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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: António Costa e a Aventura da CPLP

Berta 538.jpgOlá Berta,

António Costa fez anos ontem, celebrando os seus sessenta anos de idade. Ora, embora eu tivesse já a ideia da idade do nosso Primeiro Ministro, nunca tinha associado que ele, tal como eu, nascera em mil novecentos e sessenta e um, ambos em Lisboa. Portanto, o rapaz é moço da minha safra e, mais uma vez, como eu, viveu a adolescência nos conturbados anos pós vinte e cinco de abril de setenta e quatro.

Pelo que reza a história, ambos militámos no Partido Socialista, sendo que eu deixei a política ativa há mais de vinte anos, depois de ter chegado à Comissão Executiva Distrital do partido no Algarve e ele, ao contrário de mim, continuou. Ainda me lembro de António Costa e de algumas conversas, dos tempos em que eu também era delegado aos Congressos dos Socialistas. Porém, isso é narrativa do milénio passado e as semelhanças entre os dois terminam aqui.

Hoje, Costa está em Angola na cimeira da CPLP, ou seja, na reunião da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, constituída por aqueles que fazem do Português a quarta língua mais falada do mundo. Porém, o critério da língua, que deveria ser condição inequívoca para se pertencer à CPLP, passou para segundo plano com a entrada no grupo de uma Guiné, a onde o português é chinês.

Mal comparando esta aberração é idêntica a incluir no reino das aves um hipopótamo, só pelo facto de ele abanar a cauda muito depressa. Bem pode o bicho abanar o que quiser, até as orelhas, que isso nunca vai fazer dele um falcão ou um pardal.

Ainda por cima, estamos a falar de um país, a que chamamos de Guiné Equatorial, que vive num regime de ditadura e onde a pena de morte se encontra em vigor. É certo que esta Guiné existiu como território colonial português durante quatro séculos, entre o século quinze e o dezoito, mas até isso nos devia envergonhar pois serviu de entreposto de escravos e de pouco mais, durante o nosso domínio da região, onde apenas nos interessou manter o poder sobre o Arquipélago de São Tomé e Príncipe.

Voltando a Costa, o malabarista acrobático da diplomacia, não me parece tarefa fácil este equilibrar os egos dentro da CPLP. Senão vejamos o atual cenário: já aqui falámos do hipopótamo com penas da Guiné Equatorial, depois temos o Brasil, governado por um presidente, no mínimo, pouco democrático, com nariz de urubu e conversa de papa-formigas, responsável pelo genocídio de mais de meio milhão de brasileiros. Segue-se Angola, esse regime democrático, que agora assume a presidência da CPLP, com um líder que depois de prometer tanta transparência já virou crocodilo invisível. Já a Guiné-Bissau é governada por um conjunto de hienas de nariz branco, no verdadeiro reino do narcotráfico.

Em Moçambique, o presidente Nyusi lembra o camaleão, conseguindo esconder, com rabo de fora, a corrupção do Estado com as aflições humanitárias e trágicas que pululam entre a fome popular e o terrorismo islâmico. Falta falar de Timor-Leste, São Tomé e Príncipe e Cabo-Verde.

Ora bem, Timor-Leste é, atualmente, um Estado a onde os antigos guerrilheiros contra o colonialismo português chegaram em pleno ao poder, estou a falar da Fretilin. O atual presidente, Francisco Guterres, manteve-se como guerrilheiro no ativo até mil novecentos e noventa e nove e só terminou há dez anos a sua formação universitária, em direito. O presidente do país, como em Portugal, nomeia o Primeiro-Ministro oriundo do partido ou coligação eleitoral mais votada nas eleições parlamentares.

O aparecimento de petróleo e gás natural no mar de Timor, entre outras coisas, que não interessa agora aprofundar, justificam a razão porque o dólar americano é a moeda do país e porque o inglês é oficialmente considerado na constituição como língua comercial. Muitos timorenses referem-se aos seus atuais líderes como filhos da Aca, a serpente piton comedora de homens. No entanto, Timor-Leste é uma democracia reconhecida pela ONU. Embora apenas vinte e nove por cento das crianças tenham registo de nascimento e cinquenta e um por cento sofra de nanismo por falta de nutrição, palavras lindas que significam fome.

Há ainda a realçar que cerca de quarenta por cento das mulheres são vítimas de violência, num país onde a maioria da população vive abaixo do limiar da pobreza. Não sei se numa avaliação isenta chamaria ao regime timorense uma democracia pobre ou uma pobre democracia.

Quanto a São Tomé e Príncipe, estamos perante uma democracia e um regime em que o presidente, no momento Evaristo Carvalho, nomeia o primeiro-ministro, perante o resultado das eleições parlamentares. O país tem apresentado alguma estabilidade e crescimento e desde 2009 que não sofre tentativas de golpe de estado.

Devido ao aparecimento de petróleo e gás natural nas suas águas a ONU prevê que em dois mil e vinte e quatro a classificação de país subdesenvolvido seja substituída por país em vias de desenvolvimento. Espero, contudo, que o ouro negro, não venha a gerar no arquipélago influências nefastas e ditatoriais como as conhecidas na vizinha Guiné Equatorial. Ponto de turismo internacional o arquipélago é constituído por duas ilhas, São Tomé e Príncipe, e vários ilhéus, como as Rochas Tinhosas ou Ilhas Tinhosas (a grande e a pequena), o ilhéu Caroço, o  das Cabras, o de Santana, o Bombom e o ilhéu das Rolas, onde se encontra o Padrão do Equador, por este se situar sobre esta linha imaginária. A galinhola é a ave endémica em maior risco de extinção (menos de duzentas e cinquenta). Espera-se que o país da galinhola a consiga preservar junto com a democracia.

