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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Não Se Aponta Que É Feio

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Olá Berta,

Tenho visto e ouvido imensa gente a criticar o Governo por andar a fazer poucos testes. Seja na Assembleia da República, por parte dos partidos da oposição, seja na imprensa escrita e, mais assertivamente nas redes sociais, que quase que espumam de raiva reivindicativa pela testagem em falta. Eu que aponto o dedo à atuação dos nossos líderes, sempre que me parecem que eles escorregam nos seus deveres, também gosto de ter a noção de que as críticas que faço são minimamente justas.

Nestas coisas sobre o que o SNS anda a fazer a mando da DGS eu acho importante que se tenha em atenção dois pontos fundamentais: o rácio de testagem realmente efetuada, desde que a pandemia começou, por milhão de habitantes e a comparação com os países que têm a mesma ou maior população que Portugal.

O primeiro critério é evidente porque não faz sentido fazer comparações sem ser pela percentagem de testes realizados desde o início por cada milhão de habitantes, o segundo ponto é ainda mais importante porque não acho justa a comparação nacional com países ou territórios de menor dimensão populacional, como por exemplo o Mónaco, o Luxemburgo ou Andorra, que, dada a sua pouca população, atingem grandes percentagens por milhão de habitantes com meia dúzia de testes, porque a comparação se torna ridícula.

Ora, analisemos, portanto, quais e quantos são os países e os territórios que, com igual ou superior dimensão populacional e desde que as testagens começaram, têm mais testes por milhão de habitantes que Portugal. Serão muitos? Estaremos assim tão na cauda da testagem como se afirma? Devo confessar que eu não sabia, mas resolvi consultar as testagens em todo o globo e compará-las connosco, fazendo uso dos critérios já referidos. Para tal usei os dados da OMS e do site do “Worldometer”, que é muito usado para avaliação dos dados da pandemia.

República Checa, Bélgica, França, Reino Unido e Estados Unidos da América, são os cinco, e únicos, países do mundo que, tendo uma população igual ou superior à nossa, já fizeram mais testes por milhão de habitantes que Portugal, desde que a pandemia começou. Ora, vistas as coisas por este prisma objetivo, não se pode dizer que estamos na cauda seja lá do que for no que à testagem diz respeito.

Pelo contrário, fica demonstrado que testamos mais do que Espanha, Itália, Holanda, Alemanha, China, Rússia, Índia, Brasil, México, Canadá, Austrália, só para enunciar alguns dos países que esperaríamos encontrar mais avançados do que nós. Para cúmulo desta análise, devido ao elevado aumento da testagem nacional, e a manter-se este ritmo, dentro de menos de 30 dias, estaremos no top 3, o que não me parece um lugar de envergonhar quem quer que seja, por mais voltas que se tentem dar aos números.

Vergonha, é a palavra certa a aplicar a todos estes críticos de barriga cheia e de língua solta e viperina, que nem se dignam a consultar as tabelas oficiais antes de botarem discurso. Vir criticar o Governo, porque num período de sete ou quinze dias se fizeram menos testes que o normal, tendo em conta o universo de quase 16 meses, é como criticar a Telma Monteiro, honra e glória do judo português, por ter faltado a um treino quando, mesmo assim, sempre atingiu o pódio de cada vez que participou em campeonatos internacionais da sua modalidade. Haja bom senso e moderação.

Se querem criticar os nossos governantes atirem-lhes à cara com o abandono discriminatório, e quase xenófobo, a que os circos e as atividades circenses foram votadas desde o início da pandemia, por exemplo, no que se refere ao apoio a um setor da cultura totalmente desprezado pelo Governo, que os proibiu de exercerem a sua atividade, desde que a pandemia teve início há 16 meses. Aqui sim, há razões para indignação e vergonha, mas há mais exemplos como este, muitos mais.

A crítica, a ser feita, deve ser objetiva, assertiva e construtiva. Falar por falar fica ridículo e põe em perigo quem realmente precisa de apoio. Por hoje é tudo minha querida amiga, recebe um beijo de despedida e sempre saudoso,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Coronavírus: O Codid-19-1 e Covid-19-2....

