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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Isabel dos Santos - Uma Saga de Família que vem do Século XVII - Parte II

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Olá Berta,

Uma vez que já te expliquei como surgiram os Van-Dunem em Africa e na América, está na altura de te passarmos à fase seguinte da nossa história em 4 atos. Esta fase, a número II, refere os antecedentes familiares de José Eduardo dos Santos. Um Van-Dunem em linha direta de um tal de Baltazar de que já te falei na carta anterior.

Contudo, já me estou a adiantar demais, nesta carta alegadamente real. Voltemos à vaca fria: os Van-Dunem prosperaram ao longo destes quase 4 séculos de história, sendo a maioria da descendência proveniente de mulheres africanas escravas, com quem Baltazar Van-Dum se cruzou.

Importa referir que a noção de racismo como algo de errado e condenável era ou praticamente inexistente ou o conceito a existir seria totalmente diferente do que é hoje. De notar que muitas tribos africanas escravizavam localmente os inimigos de outras tribos com quem lutavam e a quem venciam. Ver os brancos a fazerem o mesmo, na época, teria parecido mais natural do que nós, com uma mentalidade de século XXI, estamos dispostos a aceitar.

Muitas das escravas que tiveram filhos de Baltazar subiram nas hierarquias regionais, facto que rapidamente foi assimilado pelas cativas de então. A dada altura o que antes eram atos de dono para com os escravos tornaram-se mais voluntariosos por parte das mulheres abrangidas.

A subida na escala social, mesmo ao nível dos escravos, trás imensos benefícios. Trabalhos mais leves, menos tempo de trabalho diário, mais comida, e até chefias de grupos de escravos ou de comando de outros dentro de uma certa casa, propriedade ou localidade.

Há registos históricos dos Van-Dunem que apontam para cerca de 18 gerações, nestes 375 anos, desde Baltazar até aos nossos dias. Digo apontam, minha amiga, porque a escravatura na África portuguesa se manteve até quase ao raiar do século XX e os registos não são assim tão precisos que permitam uma exatidão infalível. Contudo, os privilégios dos sucessores de Baltazar, deram frutos e um número significativo desses servos viram a liberdade muito antes da restante maioria.

A sua muita descendência ganhou reputação ao longo da história. Desde muito cedo encontramos mercenários, assassinos, ladrões e prostitutas, entre os Vam-Dunem, mas, também, comerciantes, traficantes de escravos, piratas, agiotas, líderes de aldeamentos e localidades, homens de negócios, muitos até com estudos avançados. As linhagens foram-se cruzando com outras famílias e uma delas, nos finais do século XIX, foi a família dos Santos.

Ora o bisavô de Isabel dos Santos, pelo lado paterno, um tal de Avelino Pereira dos Santos Van-Dunem, deu aos seus filhos e consequentemente ao avô de Isabel dos Santos apenas o apelido Van-Dunem, conforme nos mostra a Cédula Pessoal de José Eduardo dos Santos. Este avô chamar-se-ia Eduardo Avelino Van-Dudem. O qual registou os filhos a quando dos respetivos nascimentos apenas como Van-Dunem no que aos apelidos diz respeito.

Antes de avançar nesta narrativa convém saber que o pai de José Eduardo era calceteiro e pedreiro (natural de São Tomé) e a sua mãe, Jacinta José Paulino (uma descendente de guineenses e cabo-verdianos, ela própria uma cabo-verdiana que cedo imigrou para São Tomé, fugindo à fome que afetava Cabo Verde naquele tempo) era doméstica.

Neste contexto fica demonstrado que o pai de Isabel dos Santos iniciou a sua vida não como José Eduardo dos Santos, mas como José Eduardo Van-Dunem (um santomense que viveu e estudou na sua terra até à quarta classe). No entanto, até a sua certidão de nascimento apareceria, bem mais tarde, dando-o como natural de Angola, nascido em Luanda, no bairro de Sambizanga, apenas se mantendo certa a data de nascimento.

É neste ponto que a história fica confusa. Há quem defenda que em 1958, 3 anos antes de se juntar ao MPLA, apenas com 16 anos de idade, José Eduardo Van-Dunem conhece, por um acaso, o seu primo, nascido em Angola, um tal de José Manuel dos Santos Torres.

É, alegadamente, este primo que lhe transmite a história dos Van-Dunem. Uma família repleta de marginalidade e com muito crime à mistura na luta pela sua ascensão social. Fica também a saber que o seu avô, tal como o primo, tinha o nome dos Santos no seu registo de nascimento.

Não há consenso sobre quando a família conseguiu mudar de nome, apenas a certeza que isso aconteceu entre 1959 e 1975. O incrível é que, de um dia para o outro, quer os irmãos e irmãs de José Eduardo, quer os pais, quer ainda os parentes mais próximos, vêm os seus registos de nascimento todos alterados, passando, como por milagre, a deixar de carregar o apelido Van-Dunem para, no seu lugar, apenas encontrarmos o apelido dos Santos. Há quem diga que a União Soviética deu uma ajuda.

Em 1961, quando rebenta a guerra colonial, já José Eduardo era membro ferrenho do MPLA. Abandona Angola e desaparece para a União Soviética, passando a coordenar a juventude do movimento no exílio. Em 1962, apenas com 20 anos, integra o Exército Popular de Libertação de Angola (EPLA), a força armada do MPLA, não se sabe bem como, porque não lhe eram conhecidos créditos ou feitos militares dignos de relevo. Mais uma vez é atribuída grande influência aos soviéticos nesta integração, mais ainda porque, em 1963, apenas com 21 anos, foi o primeiro representante do MPLA, em Brazzaville, a Capital da República do Congo.