Finalmente, Cabo Verde, o último país desta CPLP, é atualmente um país democrático, onde o seu principal problema é a falta de água potável. Não se enquadra nos países subdesenvolvidos e o seu povo é calmo ou morno como a sua música. Aliás, o país tem o segundo melhor sistema educacional na África, logo depois da África do Sul. A tartaruga é um animal protegido e simboliza bem quer o convite ao turismo internacional, como à afabilidade e capacidade morna de acolhimento do povo cabo-verdiano. José Carlos Fonseca, o Presidente da República não é apenas um qualquer jurista formado pela Faculdade de Direito de Lisboa com classificação de muito bom, mas é também um reconhecido e considerado poeta do arquipélago.

Não convém esquecer que estava, minha querida amiga Berta, a falar de António Costa e da sua participação nesta cimeira da CPLP que decorre em Luanda, Angola.  Ora, se atribuir a cada país e seus representantes um animal, como seu símbolo representativo, gostaria de saber como é que os papagaios Costa e Marcelo vão conseguir lidar com um hipopótamo-de-pena-de-morte, um crocodilo-invisível, um urubu-papa-formigas, mais as hienas-de-nariz-branco, um camaleão-de-rabo-de-fora, uma serpente piton-aca, uma galinhola-quase-extinta e uma tartaruga-morna. Ninguém sabe ao certo até onde vai a retórica e a capacidade argumentativa destes papagaios, mas, com estes dois a bordo desta arca da Língua Portuguesa, juro que estou convencido que a cimeira terá um sucesso imenso.

E mais não digo, pois, o meu entusiasmo com as qualidades fonéticas dos papagaios levar-me-ia a ter de usar mais odes do que as que Camões usou nos Lusíadas, também não quero que julgues, querida Berta, que eu penso mal dos povos aqui descritos ou que possa existir em mim algum pensamento racista ou de um género segregacionista qualquer, nada disso, tenho maior respeito pelos povos em si, já quanto aos seus dirigentes essa admiração está sujeita a cada momento e à atualidade em causa. Por isso me despeço com um beijo saudoso. Até sempre, este teu amigo do coração,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte II

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Olá Berta,

Não sei o que tu pensas sobre a temática da língua, mas eu considero o assunto fascinante. Ora pensa comigo, minha querida amiga, dois povos, que há oitocentos e alguns anos atrás existiam neste canto periférico da Europa, como é moda dizer nos dias de hoje, o Condado Portugalense e o Reino de Castela (entre mais uma variedade de reinos que existiam na Península Ibérica), cuja população conjunta se situava na casa dos milhares de pessoas, sem jamais ambicionar chegar ao milhão, têm, na atualidade, entre os 800 e os 900 milhões de indivíduos que usam o castelhano ou o português como primeira língua.

Repetindo a ideia, nunca é demais dizer que se tratam de 7.000 línguas diferentes em todo o nosso globo. No meio de tal diversidade saber que o Castelhano é a segunda ou terceira língua mais falada do mundo e o português a quarta, dá que pensar. Mas regressemos às memórias. Assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte II

“Outra das línguas que costuma surgir perto da liderança é o Árabe, muitas vezes acima do Português. Ora o Árabe, embora exista como Língua, inclui, nesta generalização absurda, idiomas que não se entendem entre si. A língua árabe, assim apresentada (que, no seu conjunto, quase atinge os 250 milhões de falantes), é composta por todas as línguas semíticas. Se entre elas o entendimento fosse uma realidade, então poderíamos falar de uma língua Árabe inclusiva, contudo, a verdade não podia ser mais diferente, sendo a raiz das línguas a mesma, para além do Árabe, vulgarmente chamado de Árabe Clássico, existem o Maltês, o Hebraico, o Amárico e o Tigrínia, com o devido relevo e destaque, sendo, ao todo, mais de 35 as línguas de origem  árabe, bem diferentes entre si, faladas no mundo. O verdadeiro resultado, depois desta análise, transporta a língua alguns furos mais abaixo na tabela classificativa das mais faladas, todavia, na grande maioria das tabelas, incluída no grupo das primeiras 10.

No topo, com a medalha de ouro e o recorde absoluto e efetivamente bem destacado, a língua mais falada do mundo é o Mandarim, vulgo Chinês (que na realidade não existe enquanto língua). Com mais de um bilião de falantes, o Mandarim, tem imensos dialetos. A situação é de tal forma complicada que, uma mesma palavra, pode ser pronunciada de 4 formas diferentes, consoante contextos na frase e, até, conforme a região chinesa de onde é proveniente. Todavia, não deixa de ser um facto que todos eles se entendem entre si, o que, efetivamente, é o que mais importa.

Por fim, o Inglês ocupa, em todas as tabelas o segundo ou o terceiro lugar no ranking das mais faladas. Podem não ser os mais de 500 milhões, que os estudos germânicos sobre o assunto, sempre apontam como se, por exemplo, nos Estados Unidos da América todos falassem inglês como primeiro idioma, quando os factos mostram, que mais de um terço da população americana apenas fala Castelhano, (vulgo Espanhol), ou que, somente, usam o inglês como segunda língua, para se fazem entender, por quem de castelhano não pesca nada.”

Conforme podes verificar, querida Berta, entre os linguistas românicos e os germânicos existe uma guerra forte. Cada um deles afirmando que as contabilizações do outro estão erradas, e que são eles, independentemente de quem eles são, que se encontra em segundo lugar.

Porém a nós, não nos interessam as guerras de Arlequim e Manjerona, que o nosso quarto lugar é firme, robusto e não aparenta tremer. Aliás, dos idiomas nos primeiros lugares deste colossal ranking, somos a língua que maior expansão apresentou nos últimos 50 anos. Só em Angola e Moçambique passamos, de uma população conjunta que não atingia os 20 milhões, para um universo de quase 65 milhões.

