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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Carta à Berta nº. 654: O "péssimo" Governo Socialista, segundo o Prémio Nobel da Economia de 2008, Paul Krugman.

Berta 654 (1).jpg Olá Berta,

No início da passada semana, cara amiga, esteve em Portugal o Prémio Nobel da Economia de 2008, o economista norte-americano Paul Krugman, que deu uma excelente entrevista ao Jornal de Negócios, na qual aborda a situação portuguesa de uma forma desprendida, sem sectarismos partidários, tão em moda no nosso país, normalmente usados para criticar aquilo que os que não são da mesma cor fizeram ou deixaram de fazer, sem a isenção de quem vem de fora e não pretende agradar a gregos ou a troianos, enfim, de quem apenas se rege por apresentar uma opinião sustentada.

Em 2013, refere Krugman, Portugal era um país pobre e com problemas estruturais, problemas que se iam manter até 2015, enquanto durou o Governo de Passos Coelho. Agora, Bertinha, ao comparar, o economista refere, claramente, que as complicações atuais são “muito menos”, mas que não desapareceram todas.

Diz Paul Krugman, minha cara, que os portugueses “Continuam a ser mais pobres do que muitos países da Europa, mas já não tão pobres”, e relata “a transformação” efetuada em Portugal entre 1976 e o Governo da “Troika”.

Afirma ainda, minha querida, o especialista: “Trabalhei em Portugal, em 1976, e a transformação em termos de infraestruturas, nível de vida visível, níveis de educação, é enorme”, aponta o Nobel, realçando que quando cá esteve em 76, “Portugal parecia mais um mercado emergente do que uma nação europeia, e isso hoje não é de todo verdade”.

Ora, Berta, segundo o estudioso: A economia portuguesa do pós-troika é “uma espécie de milagre económico” que parece não ter uma clara explicação. É “misterioso…”. Aliás, afirma que o país poderia ser um caso de estudo “se percebêssemos o que estão a fazer bem”, disse, assinalando o crescimento económico de Portugal nos últimos oito anos.

O Nobel e Professor da Universidade de Princeton, nos EUA, acha que “Portugal é uma espécie de milagre económico”, e que deveria haver mais “otimismo” do que aquando da “crise do euro”, mesmo tendo em conta, amiguinha, os temores de uma nova recessão europeia.

Acrescenta ainda, cara confidente, que na “crise da dívida, tendíamos a colocar Portugal e Espanha no mesmo cesto… ambos tinham tido entradas maciças de capital, tinham ficado seriamente sobrevalorizados em termos de custos laborais, tinham níveis de dívida elevados e enfrentavam um período prolongado de austeridade. Espanha acabou por alcançar a recuperação económica, mas fê-lo passando por anos e anos de desemprego elevado, desvalorização interna e queda dos custos”, porém, “Portugal teve uma recuperação sem isso”, relata o Professor da Universidade de Princeton. Depois, acrescenta: “Tive longas conversas com o meu amigo Olivier Blanchard, o antigo economista-chefe do FMI, e ele diz: «Não percebo como é que Portugal se saiu tão bem. Como é que eles fizeram isso?».

Para o economista, minha amiga, o turismo e as exportações foram fundamentais, mas Espanha também tinha ambas e o resultado não foi o mesmo, afirmando que “é um pouco misterioso como é que as coisas correram tão bem”. Segundo Krugman, os portugueses “Continuam a ser mais pobres do que muitos países, mas já não tão pobres…” Aliás, reporta: “Ninguém sabe realmente porque é que alguns países se saem bem, mas Portugal fez claramente muito melhor nos últimos… anos”.

O Nobel da Economia, Berta, critica os “orçamentos de austeridade” da Troika pela “quantidade de dor que foi criada” e porque considera que estes foram baseados “numa falsa premissa”. Diz sobre o assunto Krugman: “A premissa era que os encargos da dívida eram simplesmente insustentáveis e que havia uma crise que exigia uma austeridade extrema”, mas “hoje sabemos que a crise era basicamente um pânico de mercado…”, ou seja, “era uma crise de liquidez causada por receios de incumprimento… a maior parte da crise desapareceu quando Mário Draghi disse quatro palavras: «O que for preciso». E, de repente, os spreads vieram por aí abaixo”, afirmando perentoriamente que Portugal adotou “medidas extremas baseadas numa apreensão errada do problema”.

Nas considerações do Prémio Nobel da Economia, Portugal “Não é a Dinamarca, não é a Suécia, continua a ser relativamente pobre, mas há muito mais razões para otimismo agora do que no meio da crise do euro” e aproveita para se referir às dificuldades no acesso à habitação, refletindo que este é “um problema feliz de se ter” porque ele exprime que “as pessoas querem estar” em Portugal. Sobre o assunto, cara amiga, ele compara: “Portugal está a parecer-se com São Francisco, com um sector tecnológico em expansão e com a habitação a tornar-se inacessível”, adiantando que, agora, a questão pede “alguma ação”.

“Os riscos externos são grandes” declara Krugman, quer os riscos associados às taxas de juro elevadas, quer ainda se houver “uma recessão europeia”, porque Portugal será logicamente afetado por ser “demasiado pequeno e estar demasiado ligado” à Zona Euro, com forte dependência, sobretudo, de países como Alemanha e Espanha. Assim, minha querida, o Professor entende que “Portugal não está livre” do problema, mas que “pode ser algo que consiga ultrapassar” devido ao crescimento económico dos últimos anos.

Aliás, Berta, para o Nobel da Economia, “Portugal tem estado muito bem, a Europa não” e isso é um problema para o país por causa da nossa dependência da economia europeia. “A Zona Euro domina o vosso comércio” e “a vossa economia está agora bastante orientada para o exterior”.

Austeridade baseou-se numa “falsa premissa”.

