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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: A Teoria do Amor - Parte II - O que é o Amor? Comparo... o amor com o meu bairro. O Bairro de Campo de Ourique...

O Amor e Campo de Ourique.JPG

Olá Berta,

Como o prometido é devido e não de vidro, aqui vai a segunda parte da minha Teoria do Amor. Nada melhor do que leres, descontraidamente, a opinião de um poeta perdido entre a latitude das suas palavras e a longitude dos seus versos. Espero que estejas a passar um excelente dia após esta quadra de Natal. Por aqui as coisas continuam amenas como o tempo que, finalmente, resolveu instalar um período de bonança durante as festividades, em todo o país. Ora bem, aqui vai disto:

TEORIA DO AMOR

Parte II – O QUE É O AMOR?

Ao contrário do que dizia Camões eu não sou dos que acham que o amor é fogo que arde sem se ver. Amor que não se vê é o amor não correspondido, aquele em que apenas uma das partes é detentora do sentimento mais puro. Mas esse não é o objeto da minha teoria. A razão é simples: Quem ama e não é acompanhado, com o mesmo sentimento, pela pessoa amada, mesmo que não o mostre, sofre e sofre muito. É como ter um carro topo de gama e não o poder conduzir, bater um recorde mundial sem ter ninguém para o comprovar, ganhar o Euromilhões e perder o comprovativo, mas, tudo isso junto, elevado a uma potência que eu nem sei calcular. O amor não correspondido é mais uma forma de dor e sofrimento do que uma verdadeira forma de amor.

Infelizmente, não deixa de ser uma subespécie de amor, mas sem a maravilhosa envolvência que faz dele o mais sublime dos sentimentos. Falta o brilho no olhar, a nostalgia do crepúsculo, o encanto do pôr ou do nascer do Sol. Falta a dualidade una.

O amor superlativo, puro, verdadeiro, não se constrói apenas com um ser. Tal como no tango são precisos 2 para o objetivo se cumprir. Senão vejamos: Uma coisa é escutar um tango, mesmo que este seja tocado ao vivo, outra, completamente diferente, é vê-lo ganhar vida, fibra, raça e glória, nos passos eternos de um par que o interpreta com mestria imortal. Sentimo-nos elevados, emocionados, a transbordar sentimentos, durante aqueles poucos minutos em que a música é soberbamente interpretada pelo casal que, com a sua indescritível destreza, nos eleva o espírito e quase nos faz sentir que somos nós quem dança como se não houvesse amanhã.

Ora, muito bem… o tango pode fazer com que vibremos por minutos, contudo, o amor faz o mesmo, mas durante o resto da vida dos dois seres que, depois de se encontrarem pela primeira vez, o partilham para a eternidade. Vibram para sempre num tango sem fim, magicamente interpretado por dois corações, 2 almas gémeas, que tiveram a fortuna de se encontrarem e se desfrutarem mutuamente numa simbiose tão única que 2 parecem um. Um paradoxo brilhante e vivo em cada caso, em cada par, que o encarne com verdade.

O amor, o verdadeiro amor desafia a matemática e as leis da física. Um mais um deixam de ser 2 e passam, na mais límpida realidade, a ser, apenas e só, um. Podem até, aos olhos de terceiros, parecer 2. Mas o importante passa-se noutro nível bem superior. Um amor, uma vida, uma experiência, um sentimento, uma viagem, um ser superior. Porque o amor é o único sentimento que distingue o ser humano dos restantes animais.

Podem os apaixonados pelo mundo animal dar milhares de exemplos de como eu estou errado. Todavia, embora entenda a confusão, os animais não amam, nem conhecem o amor, dedicam-se. Seja ao seu parceiro numa monogamia livre e selvagem, que pode durar uma vida, seja, no caso de alguns animais domésticos, ao seu dono ou dona, ou, no plural, aos seus donos.

