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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - XI - Os Apelos do Vinho - Parte II - Os Triunfos

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Olá Berta,

Voltamos ao nosso tema corrente, “Os Segredos de Baco”. Dividi em 2 cartas os 10 grandes apelos usados para atrair os apreciadores do néctar. Embora eu dê muitos exemplos, não precisas de os estar a ler exaustivamente, fica-te por aqueles que achares suficientes, para entenderes a explicação que dou antes de cada conjunto de exemplos. A leitura torna-se mais suave e menos maçuda.

B) Os 10 mandamentos do vocabulário, nomenclaturas e terminologia nas garrafas de vinho. Os grandes Apelos do Vinho.

Parte II: Os Triunfos: Apelos de Memória, Míticos, de Linhagem, Monárquicos e de Aptidão.

1) Apelos de Memória: da Tradição à Antiguidade:

Uso do Ano e da Casta, Detalhes que nos fazem recordar, que criam laços de familiaridade, que eliminam desconfianças e receios. Assim encontramos palavras que geram nostalgias e lembranças, que nos recordam usos e costumes e hábitos que nos moldaram ao longo da História que nos constitui.

Exemplos: Castro(s), Caves Velhas, Garrafeira, Mó, Nora, Origem, Velho, Telha, Tempo(s), Velhos Tempos, Pontual, Tinto Velho, Velharia,  Vinhas Velhas, Vinho de Mesa, Vinho Regional, Madeira Velha, Romanos, Reserva, Grande Reserva, Seleção, Seleção Especial, Escolha, Grande Escolha, Garrafeira, Talha, Tambuladeira, Canto Décimo, Tecedeiras, Chrestus, Côro, Arte, Coleção, Vintage, Comendador, Arca, Prestige, Fundanos, Servas, Torres, Atrium, Ameias, Paredes, Couteiro-Mor, Volte Face, Mouros, Aliança, Serra Brava, Primavera, Pintor, Barqueiros, Avós, Parra de Prata, Portal, Lagar Velho, Falua, Convenção, Tanoeiro, Falcoaria, Palma, Bica, Magnum, Selecto, Grão Vasco, Castrus, Dona, Séquito, Hereditas, Homenagem, Soberanas, Barca Velha, Aniversário, Conventual, Monte Velho, Fundação e Praça Velha.

2) Apelos Místicos: do Mistério à Religião:

Nesta busca pelas interações com o consumidor os ambientes de mistério e de religião casam a preceito com as intenções de quem produz com intuito de ver o seu produto bem colocado no mercado, opta-se por um lado, com facilidade, por palavras enigmáticas e secretas ou, por outro lado termos que nos conduzam à crença ou à fé.

Exemplos: Aether (a significar Vinho Efervescente - verde, Espuma ou Essência do Éter), Aphros Daphne (traduzindo um Vinho Efervescente - verde, Espuma ou Essência do Loureiro Mitológico), Cave(s), Cova, Portal, Prova Cega, Reserva, Capela, Convento, Freiras, S., Santa(s), Santo(s), São, Carpe Noctem, Voyeur, Spirits, Corpus, Pia(s), Aphros Restrito, Milagre, São Domingos, Judeu, Incógnito, Arrepiado, Romeira, Murça, Fagote, Sedna, S. Sebastião, Monte dos Pelados, Odisseia, Canto X (Décimo), Chrestus, Furtiva Lágrima, Fundanos Prestige, Dolum, Unique, Veritas, Casa de Santa Vitória, Pecado Capital, Dom Martinho, Frei João, S. João Batista, Globus, Mundus, Pegus, O Convenção, Terras do Demo, Olho no Pé, Terras de Cister, Confradeiro, Má Partilha, Além, Cardeais, Papa, Pope, São Gens, Freiras, Clandestina, Fonte Santa, Conventual, Caminhos Cruzados e Inevitável.

3) Apelos de Linhagem: da Propriedade à Família:

A propriedade é um dos valores mais tradicionais do ser humano, cria laços. gera confiança, emite fortes noções de segurança e de conforto, faz parte da estabilidade da família na busca quer da subsistência quer do equilíbrio de todos os seus elementos, fazendo surgir palavras ligadas à posse, ao reconhecimento e ao valor ou até termos geracionais, de descendência e de direito por locais, lugares ou edifícios que afirmamos como nossos.

