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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: As Pandemias Que Assustam a Covid

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Olá Berta,

Para haver moralidade todos devem comer pela mesma medida. A desculpa dada pelo Governo de Portugal (e de tantos outros no mundo inteiro), agora e no passado, para taxar os fumadores prende-se com questões ligadas à ética e à saúde pública e, ainda ao custo que um fumador provoca ao Estado, quando contrai doenças provocadas pelo seu vício nefasto, que afeta o próprio e quem o rodeia.

É com base nestes pressupostos que o fumador, em primeiro lugar, e outros frequentadores de espaços onde se vendem cigarros e outros produtos produzidos pelas tabaqueiras, em segundo lugar, são obrigados a visualizar as horríveis imagens explicitas dos ditos malefícios, de muito mau gosto e discutíveis, colocadas obrigatoriamente nas embalagens destes produtos.

A mesma base serve de argumento quer para o elevado peso dos impostos nestes produtos, quer para não permitir a publicidade expressa dos mesmos na televisão, rádio, imprensa, ou em qualquer outro meio de divulgação e anúncio da variedade e qualidade da oferta, que se encontra acessível ao consumidor. Não são permitidos, por isso mesmo “mupis”, outdoors e até publicidade digital. Tudo parece vedado a esta indústria pelo manifesto flagelo que a mesma constitui para a saúde pública. Ora, eu, mesmo sendo um fumador acho muito bem este combate.

Porém, quando digo que acho bem, também me considero no direito de exigir equidade de tratamento para todos os outros produtos que, de um modo comprovado e cientificamente conferido, causam idênticos prejuízos aos indivíduos e a sociedade no seu todo. Como dizia no início desta carta, minha querida amiga Berta, para haver moralidade todos devem comer pela mesma medida.

Ora esta norma, se aplicada, porque a justiça do seu princípio me parece inquestionável, devia proibir os apoios que são dados aos viciados em drogas (porque estas, ainda por cima, estão ilegalizadas e são penalizadas a vários níveis, pelo próprio sistema judicial) fornecendo-lhes gratuitamente seringas, salas de chuto e sucedâneos, como é o caso da metadona, ou tratamentos de combate ao vício suportados pelo Estado, o que obriga a despesas que saem diretamente do bolso do contribuinte.

Pelo mesmo princípio, todos os produtos ligados ao consumo do álcool deviam estar equiparados (e aqui com severas e idênticas penalizações e impostos) aos do tabaco. Com proibição de publicidade a qualquer nível, não devendo sequer ser permitido, como não é para o tabaco, o patrocínio destes produtos a eventos de massa e muito menos ainda a acontecimentos de natureza desportiva. Recordo-te, amiga Berta, que o número de mortos e de problemas e custos para a saúde pública ligados ao álcool supera atualmente os provocados pelos derivados do tabaco.

No caso do álcool acho pornográfico que se permita que a Sagres patrocine e publicite eventos, equipas e seleções desportivas, como é o caso da Seleção Nacional de Futebol. O mesmo processo deveria acontecer com a “Super Bock” e as outras cervejas. Aliás, nem devia ser permitido que as bebidas com álcool pudessem fazer publicidade, fosse em que meio fosse. Isto inclui a cerveja, todos os vinhos e as chamadas bebidas brancas ou destiladas.

Não é difícil de entender que só pela influência no espaço governativo dos lóbis ligados ao consumo de álcool se impede o Governo de obrigar à postagem de imagens alusivas aos malefícios do álcool em todas as garrafas colocadas à disposição da população. Sim, sim! Estes produtos matam anualmente em Portugal mais gente do que os ligados ao tabaco e provocam um peso gigante no campo da saúde pública, para já não falar nas causas indiretas como é o caso da sinistralidade na estrada.

Recordo que há já mais de uma década que os números de óbitos ocorridos, em Portugal, provocados pelos produtos derivados pelo tabaco ultrapassa anualmente os dos falecidos por Covid-19 desde o início da pandemia até hoje e que os mortos com origem no álcool são ainda superiores a este número.

Há, contudo, e embora sem reconhecimento oficial, um mal muito maior do que os quatro anteriormente apresentados. Um mal tão grave que é capaz de gerar, com facilidade, violência doméstica. Falência de famílias inteiras, miséria em agregados familiares já por si à beira da miséria, roubos, assaltos, descalabros sociais e económicos inacreditáveis no seio da classe média, depressões, suicídios, homicídios, disrupções sociais de toda a ordem e criar uma sociedade alienada com um perfil descrito pela ciência como ludopatia (um comportamento aditivo, uma doença grave do foro psicológico, que consiste em jogar e apostar sucessiva e descontroladamente até, se preciso for, em casos mais graves, à destruição integral do ludopata e, muitas vezes, de todo o seu agregado familiar).

A publicidade televisiva de jogos e casinos online devia estar interdita há já muito tempo. Não deveria inclusivamente ser permitida em lugar algum, nem mesmo nas redes sociais. É um crime (sobre o qual falta legislar severamente) incitar ao jogo. Mas a situação devia ser reprimida e interditada a quem não fizesse prova de poder jogar sem prejuízo claro da sua vida privada, familiar, pessoal e social.

