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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: António Costa e a Aventura da CPLP

Berta 538.jpgOlá Berta,

António Costa fez anos ontem, celebrando os seus sessenta anos de idade. Ora, embora eu tivesse já a ideia da idade do nosso Primeiro Ministro, nunca tinha associado que ele, tal como eu, nascera em mil novecentos e sessenta e um, ambos em Lisboa. Portanto, o rapaz é moço da minha safra e, mais uma vez, como eu, viveu a adolescência nos conturbados anos pós vinte e cinco de abril de setenta e quatro.

Pelo que reza a história, ambos militámos no Partido Socialista, sendo que eu deixei a política ativa há mais de vinte anos, depois de ter chegado à Comissão Executiva Distrital do partido no Algarve e ele, ao contrário de mim, continuou. Ainda me lembro de António Costa e de algumas conversas, dos tempos em que eu também era delegado aos Congressos dos Socialistas. Porém, isso é narrativa do milénio passado e as semelhanças entre os dois terminam aqui.

Hoje, Costa está em Angola na cimeira da CPLP, ou seja, na reunião da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, constituída por aqueles que fazem do Português a quarta língua mais falada do mundo. Porém, o critério da língua, que deveria ser condição inequívoca para se pertencer à CPLP, passou para segundo plano com a entrada no grupo de uma Guiné, a onde o português é chinês.

Mal comparando esta aberração é idêntica a incluir no reino das aves um hipopótamo, só pelo facto de ele abanar a cauda muito depressa. Bem pode o bicho abanar o que quiser, até as orelhas, que isso nunca vai fazer dele um falcão ou um pardal.

Ainda por cima, estamos a falar de um país, a que chamamos de Guiné Equatorial, que vive num regime de ditadura e onde a pena de morte se encontra em vigor. É certo que esta Guiné existiu como território colonial português durante quatro séculos, entre o século quinze e o dezoito, mas até isso nos devia envergonhar pois serviu de entreposto de escravos e de pouco mais, durante o nosso domínio da região, onde apenas nos interessou manter o poder sobre o Arquipélago de São Tomé e Príncipe.

Voltando a Costa, o malabarista acrobático da diplomacia, não me parece tarefa fácil este equilibrar os egos dentro da CPLP. Senão vejamos o atual cenário: já aqui falámos do hipopótamo com penas da Guiné Equatorial, depois temos o Brasil, governado por um presidente, no mínimo, pouco democrático, com nariz de urubu e conversa de papa-formigas, responsável pelo genocídio de mais de meio milhão de brasileiros. Segue-se Angola, esse regime democrático, que agora assume a presidência da CPLP, com um líder que depois de prometer tanta transparência já virou crocodilo invisível. Já a Guiné-Bissau é governada por um conjunto de hienas de nariz branco, no verdadeiro reino do narcotráfico.

Em Moçambique, o presidente Nyusi lembra o camaleão, conseguindo esconder, com rabo de fora, a corrupção do Estado com as aflições humanitárias e trágicas que pululam entre a fome popular e o terrorismo islâmico. Falta falar de Timor-Leste, São Tomé e Príncipe e Cabo-Verde.

Ora bem, Timor-Leste é, atualmente, um Estado a onde os antigos guerrilheiros contra o colonialismo português chegaram em pleno ao poder, estou a falar da Fretilin. O atual presidente, Francisco Guterres, manteve-se como guerrilheiro no ativo até mil novecentos e noventa e nove e só terminou há dez anos a sua formação universitária, em direito. O presidente do país, como em Portugal, nomeia o Primeiro-Ministro oriundo do partido ou coligação eleitoral mais votada nas eleições parlamentares.

O aparecimento de petróleo e gás natural no mar de Timor, entre outras coisas, que não interessa agora aprofundar, justificam a razão porque o dólar americano é a moeda do país e porque o inglês é oficialmente considerado na constituição como língua comercial. Muitos timorenses referem-se aos seus atuais líderes como filhos da Aca, a serpente piton comedora de homens. No entanto, Timor-Leste é uma democracia reconhecida pela ONU. Embora apenas vinte e nove por cento das crianças tenham registo de nascimento e cinquenta e um por cento sofra de nanismo por falta de nutrição, palavras lindas que significam fome.

Há ainda a realçar que cerca de quarenta por cento das mulheres são vítimas de violência, num país onde a maioria da população vive abaixo do limiar da pobreza. Não sei se numa avaliação isenta chamaria ao regime timorense uma democracia pobre ou uma pobre democracia.

Quanto a São Tomé e Príncipe, estamos perante uma democracia e um regime em que o presidente, no momento Evaristo Carvalho, nomeia o primeiro-ministro, perante o resultado das eleições parlamentares. O país tem apresentado alguma estabilidade e crescimento e desde 2009 que não sofre tentativas de golpe de estado.

Devido ao aparecimento de petróleo e gás natural nas suas águas a ONU prevê que em dois mil e vinte e quatro a classificação de país subdesenvolvido seja substituída por país em vias de desenvolvimento. Espero, contudo, que o ouro negro, não venha a gerar no arquipélago influências nefastas e ditatoriais como as conhecidas na vizinha Guiné Equatorial. Ponto de turismo internacional o arquipélago é constituído por duas ilhas, São Tomé e Príncipe, e vários ilhéus, como as Rochas Tinhosas ou Ilhas Tinhosas (a grande e a pequena), o ilhéu Caroço, o  das Cabras, o de Santana, o Bombom e o ilhéu das Rolas, onde se encontra o Padrão do Equador, por este se situar sobre esta linha imaginária. A galinhola é a ave endémica em maior risco de extinção (menos de duzentas e cinquenta). Espera-se que o país da galinhola a consiga preservar junto com a democracia.

Finalmente, Cabo Verde, o último país desta CPLP, é atualmente um país democrático, onde o seu principal problema é a falta de água potável. Não se enquadra nos países subdesenvolvidos e o seu povo é calmo ou morno como a sua música. Aliás, o país tem o segundo melhor sistema educacional na África, logo depois da África do Sul. A tartaruga é um animal protegido e simboliza bem quer o convite ao turismo internacional, como à afabilidade e capacidade morna de acolhimento do povo cabo-verdiano. José Carlos Fonseca, o Presidente da República não é apenas um qualquer jurista formado pela Faculdade de Direito de Lisboa com classificação de muito bom, mas é também um reconhecido e considerado poeta do arquipélago.

