideias de então. Neste romance ele promove aquilo a que se poderia muito bem chamar uma verdadeira revolução sexual. De notar que a ação decorre 40 anos antes dos famosos anos 60, esses muito conturbados tempos da paz e do amor e da reivindicada liberdade sexual.

Aliás, embora nunca tenha lido nada que possa sequer comprovar o que vou escrever, eu acho provável que os loucos anos 20, na América, possam ter influenciado o papel verdadeiramente diferente do habitual, naquela altura, atribuído à mulher, por parte de Aquilino, na sua obra. Por ventura, as notícias do novo mundo podem ter ajudado na quase sátira de Aquilino Ribeiro ao <<status quo>> instituído e tomado como certo.

Podia ter também falado aqui da personalidade única do escritor. Ele que foi beirão, emigrante, preso, procurado pela polícia, fugitivo, seminarista, fundador de revistas literárias, membro da Biblioteca Nacional de Portugal e do grupo com a mesma denominação, sócio da Academia das Ciências de Lisboa, desertor, arguido em tribunal militar, condenado, caçador e até estudante universitário da Sorbonne, em Paris.

Contudo, também foi cavaleiro, republicano, contacto regular do movimento regicida, presidente e fundador da Sociedade Portuguesa de Escritores, presidiário, evadido da prisão, clandestino, cronista na imprensa escrita, professor, sem licenciatura, filho, pai e avô.

Somando aos demais parágrafos Aquilino foi ainda escritor, proposto para o Prémio Nobel da Literatura em 1960, acusado de anarquista, maçon, militante acérrimo da candidatura à Presidência de Humberto Delgado, Comendador da Ordem da Liberdade.

No topo do bolo, qual cereja, Aquilino Ribeiro é um dos ilustres portugueses a ter o direito de ter os seus restos mortais a descansar no Panteão Nacional.

Tendo em conta os últimos 4 parágrafos, tudo o que foi escrito relata o escritor, entre outras coisas, e não necessariamente por esta ordem, escolhida propositadamente, por mim, para parecer conturbada e polémica como aliás foi toda a sua vida.

Aquilino Ribeiro era, por si só, um caso único e invulgarmente admirado na cena literária portuguesa e internacional, de que são exemplos as honras recebidas no Brasil e em Paris. Eu, aqui, podia vir falar dos mais de 40 livros que deixou, enquanto obra publicada. Porém, não era sobre Aquilino Ribeiro, propriamente dito, de que me interessava falar. Prefiro referia-me sim, apenas e só, à sua obra: <<Andam Faunos Pelos Bosques>>.”

Despeço-me com uma piscadela de olho e um sorriso franco, deste que sempre será teu amigo, com votos de que estejas a ter um excelente dia, com amizade,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte XVII

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Olá Berta,

Hoje entro, sem demoras, num novo tema. Algo mais erudito porque, para meu próprio orgulho, também se torna necessário, dar um pouco de luz às cartas que te escrevo. A cultura não aleija e, por estranho que te possa parecer (ou talvez não), ajuda a formar mentalidades e identidades. Ao contrário do provérbio que afirma que << o saber não ocupa lugar>> eu considero que ele não só ocupa, como devia ser sempre encontrado no cume das nossas prioridades. Assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte XVII

“Caro leitor, desculpa-me se te pergunto, mas já leste tu, por acaso, a excelente obra-prima de Aquilino Ribeiro intitulada <<Andam Faunos pelos Bosques>>? O autor certamente que te diz alguma coisa, mas e a obra? Conheces a sua obra literária?

Como não estás presente para responder, vou depreender que não, pois será a resposta mais comum de quem me lê. Porquê? Porque sendo tu uma pessoa desta época, onde se vive a era da imagem, só por mero acaso ou gosto particular é que terias ido ler uma obra escrita em 1926, por muito clássica que esta possa ser. Vejo-te a ler mais facilmente os romances do José Rodrigues dos Santos do que a desempoeirares o Aquilino. Contudo, posso estar absolutamente errado na minha avaliação e, se for esse o caso, peço desculpa, apenas o disse porque a leitura não está na moda e muito menos ainda o Aquilino.

Porém, hoje, por motivos que explicarei um pouco mais à frente, interessa-me falar neste assunto. Nomeadamente sobre o romance do mestre: <<Andam Faunos pelos Bosques>>.

Resumindo a ideia da história, mas sem intenções de a contar, posso dizer que ela anda à volta de um muito estranho acontecimento, passado nas serranias das Beiras e em Viseu, em que as mais belas damas da região são vítimas (ou não) de um predador sexual. A polémica instala-se, principalmente entre os investigadores do caso: os padres. Uns ingénuos e cândidos, outros com uma visão ainda perfeitamente arcaica e rural. Ainda há alguns esclarecidos e modernos, influenciados por uma educação na capital e mais aqueles realistas, conhecedores das influências que, à época, ventavam Paris, com um bafo a meandros bem obscuros e muito pouco dados à fé.

As teorias sobre que criatura ou criaturas andariam a colocar as suas sementes nas beldades regionais divergiam entre si. As conjeturas  variavam entre os que defendiam tratar-se do próprio Belzebu; os que colocavam um anjo como protagonista; os que pensavam que deveria ser tudo obra, isso sim, de um Casanova regional ou até de vários e, por fim, os que atribuem as culpas a um ou mais faunos míticos e sedutores, os quais enfeitiçariam as donzelas, com a mágica e erótica música das suas flautas de Pã, arrastando-as para os bosques, onde consumariam os seus enfeitiçadores intentos.

É do alegado arrastamento das mulheres para os bosques, com intuídos de uso de uma flauta, que não a de Pã, que surge o título da obra <<Andam Faunos pelos Bosques>>. Ninguém sabe lá muito bem quem são, quantos são, onde estão e como fazem as coisas. Contudo, desafiando a lógica, serão eles os possíveis e derradeiros culpados. Pensaram mesmo que os faunos através do uso profano e encantador das sonoridades da sua Pã, enfeitiçam, usam e abusam das castas raparigas e das respeitáveis senhoras beirãs?”

Deves estar a estranhar o porquê da presente temática, querida amiga, todavia, dentro de um ou 2 dias será bem mais fácil entenderes as minhas motivações. Tem um pouco de paciência comigo. Por hoje fico-me por aqui. Este teu amigo despede-se com uma beijoca sorridente,

Gil Saraiva

 

 

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