Porém, para Paul Krugman, simpática ouvinte, “Portugal está a fazer em termos orçamentais o que os Estados Unidos deveriam estar a fazer” se não tivessem “um sistema político dominado por pessoas completamente loucas”.

Afinal, a entrevista do Prémio Nobel da Economia de 2008 que vem constatar, cara confidente, que o Governo Socialista fez algo muito bem feito, o tal chamado “milagre económico” que Krugman não consegue explicar, não me parece, a mim enquanto leigo, difícil de entender. No espaço de 8 anos foram revertidas a grande maioria das medidas de austeridade de Passos Coelho e substituídas por impostos indiretos sobre bens de consumo: o imposto sobre bebidas açucaradas, o imposto sobre o tabaco, o imposto sobre os sacos de plástico, o imposto sobre as bebidas alcoólicas, o imposto especial sobre os produtos petrolíferos, o imposto de selo, entre muitos outros, tiveram reforços efetivos e substanciais.

Porém, enquanto nos impostos indiretos o povo pode optar, nas taxas e no corte dos subsídios de Natal e Férias não havia opção possível. Os portugueses podem continuar a precisar do automóvel, mas se calhar agora só o usam se necessário, podem continuar a beber e a consumir sumos com açúcar, mas podem não o fazer se assim o entenderem e por aí em diante. O tipo de cortes não é cego e permite-nos gerir.

Com isto, com a subida de quase 40% do salário mínimo e com o reforço das pensões e reformas, o país passou com distinção a pandemia, tem suportado a inflação que vem da Europa, com níveis mais baixos que os seus parceiros e contrariado os efeitos da guerra da Rússia contra a Ucrânia. No entanto, amiguinha, o aumento forçado das taxas de juros pelo Banco Central Europeu, gerou rapidamente um agudizar da crise da habitação e um peso demasiado na carteira dos portugueses. Atrás disso, vieram as reivindicações aceleradas dos médicos e professores, pedindo melhores salários e condições, gerando um imenso desconforto na Educação e graves problemas no SNS. Todavia, nada me parece impossível de solucionar nos próximos anos.

Se, conforme penso, os socialistas voltarem a ganhar as eleições, julgo que durante a próxima legislatura e até ao fim da mesma, a situação será estabilizada. Com efeito, as taxas de juro parecem vir a estabilizar e posteriormente a descer, as medidas para a habitação terão quatro anos para poderem vingar e o acordo com os professores e o pessoal da saúde tornar-se-á inevitável. Mas isto, Berta, sou eu a pensar. Muitos acham precisamente o inverso, enquanto eu, do meu lado, apenas tenho o Prémio Nobel da Economia de 2008. Deixo um beijinho saudoso.

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta nº. 651: Nas Costas de António Costa

Berta 651.jpg Olá Berta,

António Costa pediu ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que aceitasse a sua demissão do cargo de Primeiro-Ministro do Governo de Portugal. Isto passou-se ontem, no dia 7 de novembro de 2023. Minha cara, o homem que durante 8 anos aguentou casos e casinhos, que sobreviveu à queda de uma vintena de ministros e secretários de estado, que aguentou estoicamente uma imprensa dominada pelo lóbi da direita no país, cai, por vontade própria, quando a sua seriedade é posta em causa com a abertura de um inquérito entregue pela Procuradora Geral da República ao Supremo Tribunal de Justiça.

Ao contrário do que ouvi ontem ser dito por vários líderes da oposição e por muito comentador à esquerda, mas principalmente à direita, cara amiga, Costa cai, mas cai de pé. O poder judicial leva à queda de um Primeiro-Ministro que detinha uma maioria absoluta em Portugal, com um simples parágrafo vago, onde refere que Costa é citado no caso do lítio e do hidrogénio verde, onde foram constituídos 5 arguidos, até ao momento, entre os quais, o Ministro das Infraestruturas, João Galamba.

O julgamento e a condenação de Costa e dos outros intervenientes no caso começou ontem a ser julgado e condenado na praça pública e é por isso mesmo que, desta vez, a situação no final, amiguinha, não pode aparecer como sendo um grande monte de nada.

Um pasquim refere que, por exemplo, João Galamba foi comprado com jantares pagos por investidores, como se não fosse normal as reuniões entre investidores e representantes do Estado decorrerem às refeições e estas serem pagas por quem solicita a própria reunião. Quando o Estado, minha querida, solicita uma reunião é o Estado quem paga os comes e bebes, quando são os privados, são eles quem, no final, arcam com a despesa, sempre que as reuniões têm almoço ou jantar pelo meio. É esta a forma não normativa, mas há muito instalada em Portugal, que vem de muito antes ainda dos governos de Cavaco Silva.

Toda a situação versa possíveis favorecimentos por parte dos representantes do Estado a um grupo de investidores interessados em desenvolver os negócios do lítio e do hidrogénio verde em Portugal. No nosso país, caríssima, inversamente à maioria dos estados ocidentais, a criação de lóbis é ilegal, por isso, existe uma linha muito ténue entre o que é aceitável alguém fazer ou tentar fazer para tentar influenciar um Governo a entregar-lhe um qualquer negócio e a prática de atos de corrupção ativa ou passiva.

Pelo que li, o Ministério Público e a Procuradoria Geral da República consideram, perante os factos apurados durante a investigação de quatro anos já efetuada, que há matéria suficiente para que seja considerada a possibilidade dessa mesma linha vermelha ter sido ultrapassada. Podendo, portanto, Bertinha, haver lugar a situações efetivas de corrupção.

Espero sinceramente que assim seja. Quero acreditar que em julgamento ficará provado o favorecimento ilícito por parte do Estado nos negócios apontados às empresas envolvidas. Mais ainda, simpática confidente, considero fundamental que a justiça prove igualmente o envolvimento de António Costa em toda esta trapalhada.

