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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Campo de Ourique vai virar aeroporto?

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Olá Berta,

Existem coisas na nossa sociedade que me confundem imenso. Não consigo entender, por exemplo, a teimosia do Governo em instalar o aeroporto na margem do Tejo, no Montijo. Têm de existir interesses que o comum dos portugueses não conhece, para se conseguir justificar que este finca-pé se mantenha. O problema é descobrir quais são.

Já alguém investigou os terrenos comprados nos últimos anos na zona? Será possível saber-se a quem pertencem? E como se tem posicionado todo o negócio imobiliário num raio de 25 quilómetros em torno do futuro aeroporto? Quem são as empresas de construção civil a investir e que tipo de projetos estão preparados para avançar? Este é um tipo de questões sobre as quais importava ter uma resposta clara, com transparência absoluta.

Quando fazer um aeroporto em Alcochete, ou mais perto ainda, em Alverca, já têm estudos realizados, custam metade dos montantes do Montijo e têm, ainda por cima, maior área de expansão futura e muito menor impacto ambiental, algo não bate certo. O que move António Costa? Efetivamente, há quem diga, e talvez não sem razão, que se trata principalmente de teimosia por parte do nosso Primeiro-Ministro. Até sou capaz de aceitar isso. Costa é um homem de ideias fixas e na devida altura alguém lhe poderá ter vendido a ideia de que o Montijo era melhor alternativa do que Alcochete ou Alverca.

Porém, e sendo apenas isso, até a teimosia de um chefe de Governo tem limites. Não me parece bem que, numa altura em que algumas das câmaras municipais da zona envolvida se mostram contra, se venha ameaçar os autarcas de possíveis mudanças na lei vigente. Coisa que não só não é um comportamento de um partido democrático, mas, menos ainda, de um partido dito socialista.

Imaginem que o Governo, e estamos a fazer especulações no domínio do absurdo, decidia terraplanar Campo de Ourique para criar um apoio à Portela. Trata-se de um terreno elevado, afinal é uma zona de planalto, fácil de nivelar, perto do aeroporto já existente e melhor que tudo, numa rota perfeita, sendo que já é a mais movimentada do atual aeroporto. Ora, para que tal acontecesse seria necessário realojar cerca de 30 mil pessoas, e aproveitar os escombros dos edifícios demolidos para criar uma excelente superfície elevada e plana.

Acharia o Governo que tal ideia seria praticável? Até podia pensar que sim, mas nunca avançaria porque, deslocar 30 mil habitantes numa zona maioritariamente socialista, onde o seu presidente de junta, que acumula funções com o cargo de deputado da Assembleia da República, recebendo um rendimento bruto superior ao do Presidente da Républica e do Primeiro-Ministro, ainda se mantém em funções, o que  poderia fazer com que o PS perdesse a presidência da Câmara de Lisboa, por falta do apoio de freguesia em causa, ficando irremediavelmente perdido o domínio socialista na autarquia.

Já nas 6 freguesias comunistas próximas do novo projeto, nomeadamente a Moita, Seixal, Sesimbra, Benavente, Palmela e Setúbal, que se opõem ao aeroporto do Montijo, para entendermos que o Governo não tem problema em ir contra a vontade de uns milhares de pessoas, vivem 211 mil pessoas. O que nos leva a pensar que a terraplanagem de Campo de Ourique não seria assim tão absurda, não fosse a existência do poderoso lóbi socialista da zona.

Como comunistas e bloquistas já anunciaram que se opõem à alteração da lei, que obriga o Estado a respeitar a vontade das autarquias envolvidas no projeto, falta saber o que fará o PSD de Rio. Manterá este partido o seu papel de oposição ou dará as mãos ao diabo que havia de vir, mas não veio? Mais uma vez, penso eu, que até gosto de pensar, tudo vai depender das tais empresas com lóbis instalados na área do Montijo. Quantas delas estão diretamente relacionadas com gente ligada aos sociais-democratas?

Em resumo, uma infraestrutura nacional da importância de um aeroporto internacional, na zona de Lisboa, está dependente dos interesses já instalados nos 25 a 50 quilómetros que envolvem a zona projetada para o aeroporto do Montijo. Se PS e PSD tiverem interesses comuns a alteração à lei passará e, ao contrário da eutanásia, não se prevê sequer a intervenção de Marcelo.

