Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Isabel dos Santos - Uma Saga de Família que vem do Século XVII - Parte II

Berta 86.jpg

Olá Berta,

Uma vez que já te expliquei como surgiram os Van-Dunem em Africa e na América, está na altura de te passarmos à fase seguinte da nossa história em 4 atos. Esta fase, a número II, refere os antecedentes familiares de José Eduardo dos Santos. Um Van-Dunem em linha direta de um tal de Baltazar de que já te falei na carta anterior.

Contudo, já me estou a adiantar demais, nesta carta alegadamente real. Voltemos à vaca fria: os Van-Dunem prosperaram ao longo destes quase 4 séculos de história, sendo a maioria da descendência proveniente de mulheres africanas escravas, com quem Baltazar Van-Dum se cruzou.

Importa referir que a noção de racismo como algo de errado e condenável era ou praticamente inexistente ou o conceito a existir seria totalmente diferente do que é hoje. De notar que muitas tribos africanas escravizavam localmente os inimigos de outras tribos com quem lutavam e a quem venciam. Ver os brancos a fazerem o mesmo, na época, teria parecido mais natural do que nós, com uma mentalidade de século XXI, estamos dispostos a aceitar.

Muitas das escravas que tiveram filhos de Baltazar subiram nas hierarquias regionais, facto que rapidamente foi assimilado pelas cativas de então. A dada altura o que antes eram atos de dono para com os escravos tornaram-se mais voluntariosos por parte das mulheres abrangidas.

A subida na escala social, mesmo ao nível dos escravos, trás imensos benefícios. Trabalhos mais leves, menos tempo de trabalho diário, mais comida, e até chefias de grupos de escravos ou de comando de outros dentro de uma certa casa, propriedade ou localidade.

Há registos históricos dos Van-Dunem que apontam para cerca de 18 gerações, nestes 375 anos, desde Baltazar até aos nossos dias. Digo apontam, minha amiga, porque a escravatura na África portuguesa se manteve até quase ao raiar do século XX e os registos não são assim tão precisos que permitam uma exatidão infalível. Contudo, os privilégios dos sucessores de Baltazar, deram frutos e um número significativo desses servos viram a liberdade muito antes da restante maioria.

A sua muita descendência ganhou reputação ao longo da história. Desde muito cedo encontramos mercenários, assassinos, ladrões e prostitutas, entre os Vam-Dunem, mas, também, comerciantes, traficantes de escravos, piratas, agiotas, líderes de aldeamentos e localidades, homens de negócios, muitos até com estudos avançados. As linhagens foram-se cruzando com outras famílias e uma delas, nos finais do século XIX, foi a família dos Santos.

Ora o bisavô de Isabel dos Santos, pelo lado paterno, um tal de Avelino Pereira dos Santos Van-Dunem, deu aos seus filhos e consequentemente ao avô de Isabel dos Santos apenas o apelido Van-Dunem, conforme nos mostra a Cédula Pessoal de José Eduardo dos Santos. Este avô chamar-se-ia Eduardo Avelino Van-Dudem. O qual registou os filhos a quando dos respetivos nascimentos apenas como Van-Dunem no que aos apelidos diz respeito.

Antes de avançar nesta narrativa convém saber que o pai de José Eduardo era calceteiro e pedreiro (natural de São Tomé) e a sua mãe, Jacinta José Paulino (uma descendente de guineenses e cabo-verdianos, ela própria uma cabo-verdiana que cedo imigrou para São Tomé, fugindo à fome que afetava Cabo Verde naquele tempo) era doméstica.

Neste contexto fica demonstrado que o pai de Isabel dos Santos iniciou a sua vida não como José Eduardo dos Santos, mas como José Eduardo Van-Dunem (um santomense que viveu e estudou na sua terra até à quarta classe). No entanto, até a sua certidão de nascimento apareceria, bem mais tarde, dando-o como natural de Angola, nascido em Luanda, no bairro de Sambizanga, apenas se mantendo certa a data de nascimento.

É neste ponto que a história fica confusa. Há quem defenda que em 1958, 3 anos antes de se juntar ao MPLA, apenas com 16 anos de idade, José Eduardo Van-Dunem conhece, por um acaso, o seu primo, nascido em Angola, um tal de José Manuel dos Santos Torres.

É, alegadamente, este primo que lhe transmite a história dos Van-Dunem. Uma família repleta de marginalidade e com muito crime à mistura na luta pela sua ascensão social. Fica também a saber que o seu avô, tal como o primo, tinha o nome dos Santos no seu registo de nascimento.

Não há consenso sobre quando a família conseguiu mudar de nome, apenas a certeza que isso aconteceu entre 1959 e 1975. O incrível é que, de um dia para o outro, quer os irmãos e irmãs de José Eduardo, quer os pais, quer ainda os parentes mais próximos, vêm os seus registos de nascimento todos alterados, passando, como por milagre, a deixar de carregar o apelido Van-Dunem para, no seu lugar, apenas encontrarmos o apelido dos Santos. Há quem diga que a União Soviética deu uma ajuda.