Até acho aceitável que se use, em termos ternos e comparativos, a palavra amor, mas não é verdadeiramente a mesma coisa. Existe toda uma dimensão na fusão dos pensamentos e dos egos que não se consegue encontrar no mundo animal. Aliás, não é de estranhar que muitos destes defensores desta quase forma de amor, nunca tenham, eles mesmo, encontrado a sua alma gémea no espetro da sua própria espécie. Porém, sou dos que respeita e valoriza a relação do ser humano com as outras espécies animais deste mundo. Os bichos podem não amar, mas sentem, e é muito bonito respeitar todo e qualquer ser que sinta.

Comparo muitas vezes o amor com o meu bairro. O Bairro de Campo de Ourique é uma excelente imagem para explicar o que é o amor. Mesmo antes de ser uma e uma só freguesia, o bairro era composto por 2 freguesias, lado a lado, ombro a ombro, sempre, complementando-se e dando a sua quota parte ao outro para que este se sentisse completo. Se uma tinha a Escola de Hotelaria e Turismo, o outro tinha a UAL, com os seus cursos de artes e arquitetura. Um possuía a grande diversidade de comércio e serviços e a outra tinha as ruas estreitas, o povo simples e dedicado, e a colina suave que a levava ao seu par. Um, Santo Condestável, a outra, Santa Isabel, um par perfeito feito de um amor chamado Campo de Ourique.

Santa Isabel nunca foi igual ao Santo Condestável, nada disso, são elementos complementares de um bairro único, quiçá, no mundo. Ela com a Casa Museu Amália Rodrigues, ele com a Casa Fernando Pessoa, ambos a fazerem fronteira com o romântico e delicioso Jardim da Estrela. Um local de namoro urbano onde, fossem eles pessoas, os teríamos muitas vezes visto a namorar. Ela com o Ginásio Clube Português, o Clube Atlético de Campo de Ourique e os Alunos de Apolo, ele com as Piscinas Municipais, onde o convite à natação, torna ainda mais fluída toda a relação. Diferentes, complementares, mas um só bairro, um só par, num bater de corações em uníssono, tão uníssono que parecem uma e apenas uma entidade: o Bairro de Campo de Ourique. Parecem? Eu disse parecem? Nada disso, são uma entidade!

Em resumo, o amor é o ser abstrato, que podemos visualizar numa única paisagem que, para os olhos de quem ama, traduza a unidade de uma dualidade. A paisagem pode ser diferente em cada observador, mas o seu significado será sempre o mesmo. Seja Santa Isabel e Santo Condestável formando Campo de Ourique, onde uma única flor vermelha é capaz de florir sozinha, sob a proteção firme da Maria da Fonte, seja a Bruma trazida pelo Atlântico à Serra de Sintra, que se transforma na Serra da Lua, seja a Ria Formosa, que se gera no espaço entre a costa e as ilhas que a cercam, formando uma maravilha sem igual no Sotavento Algarvio. O amor só existe a 2 e só se vive a um, uno e indivisível.

Não te zangues comigo, minha amiga Berta, se não fui romântico o suficiente ao falar de amor. Posso não ter escolhido os exemplos que tu escolherias, não ter escrito versos languidos e apaixonados, mas a intensão era apenas dizer-te o que acho que é o amor. Não com muitos floreados, de forma clara, e dentro do possível objetiva. Espero ter dito o suficiente para ter o teu entendimento.

Despeço-me com o beijo costumeiro, este teu amigo do coração,

Gil Saraiva

 

Carta à Berta: A Teoria do Amor - Parte I - Almas Gémeas

Berta 59.jpg

Olá Berta,

Espero que o dia te esteja a correr de feição. Pelo que li nas notícias o clima tem estado favorável e ameno em quase todo o país. Até o vento virou brisa, que sopra apenas para pentear as árvores, as que mantêm a folhagem o ano inteiro, como se as quisesse compensar das maldades dos últimos 15 dias em que andou depressivo.

Pelo que me disseste, ao telefone, queres aproveitar estes meus momentos de boa disposição, de maior sensibilidade e de mais alegria, para saberes o que eu penso sobre o amor. Ora bem, minha amiga, não sou de grandes teorias nesse campo, aliás, prefiro sem qualquer dúvida dar provas dele, quando tal se mostra necessário, do que me pôr com majestosas dissertações sobre o tema. A outra alternativa que uso, na aproximação a este tópico, é a poesia.