Se assim for, eu, enquanto socialista, espero mão pesada do poder judicial para os prevaricadores. Numa altura destas, a terminarmos o primeiro quartel do século XXI, não pode haver contemplações para quem se deixa comprar, sejam eles do meu partido ou não. Sinceramente, amiga, isso interessa-me muito pouco. Se houver culpa provada, tem de haver uma pena compatível a ser aplicada, doa a quem doer.

Dito isto, não posso deixar de estranhar o “timing” escolhido para agir no final de quatro anos de investigação, Berta. Não podia o processo ter sido desencadeado a 29 de novembro deste ano? O poder judicial mediu o prejuízo que iria causar ao país ao agir a poucos dias da aprovação final do Orçamento do Estado? Saberão estes senhores as consequências dos atos que praticaram ao antecipar o caso em vez de aguardarem pouco mais de 15 dias?

O certo é que, minha fiel amiga, é que interromperam a negociação com os médicos que estava em fase final de acordo, deixaram o SNS mergulhado num caos, puseram em risco os aumentos das pensões e reformas, da descida do IRS, do aumento dos salários de toda uma nação, apenas porque sim ou era realmente imperativo agir agora e não 15 dias depois?

A suspeição do “timing” da justiça levanta uma lebre de possíveis interesses ocultos por parte do poder judicial. Porque raio não queriam eles que fosse aprovado e votado o Orçamento de Estado para 2024? Quem beneficia com isso? Poderá existir, amiguinha, alguma agenda oculta que todos nós desconhecemos até ao momento?

Espero bem que nenhuma destas dúvidas faça sentido. Espero igualmente que fique claro que a justiça não podia mesmo ter esperado os 15 dias pela aprovação do Orçamento do Estado para 2024. Espero que não existam quaisquer interesses ocultos (políticos, partidários ou de outro nível) a fervilhar nas catacumbas do nosso poder judicial, porque isso, a ser verdade, Berta, seria bem mais grave do que o próprio caso em si. Seria mesmo pôr em risco a própria democracia em Portugal a poucos meses desta fazer 50 anos desde a sua implementação.

A Procuradoria Geral da República tem o dever de assentar a sua ação nos valores democráticos que nos regem. É imperativo que, num futuro muito próximo, fique provada a envolvência de António Costa em todo o processo. O Primeiro-Ministro deu as costas para suportar o peso das acusações e suspeitas em que foi envolvido. Ora, Portugal não é a Hungria, a Turquia ou Israel onde os valores democráticos são postos em causa pelo envolvimento político da justiça nos corredores da democracia. O Estado de direito não pode ser debilitado por quem devia defendê-lo a todo o custo. Enfim, amiga Berta, deixo-te com estas minhas preocupações. Um beijo, deste teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta nº. 640: 7,5 Anos de Governo de António Costa

Berta 640.jpgOlá Berta,

Eu sei que o blog onde atualmente escrevo as tuas cartas, minha querida, se intitula propositadamente “alegadamente”. Esse nome deve-se ao facto de eu ser jornalista com carteira profissional e não querer estar a ser levado à justiça, com processos que poderia perder, não pelo facto de não ter razão, mas sim pelo facto de poder não possuir os recursos económicos necessários, para provar a minha razão, mesmo que esta seja a verdadeira. É por isso que tudo o que escrevo no blog está mesmo sob a alçada de um vasto, mas claro, “alegadamente”.

Dito isto, amiga, já posso afirmar que me irrita o facto da a comunicação social tender toda, no seu conjunto, monocordicamente para a direita. Toda a gente sabe quem tem na mão a divulgação das notícias neste país. Quem são os donos das grandes empresas de imprensa e televisão em Portugal?

Um deles, caríssima, até é fundador do PSD e controla, coisa pouca, o Expresso e a SIC. Mas todos os jornais do JN e DN, ao Económico ou ao Negócios, passando pelo Público, pelo Observador, pelas revistas Visão e Sábado, já para não falar do Correio da Manhã, da CmTV, da TVI e das principais rádios nacionais, da Renascença, à TSF, pertencem aos grupos ligados ao capital e isso não precisa de Polígrafo para ser facilmente provado que se trata de uma constatação real.

Há quem argumente, cara confidente, que, mesmo assim, ainda temos a RTP e a Antena 1, 2 e 3, para proteger a verdade da democracia em Portugal. Com efeito, nota-se uma ligeira melhoria na condução da informação noticiosa nos meios de comunicação do Estado, embora possuam Estatutos de Autonomia Programática. Mas isso é pouco, porque o Estado exige que estas empresas não apresentem prejuízos, o que as faz, na maioria das vezes, seguir a mesma linha dos outros órgãos de comunicação social, tentando rivalizar com as demais na pesca de publicidade e de mais audiências.

Há cerca de 20 anos atrás, Bertinha, o dono de vários órgãos de comunicação social deste país, disse, num evento público, mas apenas no seio do pequeno circulo de pessoas que o rodeavam, quase todas da sua confiança pessoal, que (já naquela altura), tinha o poder de conseguir provocar a queda de um Governo, se assim o entendesse.

No meio do grupo, naquela mesa, estava eu, um estranho (convidado por um dos acólitos, que era meu amigo dos tempos do liceu). Para o magnata, era evidente que eu estar ali, significava, mesmo sem me conhecer, que eu era pessoa da confiança de um dos seus seguidores e portanto merecia a mesma confiança destes.

Não sei, amiga, nem nunca investiguei a fundo, se o magnata ajudou efetivamente a fazer cair um Governo, mas fica a dúvida, uma enorme e imensa dúvida.