Por hoje é tudo, minha querida Berta, fica bem, mantém essa alegria que te ilumina a alma e recebe a despedida deste teu eterno amigo com um beijo sorridente,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Isabel dos Santos - Uma Saga de Família que vem do Século XVII - Epílogo

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Olá Berta,

Esta é uma carta que transmite, alegadamente, apenas e só o que me foi possível descortinar neste espaço de tempo relativamente curto. Refiro o alegadamente porque a minha interpretação dos factos não é, nem pretende ser, uma descrição histórica e factual em volta do poder em Angola. É apenas e somente o que, repito, alegadamente, eu acho que realmente se passou.

Já sei que é chegado o momento de falar um pouco de Isabel dos Santos. Porém, gostaria de deixar aqui também uma nota sobre o que aconteceu, nestes últimos anos aos clãs dos Santos e Van-Dunem. É, aliás, por eles que vou começar esta carta. Para que fiques com uma ideia, vou-te apenas dar os nomes dos seus representantes no último Governo de Angola. De fora ficam todos os outros que se mantém na esfera do estado e em algumas das largas dezenas de grandes empresas e organismos públicos.

Contudo, no Governo de João Lourenço e depois de 3 remodelações ministeriais, continuam visíveis, nos lugares de topo os seguintes nomes: Joffre Van-Dúnen Júnior, Ministro do Comércio; Sérgio de Sousa Mendes dos Santos, Ministro da Economia e Planeamento; João Ernesto dos Santos “Liberdade”, Ministro dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria; Frederico Manuel dos Santos e Silva Cardoso, Ministro de Estado e Chefe da Casa Civil do Presidente da República.

Porém, há a destacar a nomeação para a Secretaria de Estado das Finanças e Tesouro de Vera Esperança dos Santos Daves, bem como a presença de Cândido Pereira dos Santos Van-Dúnem como deputado da Assembleia Nacional, sendo membro integrante da 1.ª Comissão dos Assuntos Constitucionais e Jurídicos. Já Fernando da Piedade Dias dos Santos é o Presidente da Assembleia Nacional e Abrahão Pio dos Santos Gourgel foi, até há 4 dias atrás, o Presidente do Conselho de Administração do Banco de Desenvolvimento de Angola. Fiquei, amiga Berta, por saber, para que cargo foi transferido depois disso. Finalmente, importa referir que Fernando Pacheco Augusto dos Santos, é, nesta data, membro do Conselho da República. Por último na Administração do Banco Nacional de Angola, encontramos Beatriz Ferreira de Andrade dos Santos e na do Banco de Desenvolvimento de Angola está ainda Constantino Manuel dos Santos.

Em resumo, os dois clãs mantêm no poder 11 dos seus elementos nas estruturas mais próximas do Presidente João Lourenço e isto apenas analisando as mais altas esferas do Estado angolano. Chega a parecer mais do que acontecia no anterior governo de José Eduardo dos Santos e isto depois de inúmeras purgas efetuadas, principalmente, no seio da família direta do ex-presidente, mas não só.

Para mim, João Lourenço, que alegadamente já possui 3 familiares seus na roda do poder, não vai muito mais longe na sua missão purgatória. Não lhe desejo qualquer infortúnio, mas tudo aponta para um mandato curto. Pode ser que me engane, porém, eu, no lugar dele, reforçava muito bem a segurança. É que, ao se mexer com os aliados do ex-presidente, começando pelos familiares, sem limpar todos os cabecilhas do exército, correm-se grandes riscos.

Depois há que analisar as questões relacionadas com a matemática. Pensemos um pouco… se entre 2003 e 2008 tinham desaparecido, sem deixar rasto, cerca de 30 biliões de euros, só da Sonangol, não levando sequer em conta os valores dos sumiços em diamantes, metais preciosos e outros negócios, então quanto terá desaparecido entre 2008 e 2018, no conjunto de todos os negócios? Mais 90 biliões? No mínimo algo de parecido. Tais números representam 120 biliões de euros. O que na minha aritmética são 110 fortunas iguais à do homem mais rico do mundo Jeff Bezos, o patrão da Amazon. Dá que pensar…

Ora, é neste contexto que se levantam suspeitas sobre a filha primogénita de José Eduardo dos Santos. Até ao momento, é acusada de ter roubado 100 milhões a Angola. Parece-me grave, mas considero que estão ainda a tentar puxar por um dos fios da meada e pouco mais. As 2 perguntas que se põem logo são: porquê vai João Lourenço atrás da filha mais velha do seu mentor e ex-presidente? O que fez e quem é ao certo Isabel dos Santos?

Comecemos pela segunda questão. Vou-te falar, querida Berta, da filha do ex-presidente de Angola. Isabel foi acompanhada pela mãe (geóloga e ex-quadro superior da Sonangol, campeã de xadrez, natural de Baku enquanto este era território soviético), quando foi estudar para Inglaterra. Contudo, isto passou-se apenas em 1980, logo a seguir a Isabel celebrar os seus 7 aninhos.

Ora, os primeiros anos da sua vida, até o pai se tornar Presidente e Senhor de Angola, embora desafogados, não foram fáceis. Quando nasceu, o seu pai tinha ainda 30 anos de idade e a sua mãe cerca de 25, uma vez que era recém-formada em geologia e entrara, havia pouco tempo, ao serviço da Sonangol, na URSS.

A relação de José Eduardo dos Santos com Tatiana Kukanova, cujo nome sofreu algumas atualizações e renovações (entre as mais conhecidas tenho: Tatiana Cergueevna Kukanova, Tatyana Cergeevna Kukanova, Tatiana Cergueevna Regan e finalmente Tatyana Cergeevna Regan), parece ter-se iniciado em 1971, numa altura em que os pais tinham respetivamente 27 e 22 anos, Segundo as más línguas (porque não encontrei outras fontes mais fidedignas) o casamento deu-se devido à gravidez inesperada de Tatiana, quando o namorado era apenas um convidado dos soviéticos, em formação, na URSS.