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Olá Berta,

Esta carta hoje serve para te contar aquilo que até aqui, durante já quase 3 meses, era perfeitamente desconhecido de nós, os comuns mortais. Poderás estar intrigada com o que te estou a escrever, porém, não fiques, porque faço questão de te esclarecer já de seguida.

Segundo as últimas novidades em termos de investigação ao novo Coronavírus, ou Covid-19, afinal não sabíamos tanto como pensávamos e o que pensávamos que sabíamos já não era muito. Se bem que o vírus continue a ser o Coronavírus, e a doença que provoca tenha passado a ser apelidada de Covid-19, vou, para não te gerar confusão, amiga Berta, tratar o vírus pelo novo nome da doença, ou seja Covid-19.

Assim, com efeito, o Covid-19 não são um, mas dois vírus, bem diferentes um do outro. Para já, e enquanto não há nomes oficiais, digamos que se tratam de gémeos. Ambos terão nascidos juntos, mas, enquanto o Covid-19-2 é, aquilo a que podemos chamar, um gémeo bom, o Covid-19-1 apresenta-se como o gémeo mau.

Traduzindo por miúdos, apenas o Covid-19-1 mata e apenas este Covid-19-1 causa as infeções mais graves e os maiores problemas entre humanos. Quer isto dizer que, com a existência de 2 estirpes, absolutamente distintas, uma que provoca ligeiros problemas muito semelhantes à gripe normal e a outra tem uma enorme capacidade assassina, caem por terra todas as estatísticas e estimativas que foram feitas até aqui pela Organização Mundial de Saúde e pelos governos e serviços de saúde do mundo inteiro. A China foi quem anunciou a descoberta das 2 estirpes e a OMS já se encontra na posse desses dados.

Graças a isso em breve devemos começar a ter que distinguir, diria a 2 cores, nos mapas de contaminação global o comportamento diferenciado dos gémeos. Esta descoberta ajudará a distinguir a distribuição das estirpes pelo planeta e onde se encontra realmente o Covid-19-1.

Dou-te um exemplo. Portugal, que já tem 8 infeções detetadas e confirmadas até ao momento, pode muito bem ainda não estar ninguém infetado pelo Covid-19-1. Contudo, este gémeo, a que eu chamei de Covid-19-1, afeta 70% dos infetados e é responsável por todas as mortes existentes até ao momento, exceção feita aos pacientes cujo quadro clínico tem outros problemas, de tal forma graves que até a gripe normal seria capaz de gerar um óbito.

Se pode ser um alívio informar o mundo que o Covid-19-2, não mata, em condições normais de saúde por parte dos pacientes, já a população em geral infetada com o Covid-19-1 vê a sua taxa de mortalidade aumentada para os 5% em vez dos anteriores 3,5%. Por outro lado, quanto à mortalidade na faixa etária de 80 ou mais anos, esta galopa para uns assustadores 21,5%. O que quer dizer que mais de 1 em cada 5 afetados com o Covid-19-1, com 80 ou mais anos, falecerá.

Porém, os cientistas no Brasil falam em mais outras 2 estirpes, digamos filhas, a título ilustrativo, do Covid-19-1. Essas estirpes são apenas 2 mutações do vírus inicial, e os estudos indicam que uma é alemã e a outra italiana. Também, segundo consegui apurar, apenas o genoma do Covid-19-1 foi mapeado. O que quer dizer que ainda não existe descodificação para o Covid-19-2 e para os Covid-19-1A (de Alemanha) ou para o Covid-19-1I (de Itália).

Convém esclarecer que esta visão que apresento é apenas alegadamente verdadeira, ou seja, não passa da minha interpretação das notícias que tenho, enquanto jornalista freelancer, recebido no email e investigado pelos meios que me são permitidos. Aliás, embora eu não entenda muito bem porquê, o máximo que as organizações de saúde e investigação fizeram até agora foi dizer que, das 2 estirpes iniciais, uma é muito mais agressiva do que a outra. A conclusão que apenas o Covid-19-1 pode matar pessoas aparentemente saudáveis à data da sua contaminação viral é minha, embora fundada naquilo que me parece credível face às notícias e informações recebidas.