Ora, Berta, embora o povo português se incline maioritariamente para governos de centro ou de centro esquerda, nestes quarenta e nove anos de democracia, já vimos de tudo um pouco. Nos primeiros anos tivemos o poder nas mãos revolucionárias da extrema esquerda, o que se entende pelo contexto histórico, mas também já, por diferentes ocasiões, fomos confrontados com a direita no poder.

Basta lembrar os velhos tempos da AD, os quase vinte anos de Cavaco Silva à frente do Governo ou da Presidência República, e os anos vergonhosos da aliança CDS, PSD, com Passos Coelho, muito à frente da Troika, com a “guerra naval” de Paulo Portas a meter água nos “submarinos” que comprámos e Assunção Cristas a lançar uma “Lei das Rendas” que transformou uma imensa quantidade de idosos em Portugal em gente “Sem Abrigo”, cara amiga.

As pessoas, minha querida, têm memória curta, e já se esqueceram, por exemplo, que nos tempos dos Governos de Cavaco Silva passámos anos com uma inflação de dois dígitos e não como os 5 ou 8% como temos tido ultimamente e nem é bom lembrar como estavam as taxas de juros.

Toda a gente sabe, principalmente tu, minha amiga, que sou militante do PS, mas, para os que leem as minhas crónicas, sejam as “Crónicas da Rua do Crime”, as “Páginas Rasgadas”, os Desabafos de um Vagabundo” ou a “Carta à Berta” que eu e o PS tivemos muitas vezes em desacordo.

O que é normal. Porquê? Porque não vale tudo, só porque são os nossos preferidos que estão no poder. Quando se acha que o Governo está a errar numa política deve-se apontar o erro, sem receio de represálias. A alternativa, cara confidente, é triste, porque calar, nos obriga, mais cedo ou mais tarde, a termos que lidar com a nossa própria consciência e a mudar de profissão, o que é penosamente trágico e muito dramático.

Ora, querida amiga, se me pedirem para analisar os Governos de António Costa nestes últimos 7 anos e meio sou obrigado a afirmar que o saldo é extremamente positivo.

Se me perguntarem se aprovo tudo o que Costa tem feito. Bem… nesse caso, Berta, já terei de dizer que nem sempre. Por exemplo, não aprovo nem o bocadinho algo a que eu chamo de “Monarquia Maçónica Socialista”, onde certos Barões, muitos deles vindo de um passado mais antigo, se fazem suceder no poder pelos seus filhos ou filhas como se existisse algum direito dinástico no seio do Partido Socialista. A Monarquia em Portugal já acabou.

Foi mesmo já há muito tempo e tem de chegar a altura de a pôr para trás das costas. É incompreensível ver Jamila Madeira, que cresceu politicamente no colo do pai, Filipe Madeira, o velho Barão do PS no Algarve, a aparecer no Governo de Costa como se, alguma vez, tivesse feito algo para o merecer. O mesmo, Berta, se passa com o próprio filho de Costa e a maneira como o pai o meteu na política.

Começa por infiltrar o rapaz como número dois de um presidente de Junta de Freguesia, depois, ganhas as eleições, promove o presidente vencedor, a meio do mantado, a deputado da Assembleia da República, e o filho sobe a Presidente de Junta. Teve sorte, António Costa, minha querida, porque nas eleições autárquicas posteriores, o filho ganha novamente a Junta de Campo de Ourique, à pele, com 15 votos de vantagem.

Podia apostar já hoje que, nas próximas eleições autárquicas, o filho de Costa já não será candidato a Campo de Ourique. Porquê? Porque será candidato às legislativas e irá engrossar o lugar de Baronete na Assembleia da República. Todavia, Berta, se eu me enganar, cá estarei para dar a mão à palmatória.

Conforme acabas de confirmar, Bertinha, pelo que disse nos parágrafos anteriores, nem tudo o que acontece no seio do PS me agrada, porém, não tenhas dúvidas, quanto digo, e insisto, que os 7,5 anos de governação de António Costa são mesmo muito positivos. Tenho, contudo, pena que a comunicação social esteja integralmente nas mãos da direita. Na próxima carta falarei de Galamba, mas por hoje é tudo. Deixo um beijo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta n.º 636: Os Governos de Costa

Berta 636.jpg

Olá Berta,

Hoje, minha querida, venho conversar sobre o custo de vida, as crises no Governo, os casos e casinhos, a imagem dos nossos governantes, da oposição e o papel dos comentadores que pululam no nosso rico quotidiano bafejado de homens baixinhos que, como diz um velho ditado português, ou são velhacos ou bailarinos. No meu entender a maioria está na primeira categoria, talvez por falta de jeito para a segunda.

Todavia, cara amiga, não julgo ser importante, neste momento, repetir tudo o que se tem dito sobre a atualidade política portuguesa. Quero, isso sim, saber como está realmente o país quase oito anos depois da Troika de cá ter saído, levando com ela a pala do cabelo de Passos Coelho, agora um heroico skinhead, não no sentido pejorativo do termo, porque o acho muito bem no papel de D. Sebastião que jamais voltará e porque mau, mau, foi a sua castigadora e quase sádica governança nacional.

Fala-se que este Governo de Costa tem sido mau. Critica-se tudo o que faz e que desfaz, caem administradores de empresas públicas, Secretários de Estado e Ministros, é verdade. Confirmo que efetivamente temos um Governo vivo e muito colorido, que foge ao estereótipo cinzento a que estamos habituados nestes tempos de democracia, porém, Bertinha, sempre vamos sabendo o que se passa.

Mas como estávamos nós, naqueles anos entre 2011 e 2015, em que o PSD liderou o país com Passos, Portas e Cristas, no comando governativo da nação lusa? Bem, minha cara, o que nos vale é termos memória curta.