A salvo de tudo isto estará Campo de Ourique, talvez graças ao seu bem colocado e rico deputado-presidente-de-junta. Perdoem-me a graça, que só existe porque nós, os portugueses que são afetados por tudo isto, nada podemos fazer sempre que interesses mais altos se levantam, por entre lóbis e empresas que controlam o famoso arco da governação nacional.

Minha querida Berta, com estas absurdas observações me despeço por hoje, um pouco triste por constatar que ainda temos um longo caminho a percorrer na longa viagem a caminho de uma democracia transparente. Recebe um beijo deste teu amigo,

Gil Saraiva

 

O Novo Aeroporto do Montijo

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Cá estou eu de novo, minha querida Berta.

Espero que esta carta te encontre bem de saúde e com boa disposição. Escrevo-te para perguntar se sabes alguma coisa sobre as histórias que cercam o novo aeroporto do Montijo. É que eu só tenho apanhado coisas preocupantes, quer na imprensa, quer nas rádios e nas televisões. Sinceramente, já não sei em que acreditar. A ser verdade tudo o que se diz, António Costa avança a passos largos para o abismo. Uma obra desta envergadura, a correr mal, leva consigo muita coisa atrás, de tal forma que não sei se o Governo aguenta com a pancada.

A primeira coisa que ouvi foi acerca de um estudo profundo da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa sobre o impacto, em Portugal, da subida do nível das águas, que aponta, como primeiros pontos sensíveis em todo o território continental, as ilhas barreiras no Algarve e a zona de estuário do Tejo, onde deverá ficar localizado o aeroporto do Montijo. Entre os perigos apontados não constam apenas as possíveis inundações primárias na maré cheia, mas também a séria possibilidade de os locais ficarem submersos antes de 2050, o que, em ambas as situações, seria uma séria e grave calamidade.

Ainda na área do ambiente há um conjunto de especialistas a dizer que o estudo de impacto ambiental, e as soluções apontadas para o minimizar, não passam de meras compensações económicas, que, inevitavelmente, terão um efeito desastroso nas aves migratórias, que se servem do local como ponto de paragem, nos seus percursos sazonais, 2 vezes por ano.

Outros analistas avisam para o esgotamento funcional, do que se projetou, já para daqui a 15 anos; deixando o aeroporto, que ainda não foi construído, de dar resposta ao aumento de tráfego previsto. Para além desta trágica análise há ainda um aumento de 31 porcento de perturbação do sono e de incomodidade com o ruído, para os cerca de 100 mil residentes na área. Aumento este que somado aos problemas já existentes na zona pode tornar a vida destes habitantes num verdadeiro inferno.

Há ainda quem anuncie que o Governo parece ter desistido da criação da ligação ferroviária, entre o local e Lisboa, como no princípio aparecia anunciada, deixando em alternativa ligações rodoviárias de muito maior impacto e muitíssimo menos cómodas para os viajantes.

Também perturbador é o estudo onde se aponta, pelas caraterísticas do local, um significativo aumento de emissões de gases de efeito de estufa, derivados do tráfego aéreo projetado, cuja dissipação parece não ter solução. Aliás a Ordem dos Engenheiros lançou um documento de 26 páginas onde arrasa por completo a atual localização, alertando para um imenso conjunto de problemas, onde, para além de alguns já enunciados, se encontra a séria possibilidade de contaminação das águas do Tejo.

Pois é Berta, a situação parece próxima de um imenso caos e é bem capaz de poder vir a ser responsável por mais uns anos de instabilidade política, depois de concretizada. Ao que parece os estudos alternativos de Alcochete e Alverca, não só são mais viáveis e geram muito menos impacto, como são mais baratos, apresentam menos consequências e perigos e têm uma possibilidade de crescimento e longevidade que o Montijo não consegue apresentar.

Apesar, e para além, de todos estes factos António Costa, muito à semelhança de José Sócrates, parece estar votado a imitar a avestruz e a meter a cabeça na areia. A decisão é dada como irreversível e a coisa vai avançar quer a vaca tussa ou não. A arrogância e os ouvidos moucos já provaram, várias vezes no passado, não trazer nada de bom para os políticos que os adotam nem para as populações que são vítimas dessas teimas. No meu alegado entender caminhamos, a passos largos, para mais um desastre sério em Portugal.

Com alguma tristeza na alma me despeço. Diz-me o que pensas sobre o assunto, este teu amigo que não te esquece, um sempre saudoso beijo,

Gil Saraiva

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