Espero, minha querida amiga, que tenhas ficado um pouco mais esclarecida. Despeço-me com um beijo,

Gil Saraiva

 

Carta à Berta: Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 18) Meio Caminho Andado

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Olá Berta,

Do lado oposto ao teu, em Guimarães, ainda não vai a meio, hoje, dia 12/02, o Reino da Diversão, que durará 30 dias. O evento decorre no Multiusos de Guimarães e espaços envolventes e conta com uma Pista de Gelo, apresentada como a rainha da companhia, os Carrinhos de Choque, o Tornado Loopping, o Carrocel Circus, os Barquinhos Infantis, o Twitter Infantil, a Minipista, a Scalextric, os Elásticos Radicais, o Carrocel Familiar, o Mega Crazy, as Rolling Balls e ainda o Pavilhão dos Matraquilhos. Este é um Reino que já vai no oitavo ano de história e sucesso.

A juntar-se à diversão, como não poderia deixar de ser, quiosques e tasquinhas trouxeram o elemento da restauração ao Reino da Diversão. A lembrar as antigas feiras e mercados regionais, este megaevento de 30 dias, entre 1 de fevereiro e 1 de março, proporciona, em Guimarães e arredores, uns dias bem divertidos com muitos sorrisos à mistura, num ambiente criado para toda a família, que promete continuar a fazer história na região. Durante este período o berço da nacionalidade é, novamente, um Reino de alegria e riso.

O motivo que me levou a assinalar aqui o acontecimento tem a ver com a taxa de felicidade acrescida que realizações deste género incutem nas populações que servem. Somos um país com uma taxa de suicídio que é a maior da Europa, de 13,7 pessoas por cada 100 mil habitantes, sendo que a média europeia é agora de 10,5 a par com a mundial, apenas nos ultrapassam, em números de suicídios por cada 100 mil habitantes, 7 países no mundo, a saber, em ordem decrescente: a Guiana, a Coreia do Norte, a Coreia do Sul, o Suriname, Moçambique, Nepal, Burundi e, logo depois, estamos nós, Portugal.

Outra nota menos engraçada é o facto de, até 2012, Portugal não ter um lugar de destaque neste nefasto ranking. Sendo nessa altura o oitavo lugar ocupado pela Alemanha com 10,7 suicídios por cada 100 mi habitantes. A partir da amaldiçoada governação de Passos Coelho e do clima de ultra austeridade implementada com a ajuda da Troika, centrada diretamente no indivíduo e não no consumo ou nas empresas, rapidamente o nosso país galgou lugares neste ranking até se instalar de pedra e cal no oitavo lugar, de onde parece não querer sair. No quadro europeu, segue-nos agora a França, com 12,1 de taxa, ainda bem longe nos nossos números absurdos.

Precisamos, por tudo isto, de mais Reinos da Diversão e sem sombra para dúvidas de incutir um maior otimismo e esperança nos estratos populacionais mais desfavorecidos. Sei que já te falei deste problema numa outra carta, mas considero realmente este um ranking do qual temos de sair com urgência.

Para que se atinjam estes objetivos não chegam os Reinos Divertidos, são precisas estratégias concretas de combate a este flagelo que rouba um cidadão ao país a cada 6 horas que passam. Espero sinceramente, amiga Berta, que se procurem medidas efetivas na redução do problema de forma pensada e urgente.

Quanto ao teu desafio, referente á minha produção de quadras sujeitas a mote, escolheste para hoje o tema “Meio Caminho Andado”. Espero, corresponder ao proposto, com estas novas quadras. Tive de construir 3, em vez de uma, para me sentir satisfeito com o tema. Contudo, é mesmo assim, nem sempre apenas uma nos dá o retorno que esperamos alcançar. Mas julgo que, pelo menos a terceira quadra, responde perfeitamente ao desafio. De qualquer maneira seguem as 3, para que possas avaliar por ti se o que digo faz sentido.

Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 18) Meio Caminho Andado.