Em termos de inflação, de que nos queixamos tanto nos dias que correm, no tempo do Bloco Central (com PS e PSD no Governo, ela chegou aos 28,48%, ainda te lembras, amiguinha? Depois, em 1990, na grande euforia dos fundos europeus, com Cavaco Silva na chefia do Governo, atingiu o máximo de 13,59%, (numa época apelidada de rica e próspera, se bem me lembro). No tempo de Passos Coelho, o máximo da inflação foi mais modesto, mas atingiu os 3, 65%, porém, tendo em conta o esvaziar dos bolsos do povo, de dedo esticado a dizer que vivíamos acima das nossas possibilidades, não deixa de ser relevante.

Atualmente, Berta, a taxa de inflação vai nos 7,4% e o Banco de Portugal prevê que fique pelos 5,5% na média de 2023, bem abaixo dos 8,1% do ano passado. Mesmo considerando o ano de 2022, e o anterior Governo de Costa, é fácil verificar que a inflação ficou, no seu pico, 5,49% abaixo do pico de Cavaco Silva e que foi 20,38% menos que no Governo do Bloco Central.

Para fazermos mais algumas comparações vamos olhar, por exemplo, para a dívida pública. Ora, minha amiga, Passos Coelho tomou posse do Governo, em 2011, a dívida pública de era de 114% do PIB e deixou o país, em 2014, com 129% do PIB. Costa iniciou o seu Governo com este valor e neste momento a dívida está nos 113,8% e o ano de 2023 deve acabar com uma dívida pública situada na casa dos 110,8%, sendo que as previsões do Banco de Portugal apontam que o Governo de Costa termine o mandato com a dívida pública na casa dos 100%.

Quanto ao ordenado mínimo entre 2011 e 2014 ele começou com 485,00 euros em 2011 e terminou com o mesmo valor em 2014, porém, com os subsídios de natal e férias suprimidos e mais uma sobretaxa sobre os rendimentos. Já Costa, minha querida, iniciou os seus mandatos com esse valor e atingiu este ano os 760 euros de ordenado mínimo, enquanto aponta para um valor de 900 euros como valor mínimo no final do mandato, ou seja, quase que dobra o ordenado mínimo, enquanto baixa em 29% a dívida pública.

No que se refere ao crescimento do PIB, com Passos, ele decresceu nos primeiros 3 anos (nomeadamente -1,7 em 2011, -4,06 em 2012, -0,92 em 2013) e apenas cresceu para os 0,79 em 2014. Com Costa, Bertinha, o crescimento do PIB acabou 2022 com um crescimento de 6,69 do PIB e com uma previsão de 1,8 de crescimento em 2023 em plena guerra na Europa e com a subida ímpar dos combustíveis nos mercados. Ora, isto aconteceu mesmo depois da pandemia ter causado em 2021 um PIB negativo de -8,3, mas tendo 2022 representado uma recuperação surpreendente de 13,8, algo inédito, fixando o crescimento do BIP nos 5,5 nesse ano.

Mas Costa, cara amiga, não reduziu apenas a dívida pública e aumentou o PIB nacional, ele acabou com o roubo dos subsídios de Natal e Férias aplicado por Passos, já para não falar nesse malfadado imposto designado por sobretaxa.

Passos também reduziu os funcionários públicos em 11% de quase 73 mil para os 65 mil e Costa já reverteu os números para os 73 mil. No SNS Passos reduziu a despesa dos 9,5 mil milhões para os 9 milhões. Costa já aumentou essa despesa em quase 50%, para os 13,5 mil milhões já a contar com a cálculo para este ano. Nem vou falar na educação, porque, Berta, os problemas de Costa vêm todos dos cortes provocados por Passos durante a Troika e que agora se tornam quase impossíveis de repor.

Quanto às pensões, doce amiga, pela primeira vez em muitos anos, os reformados e pensionistas tiveram um ganho real nas reformas e pensões de 2% e isto na média dos últimos quatro anos. E eu vou-me queixar de quê?

Que o Governo tem muitos casos e casinhos. Por amor da Santa, quero lá saber. Que a TAP tem um parecer que teima em não existir? Quero lá saber! A minha vida está muito melhor do que esteve entre 2011 e 2014. Devo isso a António Costa e aos seus Governos. O resto, cara Berta, são coisas para comentadores baixinhos, que não bailam, se entreterem. Deixo um beijo,

Gil Saraiva

 

 

 

gilcartoon n.º 1101 - Miga, a Formiga: Série "Dah!" - Bocas Foleiras: O Silêncio de Montenegro sobre Marcelo

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Carta à Berta n.º 568: As Minhas Previsões e os Resultados das Legislativas de 2022

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Berta 567.jpgOlá Berta,

As Minhas Previsões e os Resultados das Legislativas 2022 ou como lhes chamei, na última carta que te escrevi, o meu Oráculo Eleitoral de 28/01/2022 não foi tão exato como eu gostaria, porque face à minha real tendência para virar à esquerda, deixei-me influenciar, ligeiramente, por essa preferência inevitável.

Todavia, minha cara amiga, a margem de erro que previ, de 2,5%, mais baixa do que as das sondagens e das previsões à boca da urna, realizadas pelas entendidas empresas de sondagens para os jornais, rádios e televisões, veio demonstrar que o meu Oráculo Eleitoral, mesmo com tendência de esquerda, ficou inteiramente dentro da margem de erro que tinha definido, para que fosse possível corrigir as minhas preferências partidárias mais canhotas.

Com efeito, todos os resultados reais ficaram dentro da margem prevista de 2,5%. Aliás, a variação foi entre o máximo de 2,45% no caso da margem de erro do Chega e 0,08% na margem de erro da Iniciativa Liberal. Mesmo na abstenção o erro foi de 1,96% e no somatório dos votos nos Outros Partidos com os Nulos e os Brancos ficou-se pelos 1,07%, ou seja, foi um bingo pleno para acumulado.