Exemplos: Herdeiros, Companhia, Real, Adega, Arca, Baixo, Casa, Casal, Couteiro, Leira, Muro(s), Porta, Produtor, Quinta, Tonel, 1º Prémio,  Alta(s), Alto(s), Pipas, Pipas Novas, Capote, Consensual, Serra Mãe, Bica, Tapada, Vinha, Outeiros, Pombal, Ameias, Filhos, Portal, Terraços, Grandes Quintas, Fronteira, Arca Nova, Torres, Serrado, Pomares, Barqueiros, Casta Rica, Casaleiro, Fonte, Fontanário, Galera, Tanoeiro, Porta, Ribas, Solar, Torres, Terras do Pó, Estanho, Comendador, Cortes, Titular, Coutada, Herdade, Propriedade, e Reserva do Chefe.

4) Apelos Monárquicos: da Realeza à Nobreza:

Todos nos lembramos das histórias de príncipes e princesas, reis e rainhas, espadas e escudeiros, que tantas vezes escutámos enquanto crianças. É simples a atração pelo fausto e pelas etiquetas da corte porque são coisas vindas do nosso imaginário enquanto infantes, daí surgirem palavras ligadas a esse maravilhoso mundo fantástico onde a glória tinha significado e pelas mãos e atos de alguns se tornava épico.

Exemplos: Barão, Cavaleiros, Comendador, Conde, Condado, Coroa, Cortes, D., Don, Foral, Franca, Grão, Magnum, Marquês, Marquesa, Mor, Morgado, Paço(s), Palácio, Praça, Real, Régia, Solar, Torres, Visconde, Foral D. Henrique, Magna Casta, Ameias, Ira, Senhora, Infantado, Nave, Casa de Paços, Superior, Casal do Conde, Marquesa de Cadaval, Dom Hermano, Palácio dos Távoras, Conde de Foz de Arouce, Barão Rodrigues, Solar dos Lobos, Visconde de Borba, Marquês de Marialva, Paço do Conde, Caves Dom Teodósio, Vinícola Castelar,  Vice-Rei, Coutada, Marquês de Villamagna, Palácio da Brejoeira, Solar das Francesas, Conde de Monte Real,  Porta dos Cavaleiros, Vila Régia, Torres Coronas, Cavaleiros de São João, Reserva do Comendador, Conde de Monsul, S de Soberanas, Condado de Alenquer e Palácio da Bacalhôa,

5) Apelos de Aptidão: do Conforto ao Poder:

Por último não se torna difícil concluir que o ambiente à volta dos prazeres do vinho conduza ao poder e ao conforto por ele proporcionado, é, por assim dizer, o objetivo último de todos os apelos anteriormente descritos, nesta senda surgem termos nos rótulos das garrafas palavras que demonstrem comodidade, regalo, conquista e merecimento ou então, liderança, comando, potência e, inevitavelmente, muita capacidade.

Exemplos: Comendador, Rei, Chefe, Patrão, Serra Mãe, Palácio, Magnum, Solar, Fundanus Prestige, Conde, Bica, Casal, Fontanário, Cima, Coro, Escolha, Fornos, Folgorosa, Gordo, Foral, Grande(s), Maior, Medalha, Oiro, Monte D'Oiro, Ouro, Personalizado, Premium, Herdade Paço do Conde, Collection, Prova, Rating, Seleção, Selecionada, Chefe, Patrão, Seguro, Sublime, Superior, Uva de Ouro, Condado, Vila Régia, Vinho Biológico, Vinho Comemorativo, Vinho Particular, Dona, Nova(s), Pausa, Odisseia, Ideias, Monte do Pintor, Garrafeira, Coutada, Caves Primavera, Parra de Prata, Lagar Velho, Terra Franca, Torres, Magna Casta, Casa do Vale, Tapada e Vitória.

Amanhã, se tudo correr conforme o previsto, cá estarei com uma nova carta, por hoje despeço-me com a ternura de um beijo etéreo, este teu amigo,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - X - Os Apelos do Vinho - Parte I - Os Apelos Sensoriais

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Olá Berta,

Estava na altura de te continuar a enviar os eventos de 2019, mês a mês. Estou a falar daqueles que foram acontecendo no meu bairro. Contudo, acho que os 3 primeiros meses que recebeste ter-te-ão dado uma boa noção de como as coisas iam acontecendo por aqui. Assim, e porque se tornava algo repetitivo, cancelo definitivamente essa revisão do ano passado no bairro. Vou continuar, porém, a minha epopeia pelo mundo do vinho. Essa sim, é bem mais interessante. Conforme reparaste troquei a ordem das duas últimas cartas. Esta era para ter seguido ontem e a outra só deveria ter ido hoje. Mas não importa muito, o conteúdo não muda, que é o que interessa.