Não convém esquecer que estava, minha querida amiga Berta, a falar de António Costa e da sua participação nesta cimeira da CPLP que decorre em Luanda, Angola.  Ora, se atribuir a cada país e seus representantes um animal, como seu símbolo representativo, gostaria de saber como é que os papagaios Costa e Marcelo vão conseguir lidar com um hipopótamo-de-pena-de-morte, um crocodilo-invisível, um urubu-papa-formigas, mais as hienas-de-nariz-branco, um camaleão-de-rabo-de-fora, uma serpente piton-aca, uma galinhola-quase-extinta e uma tartaruga-morna. Ninguém sabe ao certo até onde vai a retórica e a capacidade argumentativa destes papagaios, mas, com estes dois a bordo desta arca da Língua Portuguesa, juro que estou convencido que a cimeira terá um sucesso imenso.

E mais não digo, pois, o meu entusiasmo com as qualidades fonéticas dos papagaios levar-me-ia a ter de usar mais odes do que as que Camões usou nos Lusíadas, também não quero que julgues, querida Berta, que eu penso mal dos povos aqui descritos ou que possa existir em mim algum pensamento racista ou de um género segregacionista qualquer, nada disso, tenho maior respeito pelos povos em si, já quanto aos seus dirigentes essa admiração está sujeita a cada momento e à atualidade em causa. Por isso me despeço com um beijo saudoso. Até sempre, este teu amigo do coração,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Estava-se Mesmo a Ver... parte II. Eis o "LOCKDOWN!"

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Olá Berta,

Estava-se mesmo a ver… parte II. Eis o LOCKDOWN!!!

Este seria um excelente título para a sequela da carta que te enviei no passado dia 18 de janeiro deste ano. Como qualquer sequela e, pior ainda, apresentada, logo de rajada, passados que são apenas três dias do primeiro “Estava-se mesmo a ver…” chegou a Portugal o “Lockdown!” à séria, porque não há mais desculpas.

O Governo faz regressar as medidas de março, mas desta vez vestidas a rigor. Seja isso para os rigores do inverno, seja porque quer ser levado a sério por toda a população quando fala de confinamento, seja para recuperar o respeito político que estava a perder não apenas por parte da população, mas também pelos outros partidos com assento parlamentar e para lamentar.

A diferença entre o grande confinamento de março e o atual estará, logo à partida, na atuação fiscalizadora das forças da ordem, como no peso oneroso das coimas, bem mais robusto, para quem não cumprir o confinamento agora reforçado uma vez mais.

Numa semana passámos de um confinamento, que a crítica apelidava de “light”, para um verdadeiro “Lockdown”, porque há terceira costuma ser de vez, ou mesmo, porque não existem, na realidade, mais alternativas.

Estava-se mesmo a ver… parte II. Eis o LOCKDOWN!!!

Se pensarmos retrospetivamente, em março, o primeiro confinamento não foi um verdadeiro “lockdown”, muito devido à forma fofinha, solidária, ordeira e de receio pelo desconhecido em que foi instalado. Não tivemos a fiscalização a multar ou a deter os prevaricadores, mas apenas a aconselhar os cidadãos a ficarem em casa, esclarecendo dúvidas e explicando de modo quase ternurento o que o confinamento significava e porque era importante estarmos todos alinhados.

Estava-se mesmo a ver… eis o “LOCKDOWN!” Prazos dos tribunais suspensos, lojas de cidadão encerradas e escolas integralmente fechadas. Tudo a somar às medidas da passada sexta-feira, a que se somam as de dia 18 e agora, finalmente, estas de hoje, que deverão entrar em vigor já amanhã, tudo com um acréscimo de medidas de vigilância e atuação por parte das forças da ordem.

Minha querida Berta, os 221 óbitos de hoje, com mais 13.544 casos ativos e os internados Covid em cuidados intensivos a subir acima dos 700 (702 para ser preciso), acabaram por ditar este novo confinamento geral, independentemente de António Costa usar a estirpe britânica como desculpa ou argumento para o mesmo. Mais uma vez, não leves a mal ter aproveitado a tua carta para fazer este resumo de situação. Despeço-me com um beijo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Novos Infetados - 14.647 - Mortos - 219 - Às Costas de Costa

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Olá Berta,

14.647 novos infetados e 219 mortos por Covid-19, são os novos dados de hoje em terras lusas. Um número absolutamente impensável ainda no mês passado, antes do ano ter terminado. É por causa de coisas como esta que eu digo muitas vezes, e neste caso infelizmente, que a realidade é sempre capaz de nos surpreender mais, muito mais do que qualquer possível ficção.

Embora até aqui eu tenha, na grande maioria dos casos, defendido a atuação do Governo, começa a ser-me difícil compreender porque é que este não adota uma política de transparência imediatamente. Eu sei, cai bem dizer que se está preocupado com a formação das crianças e dos jovens e com o seu futuro. É um facto bonito, constitucional e cheio de valores.

Porém, não é por esse motivo que António Costa não fecha as escolas. Costa não quer o confinamento geral porque o Estado Português anda no limite do seu endividamento e já não tem dinheiro para pagar (e mal) um confinamento total, ou, mesmo que tenha, irá ter que o ir retirar a outro lado onde depois não o conseguirá repor nunca mais.

Minha querida Berta, se é preciso confinar que se confine e já, escolas e tudo. Que se passe a revelar os números da pandemia por freguesia, com honestidade e transparência. É tempo de o Estado agir com integridade e esquecer o poleiro.

Se depois faltar dinheiro ou se tivermos de ir para eleições antecipadas, porque o Governo se torna impopular, iremos. Não é possível é continuar a agir com meias-tintas que pouco ou nada conseguem resolver. O António tem de ser frontal e o que vier veio, ele até já tem umas costas largas, pode bem com mais este fardo.

Por hoje, deixo-me ficar com este desabafo. Eu sei que tu me compreendes, cara Berta, e que entendes a minha frustração com a falta de frontalidade do poder que nos governa. Despede-se este teu amigo, com um beijo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: "António Costa - O Grande Golpe - Peça em Três Atos" - "Ato III - Um Corredor Aéreo Para Portugal"

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Olá Berta,

Termina hoje aqui, minha amiga, a minha peça em três atos sobre o que se pode ter passado realmente entre Portugal e o Reino Unido entre o fim de agosto e o princípio de setembro deste ano.