Espero ter agradado, despeço-me com um beijo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta n.º 566: Legislativas 2022 - Vem aí a Caralhampana!

Berta 566.jpgOlá Berta,

Vem aí a Caralhampana. Perguntarás tu, certamente curiosa, e com razão...”Mas o que é uma Caralhampana?” Pois bem, uma Caralhampana é uma Geringonça do “Carvalho”. O termo é importado do Brasil, mas é realmente expressivo. Se a Geringonça já é uma Engenhoca difícil de engendrar, uma Caralhampana é, sem dúvida, o superlativo desta dificuldade. E foi o único que encontrei para ilustrar o que, segundo o nosso último Primeiro-Ministro, se adivinha em perspetiva, depois de trinta de janeiro.

Pelo pedido e matemática de António Costa não é complicado entender que, caso o PS falhe a maioria absoluta poderá muito bem ter de constituir um governo à esquerda cujos aliados se tornam mais complicados de alinhar no mapa desenhado pelo líder do PS.

Convém acentuar que, amiga Berta, para alguns dos estudiosos da linguagem, a palavra que importei dos nossos irmãos poderá ter uma outra origem e derivar de outra, também brasileira, a saber, “Cralhampana”, que mais do que ser apenas uma geringonça é bem mais aproximada do significado de um “Trambolho de uma Traquitana”. Ora, aqui já estamos numa termologia bem mais lusitana. Todos conhecemos bem o significado de “Trambolho” e de “Traquitana”.

Dito isto, fica particularmente difícil imaginarmos que uma Engenhoca, que combina ambos os termos, seja algo que realmente funcione. Mas a análise a fazer a esta importante temática não se fica por aqui.

Vamos, para nosso conforto, minha querida amiga, analisar o significado destas duas últimas palavras de forma a podermos aumentar as possibilidades de entender o que nos espera dentro de dias, após a realização do ato eleitoral, quando, provavelmente, o PS tiver de formar governo.

Trambolho” (segundo o que consta no Dicionário Online Priberam): Palavra de origem obscura.

  1. Cepo que se prende ao pescoço ou ao pé dos animais domésticos, para que não se afastem muito de um local. = Trangalho.
  2. [Informal, Figurado] Aquilo que não tem utilidade; aquilo que atrapalha ou incomoda. = Embaraço, Empecilho.
  3. [Informal, Depreciativo] Pessoa considerada de pouco valor.
  4. [Informal, Depreciativo] Pessoa muito gorda que tem dificuldade em andar.
  5. [Informal, Depreciativo] Pessoa que é fisicamente pouco atraente ou maljeitosa.

Traquitana” (segundo o que consta no Dicionário Online Priberam): Palavra de origem obscura.

  1. Carruagem de quatro rodas, para duas pessoas, com cortinas de couro por diante.
  2. [Informal] Carro desconjuntado e reles. = Calhambeque, Caranguejola, Carripana.
  3. [Informal] Coisa de pouco valor = Bagatela, Bugiganga.

Em resumo, minha amiga Berta, a Caralhampana é um termo tão obscuro como os seus significados e sinónimos, seja na origem brasileira original ou seja nas palavras sinónimas em português de Portugal. O seu verdadeiro significado parece, com efeito, ser portador de uma carga não só negativa como superlativamente depreciativa.

É também um facto que Geringonça também já era, pelo seu significado, uma coisa ou construção improvisada ou com pouca solidez ou uma construção pouco sólida e que se escangalha facilmente ou, ainda, um aparelho ou máquina considerada complicada ou, até, uma coisa consertada que funciona a custo, para não dizer uma sociedade ou empresa de estrutura complexa e pouco credível ou, pior ainda, uma ideia engendrada de improviso e que funciona com dificuldade, ou seja, no caso político, uma combinação ou acordo partidário pouco credível, criado de improviso, que funcionou a custo.

Ora, querida Berta, devido ao seu fator periclitante a Geringonça criada pelo Partido Socialista não conseguiu sobreviver mais de setenta e cinco por cento do tempo para que tinha sido projetada. Ficou, como é sabido, a dois anos de realizar plenamente a sua função integralmente. Mas, mesmo assim, não foi mau de todo se tivermos em conta que os analistas lhe davam, no máximo, um a dois anos de existência.

O problema hoje em dia põe-se, contudo, de outra forma. Quando se pega numa Geringonça que gripou (ou «covidou») talvez fruto da própria pandemia de Covid-19, e se tenta consertar este equipamento, tentando aproveitar o mesmo princípio de engenharia e usar partes da Caranguejola para assim criar uma obscura Caralhampana que funcione, arriscamo-nos, minha amiga, a entrar diretamente no domínio da ficção científica.

A acontecer, segundo parece crer piamente António Costa, esta nova Traquitana, tanto se pode tornar rapidamente um Trambolho, ditado ao fracasso, se a máquina for construída com partes do PAN, como pode conseguir funcionar por algum tempo, talvez até um ciclo inteiro de quatro anos, se o Livre conseguir eleger um ou dois deputados e se juntar ao PS para formarem conjuntamente a dita Caralhampana. O mais difícil para Costa será convencer Rui Tavares a fazer parte de uma solução sem que este exija a agregação novamente o Bloco de Esquerda e a CDU na Caralhampana.

O Livre poderia ajudar a Caralhampana a tornar-se não uma mera Traquitana, mas um verdadeiro Calhambeque funcional se, como exige Rui Tavares, António Costa permitisse a entrada, uma vez mais, do Bloco e da CDU num Calhambeque de quatro cilindros.