Cheguei finalmente nesta divagação sobre os “Segredos de Baco” aos apelos, ou seja, aquilo que quase subliminarmente é usado pela indústria do vinho para nos transportar para o seu mundo, sem que para isso nos convoque diretamente para a sua causa. Os exemplos que apresento não são para ser lidos todos e servem apenas para ficares com uma ideia.

B) Os 10 mandamentos do vocabulário, nomenclaturas e terminologia nas garrafas de vinho. Os Grandes Apelos do Vinho.

Parte I: A Humanização Civilizacional: Apelos de Natureza, de Terra, de Local, de Nome e, finalmente, na busca das sensações primeiras, os Apelos Sensoriais.

1) Apelo à Natureza:

Detalhe Hídrico, Detalhe Geográfico, Mineral. Na senda da segurança na familiaridade de zonas de regresso à nossa primitividade e pré-história, realçando a importância dos solos, dos terrenos e da flora, apelando para as coisas naturais em que relaxamos, por isso o uso de determinadas palavras.

Exemplos: Campo, Costa, Coutada, Encosta(s), Monte(s), Monte Branco, Monte Maior,  Vereda(s), Termo(s), Planalto, Serra(s),  Estanho, Ferrugento, Cal, Curva, Curvos, Vale, Valle, Hermo(s), Penedo(s), Prata, Bronze, Ouro,  Tapada, Terraços, Fundação, Lagoa, Lagos, Rio, Foz, Ribeirinho, Ribeiro, Fonte, Fontanário, Fontão, Poças, Esporão, Além Tanha, Tejo, Mondego, Douro, Guadiana, Terras do Sado, Arouce, Tua, Flor do Tua, Pinhal, Penha, Ermo(s), Leira, Mouchão, Carvalhais, Serrado, Pomares, Planura, Madrigal, Chã, Chão, Cumeada, Serra Brava, Primavera, Granja, Herdade, Quinta, Terra(s), Terras de Xisto, Sem Terra, Folhas, Urze, Península, Passarinhas, Lagar Velho, Meda, Espinhosa, Montanha, Brolhas e Mato(s).

2) Apelo à Terra e à união em torno dela:

Detalhe Geográfico para o lazer ou para o trabalho, normalmente sujeito a intervenção humana e ainda atividades e coisas ligadas à terra. Procura-se dar chão, criando terrenos familiares e bucólicos, onde o conforto se instale, nestas escolhas de palavras ligadas à aquisição e ao que é nosso e por nós foi moldado e vergado à intervenção árdua a que nos propusemos.

Exemplos: Calços, Cerrado, Chã, Charneca, Colheita,  Terra(s), Terras do Demo, Terras do Pó, Terras do Minho, Terra Franca, Terras do Sado, Terras do Suão, Tapada, Terraço(s), Cortes, Adega, Adega Cooperativa, Vila, Vinha(s), Vinhedos, Vallado, Granja, Cebolal, Outeiro(s), Espargueira, Leira, Panca, Bica(s), Ponte, Pegões, Esporão, Barca, Nora, Passadouro, Fontão, Fonte, Fontanário, Cachão, Corga, Herdade, Granja, Pomares, Coutada, Casaleiro, Casal, Quinta, Ramada, Barrocão, Monte Real, Tanoeiro, Nave, Praça, Mó, Primavera, Caves, Palma, Espinhosa, Planura, Machados, Campo, Marachas, Cascas, Termos e Pombal.

3) Apelo a um Local:

Região, Especificação do Local, seja ele o nome da região, da terra ou mesmo da quinta ou da herdade. A ideia é gerar proximidade, noção de conhecimento, de empatia, eliminando fatores de incerteza ou falta de conhecimento. Assim, facilmente, encontramos nomes de certos lugares que se tornam ou pretendem tornar icónicos, incontornáveis e imortalizados pela fama.