Esta foi a minha maneira de justificar a mudança de atitude do Governo Britânico, que estava determinado a fazer cumprir o fecho dos corredores aéreos para os países que, como Portugal, tivessem ultrapassado os 20 infetados por cada 100 mil habitantes e que, de repente, aparece com o critério (que apenas beneficia Portugal) do rácio entre o número de testes efetuados no país e o número real de infetados.

Uma surpreendente mudança, em cima da hora, a dias de anunciar como ficariam os corredores aéreos britânicos para os 15 dias seguintes.

“Terceiro Ato: Um Corredor Aéreo para Portugal

Na segunda e terça-feira seguintes, à conversa Costa versus Boris, os noticiários de todas as rádios e televisões anunciavam, com drama, o possível fecho do corredor aéreo entre Portugal e o Reino Unido. O país tinha ultrapassado o limite de 20 infetados por cada 100 mil habitantes o que implicava o automático anúncio, na quinta-feira seguinte, do fecho do corredor turístico entre Reino Unido e Portugal. Tudo parecia indicar este desfecho trágico para a economia portuguesa, já a braços com mais uma centena de outros problemas. A gota de água que podia fazer transbordar o copo do descalabro estava prestes a ocorrer. Muitos comentadores, principalmente os televisivos, davam o facto como inevitável e analisavam as consequências trágicas para o país.

Na quarta-feira o assunto Rui Pinto, e o julgamento do mesmo que começaria na sexta-feira, relegavam para segundo plano, um assunto que parecia condenado à tragédia e cujo desfecho se previa como óbvio. Apenas de passagem, sem relevo, se falava ainda do fecho do corredor aéreo com Inglaterra. Já existiam turistas a desmarcar férias, outros a antecipar para sexta-feira o regresso de férias, para não ficarem sujeitos ao confinamento no retorno ao Reino Unido.

Surpreendentemente na quinta-feira o Governo de Boris Johnson anuncia oficiosamente a mudança dos critérios de avaliação de risco para o turismo dos ingleses fora de Inglaterra. O novo critério só tem um único beneficiário: Portugal. Passa a ser recompensado quem mais testa, face ao número de infetados que estes testes revelam. O rácio volta a colocar Portugal nos países seguros e viáveis para o povo do Reino de Sua Majestade. Ninguém consegue entender ou encontrar uma justificação plausível para esta nova forma de avaliação inglesa.

Na sexta-feira a notícia torna-se oficial. Portugal vai continuar no verde no que toca aos corredores turísticos aéreos entre Inglaterra e Portugal. Os empresários algarvios, madeirenses e dos Açores respiram de alívio. Têm mais 15 dias de negócio pois, pelo menos, até 19 de setembro o corredor manter-se-á aberto.

Sentado em casa, a ouvir os noticiários, António Costa sorri. Ninguém suspeita do negócio. O país ganhou um novo fôlego e já só se fala do julgamento de Rui Pinto, passada que foi a enorme surpresa. O sentido de dever cumprido deixa-o feliz. Aquilo podia ter corrido mal, muito mal mesmo. Felizmente, por mais 15 dias tudo está bem na pacata Lusitânia.

Costa sabia que havia um preço a pagar, mas desde que ele cumprisse o prometido Boris Johnson nunca o poderia acusar de incumprimento do prometido. Isso era o mais importante, poder manter a face, sem ter cedido em nada de realmente importante para Portugal.”

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Fico-me por aqui, amiga Berta. Espero que te tenha agradado esta minha peça em três atos. Personagens reais, países reais, factos reais, causas alegadas no domínio do «podia ter sido assim». Com um beijo saudoso este teu amigo do coração despede-se até amanhã,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: "António Costa - O Grande Golpe - Peça em Três Atos" - "Ato II - Costa e BB - O Telefonema"

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Olá Berta,

Eu já sabia que a minha querida amiga ia dizer que eu punha os nossos governantes a falar de um modo muito vulgar nas reuniões. Não te esqueças que eu já fiz parte de uma direção distrital do Partido Socialista, ainda por cima enquanto elemento da Comissão Executiva de uma Federação Regional. Também sei que já passaram um pouco mais de 2 décadas, mas o vocabulário não mudou. Não foi o facto de eu ter saído dessas lides que alterou fosse o que fosse na linguagem utilizada pela maioria dos dirigentes entre portas.

Para facilitar as coisas vou apresentar a chamada para o Reino Unido no nosso português coloquial em vez do inglês brejeiro em que a mesma decorreu. A tradução facilita o entendimento de quem lê. Mas vamos ao que mais interessa, ou seja a nossa peça:

“Segundo Ato: Costa e BB – O Telefonema (leia-se Bi Bi de Boris Brexit)

Enquanto Augusto Santos Silva rabiscava num papel o novo número pessoal de Boris Johnson, acabadinho de ser arranjado por intermédio do embaixador britânico em Portugal, António, alinhava numa folha A4 as ideias base para a conversa. A meia hora seguinte serviu para todos darem sugestões sobre quais deveriam ser os assuntos discutidos e sobre a ordem em que os mesmos poderiam ir sendo apresentados. Era necessário pressionar seriamente o Primeiro-Ministro britânico, sem o chatear.

Por fim Costa passou a limpo os tópicos e sentiu-se preparado para avançar para a chamada.

       - Olá Boris, daqui é Costa… António Costa… Primeiro-Ministro de Portugal. Sim, sim, esse mesmo, o velho aliado a quem vocês fodem sempre que podem... — explicava Costa no decorrer da troca de piadas iniciais entre governantes.

       - Não é bem assim amigo Costa. Digamos que o Reino nem sempre pode fazer tudo aquilo a que se compromete. Às vezes, dá merda, fruto das circunstâncias. Mas a que devo esta chamada? O meu embaixador em Portugal já me tinha informado que transmitira o meu número ao teu homem dos negócios estrangeiros. Precisas de algum conselho sobre como podes sair da União Europeia? — ripostava Johnson com ar brincalhão.

       - Não pá. Preciso é que mantenhas a porra do corredor aéreo com Portugal e te deixes de moralismos hipócritas, caralho. Arriscas-te a afundar-me o PIB e isso pode gerar uma puta de uma bola de neve que nem com o dinheiro de Bruxelas me safo. Preciso mesmo que eleves a fasquia da velha aliança. — afirmou Costa tentando manter um ar sério e preocupado.

       - Puta que pariu. Isso está assim tão grave? Afinal serão apenas 15 dias. Não me digas que vais ao fundo por meia dúzia de ingleses não irem de férias? Não posso querer! — argumentou Boris.