Quanto ao PAN será certamente o Empecilho disfuncional de uma futura governação à esquerda e disso não tenho qualquer dúvida. Com efeito, não me parece viável a reconversão das Touradas em Corridas de Touros, em que os animais correm à volta da praça, na perspetiva de ver qual deles apanha o lencinho vermelho primeiro. Já no caso do lítio, como o elemento não é verde, não poderia vir a ser explorado em Portugal apesar de, no entender do PAN, ele possa ser substituído, quiçá, por sumo de limão, embora este não sirva para fabricar baterias, mas, em compensação, seja excelente para gerar ótimas limonadas.

Também não estou a ver António Costa a aceitar obrigar a Autoeuropa a construir apenas viaturas que funcionem a Etanol, Hidrogénio ou por simples empurrão. Muito menos me parece possível o país a alimentar os seus Canídeos com uma dieta especial onde a carne esteja ausente, tipo “Bobi, toma lá o teu molho de brócolos” ou, ainda, a transformar a caça num desporto de tiro ao repolho.

Dito isto, hoje termino esta carta por aqui, querida Berta, na espectativa do que possa vir a acontecer depois do dia trinta de janeiro, sendo que uma coisa me parece certa: não sei como conseguirá funcionar mas vem aí a Caralhampana. Recebe um beijo saudoso deste teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta n.º 564: “Andam a tentar manipular, alegadamente, as próximas eleições legislativas de 2022.” - Parte II/III

Berta 564.jpgOlá Berta,

Aqui estou eu a escrever-te sobre o tema de ontem e passo de imediato à segunda parte do tema. “Andam a tentar manipular, alegadamente, as próximas eleições legislativas de 2022.” Voltando à vaca fria, eu falava na possível manipulação das sondagens por parte das empresas que as realizam.

Porém, se eu estiver correto, a lei que regula estas empresas terá que sofrer grandes alterações para impedir tais manipulações e para que se deixe de usar os eleitores portugueses como simples marionetes de um jogo de interesses. Importa pois voltar à última sondagem da Aximage, e tentar ver o que dizem.

Segundo esta gente o PS e o PSD encontram-se agora, no momento presente, numa situação de empate técnico (com 35,4% e 33,2% de votos respetivamente), dentro das balizas da margem de erro da própria sondagem (3,44%) o que significa que qualquer um dos partidos poderia, eventualmente, vir a ganhar as eleições.

Ora, eu acho que estão completamente enganados e que tal informação é passível de influenciar a reação dos votantes à direita, canalizando votos para o PSD. Nada do que aconteceu no último mês e meio justifica uma aproximação tal de dois partidos, que há tão pouco tempo estavam separados por 12% nas intenções de voto. Mais ainda, considero que as sondagens têm, de uma forma quase que generalizada, vindo a aproximar estes partidos, gradualmente ao longo destes 45 dias, para chegarem às vésperas da campanha eleitoral neste preciso patamar.

Mais grave ainda, acho que vários grupos de comunicação social estão, velada e alegadamente, a favorecer esta tendência. Entre eles estão aqueles que dominam a SIC, a TVI, a CMTV, Renascença, TSF, ou os jornais, Correio da Manhã, DN, JN, Expresso, Observador, I, etc., pela forma como vão encandeando notícias e sondagens.

Para mim, que sempre fui contra as teorias da conspiração, esta conclusão é avassaladora e extremamente irritante. Porém, tive recentemente uma pequena prova de que posso não estar enganado, e foi ela que me fez despertar o alarme.

Estou a falar do complô, da combinação concertada das televisões generalistas, que pretendiam deixar fora dos debates eleitorais o partido Livre, que elegeu um deputado nas últimas legislativas, da mesma forma que as sondagens também o excluíram da análise eleitoral. Foi preciso a reclamação do Livre para a Comissão Nacional de Eleições para esta vir repor a legitimidade democrática da presença deste partido nos debates televisivos.

Por hoje é tudo e na próxima carta, querida Berta, que ainda tentarei enviar hoje, espero terminar esta abordagem que me tem consumido o juízo. Despeço-me com o carinho usual, deixando um beijo saudoso, este teu eterno amigo de hoje e de sempre,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta - 560: O Chumbo do Orçamento do Estado - Parte II/II

Berta 560.jpgOlá Berta,

Ontem analisei a direita, mas, analisando a esquerda, a situação não é melhor. O Livre anseia por ver a saída da sua ex-deputada do parlamento, Joacine Katar Moreira, e voltar a ganhar um lugar no hemiciclo. Porém, amiga Berta, era muito mais inteligente se conseguisse ir a votos associado ao PS (coisa que na direita o Chicão vai tentar fazer com o PSD para que não seja visível a sua enorme queda de apoiantes). O PAN por seu turno meteu os palitos ao touro e às touradas. Afinal, a líder do partido tinha garantido o apoio ao orçamento e apenas se absteve. Com isso perdeu a subida do IVA das touradas, a proibição dos adolescentes poderem ir às touradas, entre outras conquistas que tinha conseguido.

O PCP e os Verdes queriam ir a votos já, ontem se possível, pois que, mesmo que percam de momento mais um ou dois deputados, isso será preferível a perderem meia dúzia, ou mais, se o ato eleitoral se mantivesse apenas para 2023. O PCP tenta a todo o custo evitar ficar com o lugar do CDS, como o partido do Táxi e foi por isso que o Orçamento de Estado foi chumbado. Já o Bloco de Esquerda e a Catarina Martins estão todos pelos cabelos. O Bloco receia perder metade dos seus eleitores. Todavia, no que diz respeito ao PS e a Costa não estão felizes de ir a votos, fingem estar, mas receiam mais uma surpresa desagradável como a que aconteceu, minha amiga, com a recente derrota na Câmara de Lisboa. A dúvida pode inclusivamente prejudicar a campanha do Partido Socialista nestas eleições. Costa sente-se sozinho e no escuro. À espera tem muitos sucessores, com vontade de liderarem o partido.