Isabel dos Santos viveu com a mãe em Baku, mas apenas, segundo apurei, nos primeiros meses de vida, porém, tendo a sua mãe sido transferida para a Sonangol em Luanda, acabou por viver os primeiros anos de vida na capital do país. Pouco via o seu progenitor, pois que, nessa altura, querida amiga, o pai vivia com a sua segunda companheira. Aos 7 anos foi estudar para Inglaterra, levando a mãe como encarregada de educação, Estudou na St. Paul’s Girls School em Londres e formou-se em Engenharia Eletrotécnica no King’s College de Londres.

Ao contrário do que informa alguma imprensa e a própria “wikipedia”, Isabel dos Santos não acabou engenharia em 1990, com a idade de 17 anos, mas sim, algures entre 1995 e 1997, ou seja, entre os 22 e os 24 anos.

Ainda antes de completar a sua formação académica, já estava inscrita (possivelmente através do pai) como gestora de projeto na empresa Urbana 2000, pertencente ao grupo Jembas. Contudo, Isabel dos Santos conseguiu, segundo apurei, querida Berta, implementar algumas das suas ideias na estrutura da companhia, que levaram a uma melhoria da eficácia de trabalho, logo na primeira fase, de quase 300 porcento desta empresa de resíduos urbanos, pela introdução de uma rede de “walkie-talkies” para coordenar todos os motoristas da empresa. Isabel acabaria, mais tarde, por os substituir por telemóveis, numa altura em que já tratava da fundação da rede de celulares UNITEL.

Por essa via, com o patrocínio paterno, acaba por ficar ligada à UNITEL, da qual foi fundadora (de certeza que não pelo seu dinheiro, mas pelo que recebeu diretamente do pai), tendo sido esta a primeira grande empresa de telemóveis de Angola, área em que nenhuma multinacional queria pegar, devido à guerra e à instabilidade no país.

Até aquele que é chamado do seu primeiro negócio, o Miami Beach Club, um dos primeiros clubes noturnos de Luanda, embora apareça em seu nome, não pode de maneira alguma ter sido implementado e criado por uma miúda de 24 anos que tinha acabado de chegar de Inglaterra com o diploma de Engenheira Eletrotécnica. Trata-se, evidentemente, mais uma vez, de uma prenda do papá, para dar a conhecer à sociedade angolana, e a alguns ilustres visitantes, a sua filha recém-formada e recém-chegada da Grã-Bretanha.

Entre os 24 e os 29 anos até finais de 2002 Isabel dos Santos preocupou-se principalmente em desenvolver a empresa que realmente criou e fundou, a UNITEL, tentando arranjar parceiros internacionais que a ajudassem a tornar a companhia numa verdadeira empresa detentora de uma rede de abrangência nacional de telemóveis. Um esforço, Berta, que acabaria por dar excelentes resultados.

Em dezembro de 2002, Isabel dos Santos casou com o herdeiro de uma das maiores fortunas da República Democrática do Congo, Sindika Dokolo, cujo pai, congolês, falecido um ano antes, possuíra, entre outros grandes negócios o maior banco privado do Congo, o “Bank of Kinshasa”, que, entretanto, mudou de mãos, em 1986.

Já a mãe, de nacionalidade dinamarquesa, Hanne Taabbel Kruse, fez questão de educar o filho nas melhores instituições da Bélgica e depois França, onde este se acabou por formar em Economia, Comércio e Línguas Estrangeiras na Universidade Pierre e Marie Curie, de Paris.

Sindika, é o maior colecionador de arte em África, vocação que iniciou com o pai aos 15 anos de idade, tendo também uma Fundação internacional de arte, cuja sede europeia é no Porto, e, na altura do seu casamento com Isabel dos Santos, possuía, fruto da herança do pai e da gestão dos negócios da família, uma fortuna de mais de 3 mil milhões de euros, onde se incluía, entre outras, a maior empresa de cimentos de Angola de que é proprietário.

Até 2008, Isabel dos Santos, dedica-se a ajudar o marido, muito mais interessado em arte, a cimentar os seus negócios quer no Congo, quer em Angola, e aos 35 anos, apresenta uma fortuna bem mais consolidada, após 6 anos de dedicação intensa às empresas de ambos. Aliás, se compararmos os bens atualmente conhecidos do casal, e tendo em conta que nenhum dos negócios sofreu quaisquer quebras graves, não é difícil de justificar o atual património, só à luz dessas empresas.

Os grandes negócios internacionais e angolanos de Isabel dos Santos, dão-se entre 2009 e 2017, num espaço de 8 anos, até à altura em que o atual presidente de Angola, João Lourenço, a retira da liderança da Sonangol onde esta apenas esteve um ano e meio, tendo substituído no cargo Manuel Domingos Vicente, a quem tinha apontado o dedo pela falta de vários biliões de dólares na Sonangol.

Diga-se, em boa verdade, que o referido Manuel Domingos Vicente, acusado de corrupção em Portugal, continua a gozar de imunidade judicial em Angola, por ser deputado na Assembleia Nacional de Angola (o Parlamento angolano). Mais, dizem as más línguas que o atual presidente, controla, como já acontecia com o seu antecessor, a procuradoria Geral da República de Angola e que não permite que qualquer ação recaia sobre Manuel Domingos Vicente.

