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Carta à Berta / Desabafos de um Vagabundo / Miga, a Formiga / Estro

A partir de Julho de 2022 os blogs do Senhor da Bruma, assinados por Gil Saraiva, são reunidos em "alegadamente". Os blogs: Estro (poesia), gilcartoon (cartoons) e Desabafos de um Vagabundo (plectro) passam a integrar este blog. Obrigado.

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Carta à Berta n.º 572: Portugal em Risco - Crónica de um Conflito Anunciado - Ucrânia / Rússia

Berata 572.jpg Olá Berta,

Tal como eu, certamente, já ouviste falar do conflito entre a Ucrânia e a Rússia. Todos esperam o início eminente de uma guerra anunciada, ao mesmo tempo que desejam que esta possa ser ultrapassada, mesmo que no limite, pelo uso coerente da diplomacia.

É evidente que as rádios e as televisões têm dado um substancial relevo ao assunto, sendo nisso acompanhadas quer pela imprensa escrita, quer pela que se encontra disseminada em inúmeros sites online. Tal situação não se deve, ao facto de termos uma forte comunidade ucraniana em Portugal, mas sim ao papel da Europa no conflito, principalmente a União Europeia.

A NATO, uma instituição, até há pouco tempo, esquecida dos cabeçalhos da imprensa e das aberturas dos noticiários, aparece agora com um papel relevante, principalmente pelo destaque que os Estados Unidos da América têm dado ao assunto. Basta reparar na quantidade de vezes que o presidente americano já anunciou o início da guerra.

O problema do Ocidente tem estado na conservação do verniz, no tratamento a dar a Putin, que indiferente às advertências ocidentais, começou (a situação já dura desde 2014) por ocupar a Crimeia e agora reconhece o direito das províncias do sudeste ucraniano a integrarem a Federação Russa (reconhecendo-lhes a independência para já).

O apoio, já oficial, dado pelo Kremlin à independência destas províncias e a entrada de tropas russas nessa parte do país vizinho, por forma a apoiarem as pretensões dos separatistas, é já uma evidência clara.

Por outro lado, a desculpa esfarrapada da presença de quase duzentos mil militares russos, na fronteira com a Ucrânia e a ocupar posições ameaçadoras no território bielorrusso, divulgando para o Ocidente de que tudo não passa de simples exercícios militares é algo que já não cola, nem nunca colou, nas análises dos observadores internacionais.

É óbvio que a Rússia não quer que a Ucrânia passe a pertencer à NATO, por questões geoestratégicas. Contudo, a própria NATO e todo o Ocidente também não estão interessados nessa adesão, embora defendam que a Ucrânia, enquanto país soberano, deve ter direito a fazer as suas próprias escolhas e opções.

O Ocidente pensa, não sem razão, que pode não ser uma boa ideia integrar um país que não é propriamente uma grande democracia nem sequer um verdadeiro estado de direito. Com efeito, a Ucrânia tem tiques de autocracia e move-se muito bem nos meandros da corrupção.

Todavia, quer a França quer a Alemanha, mas não só, talvez quase toda a UE, são bastante dependentes do gás russo. Tem sido por isso que se têm desdobrado afincadamente em ações diplomáticas, na grande mesa de jantar de Putin.

Mas, e há sempre um imenso mas, em cenários deste calibre, o tal verniz, de que falei há pouco, pode mesmo vir a estalar, não tarda. O que ninguém parece ainda ter a certeza é qual é a estratégia de Putin. É claro que os americanos dizem que é evidente que a Rússia se prepara para anexar a Ucrânia, mas isso não quer dizer que tenham mais razão agora, do que quando eles provocaram a invasão do Iraque, com a desculpa das armas de destruição massiva.

Há ainda, escondido por detrás do cenário militar, um imenso palco económico e macroeconómico. Do lado russo o interesse em ter a Europa dependente do seu gás e consequentemente da energia que exporta, o qual tem um peso imenso, e deixa a Europa um pouco entre a espada e a parede. Do lado americano a possibilidade de poder tornar-se no principal fornecedor do mesmo gás do velho continente é não só economicamente excelente, como aumenta o seu poder de influência no círculo europeu.