 

Meio Caminho Andado I

 

Meio caminho é, pela estrada,

Não sofrer, antes sorrir,

É saúde encomendada

Doença levada a rir.

 

Meio Caminho Andado II

 

Sem saúde, paz, dinheiro,

Não se chega a nenhum lado,

Procura rir tu primeiro,

É meio caminho andado

 

Meio Caminho Andado III

 

É meio caminho andado

Pelos azares da vida,

Manter o foco apertado

E rir de cada partida.

 

Gil Saraiva

 

Está na hora de terminar esta carta, minha querida Berta, com um beijo pleno de saudades regularmente enviado como os antecessores, por este que não te esquece,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 8) A Vida

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Olá Berta,

Cá estou eu mais uma vez a escrever os meus desabafos. Vivemos num tempo em que tudo acontece como se nada fosse. Acabei de ler uma notícia em que os serviços secretos alemães e americanos espiaram através da empresa de encriptação que vendia os sistemas de segurança a 120 países, Portugal incluído, porque tinham adquirido conjuntamente a empresa em segredo (Alemanha até 2016 e Estados Unidos até 2018).

Estivemos nós e mais 119 países do mundo inteiro expostos à devassa desta gente e ninguém pede contas a ninguém? Mas isto virou a República do Bananal ou temos medo de ofender quem violou a privacidade nacional porque são nossos pretensos aliados?

Aliado que o é não espia às escondidas os parceiros. E já agora era giro saber que medidas tomámos nós para evitar a repetição de tais situações… pois uma coisa é não confrontar os nossos supostos amigos, mas outra, bem diferente, é permitir a continuação da devassa e da bandalheira.

Porque é que na Assembleia da República ninguém questiona o Governo sobre as medidas tomadas perante tal revelação. Porque isto sim, é grave. Bem mais grave do que a saga de Isabel dos Santos que salvou várias empresas portuguesas de falirem, a pedido dos nossos queridos governantes, e a quem nós agradecemos arrestando-lhe as contas. Detesto gente sem coluna vertebral. Assumam os erros que fizeram se acham que foram erros e corrijam o que está errado porque isso sim é que é bonito.

Bem, o melhor mesmo é regressar à nossa saga das quadras sujeitas a mote. É algo bem mais divertido e não me deixa indignado com o comportamento sabujo de quem, neste país, detém o poder.

Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 8) A Vida.

 

A Vida

 

Sorria, nunca ande triste,

Pelos caminhos da vida,

Que a vida que em nós existe

Não tem volta, só tem ida…

 

Gil Saraiva

 

Por hoje fico por aqui. Recebe um beijo amigo, deste que se mantém saudoso,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 14) O Corrupto

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Olá Berta,

6 de fevereiro é, a partir deste ano, também em Portugal, o Dia da Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina. Podes pensar que este é um assunto que nada tem a ver com os hábitos e costumes lusos e, estando totalmente correta, tenho é que te lembrar que, cada vez mais, temos migrantes a residir no nosso país onde essas práticas são de uso corrente, muito para além do que nós, à partida, imaginamos possível e aceitável. Daí a medida fazer todo o sentido, servindo de alerta para o problema.

No mundo são mais de 200 milhões de meninas e mulheres sujeitas a este ato de barbárie que continua a subsistir no século XXI. O fenómeno é usual na Etiópia, na Eritreia, na Gâmbia, no Mali, na Nigéria, no Senegal, no Sudão, na Tanzânia, na Costa do Marfim, no Djibuti, no Benin, no Burkina Faso, na Índia, na Indonésia, no Sri Lanka, na Malásia, no Egito, em Omã, no Iémen, nos Emiratos Árabes Unidos e no Peru.

Contudo, face às migrações, o problema já se espalhou para países como a Austrália, o Canadá, a Dinamarca, a Alemanha, a França, a Itália, a Holanda, a Suécia, o Reino Unido, os Estados Unidos da América e Portugal. Todavia, esta lista apenas apresenta os países onde o problema já tem proporções significativas. Basta olhar para o nosso exemplo nacional. Quem imaginaria que, segundo os números relativos a 2018, 43 mil mulheres e crianças, neste cantinho à beira mar, foram sujeitas à Mutilação Genital Feminina? É difícil de engolir estes números, contudo, o problema é bem mais extenso uma vez que estes são apenas os números oficiais confirmados. Inacreditável, não é, minha querida amiga? Mas bem real, infelizmente.