Exemplos: Pancas, Lagoalva de Cima, Arrancosa, Borba, Piornos, Alqueve, Cadaval, Vila Nova de Foz Côa, Sobral, Coelheiros, Monte da Cal, Rabaçal, Palmela, Trogão, Alandroal, Cebolal, Folgorosa, Calços do Tanha, Pias, Arrochais, Melgaço, Beira, Carvoeira, Covilhã, Cadaval, Infantado, Vilarinho dos Freires, Freixo de Espada à Cinta, Santar, Barca d'Alva, Fundão, Foz de Arouce, Tramagal, Salgueiral, Sanguinhal, Lixa, Cantanhede, Crasto, Lourosa, Castro de Pena Alba, Cova da Barca, Lagoa, Mealhada, Souselas, Vilarinho do Bairro, Redondo, Granja, Reguengos de Monsaraz, Alcoentre, Torres Vedras, Lagos, Barcelos, Tomar, Cambres, Lamego, Favaios, Mesão-Frio, Minho, Ponte da Barca, Santa Marta de Penaguião, Monte Real, Labrugeira, Távora, Valpaços, Bombarral, Marvão, Alijó, Sangalhos, Fornos, Meda, Vila Real, Almeirim, Lisboa, Portalegre, Arruda dos Vinhos, Mangualde e Pegões.

4) Apelo ao Nome:

Nomes usados na própria designação do vinho ou no rótulo, sejam eles profissionais e especializados, seja a passagem para as garrafas do nome próprio e do apelido dos seus proprietários ou criadores. Trata-se sempre da busca pela glorificação de algo seja a Especificação do Enólogo ou a Individualização do Produtor entre outros. Tudo na procura de uma proximidade quase que familiar que conforte o consumidor ou que lhe ofereça confiança e cumplicidade. Assim podemos encontrar na rotulagem das garrafas nomes que anseiam pela imortalidade impressa na rotulagem, todavia, poucos o conseguem.

Exemplos: Eugénio de Almeida, Vaz de Carvalho, Dom Teodósio, Lima Mayer, José Gomes da Silva, De Filipa, Gilda, Paulo Laureano, Vítor Horta, Miguéis, Acácio, Nunes Barata, S. Sebastião, Howard'S Folly, Athayde, Horta Chaves, António Caetano de Sousa, Faria Girão, Sancho Uva, António Bernardino P. da Silva, Mário Nuno, Jaime Cardoso, José Bento dos Santos, João Abrantes, Eduardo Loureiro, João Barbosa, Gabriel Dias, Ferreirinha, Olazabal, Montez Campalimaud, José Carlos Pinto, Eduardo Seixas, José Joaquim da Silva Perdigão, Comendador Delfim Ferreira, Julian Reynolds, Manuel dos Santos Campolargo, Barão Rodrigues, Miguel Torres, Manuel Joaquim Caldeira, António Bonifácio, Marcolino Sebo, Maria Irene Costa, José Carvalho, Rebelo Lopes, Zé da Leonor, Mendes Pereira, Jorge Rosas, José Maria da Fonseca, Garcia Pulido, Xavier Santana, Maria Hermínia Paes, João Portugal Ramos, Abel Pereira da Fonseca, António Pires da Silva, Santos Lima, Filipe de Brito, Maria Teresa Rodrigues, António Rocha, A. Henriques, Brites Aguiar, Alexandre relvas, Macário de Castro Valdigem, João Pombo, Sampaio e Melo Cabral, Maria del Carmen Martinez Touro, Santos Jorge, Maria Adelaide Melo e Trigo, José Soares Albergaria, Isabel Juliana, Ermelinda de Freitas, Emili Antónia Reynolds, Sofia Vasconcelos, Antónia Adelaide Ferreira,  Manuel Poças Júnior,  e Carvalho Ribeiro e Ferreira, etc..

5) Apelos Sensoriais:

Detalhe que nos provoca uma sensação, um sentimento, uma recordação experimental, que nos aproxima do vinho pela proximidade dos termos, comuns no nosso quotidiano como, por exemplo, uma Flor, uma Árvore, um Animal, um Odor, uma Essência ou uma Imagem. Uma Casta também pode trazer esse apelo (Dois exemplos de Castas: Syrah, Touriga Nacional - consultar as principais castas por região). Em resumo, buscam-se palavras que nos ajudem os sentidos na procura de emoções.