Deves estar a pensar, mas porque raio é que isto é assim tão importante para nós, aqui, em Portugal. Bem, minha querida Berta, tal como na altura das armas de destruição massiva do Iraque, nós aceitámos sem provas, deixar os americanos servirem-se da base das Lages, nos Açores, como ponte aérea para a invasão do Iraque, desta vez, estamos prontos para permitir a entrada de capitais públicos ou privados americanos no porto de águas profundas, em Sines, para receber o gás americano no nosso país.

Depois disso, o PRR, ou seja, o nosso Plano de Recuperação e Resiliência, já prevê o investimento em estruturas ferroviárias rápidas entre Sines e Espanha, de forma a servimos de porta de entrada do gás (e do petróleo) americano na Europa, substituindo o fornecimento russo.

Para além disso, as obras de extensão e alargamento previstas para o porto de Sines, mais o melhoramento das estruturas ferroviárias, permitiram que Portugal possa competir diretamente com os portos de Roterdão e Antuérpia, com uma muito melhor localização estratégica, e também maior proximidade, das rotas comerciais da América do Sul, Central e do Norte, bem como das rotas de África.

Com efeito, uma vez terminadas as obras, melhoramento ferroviário entre Sines e Espanha e extensão e alargamento estrutural do Porto de Sines, deixaríamos de ser um ponto periférico no contexto europeu para passarmos a estrar no centro da distribuição de serviços, produtos e energia de toda a Europa.

Se a isso juntarmos a capacidade de minerar, transformar e gerar as baterias de lítio, para as fornecermos prontas às empresas tecnológicas e à industria automóvel, o papel de Portugal, no seio do contexto europeu seria absolutamente essencial, passando o país a ser um exportador de energia de elevado potencial, e interesse para todo o velho continente, mas principalmente para a Comunidade Europeia.

Em resumo, minha querida Berta, tudo aponta para que Portugal se esteja a perfilar para se tornar fundamental para a estabilidade do espaço europeu quer no que se refere às energias convencionais, quer na necessidade do lítio, quer mesmo no abastecimento e comércio de mercadorias e bens com a Europa.

Só que, em caso de guerra, como pode acontecer se a Rússia entrar em guerra com a Ucrânia, também deixamos de ser um alvo terciário, para passarmos a ser um alvo prioritário. A prova disso, que já tem contexto real e evidente, são os ciberataques de que temos sido alvos nos últimos tempos por parte dos hackers de leste. Aliás, não é à toa que até já o nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros sofre ciberataques como o de hoje.

É por tudo isto que Portugal importa agora quer aos russos, quer aos americanos, quer aos chineses, que já meteram a mão na nossa rede de distribuição elétrica (a REN com 25%), no capital da EDP (com 21,35%), na Fidelidade (com 85%), na Luz Saúde, e no BCP (com 16,7%), já sem contar com a imensidão que tem sido o investimento em imobiliário por parte dos chineses em Portugal, sendo já donos de vários tesouros nacionais, como é o caso do edifício da Rádio Renascença no Chiado entre muitos outros.

Pelo que disse ao longo desta carta, é bom que nos preocupemos com o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, pois estamos a menos de dois ou três anos de sermos um alvo prioritário em qualquer guerra entre as grandes potências mundiais, situação inédita em Portugal desde a era dos descobrimentos.

Despeço-me com um beijinho, minha querida Berta, cheio de saudades, até uma próxima cartinha, este teu amigo de há muitos anos, sempre ao dispor, eternamente grato pela nossa velha amizade,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Dante com a Funarte nas mãos

Dante com a Funarte nas Mãos.jpg

Olá Berta,

Hoje, por aqui, está um dia frio. Um daqueles frios que nos invade a carne e nos afaga, com um prazer sádico, os ossos, sabes? Coisas que eu nunca tinha sentido até aos meus 40 anos, nem mesmo em situações muito mais gélidas do que a de hoje. Já sei o que estás a imaginar. Podes ter razão ao pensares que a PDI não perdoa e gosta de nos lembrar que existe. Porém, com as evidências posso eu bem. Contudo, o que eu gostava mesmo era de controlar este frio.

Aliás, foi o frio que me fez escrever a carta de hoje, porque, por antagonismo, lembrei-me das várias e deliciosas férias que já passei no Brasil, o qual, alegadamente, tem na presente legislatura um verdadeiro asno no poder. Como eu adorava provar isso de forma convincente e retirar a estes escritos a conotação alegada. Contudo, para isso, teria de mudar de blog, porque aqui é o reino das observações sem conhecimento da totalidade das informações e das fontes.