Assim, a existência de um “Plano de Ação para a Prevenção e o Combate à Violência Contra Mulheres e à Violência Doméstica 2018-2021”, integrado na “Estratégia Nacional para a Igualdade e a Não-descriminação 2018-2030” e do “Programa Portugal + Igual”, faz todo o sentido. É aqui que se prevê e enquadra o combate às práticas tradicionais nefastas, como é o caso da Mutilação Genital Feminina. Uma praga que urge combater com a maior seriedade e prontidão, criando os normativos necessários a uma atuação que não apenas seja célere como também eficaz.

Voltando agora à temática do teu desafio, no que se refere à criação de quadras populares, sujeitas a tema, a tua última escolha recaiu sobre “O Corrupto”. Tentei o meu melhor para estar à altura de mais esse desafio. Espero que a próxima quadra o supere. Posso afirmar que, embora existam temas mais difíceis que outros, às vezes não é bem na dificuldade do tema que eu encontro o problema, mas sim na limitação curta dos versos de uma quadra, para se expor uma ideia, de modo claro e sintético. Enfim, eu vou tentando, quando tiver que me render, também o farei. Tema de hoje:

Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 14) O Corrupto.

 

O Corrupto

 

Defender o que é de todos,

Mas não pertence a ninguém,

Pode bem gerar engodos,

Para o proveito de alguém…

 

Gil Saraiva

 

Chegada que é a hora de mais um adeus, é com um beijo saudoso que se despede este teu amigo eterno, sempre ao dispor da sua boa amiga,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: A Peça do Chinês - Parte VI- O Depois...

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Olá Berta,

Cá estou eu para terminar a novela da peça do chinês. Pese embora o principal já ter sido dito, falta relatar-te como tudo ficou concluído. Até porque já foi este ano de 2020, que a história finalmente chegou ao fim.

Depois da saída do hospital e apenas o ano passado, já tive outros episódios e chatices, mas que nada tiveram a ver com a narrativa da pedra na vesícula. No caso do último ano foram 9 AVC que me abalaram um pouco, mas que ficaram controlados um pouco depois do verão, sem terem causado grandes danos irreversíveis. Apenas um dedo da mão esquerda se mantém permanentemente dormente. O que é uma gota de água no vasto oceano de chatices que me podiam ter acontecido.

Só que desta vez recorri aos serviços da CUF, porque um seguro de saúde, que mantenho já há uns anos, me permitiu aceder, sem custos demasiado elevados a esse hospital. Tive sorte, não me descobriram a origem dos AVC, mas pelo menos, conseguiram controlá-los. Vistas bem as coisas já não foi nada mau.

Mas, voltando à vaca fria, é hora de escrever sobre a conclusão. Embora todo o problema tenha levado um pouco mais de 3 anos para ficar concluído, não teve o final esperado. Vamos à parte VI, da minha aventura, em torno da peça do chinês, com o epílogo a que chamei: o depois…

No meu regresso ao hospital, para ir buscar os exames e análises que não me tinham sido entregues, passados quase 4 meses, aproveitando o facto de o Bonifácio estar de regresso, devido a mais uma crise, acabei por visitar, por mera coincidência, a mesma enfermaria onde estivera internado.

Um novo paciente, que agora ocupava a cama onde eu estivera quando fora internado, acabou por se meter na conversa entre mim e o meu amigo. Parecia um sujeito um pouco amargo e de mal com a vida. Uma daquelas pessoas que, amiga Berta, nunca está satisfeita com tudo o que lhe calhou ou, pior ainda, que foi escolhendo ao longo do seu próprio percurso. O facto de estar mais falador devia-se, disso tenho absoluta certeza, à disposição alegre e contagiante do Bonifácio. O homem consegue fazer uma pedra sorrir.