Quanto aos negócios internacionais de Isabel dos Santos, nestes 8 anos em que ela os realizou, um pouco por todo o mundo, mas principalmente em Portugal e Angola, mesmo que ela fosse condenada por roubo ou desvio de 50 porcento das verbas em causa, estaríamos a falar de um montante que nem 5 porcento do que desapareceu apenas da Sonangol no “reinado” de Manuel Domingos Vicente representa.

Se bem te lembras minha amiga, só da Sonangol, desapareceram, sem deixar rasto, até à entrada de Isabel dos Santos na direção da petrolífera, 120 biliões de euros. É muito dinheiro.

Relativamente a toda a acusação que recai sobre Isabel dos Santos, se comparada com as importâncias desaparecidas em Angola, estamos a falar, alegadamente, de 0,000 000 002 porcento dos montantes envolvidos. Algo que me leva a pensar que Isabel mais não é que um mero bode expiatório, de toda a trama.

Alguém me consegue dizer quanto dinheiro se encontra nas mãos dos generais e das altas patentes angolanas? Alguém sabe, ao certo, o que detém ou controla o ex-vice-presidente de Angola e atual deputado, Manuel Domingos Vicente? E João Lourenço, alguém sabe?

É mediático e vende muito mais acusar a idolatrada princesa de África. Mas não passa de um deitar de areia para os olhos de gente mesquinha, invejosa e rancorosa com o sucesso dos ricos de um modo geral, de gente que segue, qual carneirada, a fome de ascensão e queda dos media, de uma figura internacional.

O verdadeiro problema de toda esta trama chama-se, ainda e somente, José Eduardo dos Santos, e os 120 biliões de euros desaparecidos, só da Sonalgol, durante o seu reinado. Mas se João Lourenço era um dos seus delfins, o preferido, será que, de repente, foi o único que nada lucrou? Qual é na verdade a demanda de João Lourenço? O que esconde este presidente? Até 2023 José Eduardo dos Santos continua, face à constituição angolana, sem poder ser julgado seja pelo que for. Estará João Lourenço a contar que o ex-presidente morra, entretanto? Qual é o jogo que realmente existe por detrás de tudo isto? Poucos saberão. Por enquanto, entretém-se a comunicação social, a nível mundial, com a perseguição à primogénita de José Eduardo dos Santos. Assim, para João Lourenço, Manuel Vicente e outros, muitos outros, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.

Ora, eu, minha querida amiga, não dou para esse peditório. A coisa não basta parecer. Mesmo que Isabel dos Santos tenha roubado, o que não está provado, mesmo assim, comparado com o que despareceu de Angola, é como ir à praia e surripiar um grão de areia. Afinal os outros? Onde estão os outros? Com esta pergunta me despeço, sempre saudoso,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Isabel dos Santos - Uma Saga de Família que vem do Século XVII - Parte IV

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Olá Berta,

Fiquei na terceira parte da nossa história na chegada ao poder de José Eduardo dos Santos. No final desse ano este homem era simultaneamente, se fizéssemos um paralelo alegadamente absurdo com os órgãos de poder portugueses, Presidente da República, Primeiro-Ministro, Presidente da Assembleia da República, Chefe Supremo das Forças Armadas, para além, é claro, de ser igualmente presidente do partido no poder, no caso concreto, o MPLA. Só que, não são estes os seus únicos poderes, porque ele controla igualmente, embora de forma menos direta, o Poder Judicial e o Poder do Tribunal Constitucional.

Quer isto dizer, minha amiga, que em 1980, sentou-se na cadeira do poder angolano alguém que, alegadamente, detinha o poder absoluto sobre Angola. Um verdadeiro paradoxo se pensarmos que o país vivia numa suposta democracia e que era simultaneamente governado sob um poder absoluto.

Nesta quarta parte da história não vejo grande sentido em pôr-me a explicar toda a governação dos anos seguintes neste nosso país irmão. A maioria das pessoas tem uma ideia do que foi acontecendo. Porém, é impossível não realçar alguns aspetos para podermos chegar ao momento em que nos encontramos hoje e que abordarei na próxima carta a qual resolvi chamar de epílogo.

Contudo, acho que é importante saberes, querida Berta, que Agostinho Neto, tinha oposição dentro do partido, precisamente na altura em que José Eduardo dos Santos é nomeado Vice-Primeiro-Ministro, quando estala o verniz no MPLA. De um lado da barricada estão os apoiantes de um comunismo de pendor maoísta e do outro, os marxistas-leninistas, com a China e a União Soviética a pressionarem em sentidos contrários.

Em maio de 1977 dá-se uma tentativa de Golpe de Estado, liderada por Nito Alves, um dos ministros de Agostinho Neto, que fracassou, principalmente graças ao forte apoio das FAR (um contingente de forças armadas cubanas estacionadas em Angola, principalmente em Luanda). Estamos no auge do “Fraccionismo”, em que este movimento político sob o comando de Nito, tudo tenta fazer para chegar ao topo da hierarquia do Estado.

Quando o golpe fracassa, as coisas parecem normalizar no seio do MPLA e do Governo, contudo, contrariando esta bonança, pouco tempo depois, dá-se a tentativa, também falhada, de assassinato de Agostinho Neto e as suas repercussões geram uma guerra interna de quase 2 anos. É um período terrível em que são varridos da face da terra muitos milhares de apoiantes de Nito Alves. Convém esclarecer que este homem, que lutara nas fileiras do MPLA desde 1961, quando se dá o 25 de abril em Portugal, já era o líder militar do MPLA e operava, a partir da região de Dembos, a nordeste de Luanda, uma verdadeira saga esta, minha querida amiga.