Por hoje, querida Berta, fico-me por aqui, espero que a história te esteja a agradar, recebe um beijo de saudade, deste teu velho amigo,

Gil Saraiva

Muro de Berlim... Ascenção e Queda...

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Olá Berta,

Ontem esqueci-me de te perguntar se sabias que, neste sábado, se celebraram os 30 anos da queda do muro de Berlim. Com toda a certeza que já tomaste conhecimento pelas notícias ontem ou pelas que, ainda hoje, continuam a ser difundidas. Porém, não importa se te estou a informar em primeira mão ou se já tinhas realmente esse conhecimento. O que importa mesmo é o significado da queda do muro, para o mundo e mais especificamente para mim, afinal, o muro foi construído 3 meses antes do meu nascimento.

Porém, quando foi derrubado eu tinha 28 anos e foi um momento verdadeiramente histórico para mim, algo que nunca pensei vir a presenciar. Já aconteceram outras coisas importantes, que ninguém esquece, antes e depois desta, mas, no meu caso, em mais nenhuma vi um filho meu nascer precisamente no mesmo dia, aquando do segundo aniversário do acontecimento. Posso dizer, com alguma certeza, que a queda do muro e o meu sucessor são da mesma geração. Porém, ele já nasceu livre e eu tinha 12 anos quando o Antigo Regime caiu em Portugal. Trinta anos passaram e hoje tem ele os 28 que eu tinha na altura.

Este é um estranho conjunto de circunstâncias que me puxa pela nostalgia, a repetição dos meus próprios ciclos combinados com os ciclos da história. Precisamente num tempo que, mais a ocidente, alguém se esforça arduamente para voltar a construir um muro.

Os ciclos repetem-se e pouco se aprende com a História. Hoje em dia, por todo o lado, regressámos a uma moda que parecia estar perto de cantar o seu dia de finados. Mas não, afinal o muro entre as 2 Coreias não caiu, nem aquele que divide a ilha de Chipre e que tem cerca de 200 quilómetros. Os puritanos diriam que nem a muralha da China desapareceu, contudo, essa agora apenas subsiste por motivos meramente históricos e turísticos.

O problema mesmo são os muros que começam a surgir um pouco por todo o lado. No Médio Oriente, onde Israel é o seu mentor, na América de Trump, e em muitos países de Leste que querem travar as migrações e os migrantes.

Quando alguém diz que há só uma Terra, nos dias que correm, isso é algo muito fantasioso. Devia haver só uma Terra e devia haver terra para todos. Só que, a diferença entre o deve e o haver é mais distante aqui do que em qualquer linguagem contabilística.

Como queremos salvar o ambiente, abandonar o consumo de combustíveis fósseis, tentar inverter a extinção em massa das espécies, agir contra o aquecimento global ou travar as alterações climáticas se continuamos egoístas, virados para os próprios umbigos, apenas preocupados com a parte sem querermos saber ou nos importarmos com o todo?

Quando olho para a localização de Portugal, no globo terrestre, tenho sempre a sensação de que estamos implantados mesmo no centro geoestratégico da Terra. Essa impressão deve-se ao facto de os países ocidentais estarem entre os mais desenvolvidos do mundo e parecerem localizar-se, quase que de propósito, à nossa volta.

Para Norte vejo a Europa que se espraia orgulhosa do seu desenvolvimento, uma superfície retalhada em países e mais países, todos sedentos do seu bocadinho de terra.

Para Este sorri-nos a Ásia, que se mistura nas fronteiras com a Europa, representada pelos grandes colossos imperialistas da China ou da Rússia, pelo Médio Oriente e Arábias.

Do lado sul, África tenta emergir e ganhar protagonismo na cena internacional, mas mantém os seus conflitos e subdesenvolvimento que são geradores das famigeradas migrações de que a Europa se queixa.

Finalmente, a Oeste, estão as Américas onde o desenvolvimento bipolar divide a América do Norte das Américas Central e do Sul, contudo, em todas, o sentimento de cowboy mantém-se tão atual como no passado, só que no Sul, esses heróis e vilões são mais conhecidos por jagunços, ou, em oposição, heróis da liberdade.

Foi este geocentrismo nacional estratégico que nos ajudou nos descobrimentos, na descoberta, no orgulho da glória dos nossos navegadores. Porém, hoje em dia, duvido que sirva para alguma coisa. Temos a importância de uma espiga no centro de um enorme campo de trigo.

O que diriam os portugueses se a vizinha Espanha viesse agora pôr em causa a nossa independência, porque nos separámos dela há séculos atrás, contra a sua vontade? Ficariam certamente revoltados, todavia, aceitamos pacificamente que eles façam presos políticos na Catalunha e que não os deixem sair do jugo de Madrid, tal como não reagimos aos gritos de independência do País Basco, porquê?

Porque não se trata do nosso umbigo. Apenas isso e nada mais. Pois é Berta, o mundo avançou tecnologicamente, as distâncias entre os povos foram encurtadas pelos aviões, os caminhos de ferro, os túneis, as autoestradas, mas a mentalidade do umbigo está outra vez mais viva, mais acesa, mais incandescente. Assim, não é possível combater seja o que for como se fossemos o todo que realmente somos.

É com esta triste conclusão que me despeço hoje, minha amiga, fica bem e recebe um saudoso beijo deste que não te esquece,

Gil Saraiva

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