Depois de um curto preâmbulo, após ter percebido que eu estivera ali, devido a um problema de pedra no canal biliar, para fazer uma CPRE, é que a sua expressão ganhou mais vida e vontade de interagir connosco. Por fim, lá me informou que o pai tinha morrido em 2005, devido a uma CPRE. Ele e a família até tinham posto o hospital em tribunal e, só não tinham ganho, porque aquela malta está toda feita uns com os outros. Era uma vergonha. Então não tinham decidido operar o pai sem consultarem a família? Tinham mesmo e trataram-no à balda, relatava revoltado.

O Bonifácio que já devia ter escutado aquela história, pelo menos umas 3 ou 4 vezes, ainda perguntou, com jeito, se o pai tinha autorizado ou não a operação. Tinha sim, respondia o outro, mas o homem estava velho demais para poder decidir, afinal estava quase nos 80 anos. Podia até estar lúcido, mas já não era admissível que tomasse uma posição daquelas sozinho.

O paciente insistia no tema. Mas não fora por causa disso que o tribunal não dera razão aos familiares? Fora, fora sim, mas o juiz estava era comprado. Pois eles tinham conseguido provar que o pai não sabia os riscos que corria e, mesmo assim, não tinha sido feita justiça. Não se podia mandar um homem daquela idade, assim sem mais nem menos, para uma intervenção delicada daquela envergadura, com anestesia geral e quase 2 horas de operação, sem lhe serem descritos os riscos inerentes a um tal procedimento, que ainda por cima era extremamente delicado.

Dizia ele que 10 por cento das intervenções com o CPRE derivavam para pancreatite aguda e em morte do paciente. Mas havia muitos mais problemas associados, como septicémias, perfurações, inflamações diversas, o homem não se calava, a coisa era grave e, segundo ele, apenas metade dos intervencionados passava pelo processo, sem riscos ou complicações de maior. A investigação do advogado concluíra que, se as consequências do pós-operatório fossem atribuídas à CPRE as mortes aumentariam mais 30 por cento.

Não acabara ele de me ouvir contar que o hospital se tinha esquecido de avaliar o meu estado, depois da CPRE, e que passara 4 meses com uma crise de fígado, provocada por falta de tratamento ao contraste, que me tinha sido administrado na operação? Confirmei, uma vez mais, que era verdade, mas acrescentei que talvez eu devesse ter ido mais cedo ao Egas Moniz, tentar descobrir o que é que se passava. A culpa do calvário de 4 meses era tanto minha como deles. Quem estava mal era eu.

Sim, sim advogava o sujeito, mas a culpa, o erro inicial, era do gastroenterologista que fora negligente. E se eu tivesse morrido? Sim, porque ele sabia de casos em que a reação ao contraste tinha provocado a morte do paciente. Eu devia era pôr o hospital em tribunal e pedir uma choruda indeminização. Isso mesmo, era o que aquela malta precisava para ver se aprendiam.

Afinal, não se brinca com a saúde das pessoas. Era verdade, confirmei eu a tentar conformar o revoltado individuo, contudo, eu nunca o faria, pelo simples facto de também eu ter sido descuidado e não ter ido saber porque é que me sentia tão mal. Mas não era alguém que se sente mal e que, ainda por cima, que está com receio de ter alguma coisa na vesícula ou no canal biliar, que tem de ser culpado por não ter agido. Eu era médico? Não era! A culpa era sempre do médico. Por causa das pessoas agirem como eu é que aquela malta ainda não tinha sido posta na ordem, afirmava.

Tendo falado isto, o homem concluiu que eu não era digno de perdão. Acabara de arranjar mais um culpado para a morte do pai, muitos anos depois do homem ter morrido. Eu! Bem, ou pessoas como eu, aquela gente que não faz queixa e não avança com as devidas ações para pôr fim às injustiças. Ainda a resmungar entre dentes, virou-se de costas e abandonou o diálogo connosco. E é assim, minha querida Berta, que uma pessoa se vê acusada de um crime que nem sabia ter existido. Está tudo na forma de raciocinar e naquilo que vai na cabeça de cada um.