       - Talvez se deixasses de oxigenar o cabelo e arranjasses um pente te fosse mais fácil entender que não estamos a falar de meia dúzia. Mas enfim, caralho, o que eu preciso é que não anuncies o fecho do corredor na quinta-feira. Posso contar contigo? — Costa parecia preocupado.

       - É pá, foda-se. Que culpa tenho eu que vocês tenham passado a média das 20 infeções por 100.000 habitantes? Tu sabes que esse é o nosso critério para manter os corredores aéreos... — justificava Boris com ar de quem nada poderia fazer.

       - Também sei que tinhas ficado de negociar a maioria dos termos do Brexit com a chanceler alemã e que ainda nem sequer tens nada que se veja. Estás em cima da linha de água para fazeres uma saída airosa no que ao acordo com a União diz respeito. E, até agora, nada de nada, caralho. — Costa preparava-se para lançar a escada. — Talvez não te lembres, mas eu recordo-te que a Presidência do Conselho Europeu é de Portugal durante o primeiro semestre de 2021.

       - Hum… isso quer dizer o quê meu velho e bom amigo? Estás a propor uma troca de favores, é? Acho que sabes que não consegues fazer nada se os outros estiverem do contra. Ainda não estou bem a ver onde queres chegar... — avançava Boris cautelosamente. Aquela poderia vir a ser uma aliança muito interessante para si. Se pudesse manipular um pouco a agenda negocial…

       - É pá, tu mudas o critério dos corredores aéreos para a percentagem de infetados por cada 100 mil testados. Nesse parâmetro estamos no topo dos melhores classificados da União. Já eu, pelo meu lado, articulo contigo a forma de trabalharmos a agenda do Brexit como te for mais conveniente, entre janeiro e junho. Podes até dar liberdade de escolha sobre o corte dos corredores ao País de Gales e à Escócia. Tens é de manter para eles o corredor aberto para Açores e Madeira e o Inglês para todo o território português. No continente o peso deles no turismo é residual. Não ultrapassa os 5%. Que te parece? — indagava António Costa esperançado no seu novo isco.

       - Hum… e o teu voto? Posso contar com o teu voto público quando a altura chegar? Desde que chateaste a Holanda publicamente que tens uma forte influência solidária nos países do Sul e do Leste. Votas comigo? Quer dizer, não precisas concordar com tudo, há coisas que vou exigir para depois as deixar cair durante as negociações. Posso avisar-te do que não faço questão de ter apoio. Então? — Boris parecia agora muito mais empenhado numa negociação. Até se esquecera de praguejar.

       - Podes contar comigo. Porém, os dossiers das pescas e do trabalho dos emigrantes ficam de fora. Sabes que em ambas as situações quem se podia foder era eu… — um silêncio fez-se ouvir do outro lado, Costa esperou.

       - Bem, bem… foda-se… nas pescas dava-me jeito o teu apoio, mas seria mau para ti, eu entendo. Ok, temos acordo. Vamos fazer assim, vou pôr vários elementos do Governo a dizerem que os corredores podem vir a ser fechados, mas que está tudo em análise. Na quinta-feira fazemos saber que os corredores não fecham e na sexta-feira sai o comunicado oficial do Governo Britânico. Parece-te bem? Já com essa ideia da mudança de critérios ou a junção desses com o atual, para parecer mais verosímil. Que tal? — questionou Boris.

       - Caralho! Estava a ver que não. Estamos combinados. Nós vamos manter as nossas infeções elevadas até sábado, dia 12. Depois vamos baixando para que possas manter a avaliação. Se não conseguirmos já será culpa nossa. Entendido? Estamos combinados? — Costa esperou pela confirmação de cortesia pelo lado de Boris.

       - Claro que sim. Mas baixa-me os infetados entre dia 13 e 18 de setembro. Deixa os 300 e os 400 para depois disso, senão pouco poderei fazer. Não há nada como um bom acordo para o Sol nos sorrir. Gostei da conversa António. Fica bem e está atento às notícias de quinta-feira. Puta que pariu. Já tinha visto que tu eras habilidoso, mas agora comprovei. Boa negociação. «Bye, bye». — Boris desligou a chamada francamente satisfeito com a conversa.

Os quatro ministros de Costa presentes na sala aplaudiam satisfeitos. Correra tudo de feição. Seria difícil arranjar uma outra situação em que tudo se tivesse passado exatamente conforme o que desejavam.”

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Por hoje é tudo, minha querida amiga Berta. Fica com uma despedida cheia de saudades deste teu velho amigo, recebe os mil beijinhos da praxe e espero voltar ao contacto contigo já amanhã

Gil Saraiva

 

 

 

 

Carta à Berta: "António Costa - O Grande Golpe - Peça em Três Atos" - "Ato I - Meeting na Aldeia de Campo de Ourique" (Continuação - II)

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Olá Berta,

Deves estar curiosa, pelo menos um pouco, assim espero, de ver como se desenvolve a minha peça em 3 atos. A reunião secreta dos cinco magníficos continua no edifício da Presidência do Conselho de Ministros:

“Primeiro Ato: Reunião Urgente do Gabinete de Crise (continuação - II).

       - Ó António, isto tem tudo a ver com o nosso nível de pandemia. Não achas que devíamos chamar a Marta para a reunião? Provavelmente tem algumas matérias importantes para nos comunicar... — avançou o Ministro das Finanças.

       - Ó João, não te armes em Rei Leão, ok? — atirou Costa irritado. — Eu quero que a Marta vá, mas é brincar aos médicos com o bastonário dos doutores e bem pode levar com ela a Santa Graça da DGS, que já nem a consigo ouvir.

       - Ai! O caralho. Vocês importam-se de deixar as picardias de parte? — interveio Santos Silva. — Desculpa, mais uma vez Mariana. É que já nem posso ouvir falar da Graça. Como é que alguém tem a lata de ir para uma conferência de imprensa dizer que crianças confinadas e em isolamento, não são infantes submetidos a um profundo constrangimento e, pior ainda, a um severo trauma de isolamento? Ainda por cima com um sorrisinho nos lábios. Um dia destes passo-me e pronto… faço-a engolir a placa. Acaba-se logo o cabrão do sorriso.

       - Não te aborreças, Augusto. Tu bem que lhe podias ensinar umas coisas de diplomacia… ­— opinou Pedro Siza Vieira, continuando: — Tu sobreviveste ao último Governo do Sócrates, tens a experiência máxima de como evitar situações de constrangimento.