Exemplos: Aniversário, Primavera, Maio, Feijoada, Barricas de Carvalho, Carvalho, Romeira, Oliveira, Cedro, Couquinho, Hortências, Bágeiras, Aciprestes, Pera, Buganvílias, Cerejeiras, Pinheira, Espinho, Zimbro, Pinhal, Pombal, Raposinha, Lobo(s), Grilos, Chitas, Merino, Perdigão, Falcão, Abibes, Raposa, Gaivota, Charneco, Porca, Pato, Passarinhas, Periquita, Pego(s), Ferreira, Ferrugento, Galera, Colares, Ira, Amigos, Grande Encontro, Fulgor, Pecado Capital e Volúpia.

Por hoje é tudo, despeço-me com carinho e, também, com um beijo e um abraço forte, recebe-os sorrindo, se forem do teu agrado, este teu grande amigo,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - IX - Contornos Específicos e Especiais

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Olá Berta,

Poucos temas existirão que tenham o condão e a capacidade de nos ajudar a distrair dessa coisa terrível chamada coronavírus. Porém, não é saudável ficarmos absorvidos apenas por essa temática, como em qualquer outra doença, precisamos de pontos de fuga que nos possam auxiliar a desanuviar um pouco.

É essa a razão para eu voltar, hoje, ao tema de “Os Segredos de Baco”. Esta abordagem visa esclarecer e explicar coisas que nunca vi colocadas por escrito e devidamente sistematizadas, mesmo assim, isso não quer dizer que não existam, mas, apenas, que eu não as encontrei.

Um importante segredo de Baco é a criação de laços de confiança e empatia entre o vinho e o seu consumidor. Trata-se de um jogo subtil, com contornos suaves, sem imposição, gerado quase que instintivamente, na senda de nos fazer acreditar que estamos perante um produto ímpar, merecedor do nosso foco e atenção.

III) O Vocabulário da Terminologia usada nos Vinhos Nacionais e alguns Porquês…

A) Os Contornos do Prazer associado ao Conforto e ao Bem-Estar.

Secção II) Contornos Específicos e Especiais: Portugal, Raízes, Eixos, Avaliadores e Terminologia.

1) O Caso de Portugal:

Julgo que em enquanto nação fomos dos povos mais influenciados por certos valores da antiguidade. Não só falamos uma língua latina, embora com imensa influência grega, principalmente no vocabulário, como, sendo nós periféricos, marítimos, descobridores e aventureiros, usufruindo das benesses do clima mediterrânico, somos um país com quase um milénio de existência, muito mais próximos do que outros povos das influências clássicas. Porém não somos exclusivos, mas fazemos parte de um grupo muito restrito.

2) As Raízes:

Não é de espantar que muitas destas tradições e práticas da antiguidade se tenham infiltrado na forma como lidamos com o vinho, com o tipo de marketing que para ele escolhemos e que exista uma real influência de terminologia e vocabulário que ficaram. Afinal, graças às caraterísticas do nosso território, e aos diferentes climas e microclimas, tivemos a possibilidade de gerar uma variedade imensa de vinhos específicos e adaptados a cada local, com peculiares detalhes próprios de cada região. Os produtores, levados pelo método da experiência e erro, foram inovando, testando e moldando as verdadeiras raízes que, mais tarde, serviriam para caraterizar cada zona vitivinícola e, por fim, cada região demarcada. Portugal, no seu pequeno território, é um exemplo único, no que diz respeito, à diversidade.

3) Os Eixos:

a) Entre o Mar e a Serra, o Sul e o Norte na busca daquilo que nos relaxa: Não poderia ser de outra forma. Por um lado, o consumo do vinho apela por si só ao relaxe, à paz e à descontração. Sem estes eixos seria impossível podermos produzir de forma tão diferenciada, os diferentes tipos de vinho. O segredo encontra-se na adaptação das vinhas e da produção a cada região. Foi isso mesmo que nos tornou singulares no universo de Baco. Por outro lado, os nomes das garrafas procuraram, na sua grande maioria, ajudar a manter essa ideia ou, se possível, fazê-la atingir patamares mais elevados na procura de ligar um bom nome de um vinho a um momento muito bem passado, a uma região demarcada, a uma história e a uma tradição.