Eu e o Bonifácio ainda ficámos na conversa mais uma boa meia hora e fomos juntos até ao snack-bar na saída do hospital. Nenhum de nós parecia na disposição de voltar a ouvir o revoltado paciente que à data ocupava a minha antiga cama, o que poderia muito bem voltar a acontecer se, no entretanto ele fizesse mais algum raciocínio distorcido como os anteriores. Foi engraçado rever aquele local, sem cadeira de rodas, e poder fumar um cigarro a um nível bem mais elevado do que sentado.

Para além disso, eu fiquei aliviado por me ver fora de um sítio que me fazia suar frio e que me causava náuseas e tonturas. Ele tomou um chá, feito com uma erva qualquer que forneceu à paisagem que nos atendeu ao balcão e eu bebi uma cola fresca. Estávamos ambos aliviados de nos termos livrado do queixoso paciente do terceiro piso. Finalmente despedimo-nos e eu regressei a casa.

Durante os seguintes 2 anos e oito meses e pouco, recebi mais umas 4 marcações para terminar a intervenção que ficara por concluir e também, pelo mesmo número de vezes, a mesma foi cancelada por, sem qualquer surpresa, nova avaria na peça do chinês. Só que, cada vez a avaria levava mais tempo a ser reparada, e cada vez também, a peça demorava mais a ser encomendada à China. Os cortes crescentes e bem pesados no Serviço Nacional de Saúde, asseguravam que assim tinha de ser e pouco havia a fazer em relação à situação.

Finalmente, no passado dia 3 de janeiro deste ano, 2020, recebi a tão aguardada chamada. A minha operação para remoção da vesícula e colocação do stent no canal biliar estava marcada para dali a 3 semanas. A médica que falava comigo informava-me que dificilmente se correria o risco de novo adiamento, porque o hospital optara, depois de um difícil consentimento da tutela, por mandar vir a peça, para o equipamento da CPRE, da Alemanha. A nova peça estava a funcionar em pleno, sem problemas há mais de um mês, pelo que achavam que a marcação era segura.

Já ia concordar quando algo despertou em mim um alarme. Tirar a vesícula? Mas eu não queria tirar a vesícula. Estava já há 3 anos sem problemas e, na época, nem se descobrira a origem da formação da pedra. O que eu tinha marcado era, apenas e só, a colocação do tubo, que ficara por pôr, devido à avaria do equipamento durante a minha CPRE.

Do outro lado fez-se silêncio por alguns segundos, a mim pareceram-me minutos, mas nestas situações o tempo é sempre mais psicológico do que real. Finalmente a voz da médica fez-se ouvir. Não, não, eu estava enganado. O que sempre estivera marcado fora a remoção da vesícula e a colocação do stent. Ela estava a consultar todas as marcações e respetivos adiamentos e era isso que constava na minha ficha.

Fui obrigado a contar que, após uma conversa com a cirurgiã, antes da minha intervenção, eu não tinha concordado com a remoção da mesma de forma preventiva, porque o hospital nem sequer conseguira concluir o que causara o aparecimento da pedra. Aliás, o médico concordara, embora tivesse insistido que já que iam ter de mexer podiam matar 2 coelhos numa só cajadada. Afinal, nada me garantia que não voltaria a ter outro calhau. Ao que eu rebatera que também nada me garantia que voltaria a acontecer, coisa com que ele concordara.

Portanto, concluía eu, ficou decidido, desde antes da CPRE que não haveria remoção de vesícula. Eu até podia ter toda a razão do mundo, informava-me a médica, mas não era isso que ali constava. Se eu não quisesse tirar a vesícula, 3 anos depois também já não fazia sentido colocarem o stent. Ficaria tudo anulado. Concordei e despedi-me da doutora.

Como vês minha querida amiga Berta, a peça do chinês andou comigo às voltas por 3 anos, para, quando finalmente foi trocada, me deixar de mãos a abanar sem concluir o procedimento começado. O depois, nunca é aquele que esperamos quando ainda estamos no antes. A vida é mesmo assim. Dá as voltas que entende, pelos caminhos que escolhe, e nós, apenas temos de conduzir com cuidado para evitarmos acidentes.