       - É pá! Foda-se! Pedro, se tu ou mais alguém aqui me volta a falar do Zé, eu não respondo por mim. Costa, põe lá esta malta nos eixos ou não tarda muito estamos todos à chapada. Desculpa a linguagem Mariana, mas esta atitude dos «bifes» anda-me a tirar do sério… — rematou Santos Siva.

       - Augusto, praguejar faz-lhe bem à andropausa. Desabafe a seu belo prazer. Olhe lá, nunca lhe passou pela cabeça tentar lançar a escada à nossa Ministra da Administração Pública? Olhe que a Alexandra Leitão faz jus ao apelido que tem e enquanto comia, sempre acalmava… — retorquiu Vieira da Silva.

       - Caros ministros, vamos parar com esta conversa de sopeiras e discutir assuntos sérios. O que podemos nós fazer para impedir o fecho do corredor aéreo? Ideias?

Costa subira o tom de voz para se fazer ouvir e acabar com a discussão fútil que lhe atrasava a reunião. Se os deixasse continuar ainda lhe perguntavam sobre as tendências sexuais da Ministra da Cultura. Mais uma Graça que fora um total erro de casting. Precisava rapidamente de repor o nível da reunião. Olhem só uma conversa daquelas nas mãos da comunicação social… seria o descalabro (pensou). Refletiu por breves segundos e finalmente interveio de novo:

       - Augusto, temos o número direto do BB? — (leia-se Bibi) questionou o Primeiro-Ministro.

       - Tenho sim. O tipo mudou recentemente de número, mas eu tenho andado a par. O embaixador britânico deu-me o novo contacto ontem. Vais-lhe ligar?

       - Quem é o BB? – indagou João Leão.

       - É gíria diplomática… — retorquiu Santos Silva. — Em vez de chamarmos ao Primeiro-Ministro britânico Boris Johnson, todos usam o BB, de Boris Brexit.

       - Temos de lhe ligar e hoje ainda… — atalhou António. — Precisamos atacar já o problema. Vem mesmo a calhar, pois a nossa comunicação social vai passar o tempo a falar do Rui Pinto, podem nem se lembrar de olhar para nós. Segundo o Leão me informou antes de entrarmos aqui para a reunião, se os «bifes» nos cortam o corredor aéreo, isso pode vir a tornar-se a gota de água do nosso caos financeiro. Mariana, viste os dados da pandemia como te pedi? Podemos usar alguma coisa a nosso favor? Temos vantagem sobre a União nalgum item?

       - Claro que vi tudo, António. Estamos a ficar mal em tudo mas continuamos a ser o país que mais testa, proporcionalmente à população existente no país, em toda a União Europeia. No mundo, à nossa frente, temos apenas a Rússia, a Austrália, os Estados Unidos e, claro, o próprio Reino Unido… — avançou Vieira da Silva.

       - Maravilha! Leão, liga aí para alguém que tenha o rácio de infetados detetados face aos testes. Precisamos desses números… — quase gritou Costa entusiasmado com a ideia que lhe fervilhava no cérebro.

       - Não é preciso. Por causa da reunião, eu pedi ontem à DGS todos os dados da pandemia em Portugal. Tenho tudo aqui, no Excel. A Freitas ainda tentou saber para que é que eu queria as tabelas, mas eu respondi-lhe que a explicação estava acima do salário dela. Já estou como tu, até a vozinha da mulher me põe com alergias. — respondeu o Ministro das Finanças.

       - Ótimo, deixa lá ver isso. Ena, ena, este rácio é bem mais baixo do que a maioria dos Estados da União. É isto mesmo que vamos usar. Isso e os dados das infeções nas zonas do Algarve e dos arquipélagos. Augusto, passa-me aí o número do BB. — Costa sorria satisfeito. Agora sim! Já tinha um plano. Um excelente plano.”

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E pronto, querida Berta, fico-me por aqui, amanhã há mais. Recebe um beijo de despedida deste teu eterno amigo do peito, sempre muito saudoso,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: "António Costa - O Grande Golpe - Peça em Três Atos" - "Ato I - Meeting na Aldeia de Campo de Ourique"

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Olá Berta,

«António Costa – O Grande Golpe – Peça em Três Atos» seria o nome que escolheria para me referir áquilo que eu penso que alegadamente se terá passado no teatro da política e da diplomacia internacional. Aliás, se as coisas se passaram como eu penso que realmente se passaram o nosso Primeiro-Ministro merece o Grammy, o Óscar e o Nobel, tudo em simultâneo, pela mestria da sua magnífica, secreta e espetacular atuação.

Não só conseguiu um feito considerado impossível de concretizar, como o fez nas barbas dos Media nacionais e internacionais sem que ninguém desse por este genial «Golpe do Século». O mais interessante é que a operação, montada nos corredores da arte de bem negociar, ainda dura e irá durar até ao final de junho de 2021 e decorre naquele que para mim é o mais impressionante cenário político e diplomático montado no decorrer do presente século.

Enquanto operação secreta da diplomacia portuguesa, este feito devia ter direito, inclusivamente, a nome de código, como as antigas operações especiais entre americanos e russos no tempo da guerra fria, no caso eu chamar-lhe-ia «Operação Bifes à Portuguesa» ou «A Conjura da Raposa», uma vez que qualquer das escolhas é ótima para ilustrar a mestria política e diplomática daquele que é atualmente um dos mais hábeis políticos da cena mundial do século XXI.

No entanto, querida amiga Berta, isto sou eu a divagar, alegadamente imaginando uma genialidade tão simples e eficaz que se calhar nem está realmente a decorrer e tudo não passará de um fruto imaginário da criatividade deste teu amigo jornalista, armado em romântico escritor de enredos diplomáticos. Contudo, a ter acontecido (e ainda estar a decorrer), é realmente brilhante e deveria ter direito a destaque, com a obrigatoriedade a ser convertido em superprodução de Hollywood, pela argúcia e sentido de estratégia apresentada na elaboração de tão magistral arte política. Daqui para a frente vamos imaginar que as coisas se passaram como eu descrevo, mesmo que tudo possa ser apenas uma fantasia criativa deste teu amigo:

“Primeiro Ato: Reunião Urgente do Gabinete de Crise.