b) A harmonia das ideias e da alma convergem, se forem ajudadas por lembretes felizes, na rotulagem das garrafas de vinho. Se num carro gostamos de sentir potência e emoção, adrenalina e perigo, num vinho procuramos o gosto pelas coisas simples da vida, de uma forma quase pura. Importa saber realçar a relação entre o prazer de existir e o deleite de beber, como elementos complementares de uma convergência que tem de nos parecer natural. A criação da necessidade deverá parecer emergir da nossa vontade. É por isso que aqueles que combatem os problemas causados pelo vinho apenas têm um sucesso relativo. O vício não vem do vinho, mas das pessoas, o que é uma mensagem sublime.

4) O Papel dos Avaliadores:

a) Sejam eles provenientes dos Enólogos, dos Escanções, Enófilos e Críticos de Vinhos, Jornalistas e de todos Os Especialistas no Universo da Vitivinicultura:

Todos já lemos as descrições que os peritos deste imenso mundo fazem ao apreciarem um vinho. É pura poesia, numa literatura de palavras em que estas constituem maravilhosas descrições influenciadas pelo vastíssimo horizonte do palato e do olfato, sem nunca esquecer a cor, o brilho do néctar e a própria apresentação da garrafa comentada.

b) O uso de um vocabulário requintado:

Procura-se transmitir ao consumidor a mesma serenidade e prazer que os produtores e as gentes do marketing põem nas garrafas. Eles poetizam sobre como o vinho ganha volume com o tempo na garrafa, se é refrescante ou acolhedor consoante a época do ano. Comentam sobre a existência no néctar de um alinhamento no diapasão da fruta madura. Divagam sobre a comida que os pode acompanhar nessa senda pelo estar muito bem dentro do bem-estar. A recomendação atual de que se deve beber com moderação visa, em última análise, desresponsabilizar o produto de quaisquer culpas sobre os seus malefícios. O malefício é o uso desmedido ou exagerado que certos indivíduos dele fazem, ou seja, a culpa não é nem do produto, nem do produtor. Quem bebe é que deve saber beber.

  1. c) O conjunto das apreciações tem um objetivo bem determinado:

Divulgam fragrâncias, sabores ocultos, vivacidade e brilho. Insistem que tem um terminar longo e profundo, injetando mistério e volúpia. Enfim poetizam para nos cativar. Para nos encaminhar na aventura de todos nós tentarmos decifrar e descobrir quais são, na realidade, “Os Segredos de Baco”.

5) As Escolhas na Terminologia:

Ao prazer e ao conforto juntam-se outras valências intrinsecamente relacionadas.

a) A tradição vinda da antiguidade, o valor da religião, da família, da propriedade e dos locais, a afirmação do nome, a importância da realeza e da nobreza:

Tudo na busca do poder, num ambiente sensorial original, que cheira a terra e a mistério, que nos coloca de novo em contacto com a natureza, com a fauna e com a flora, nessa luta firme pela pesquisa perfeita pelo maior dos regalos. A importância da subtileza dessas abordagens encontra-se no detalhe das descrições, naquilo que, à primeira vista, nos parece somente uma mera descrição de um vinho, uma adega ou uma vinha.

b) Tudo somado gera uma galáxia de palavras e opções na terminologia:

Afinal, importa deixar claro o destaque e o valor deste hidromel da nossa atualidade. Palavras há que se encaixam nos diferentes apelos e, por isso mesmo, o seu uso ainda se torna mais aliciante. Em síntese, a mensagem subtil do vinho aparece retratada de forma indelével, nos diferentes apelos criados para que, subconscientemente, a consigamos assimilar com naturalidade, quase sem disso termos a noção, ou seja, converter sem convencer. Algo brilhante que apenas no vinho tem esse nível perfeito de sofisticação e habilidade absoluta e perfeita.

Espero ter conseguido passar-te a mensagem deste intricado método de induzir a necessidade aos apreciadores sem que dela se fale. Despeço-me, certo de que, amiga Berta, por certo, irás querer saber mais sobre os apelos, que constituem esta última faceta sobre a terminologia do vinho. Contudo, terás de aguardar pelas próximas cartas, para os conheceres de forma clara, em vez daquela que, até ao momento, é meramente intuitiva. Recebe um beijo saudoso deste teu amigo de todos os dias,

Gil Saraiva

 

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