Em conclusão, este não era, por isso mesmo, um qualquer militar. Tinha apoiantes não apenas nas forças armadas, mas dentro do próprio Governo. A história tem nesta altura variadíssimos contornos, porém, para aquilo que nos interessa, o importante foi mesmo o papel estratégico de José Eduardo dos Santos que, pela primeira vez, tem de lidar com o clã Van-Dunem e dos Santos divididos entre os 2 lados do conflito em posições mais do que relevantes. A limpeza dá-se de forma implacável e dura até quase à morte de Agostinho Neto.

José Eduardo dos Santos, não só nunca abandona o Governo, como consegue, quase sem dar a cara, ser o principal responsável dos sucessos alcançados nesse período. A coisa foi tão bem estruturada que nunca é acusado de ter diretamente sido responsável pela morte de quem quer que fosse. No entanto, José Van Dunem, na altura o comissário político das Forças Armadas, e a esposa Sita Valles, são supostamente assassinados, não se sabendo ao certo, amiga Berta, o que lhes aconteceu realmente, nesse 27 de maio de 1977.

Convém referir que este José Van Dunem (sem hífen no nome), era irmão da nossa atual Ministra da Justiça, Francisca Van Dunem e que a falecida cunhada desta, Sita Valles, provém de uma família tradicional goesa que, tal como a de António Costa, o nosso Primeiro-Ministro, fazia parte da elite de Goa. Ambos pertencentes à casta Brâmane, a mais rica e elitista casta indiana. Em Goa, as famílias eram próximas, porém, enquanto uns acabaram por emigrar para Portugal, caso do pai de António Costa, Orlando Costa, outros optaram por um destino mais próximo, como Moçambique, o que foi o caso da família Valles, que mais tarde se mudaria para Angola.

Contudo, as ligações de amizade e origem mantiveram laços de relacionamento que, alegadamente, ajudam a explicar a chegada de Francisca Van Dunem à chefia do Ministério da Justiça português. Sim, porque eu, querida Berta, sou dos que não acredita em coincidências. Basta lembrar que Orlando Costa e Sita Valles se conheceram muito bem, enquanto militantes e ferrenhos ativistas do Partido Comunista Português, entre 1972 e 1975.

É relevante referir também a influência do ex-Embaixador de Angola em Portugal, Fernando José de França Dias Van-Dúnem, primo de Francisca Van Dunem, e seu padrinho de batismo, no que aos corredores do poder diz respeito. Afinal, este homem ocupou vários cargos em Luanda entre os quais: Primeiro-Ministro, Ministro da Justiça, Ministro das Relações Exteriores, Embaixador na ONU e Presidente da Assembleia Nacional de Angola e aos 86 anos, a acreditar na sua página no Wikipédia, exerce ainda o cargo de primeiro Vice-Presidente do Parlamento Pan-Africano e mantém-se como Professor da Universidade Católica de Angola.

Mais uma vez, Berta, temos de voltar a apanhar o fio à meada. Regressemos por isso a 1980, ano em que José Eduardo dos Santos se torna “Senhor e Dono” de Angola. Não tem relevância para esta história saber como, o então Presidente angolano, manteve o poder durante os 37 anos seguintes, convém, todavia, saber um ou outro detalhe para que se entenda a saga que descrevemos até aqui.

Porém, é importante explicar que José Eduardo dos Santos se viu a braços com imensos movimentos internos (e externos vindos dos mais variados setores e até da Africa do Sul), tendo, com uma precisão quase cirúrgica, distribuído poderes, empresas estatais e outras, originadas pelo próprio Estado, aos principais generais angolanos e aos seus próprios filhos, pelo menos aos 10 originários das suas 6 uniões passageiras, de facto ou matrimoniais conhecidas.

Fala-se de uma tentativa de assassinato em 2011, mas, minha amiga, tenha ela existido ou não, o facto é que foi ultrapassada. Um facto importante é o de que o Presidente sempre salvaguardou o bem-estar das ex-companheiras e da sua descendência, tão bem como o fez com aqueles que o poderiam ameaçar no comando do país. Para além disso, conseguiu voltar a unir, os clãs Van-Dunem e dos Santos em redor da sua figura.

O que é absolutamente certo é que a estratégia resultou e que durante os já referidos 37 anos ele governou como Presidente de Angola. A partir de 2002 a paz regressou finalmente ao país, com a morte de Jonas Savimbi. Também, poucos anos depois, os últimos grandes conflitos foram resolvidos habilmente em Cabinda, tendo a paz total chegado em 2006. Em 2010 fez alterar a Constituição da República de Angola e, a 31 de agosto de 2012, o MPLA ganhou as eleições gerais sendo José Eduardo dos Santos automaticamente eleito, uma vez mais, Presidente, legitimando dessa forma a sua permanência no cargo por mais 5 anos.

Interessante é referir que o Presidente manteve sempre debaixo de controlo a Sonangol. Sendo um homem formado na área dos petróleos, estava perfeitamente habilitado para o fazer. É sabido, querida Berta, que durante este tempo os lucros da Sonangol passaram de 3 biliões de dólares em 2002, para uns muito mais expressivos 60 biliões em finais de 2008. Contudo, a acreditar nas contas do Fundo Monetário Internacional, cerca de 32 biliões destas receitas petrolíferas sumiram dos registos do Governo de Angola.

Isso passou-se 8 anos antes de, em junho de 2016, o Presidente ter nomeado a sua filha primogénita, Isabel dos Santos, para as funções de Presidente do Conselho de Administração da Sonangol. Uns 3 meses antes, em março, tinha anunciado que iria abandonar em 2018 a vida política ativa. Entretanto reeleito, ninguém sabia se o Presidente continuaria o seu mandato até 2021 ou se, conforme anunciara, sempre abandonaria o cargo em 2018.