A primeira cena decorre no centro da capital portuguesa, Lisboa, mais propriamente na pequena Aldeia de Campo de Ourique, no edifício da Presidência do Conselho de Ministros, sem o conhecimento prévio da imprensa. Um pequeno grupo de pessoas, secretamente conhecido como os irredutíveis lusitanos, reúne-se de urgência, ao final da tarde, daquela segunda-feira. Presentes na reunião, convocada à última hora, com parangonas de secretismo, estão António Costa, Primeiro-Ministro, João Leão, Ministro das Finanças, Augusto Santos Silva, Ministro dos Negócios Estrangeiros, Mariana Vieira da Silva, Ministra de Estado e da Presidência e Pedro Siza Vieira, Ministro de Estado e da Economia.

Estamos no dia 31 de agosto de 2020 e para António Costa aquele que é o núcleo duro do seu Governo constitui também, igual e secretamente, o seu Gabinete de Crise. Em cima da mesa está o turístico corredor aéreo com o Reino Unido.

Costa é o primeiro a tomar a palavra:

       - Se os ingleses nos fecham o corredor aéreo com o Algarve e a Madeira, conforme a imprensa britânica prevê, estamos desgraçados. Isto pode muito bem desencadear uma bola de neve de fecho de empresas e falências, que se iniciará no setor do turismo e se alastrará rapidamente a todos os setores do tecido económico nacional. Temos de arranjar, a todo o custo, uma forma de impedir que Boris Jonhson feche o corredor. Temos de evitar a todo o custo que isto se torne na gota de água que faz transbordar o copo da crise económica nacional.

       - Estamos fodidos! — adianta Santos Silva. — Desculpa a linguagem Mariana, mas o embaixador britânico já me informou que na próxima quinta-feira devem fechar o corredor com Portugal. Ligou-me no sábado, pela hora de almoço. Querem evitar que sejamos apanhados de surpresa como na última vez. O tipo irrita-me, com aquele ar altivo e superior de «bife do lombo» tira-me do sério.”

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Para não me esticar demasiadamente numa só carta, amanhã continuarei “O Grande Golpe”. Recebe um amigável beijo de despedida deste teu fiel amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 22) Santo António do Beijinho

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Olá Berta,

Tudo serve, a alguns grupos noticiosos do nosso Portugal, para tentar despertar, e trazer para a ribalta, as múmias nacionais do nosso passado recente ou nem tanto. Ainda estou a tentar entender se esta espécie de exorcismos se fica a dever a um interesse político determinado e orientado propositadamente por esses grupos ou a qualquer outra razão mais obscura. Como sempre, minha querida, tudo o que aqui escrevo não pode sair do domínio do alegadamente, porque, para isso, precisava de outros recursos, que já não possuo, para poder sair deste enquadramento.

Porém a questão pode ser, inversamente, a preocupação de voltar a vender mais exemplares das suas publicações, uma vez que, na época em que esses espécimes existiram, enquanto seres alegadamente vivos e pensantes, deram provas excelentes no que economicamente importa, isto é, relativamente, aos resultados das vendas nas bancas de jornais e das subidas de audiências televisivas.

Aqui há dias atrás foi a vez de uma voz indignada, qual múmia de um distante passado além político (graças aos céus), vir a público botar discurso. Como por assombração, Cavaco Silva, que regressou das masmorras do arquivamento político, assombrou-nos para se insurgir contra a eutanásia.

Podes pensar que estou a exagerar, mas o “Tutáskakon” nacional até uma profecia arrastou para os microfones, com a sua voz de ido que não sabe que já foi, eu recordo-te as palavras da maldição:

 

“…a decisão mais grave para o futuro da nossa sociedade que a Assembleia da República pode tomar”. E depois a profecia: “…abrir uma porta a abusos na questão da vida ou da morte de consequências assustadoras”.

Tenho todo o respeito por homens de 80 anos, mas, quando digo respeito pelos homens refiro-me aos vivos. Agora, zombies, mortos-vivos e "políticos-levados-ao-colo-por-Balsemão", não entram no grupo desses valorosos séniores. Aliás, nos meus tempos de jornalista de investigação, escutei mais do que uma vez Francisco Balsemão, outra múmia das catacumbas, afirmar que elegia presidentes. Foi verdade com Cavaco e depois alargou o seu mágico poder das trevas à cadeira de Primeiro-Ministro, com a invenção macabra do “Frankenpassos Rabitelho”, que nos trouxe a santa inquisição “troikiana”.

Mas voltemos aos despertares de seres do além político, mais uma vez o expresso e a SIC (porque será que este grupo consegue manter, com tanta facilidade, aberto este portal oculto com os politicamente acabados? Cheira a bálsamos macambúzios, à mão esquelética de um Balsemão de 82 anos que resiste, por força da poção mediática da influência de massas, a descer os degraus escorregadios de esquecimento anunciado que tarda em efetivar-se.) trouxeram à luz noticiosa a opinião do “Frankenpassos” para vir uivar aos microfones um suposto ajuste de contas com António Costa. Se quiseres, minha amiga, podes ler tudo no expresso online, mas é mais do mesmo, são as tortuosas mentes de uma direita esclerosada a tentarem profetizar e provar que a razão lhes assiste, mesmo depois de condenados ao esquecimento.

Em resumo, o que eu gostava de saber é o que significam estas aparições, seguidas e bem planeadas, destes mumificados dejetos da política nacional? O que está por detrás de assombrações cirúrgicas como estas? Serão as autárquicas, prepara-se algo para as presidenciais? Alguma coisa está para acontecer. Esperemos sentados, de arma com balas de prata numa mão e um cinturão de alhos na outra.

Tinha-te dito que estavam terminadas as quadras sujeitas a mote. Contudo descobri nos meus arquivos umas que ficam bem neste conjunto.

Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 22) Santo António do Beijinho.

 

Santo António do Beijinho I

 

Beijo, que é Stº. António,

Dia 13, sexta-feira,

Que o santo do matrimónio,

Não vai cair da cadeira.

 

Santo António do Beijinho II

 

Beijo nesta lua cheia,

Noite de marchas e festa,

Que beijar não dá cadeia,

Se for dado assim na testa.

 

Santo António do Beijinho III

 

Beijo p’ra a doce menina,

Dado com muito carinho,

Que o santo não se amofina,

Nem vai fazer beicinho.