Despeço-me com um alegre até amanhã, acrescido de um beijo pleno de saudades, este teu amigo de sempre, que nunca te esquece,

Gil Saraiva

 

Carta à Berta: Prognósticos para o Euro 2020

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Olá Berta,

Hoje vou-te confessar uma coisa. Acho que Portugal, genericamente, enquanto país, é um assassino calculista. Deves estar a interrogar-te: “Que raio de conversa é esta?”. Contudo a coisa é simples. Desde que se realizou o sorteio da UEFA para apurar os grupos da primeira fase do Euro 2020 e se ficou a saber que estávamos no chamado Grupo da Morte, juntamente com os 2 últimos campeões mundiais, a Alemanha e a França, que eu tenho cá o palpite que ambos vão morrer nas mãos, aliás, nos pés, da nossa seleção.

Daqui a 6 meses e meio, quando jogarmos o primeiro jogo do Euro, a 16 de junho, e depois a 20 e a 26, vamos passar a ser conhecidos como os tomba-gigantes. Pelos comentadores e analistas que ouvi nos últimos 2 dias, as nossas hipóteses de sobrevivência no grup,o são tão remotas como a deputada do Livre ser beatificada pelo Papa.

Ora, eu acho precisamente o inverso. E na devida altura, tiraremos a prova dos 9. Cá para mim, vamos mesmo ser sanguinários, a lembrar a letra dos “Vampiros” de Zeca Afonso: “No céu cinzento, sobre o astro mudo, batendo as asas na noite calada, vêm em bandos com pés de veludo, chupar o sangue fresco da manada…” para terminarmos no refrão: “Eles comem tudo, eles comem tudo. Eles comem tudo e não deixam nada. Eles comem tudo, eles comem tudo. Eles comem tudo e não deixam nada.”.

Pois é Berta, até os comemos. Veremos brevemente quem tem razão. Se eu, se os especialistas do nosso burgo, que traçam a tragédia Lusa nos écrans das televisões, antes de algum drama acontecer.

Pode até ser que o nosso seja o Grupo da Morte, mas nele, o carrasco frio e insensível chama-se Portugal. Temos uma série de jogadores em franca ascensão e vamos ter um Cristiano Ronaldo no máximo da sua forma. Vamos vencer, como fizemos em Aljubarrota e o Santo Condestável chamar-se-á Ronaldo. Duvido que o Papa Francisco o beatifique, tal como duvidava do mesmo, relativamente à deputada do Livre, mas acho que a imprensa o vai glorificar.

Aliás, como aconteceu com Jesus no Flamengo, que além de ter Deus como assessor, tinha a ganha de vencer e prevalecer, por muito que os arautos da desgraça e dos oráculos o condenassem ao fracasso. Em menos de 24 horas, talvez sob a graça de um Espírito Santo, chamado torcida do Mengão, o homem ganhou, como por milagre, um milagre chamado trabalho e acreditar, a “Taça dos Libertadores” e o “Brasileirão”, para espanto dos comuns mortais.

Todos o aconselharam a não aceitar o desafio e o homem foi, como quem enfrenta o Adamastor no Cabo das Tormentas. Foi, viu e venceu, porque é essa a fibra do ser Luso. Agora bruxas e adivinhos profetizam-lhe a nova desgraça no Mundial de Clubes, conta um tal de Liverpool, veremos se, relembrando Camilo Castelo Branco, se tratará da “Queda de um Anjo” ou se estamos perante um novo Vasco da Gama nos Lusíadas do futebol mundial.

O mesmo se irá passar com um tal de Fernando Santos, que leva uma legião de 23 anjos, para enfrentar as hordas selvagens de franceses e alemães. O sabor da vitória ganha proporções de rara iguaria quando o desafio é mais difícil, mas, como eu costumo dizer, minha querida amiga Berta, o impossível apenas demora mais tempo.

Despeço-me com um beijo e saudades, este teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

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