Com efeito foi a segunda hipótese que prevaleceu. O Congresso Extraordinário de setembro do MPLA, confirma a nomeação de João Lourenço, um dos últimos grandes delfins de José Eduardo dos Santos, como Presidente da República de Angola. O ex-presidente retira-se da política ativa e vai morar para uma “fortaleza” em Barcelona, pelo que se sabe para poder tratar convenientemente uma doença grave (que se mantém oculta, até à data, por constituir segredo de Estado).

Na carta com que termino esta saga, aquela que designei por epílogo, falarei uma vez mais dos clãs Van-Dunem e dos Santos, para a terminar com Isabel dos Santos, a princesa de Angola, agora, alegada e aparentemente, caída em desgraça. Despeço-me, amiguinha com o carinho do costume, deste teu parceiro de muitas aventuras,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Isabel dos Santos - Uma Saga de Família que vem do Século XVII - Parte II

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Olá Berta,

Uma vez que já te expliquei como surgiram os Van-Dunem em Africa e na América, está na altura de te passarmos à fase seguinte da nossa história em 4 atos. Esta fase, a número II, refere os antecedentes familiares de José Eduardo dos Santos. Um Van-Dunem em linha direta de um tal de Baltazar de que já te falei na carta anterior.

Contudo, já me estou a adiantar demais, nesta carta alegadamente real. Voltemos à vaca fria: os Van-Dunem prosperaram ao longo destes quase 4 séculos de história, sendo a maioria da descendência proveniente de mulheres africanas escravas, com quem Baltazar Van-Dum se cruzou.

Importa referir que a noção de racismo como algo de errado e condenável era ou praticamente inexistente ou o conceito a existir seria totalmente diferente do que é hoje. De notar que muitas tribos africanas escravizavam localmente os inimigos de outras tribos com quem lutavam e a quem venciam. Ver os brancos a fazerem o mesmo, na época, teria parecido mais natural do que nós, com uma mentalidade de século XXI, estamos dispostos a aceitar.

Muitas das escravas que tiveram filhos de Baltazar subiram nas hierarquias regionais, facto que rapidamente foi assimilado pelas cativas de então. A dada altura o que antes eram atos de dono para com os escravos tornaram-se mais voluntariosos por parte das mulheres abrangidas.

A subida na escala social, mesmo ao nível dos escravos, trás imensos benefícios. Trabalhos mais leves, menos tempo de trabalho diário, mais comida, e até chefias de grupos de escravos ou de comando de outros dentro de uma certa casa, propriedade ou localidade.

Há registos históricos dos Van-Dunem que apontam para cerca de 18 gerações, nestes 375 anos, desde Baltazar até aos nossos dias. Digo apontam, minha amiga, porque a escravatura na África portuguesa se manteve até quase ao raiar do século XX e os registos não são assim tão precisos que permitam uma exatidão infalível. Contudo, os privilégios dos sucessores de Baltazar, deram frutos e um número significativo desses servos viram a liberdade muito antes da restante maioria.

A sua muita descendência ganhou reputação ao longo da história. Desde muito cedo encontramos mercenários, assassinos, ladrões e prostitutas, entre os Vam-Dunem, mas, também, comerciantes, traficantes de escravos, piratas, agiotas, líderes de aldeamentos e localidades, homens de negócios, muitos até com estudos avançados. As linhagens foram-se cruzando com outras famílias e uma delas, nos finais do século XIX, foi a família dos Santos.

Ora o bisavô de Isabel dos Santos, pelo lado paterno, um tal de Avelino Pereira dos Santos Van-Dunem, deu aos seus filhos e consequentemente ao avô de Isabel dos Santos apenas o apelido Van-Dunem, conforme nos mostra a Cédula Pessoal de José Eduardo dos Santos. Este avô chamar-se-ia Eduardo Avelino Van-Dudem. O qual registou os filhos a quando dos respetivos nascimentos apenas como Van-Dunem no que aos apelidos diz respeito.

Antes de avançar nesta narrativa convém saber que o pai de José Eduardo era calceteiro e pedreiro (natural de São Tomé) e a sua mãe, Jacinta José Paulino (uma descendente de guineenses e cabo-verdianos, ela própria uma cabo-verdiana que cedo imigrou para São Tomé, fugindo à fome que afetava Cabo Verde naquele tempo) era doméstica.

Neste contexto fica demonstrado que o pai de Isabel dos Santos iniciou a sua vida não como José Eduardo dos Santos, mas como José Eduardo Van-Dunem (um santomense que viveu e estudou na sua terra até à quarta classe). No entanto, até a sua certidão de nascimento apareceria, bem mais tarde, dando-o como natural de Angola, nascido em Luanda, no bairro de Sambizanga, apenas se mantendo certa a data de nascimento.

É neste ponto que a história fica confusa. Há quem defenda que em 1958, 3 anos antes de se juntar ao MPLA, apenas com 16 anos de idade, José Eduardo Van-Dunem conhece, por um acaso, o seu primo, nascido em Angola, um tal de José Manuel dos Santos Torres.

É, alegadamente, este primo que lhe transmite a história dos Van-Dunem. Uma família repleta de marginalidade e com muito crime à mistura na luta pela sua ascensão social. Fica também a saber que o seu avô, tal como o primo, tinha o nome dos Santos no seu registo de nascimento.

Não há consenso sobre quando a família conseguiu mudar de nome, apenas a certeza que isso aconteceu entre 1959 e 1975. O incrível é que, de um dia para o outro, quer os irmãos e irmãs de José Eduardo, quer os pais, quer ainda os parentes mais próximos, vêm os seus registos de nascimento todos alterados, passando, como por milagre, a deixar de carregar o apelido Van-Dunem para, no seu lugar, apenas encontrarmos o apelido dos Santos. Há quem diga que a União Soviética deu uma ajuda.