 

Gil Saraiva

 

E assim me despeço, com um abraço carinhoso e muito apertado, este teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 20) Jogar pelo Seguro

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Olá Berta,

Este domingo fica marcado pelo abandono do jogo por parte de Marega, jogador avançado do Futebol Clube do Porto, de raça negra que, segundo alega, foi insultado pelos adeptos do Vitória de Guimarães, no estádio deste clube, com observações racistas nas quais se incluem a utilização de palavras como “preto”, “macaco”, “chimpanzé”, para além dos sons da selva, produzidos em coro, a tentar imitar os símios no seu ambiente natural.

A coisa durou desde a fase de aquecimento para o jogo até ao momento em que Marega abandonou o relvado, não sem antes elevar os dedos do meio de ambas as mãos para a zona da bancada de onde provinham os insultos. Como resultado, voaram cadeiras para dentro de campo, tendo o atleta usado uma delas para se proteger, colocando-a na cabeça, o que lhe valeu um cartão amarelo.

Mais tarde, no Instagram, o jogador publicou a seguinte mensagem: “Gostaria apenas de dizer a esses idiotas que vêm ao estádio fazer gritos racistas: vá-se foder”. Bem esclarecedora do significado dos dedos ao alto anteriormente erguidos ainda em campo. No mesmo comentário ainda agradeceu com ironia a forma como o árbitro do encontro foi solidário com os insultos que lhe foram proferidos “…E também agradeço aos árbitros por não me defenderem e por terem me dado um cartão amarelo porque defendo minha cor da pele. Espero nunca mais encontrá-lo em um campo de futebol! VOCÊ É UMA VERGONHA!!!!”

O apoio a Marega veio rapidamente da Presidência da República, do Governo, através do Primeiro Ministro e da maioria dos partidos com assento parlamentar. Também o universo do futebol nacional se mostrou solidário com o jogador, incluindo o próprio Vitória de Guimarães. Os apoios ao futebolista espalharam-se rapidamente na sociedade civil e ficaram bem espelhados nas redes sociais. Todo o mundo tentando deixar claro que o racismo é algo residual na sociedade portuguesa.

Eu considero que Marega tem toda a razão para se sentir ofendido, não apenas pela claque que o insultou, mas também pela arbitragem, que falhou redondamente no que concerne à atuação e aplicação do que são as normas defendidas e definidas pela FIFA para este tipo de comportamentos.

Só não concordo com a resposta de Marega. As duas mãos ao alto, de dedos em riste e o que escreveu no Instagram, não são, nem podem nunca ser, a resposta adequada à exigência de respeito, por parte do atleta. Há que deixar a justiça desportiva ou mesmo a nacional fazerem o seu trabalho e não responder ao mesmo nível, sob pena de se perder a razão. E se agora a claque colocar uma ação por ter sido mandada para o “pirilau” pelo jogador?

 Ora bem, abandonando o desporto e voltando às nossas quadras populares sujeitas a mote, o teu desafio às minhas capacidades poéticas, achei graça ao facto de teres escolhido “Jogar pelo Seguro” logo hoje que falei de futebol. Aqui vai a minha quadra do dia.

Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 20) Jogar pelo Seguro.

 

Jogar pelo Seguro

 

Se amor ou paixão houver

Nesse homem que te prendeu,

Vê primeiro o que ele quer,

Vê primeiro se ele é só teu…

 

Gil Saraiva

 

Com isto me despeço, esperando que tenhas tido um excelente fim-de-semana, recebe um beijo deste teu amigo do peito,

Gil Saraiva

 

Carta à Berta: Isabel dos Santos - Uma Saga de Família que vem do Século XVII - Parte IV

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Olá Berta,

Fiquei na terceira parte da nossa história na chegada ao poder de José Eduardo dos Santos. No final desse ano este homem era simultaneamente, se fizéssemos um paralelo alegadamente absurdo com os órgãos de poder portugueses, Presidente da República, Primeiro-Ministro, Presidente da Assembleia da República, Chefe Supremo das Forças Armadas, para além, é claro, de ser igualmente presidente do partido no poder, no caso concreto, o MPLA. Só que, não são estes os seus únicos poderes, porque ele controla igualmente, embora de forma menos direta, o Poder Judicial e o Poder do Tribunal Constitucional.

Quer isto dizer, minha amiga, que em 1980, sentou-se na cadeira do poder angolano alguém que, alegadamente, detinha o poder absoluto sobre Angola. Um verdadeiro paradoxo se pensarmos que o país vivia numa suposta democracia e que era simultaneamente governado sob um poder absoluto.

Nesta quarta parte da história não vejo grande sentido em pôr-me a explicar toda a governação dos anos seguintes neste nosso país irmão. A maioria das pessoas tem uma ideia do que foi acontecendo. Porém, é impossível não realçar alguns aspetos para podermos chegar ao momento em que nos encontramos hoje e que abordarei na próxima carta a qual resolvi chamar de epílogo.

Contudo, acho que é importante saberes, querida Berta, que Agostinho Neto, tinha oposição dentro do partido, precisamente na altura em que José Eduardo dos Santos é nomeado Vice-Primeiro-Ministro, quando estala o verniz no MPLA. De um lado da barricada estão os apoiantes de um comunismo de pendor maoísta e do outro, os marxistas-leninistas, com a China e a União Soviética a pressionarem em sentidos contrários.

Em maio de 1977 dá-se uma tentativa de Golpe de Estado, liderada por Nito Alves, um dos ministros de Agostinho Neto, que fracassou, principalmente graças ao forte apoio das FAR (um contingente de forças armadas cubanas estacionadas em Angola, principalmente em Luanda). Estamos no auge do “Fraccionismo”, em que este movimento político sob o comando de Nito, tudo tenta fazer para chegar ao topo da hierarquia do Estado.

Quando o golpe fracassa, as coisas parecem normalizar no seio do MPLA e do Governo, contudo, contrariando esta bonança, pouco tempo depois, dá-se a tentativa, também falhada, de assassinato de Agostinho Neto e as suas repercussões geram uma guerra interna de quase 2 anos. É um período terrível em que são varridos da face da terra muitos milhares de apoiantes de Nito Alves. Convém esclarecer que este homem, que lutara nas fileiras do MPLA desde 1961, quando se dá o 25 de abril em Portugal, já era o líder militar do MPLA e operava, a partir da região de Dembos, a nordeste de Luanda, uma verdadeira saga esta, minha querida amiga.