Este é o resumo do filme, contudo, falta dizer que o encolher de ombros de Marcelo não lhe retira a culpa de ter anunciado antecipadamente, e cheio de orgulho tolo e mal fundado na sua influência na esquerda, que partiria para a dissolução da Assembleia da República se o orçamento fosse chumbado.

A esquerda não ligou às suas ameaças e deixou o presidente sem alternativa que não marcar mesmo as eleições legislativas para o início do ano de 2022. Há ainda um último problema que pode ser bastante preocupante. Refiro-me à data de para quando as eleições serão marcadas.

Excetuando o Iniciativa Liberal e o adversário de Rui Rio nas eleições internas do PSD, e estou a falar do convencido Paulo Rangel, que quer eleições em fevereiro, todos os outros líderes partidários propuseram ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o dia 16 de janeiro de 2022, domingo, como o dia ideal para a realização urgente do ato eleitoral.

Ora, a marcação das eleições por parte de Marcelo para dia 23 de janeiro, ou outro domingo ainda posterior a esse, implica um auxílio direto a Paulo Rangel. Significa a ingerência da presidência, num assunto interno de um partido político e um apoio específico a um candidato, o que seria péssimo quer para um estado democrático, quer para a própria imagem presidencial. É este o motivo, amiga Berta, que me leva a estar expectante no que à marcação das eleições diz respeito. Faço votos que o presidente dos afetos consiga escapar da armadilha de se tornar o presidente dos afetados. A ver vamos, já falta pouco tempo.

Espero que tenhas encontrado algum sentido nesta minha análise. Pode ser que me engane, porém, se o curso dos próximos tempos for como eu prevejo, o PS vai subir em votos e em deputados, perto da maioria absoluta, o PC e o Bloco descem, o CDS, se for sozinho, elege apenas um deputado, assim como o Partido Livre (que talvez chegue aos dois). O PAN desce também para metade e a Iniciativa Liberal pode eleger um segundo deputado. O PSD não melhora e o CHEGA talvez atinja os quatro deputados. Todavia, o melhor mesmo é esperar para ver, porque, afinal, a política é uma arte circense, mas sem rede e de elevado grau de risco extremo.

Já basta de pensar em política minha querida amiga Berta. Voltarei a escrever se aparecerem mais notícias interessantes como, por exemplo, a COP 26, ou o vulcão Cumbre Viella em La Palma, nas Canárias. Despeço-me com um beijo solidário e de amizade,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta - 559: O Chumbo do Orçamento do Estado - Parte I/II

Berta 559.jpgOlá Berta,

Conforme comprovaste esta semana o Orçamento do Estado não passou. Agora já me podes dar razão relativamente ao meu parecer do fim-de-semana passado. Conforme eu te tinha dito o Bloco de Esquerda estava fiado na abstenção do PCP, dos Verdes e das duas deputadas independentes, que lutavam para segurar o poleiro e do voto a favor do PAN, que já o tinha prometido.

Porém, Catarina Martins não imaginou que o PCP queria ir já a eleições, minha amiga, para tentar minimizar prejuízos na queda de eleitores que vem tendo, pois ir só a votos em 2023 poderia retirar-lhe muitos lugares na Assembleia da República, assim, mesmo que perca mais um ou dois, ainda mantém um grupo parlamentar talvez na casa dos dois dígitos, ou seja, o tiro saiu pela culatra ao Bloco de Esquerda que poderá perder imensa força já nestas eleições. Afinal, o partido de Catarina é tido como um dos principais culpados pelo fim da geringonça e da maioria de esquerda.

Ora, o Presidente, que se julgava mais influente do que é, à esquerda do parlamento, queimou todas as possibilidades de deixar o PS, querida Berta, apresentar um novo orçamento ao garantir, repetida e insistentemente, que, se o primeiro não passasse dissolveria a Assembleia da República e marcaria eleições antecipadas. Ninguém entenderia que, face ao acontecido, desse agora o dito por não dito.

Assim, postas as coisas nestes termos, Marcelo Rebelo de Sousa, vê-se obrigado a dissolver a Assembleia da República e a convocar eleições. Consta que, para os lados de Belém, a simpatia do nosso Presidente recai, no que aos candidatos a líder no seio do PSD diz respeito, para o jeitinho de Rangel, que fez questão de ir ao beija-mão presidencial. Para Marcelo, Rui Rio, parece demasiado tolerante com o Governo de Costa e o nosso presidente tem outro tipo de perfil em vista para a liderança do seu antigo partido político, que não passa, evidentemente, por Rio.

Mas, fazendo uma breve síntese de como os partidos estão a ver a dissolução da AR, podemos dizer que o mais feliz é o Chega de André Ventura. A ânsia de ter um grupo parlamentar é superior ao ganho que teria com o aumentar do descontentamento dentro de dois anos. Já o Iniciativa Liberal está aflito, Cotrim acha que lhe falta tempo para fazer uma campanha que lhe traga mais deputados. Por outro lado, minha querida, o CDS tem uma crise de poder grave e o Chicão, preferiu atirar com a escolha do novo líder para depois das eleições, desterrando Nuno Melo. Quanto a Rangel está convencido que pode ser alternativa a Costa e, na sua vaidade infinita, não consegue antever que o apoio que tem no partido existe apenas no aparelho e não nas bases, onde a maioria dos militantes são do Norte e do interior do país e que, quer ele queira quer não, ainda são bastante homofóbicos, coisa com que Rio conta para vencer.

Amanhã termino esta breve análise, minha querida Berta, pois não quero ser demasiado maçador. Deixo um beijo saudoso, deste que todos os dias tem imensas saudades das nossas antigas conversas de fim de tarde, o teu eterno amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

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