Em 1961, quando rebenta a guerra colonial, já José Eduardo era membro ferrenho do MPLA. Abandona Angola e desaparece para a União Soviética, passando a coordenar a juventude do movimento no exílio. Em 1962, apenas com 20 anos, integra o Exército Popular de Libertação de Angola (EPLA), a força armada do MPLA, não se sabe bem como, porque não lhe eram conhecidos créditos ou feitos militares dignos de relevo. Mais uma vez é atribuída grande influência aos soviéticos nesta integração, mais ainda porque, em 1963, apenas com 21 anos, foi o primeiro representante do MPLA, em Brazzaville, a Capital da República do Congo.

Por hoje, querida Berta, fico-me por aqui, espero que a história te esteja a agradar, recebe um beijo de saudade, deste teu velho amigo,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Isabel dos Santos - Uma Saga de Família que vem do Século XVII - Parte I

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Olá Berta,

Hoje, e nos próximos dias, faço um intervalo no que concerne à revista dos eventos do meu bairro em 2019. Mandar-te-ei o segundo trimestre daqui a mais algum tempo, para que a coisa não se torne uma maçada, em vez de uma curiosidade interessante. Possivelmente voltarei ao próximo trimestre algures no mês seguinte.

Este domingo andei a ler e a rever outras coisas sobre o que se anda a passar por este mundo fora. Podia pegar em vários temas, mas vou dedicar esta carta e talvez as próximas apenas a um deles. Nem sequer vou falar das investigações que fiz no passado sobre ele, e que ainda foram algumas, nem na existência ou não das possíveis evidências. Nada disso, vou apenas referir o que me parece por demais evidente. Contudo, e como sempre, nas minhas crónicas mantenho-me no domínio estrito do alegadamente. Estou-me a referir a Isabel dos Santos e às origens que têm sido contadas de um modo que me parece, no mínimo, lírico e bem pouco próximo daquela que, para mim, é a realidade. Esta primeira carta é o início de um tema que divido em 4 atos, ou cartas.

Porém, e para agora, vamos esquecer a princesa de Angola e voltar atrás no tempo. Não são 10 nem 20 anos… imagina-te, querida Berta, num retrocesso longínquo, distante e nublado. Pensa numa época onde prevalecia a lei do mais forte, do mais apto e do hábil em impor a sua vontade, forma de estar e de agir. É nesse tempo que começo.

Em meados de mil e seiscentos a coroa portuguesa contratou um tal de Baltazar Van Dum. Um homem, de origem holandesa, especializado no comércio de escravos. Para muitos um pirata, nome dado aos mercenários e a alguns esclavagistas arrojados da época, que procediam a capturas, transporte e negócios de escravos intercontinentais. O nome de família de Baltazar evoluiu ao longo dos tempos até se tornar Van-Dunem. Mas a origem é toda deste homem que percorreu todos os territórios ultramarinos portugueses da época a que me refiro.

Baltazar Van Dum esteve em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Angola, Guiné, no Brasil e em mais algumas regiões que, para a história em causa não são relevantes. O seu acordo com a coroa nacional incluía toda a África Portuguesa e o Brasil. É de assinalar que ele fez o possível e impossível por deixar bem marcada essa responsabilidade.

Diz uma espécie de lenda angolana que Baltazar teve mais filhos do que anos de idade. Filhos da própria mulher, uma negra que se dizia ser o símbolo da beleza africana, de concubinas, de prostitutas e de escravas. Contudo, ao contrário do macho latino, que tenta passar despercebido e tudo fazer à socapa, na sombra, sem assumir grandes responsabilidades, o muito ilustre pirata Baltazar funcionava precisamente ao contrário. Fazia questão de dar o seu nome a todos os seus descendentes, fossem eles filhos de que tipo de mulher  fossem.

É por isso mesmo que o apelido, atualmente “Van-Dunem”, aparece difundido abundantemente por toda a África, América do Sul e Estados Unidos da América, onde o primeiro Van Dunem escravo aportou no século XVII, numa primeira remessa de 20 escravos enviados por Baltazar, tão importante que, ainda hoje, é assinalada nas relações bilaterais entre Angola e os Estados Unidos.

A poligamia estava para Baltazar como o vinho para Baco. Era, mais do que uma imagem de marca, uma questão de princípio. Rogam as histórias de então que não havia mulher negra que passasse na sua presença que não fosse devidamente testada e carimbada com o fálico selo de Van Dum. Certamente um exagero, contudo, bem demonstrativo da “fama cobridora” deste verdadeiro touro ou garanhão dos novos mundos que, então, ganhavam protagonismo para a economia mundial e para o desenvolvimento e enriquecimento da Civilização Ocidental.

Pode-te parecer, querida amiga, que estou a ser exagerado, mas, este meu primeiro herói, foi alvo de um livro de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, sob o famoso pseudónimo de Pepetela, um dos nomes maiores do romance angolano, que sobre ele romanceou,  descrevendo aquilo que eram os filhos legítimos da mulher, que ele chama de Dona Inocência, e os filhos das escravas da casa e não só, os chamados filhos do quintal. O livro tem um nome muito sugestivo que resume muito do que aqui disse e direi, de uma forma romanceada, mais restrita, mas com o mesmo significado; chama-se: “A Gloriosa Família”, e está deliciosamente escrito por um dos grandes escritores angolanos que, em Portugal, foi editado pelas Publicações Dom Quixote.

Mais te poderia descrever sobre este profícuo homem do passado, este Baltazar sem controle de natalidade, porém, para o cerne da questão, o que importa mesmo é saber que não existe na atualidade, em toda a América ou em África um Van-Dunem cuja origem não seja essa, única e comum, aliás, aquela que aqui descrevi.

Espero que estejas a gostar da narrativa, despeço-me com um gigante beijo de carinho, este que será sempre teu amigo enquanto o coração lhe bater,

Gil Saraiva

 

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