Esta carta, minha querida, merecia honras de edital, coisa séria deste teu amigo jornalista e cheio de calos onde eles não fazem falta, porém é aqui que escrevo e é aqui que a coisa terá de fazer sentido.

Deves estar a pensar que te vou falar dos falsos testemunhos de Bolsonaro, quando acusou o ator Leonardo DiCaprio de estar a pagar a uma organização para incendiar a Amazónia, o que, mal comparando, seria o mesmo que dizer que a Madre Tereza de Calcutá era uma velha maluca que envenenava os pobres para que estes não morressem de fome. Ambas as afirmações estão na mesma ordem de classificação e categoria, quer em termos de discurso quer de domínio: o do absurdo.

Todavia, considero o assunto igualmente inacreditável. A notícia, de que te vou falar, li-a no expresso online de hoje e relatava a nomeação de Dante Mantovani para presidente da Fundação Nacional das Artes, o organismo do Governo Brasileiro que fomenta as Artes Visuais, a Música, o Teatro, a Dança e as atividades circenses.

O maestro (sim, o alegado idiota chapado é maestro) foi nomeado ontem para o cargo em causa. Estamos a falar do sujeito que afirmou publicamente ter a certeza de que a UNESCO é uma “máquina de propaganda em favor da pedofilia” e que disse que: “O Rock ativa a droga, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto. E a indústria do aborto alimenta uma coisa muito pesada, que é o satanismo. O próprio John Lennon disse abertamente, mais de que uma vez, que fez um pacto com o Satanás” (palavras do próprio Dante, que até tem um nome sugestivo).

É também de sua autoria a alegação, ainda a propósito do Rock, de que agentes soviéticos inseriam “elementos” nas músicas para fazerem aquilo a que ele chama de “engenharia social” com crianças e adolescentes.

Mais recente, nos discursos brilhantes desta alegada anta, afirma-se que “na esfera da música popular, vieram os Beatles para combater o capitalismo e implantar a maravilhosa sociedade comunista”.

A inteligente medida fazia, segundo afirma, parte de um plano para vencer os americanos e o capitalismo burguês a partir da destruição da moral da juventude e das famílias. Aliás, no seu site oficial, o alegado maestro mentecapto, defende que na música experimental contemporânea “é praticamente obrigatório imitar peidos, seja mediante o emprego de instrumentos musicais ou do famigerado aparato eletroacústico”. E, por mais estranho que te pareça as palavras são “ipsis verbis” as do próprio. Beethoven, que foi muito cedo considerado louco, é um menino do coro se comparado com a criatura de que agora falo.

No seu plano de uma nova música para infantes e adolescentes o maestro Dante Mantovani, aparece no Facebook a dirigir um coro onde o próprio acrescentou a legenda “canto gregoriano em latim para crianças, é nisso que acredito”.

Poderia, minha querida Berta, escrever mais uma boa meia dúzia de páginas com as alegações do alegado energúmeno, portador de uma deficiência mental obstrutiva crónica no que ao raciocínio e à inteligência diz respeito, pois que este é o animal que afirma que o fascismo é uma política de esquerda e que as “fake news” são uma conceção globalizante para impor ao povo a vontade da imprensa.

A Funarte, que gere os recursos do Brasil para as Artes, atrás referidos, está, como vês, entregue a este espécime de bípede, de mentalidade anterior aos nossos hominídeos de Neandertal.

Tenho pena de ver um país, que adoro, nas mãos desta gente nefasta, perigosa e absolutamente desprovida de senso comum, de sentido de história, de hombridade, de decência humana e de sentido crítico e criativo, apenas preocupados em evangelizar com um populismo que roça o <<non sense>>, da pior maneira possível, um povo alegre, feliz e maioritariamente crente no bem.

Atribuir a direção da Funarte a este louco maestro popularucho é o mesmo, que nós poderíamos fazer, se entregássemos as comemorações do 25 de abril a André Ventura. Um absurdo sem nome, nem classificação. Não sei como o meu povo irmão se vai livrar destes alegados percevejos, porém, com a máxima urgência, algo terá de ser feito.

Despeço-me tristonho e saudoso. Recebe um beijo deste teu amigo,

Gil Saraiva

 

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