Em conclusão, este não era, por isso mesmo, um qualquer militar. Tinha apoiantes não apenas nas forças armadas, mas dentro do próprio Governo. A história tem nesta altura variadíssimos contornos, porém, para aquilo que nos interessa, o importante foi mesmo o papel estratégico de José Eduardo dos Santos que, pela primeira vez, tem de lidar com o clã Van-Dunem e dos Santos divididos entre os 2 lados do conflito em posições mais do que relevantes. A limpeza dá-se de forma implacável e dura até quase à morte de Agostinho Neto.

José Eduardo dos Santos, não só nunca abandona o Governo, como consegue, quase sem dar a cara, ser o principal responsável dos sucessos alcançados nesse período. A coisa foi tão bem estruturada que nunca é acusado de ter diretamente sido responsável pela morte de quem quer que fosse. No entanto, José Van Dunem, na altura o comissário político das Forças Armadas, e a esposa Sita Valles, são supostamente assassinados, não se sabendo ao certo, amiga Berta, o que lhes aconteceu realmente, nesse 27 de maio de 1977.

Convém referir que este José Van Dunem (sem hífen no nome), era irmão da nossa atual Ministra da Justiça, Francisca Van Dunem e que a falecida cunhada desta, Sita Valles, provém de uma família tradicional goesa que, tal como a de António Costa, o nosso Primeiro-Ministro, fazia parte da elite de Goa. Ambos pertencentes à casta Brâmane, a mais rica e elitista casta indiana. Em Goa, as famílias eram próximas, porém, enquanto uns acabaram por emigrar para Portugal, caso do pai de António Costa, Orlando Costa, outros optaram por um destino mais próximo, como Moçambique, o que foi o caso da família Valles, que mais tarde se mudaria para Angola.

Contudo, as ligações de amizade e origem mantiveram laços de relacionamento que, alegadamente, ajudam a explicar a chegada de Francisca Van Dunem à chefia do Ministério da Justiça português. Sim, porque eu, querida Berta, sou dos que não acredita em coincidências. Basta lembrar que Orlando Costa e Sita Valles se conheceram muito bem, enquanto militantes e ferrenhos ativistas do Partido Comunista Português, entre 1972 e 1975.

É relevante referir também a influência do ex-Embaixador de Angola em Portugal, Fernando José de França Dias Van-Dúnem, primo de Francisca Van Dunem, e seu padrinho de batismo, no que aos corredores do poder diz respeito. Afinal, este homem ocupou vários cargos em Luanda entre os quais: Primeiro-Ministro, Ministro da Justiça, Ministro das Relações Exteriores, Embaixador na ONU e Presidente da Assembleia Nacional de Angola e aos 86 anos, a acreditar na sua página no Wikipédia, exerce ainda o cargo de primeiro Vice-Presidente do Parlamento Pan-Africano e mantém-se como Professor da Universidade Católica de Angola.

Mais uma vez, Berta, temos de voltar a apanhar o fio à meada. Regressemos por isso a 1980, ano em que José Eduardo dos Santos se torna “Senhor e Dono” de Angola. Não tem relevância para esta história saber como, o então Presidente angolano, manteve o poder durante os 37 anos seguintes, convém, todavia, saber um ou outro detalhe para que se entenda a saga que descrevemos até aqui.

Porém, é importante explicar que José Eduardo dos Santos se viu a braços com imensos movimentos internos (e externos vindos dos mais variados setores e até da Africa do Sul), tendo, com uma precisão quase cirúrgica, distribuído poderes, empresas estatais e outras, originadas pelo próprio Estado, aos principais generais angolanos e aos seus próprios filhos, pelo menos aos 10 originários das suas 6 uniões passageiras, de facto ou matrimoniais conhecidas.

Fala-se de uma tentativa de assassinato em 2011, mas, minha amiga, tenha ela existido ou não, o facto é que foi ultrapassada. Um facto importante é o de que o Presidente sempre salvaguardou o bem-estar das ex-companheiras e da sua descendência, tão bem como o fez com aqueles que o poderiam ameaçar no comando do país. Para além disso, conseguiu voltar a unir, os clãs Van-Dunem e dos Santos em redor da sua figura.

O que é absolutamente certo é que a estratégia resultou e que durante os já referidos 37 anos ele governou como Presidente de Angola. A partir de 2002 a paz regressou finalmente ao país, com a morte de Jonas Savimbi. Também, poucos anos depois, os últimos grandes conflitos foram resolvidos habilmente em Cabinda, tendo a paz total chegado em 2006. Em 2010 fez alterar a Constituição da República de Angola e, a 31 de agosto de 2012, o MPLA ganhou as eleições gerais sendo José Eduardo dos Santos automaticamente eleito, uma vez mais, Presidente, legitimando dessa forma a sua permanência no cargo por mais 5 anos.

Interessante é referir que o Presidente manteve sempre debaixo de controlo a Sonangol. Sendo um homem formado na área dos petróleos, estava perfeitamente habilitado para o fazer. É sabido, querida Berta, que durante este tempo os lucros da Sonangol passaram de 3 biliões de dólares em 2002, para uns muito mais expressivos 60 biliões em finais de 2008. Contudo, a acreditar nas contas do Fundo Monetário Internacional, cerca de 32 biliões destas receitas petrolíferas sumiram dos registos do Governo de Angola.

Isso passou-se 8 anos antes de, em junho de 2016, o Presidente ter nomeado a sua filha primogénita, Isabel dos Santos, para as funções de Presidente do Conselho de Administração da Sonangol. Uns 3 meses antes, em março, tinha anunciado que iria abandonar em 2018 a vida política ativa. Entretanto reeleito, ninguém sabia se o Presidente continuaria o seu mandato até 2021 ou se, conforme anunciara, sempre abandonaria o cargo em 2018.

Com efeito foi a segunda hipótese que prevaleceu. O Congresso Extraordinário de setembro do MPLA, confirma a nomeação de João Lourenço, um dos últimos grandes delfins de José Eduardo dos Santos, como Presidente da República de Angola. O ex-presidente retira-se da política ativa e vai morar para uma “fortaleza” em Barcelona, pelo que se sabe para poder tratar convenientemente uma doença grave (que se mantém oculta, até à data, por constituir segredo de Estado).

Na carta com que termino esta saga, aquela que designei por epílogo, falarei uma vez mais dos clãs Van-Dunem e dos Santos, para a terminar com Isabel dos Santos, a princesa de Angola, agora, alegada e aparentemente, caída em desgraça. Despeço-me, amiguinha com o carinho do costume, deste teu parceiro de muitas aventuras,

Gil Saraiva

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