Contudo, não sou pessoa de virar costas aos desafios, ou de mudar de assunto sem dizer o que penso e avançar com uma opinião porque, quando me pedem uma abordagem sobre algo, é por realmente haver curiosidade em saber o que eu penso sobre esta ou outra problemática, qualquer que ela possa ser. No caso concreto, eu até tenho uma teoria bem definida e sou dos que pensam que os géneros feminino e masculino têm diferentes formas de atingir esse sentimento. Porém, embora seja um processo em constante evolução, não deixa de ser a minha Teoria do Amor.

TEORIA DO AMOR

Parte I – AS ALMAS GÉMEAS

A) Noção. Objetivo. Quantidade. Busca. Caminhos. Alvos.

1) Noção: o que é uma alma gémea e quantas existem? Segundo a minha teoria, que contraria o pensamento corrente de que: para cada pessoa apenas existe uma outra que, se descoberta atempadamente, pode ser a sua alma gémea, eu penso exatamente o oposto. Vamos por partes.

2) Objetivo: uma alma gémea é aquela pessoa com a qual podemos partilhar uma existência, em total harmonia, sentindo-nos envoltos numa espécie de casulo de perfeita simbiose e entendimento.

3)Quantidade: Cada ser humano tem no mundo cerca de 155 mil e 62 almas gémeas possíveis. Mas este não é um número para se reter.

a) Busca: com efeito, há que ter em conta o universo de cada um, a área geográfica que se cobre durante a vida e os fatores externos.

b) Caminhos: dou-te uns exemplos: as diferentes histórias locais, regionais e nacionais, os fatores culturais, políticos, religiosos, sociais, sociológicos, antropológicos e mais o facto de a disparidade de idades entre 2 almas gémeas só excecionalmente ultrapassar os 20 anos de diferença entre elas, faz com que a quantidade de almas gémeas possíveis de entrar seja, de facto bastante mais reduzido.

4. Alvos: tudo contabilizado, e escuso-me de te aborrecer com os algoritmos usados, permite-me concluir que apenas temos 10 almas gémeas durante a nossa vida para descobrir.

B) Para que servem?

1) Exemplos: nada melhor do que exemplificar para se explicar esta questão: Cada parafuso tem um tipo de porca que lhe serve na perfeição. Quando me refiro a um “tipo” não estou a dizer que é apenas uma, podem ser várias. No caso das almas gémeas estas são anilhas de rosca dificílimas de encontrar.

2) Resultado: quando se encontram, rosca e parafuso, formam um par funcional perfeito, na compreensão, no carinho, no respeito mútuo, na solidariedade e mais importante que tudo, no amor que sentem de forma mútua e absoluta.

C) O que é o Amor na perspetiva das Almas Gémeas?

O Amor é o conjunto de vivências partilhadas por 2 almas gémeas, desde o momento em que se encontram pela primeira vez até que se separem. Se forem almas gémeas puras a separação apenas acontece com o falecimento de uma das 2.

D) Como se distingue uma alma gémea pura de uma impura?

1) Alma Gémea Pura: aquela que só se separa do seu par única e exclusivamente se este morrer.

2) Alma Gémea Impura: trata-se de uma falsa alma gémea. Muitas vezes o par confunde atração, arrebatamento, paixão, frenesim, entusiasmo, até sexo, com a compatibilidade absoluta entre 2 almas gémeas. Mas, ao fim e ao cabo, no final descobrem (uma delas ou ambas), que tudo não passou de um enorme erro de casting e nada mais.

Gostaste, Berta? Esta é a primeira parte da minha teoria do amor. A que explica as almas gémeas em si mesmas. Quantas há, quais as hipóteses de se encontrarem e o que é preciso para que tudo resulte. Na carta de amanhã, envio-te a segunda parte da minha teoria. Nessa vou-te responder à questão: o que é o amor? Será uma resposta num sentido bem mais lato que que aqui expliquei. Uma resposta sem pontos nem alíneas, apenas com alguns parágrafos, para que entendas o que penso sobre o tema.

Deixo-te um beijo, saudades e muito carinho, este que não te esquece,

Gil Saraiva

 

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