Em 1961, quando rebenta a guerra colonial, já José Eduardo era membro ferrenho do MPLA. Abandona Angola e desaparece para a União Soviética, passando a coordenar a juventude do movimento no exílio. Em 1962, apenas com 20 anos, integra o Exército Popular de Libertação de Angola (EPLA), a força armada do MPLA, não se sabe bem como, porque não lhe eram conhecidos créditos ou feitos militares dignos de relevo. Mais uma vez é atribuída grande influência aos soviéticos nesta integração, mais ainda porque, em 1963, apenas com 21 anos, foi o primeiro representante do MPLA, em Brazzaville, a Capital da República do Congo.

Por hoje, querida Berta, fico-me por aqui, espero que a história te esteja a agradar, recebe um beijo de saudade, deste teu velho amigo,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Natal dos Hospitais

Natal dos Hospitais.jpg

Olá Berta,

Espero que esta véspera natalícia em que te escrevo esteja a passar, por esses lados, de acordo com os teus desejos e votos. Eu por cá mantenho a tradição. Uma ceia à maneira, muita televisão esta noite e é provável que vá à Missa do Galo.

Como sabes não sou praticante de religião alguma, mas, contudo, fui criado no seio de uma família católica bem tradicional e, este ato religioso noturno, traz-me sempre à memória a minha mãe. O fervor com que ela, nessa missa, pedia proteção para os seus durante todo o ano que se adivinhava, é algo que jamais vou esquecer. Ora, não me perguntes porquê, mas quando repito a minha presença nessa cerimónia, sinto-a perto, muito perto, com aquela convicção inabalável de que Deus velaria pelos seus, conforme pedido expresso.

Acontece-me o mesmo quando assisto, pela RTP ao Natal dos Hospitais. A primeira transmissão do programa mais antigo da RTP começou em 1958, ainda eu não era sonhado pelos meus progenitores, porém, segundo o que a minha mãe me contava uma dezena de anos mais tarde (no ano em que entrei para a escola primária 2 meses antes), desde que nasci assisti a todos os programas do Natal dos Hospitais, tivesse eu consciência disso ou não. Ou seja, já vejo esta transmissão há 58 anos. Uma barbaridade de tempo.

Nunca falhei um, embora, nos últimos anos, tenha optado por ver através das gravações automáticas da box da Meo, porque isso me permite só assistir ao que me interessa e nada mais.

Mas assisto com o mesmo sentido místico com que vou à Missa do Galo: o sentimento de proximidade que tenho com os meus pais, que já partiram faz longos anos. Durante a transmissão é como se ambos estivessem ali, o meu pai deitado no sofá maior da casa, com um cálice de vinho do Porto por perto, e a minha mãe, logo ao seu lado, sentada, de lágrima no canto do olho, sempre que alguma ternura lhe chegava do televisor.

São os meus pequenos momentos de romântico e saudosista. Eu, que nem me entendia muito bem com ambos os meus progenitores, recordo-os, nestes dias, com um carinho e um amor que não me lembro de sentir enquanto viveram. Achas isto normal? Ou será coisa de poeta de cabeça enfiada no baú dos sentimentos e das essências? Enfim, nem me importa o que seja, apenas que valorizo, com um imenso prazer, o profundo significado que estas recordações têm para mim.

Lembrei-me do Natal dos Hospitais, que foi transmitido há dias atrás, precisamente por me fazer o mesmo efeito que a Missa do Galo. São os 2 grandes acontecimentos que me trazem uma estranha nostalgia da família reunida e feliz.

Em resumo, hoje, à meia-noite, lá vou eu mais uma vez à Missa. Estou a sorrir, minha querida amiga, porque afinal vou rever mais uma vez toda a família. Não sei o que o Natal faz com as outras pessoas, mas, para mim, tem estes 2 pequenos momentos de conforto, de bem-estar e de felicidade genuína. É isso que importa. Por momentos revejo pais, irmãos, primos, tios, gente que já não está presente nas margens do meu quotidiano e, por breves instantes, convivemos todos, harmoniosamente, em família, a alegria de uns sorrisos ou de uma troca de olhares.

Viva o Natal dos Hospitais. Viva a Missa do Galo. Desta vez, tu, que só por uma vez me acompanhaste numa destas missas, também lá estarás a rir-te da minha cara embevecida com as memórias de uma coisa a que não posso chamar outro nome que não amor.

Despeço-me saudoso com um beijo, este teu amigo de sempre, com votos de festas felizes,

Gil Saraiva

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

Em destaque no SAPO Blogs
pub