Os casinos, os jogos da Santa Casa, os sites de apostas desportivas ou outras e, inclusivamente a famigerada raspadinha, são exemplos vivos e presentes de como se pode espoliar o povo, com o seu próprio consentimento, por o mesmo não se aperceber que é vítima de um processo criado de maneira a enganá-lo e estudado precisamente com esse fim absurdo e que tanto mal causa. A raspadinha, diz a ciência, é já um vício grave a nível nacional, em Portugal.

Dizem os cientistas que se nada for feito pode vir a gerar danos irreparáveis em mais de 50% da sociedade portuguesa. Estamos a caminhar para uma sociedade de viciados, que se julgam livres, e que (já existem registos do fenómeno no país) levam a que muita gente retire dinheiro à verba mínima que precisa para se alimentar (a si e aos seus) para poder raspar mais umas viciantes amostras de papel enganador.

Desculpa o desabafo, minha querida Berta, mas a hipocrisia dos mandantes, este tapar de olhos deliberado e motivado por lóbis ocultos, mete-me nojo de tal maneira que, às vezes, não consigo guardá-lo só para mim. Por hoje é tudo, despede-se este teu amigo saudoso,

Gil Saraiva

 

 

 

O Tabaco e o Álcool

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Olá Berta,

Esta carta é mais um dos meus desabafos contigo. Estava a ler as outras que te enviei (sim, eu guardo uma cópia) e reparei em algo que escrevi, mas ao qual, nessa altura não dei relevância. Foi aproposito de o álcool matar mais gente em Portugal do que o tabaco, lembras-te?

Quando fiz a afirmação, nessa carta, foi porque me recordei de uma notícia de 2018 que tinha lido num qualquer jornal nacional. Para o caso não importa qual. O que é interessante é que depois de pensar no assunto achei que me devia ter enganado redondamente.

“Porquê?” Perguntas tu. Bem, porque se assim fosse certamente o Governo, que é tão moralista no que ao fumo diz respeito, tão preocupado com a saúde pública, tão pronto a encher de impostos, de imagens horríveis, de proibições de locais onde se pode e não pode fumar, de imposições de frases nos próprios produtos de consumo… certamente o Governo, dizia eu, já estaria a fazer o mesmo com o álcool, fosse este cerveja, vinho, bebidas espirituosas ou brancas, fosse lá o que fosse.

Ora, não é caso. Pois bem, se o Estado não ataca quem bebe da mesma maneira que o faz com quem fuma então, a notícia do jornal estava errada ou tinha uma gafe monumental e eu enganei-te sem o querer fazer. Não gosto de te dar falsas informações quando tu és a minha única confidente. Uma coisa é falar alegadamente de um certo assunto, outra é mentir mesmo com desconhecimento do ato. Devia ter ido verificar se o que estava a afirmar era confirmado por outras fontes. Mas não o fiz. Pronto a emendar o meu erro nesta carta, lá fui eu verificar o tema através da web, percorrendo todos os sites oficiais que consegui encontrar, bem como as notícias que durante os últimos 2 anos saíram sobre o assunto.

Para meu enorme espanto, não só a notícia é verdadeira como o álcool cada vez mata mais gente do que o tabaco. Pelo que averiguei foi em 2015 que o álcool apanhou o tabaco no número de vidas que ceifa alegadamente por ano. Contudo, qual campeão, cada vez se distancia mais do outro vício. No ano passado já matava mais 4 pessoas por dia do que tabaco e, este ano, parece disposto a ultrapassar as 5 pessoas. Isto quer dizer que, se o tabaco mata quase 33 pessoas por dia em Portugal (32,9 para ser exato), o álcool deverá atingir no final deste ano as 38 vítimas diárias, chegando quase aos 14.000 óbitos anuais por terras lusas.

Face a estes espantosos e chocantes números, que, se somados e extrapolados para 10 anos, nos reduzem a população do país em 2,6 por cento a cada década que passa (260.000 pessoas), que a manterem-se assim, abateram 26 porcento dos portugueses em apenas um século (2,5 milhões de indivíduos), considero imperativa a tomada de medidas por parte do Estado.

Já estou a imaginar as garrafas de Vinho do Porto cheias de rótulos a dizer “Beber Mata!”, imagens de acidentes de automóveis cheias de peças retorcidas e pedaços de corpos, misturados com estas numa só imagem, namoradas e esposas pontapeadas pelos maridos ébrios em retratos de horror, tudo, a bem da saúde pública, escarrapachados nos rótulos das bebidas com álcool. Seja uma mini da Sagres, que logicamente deixará de poder fazer publicidade e terá de retirar o patrocínio à seleção nacional de futebol, seja no vinho, tinto, branco, às bolinhas ou lá o que for.

Uma vez iniciada a campanha vou poder ver o vinho a subir 10 cêntimos a cada 3 meses, as bebidas brancas e espirituosas na ordem dos 50 cêntimos, a cerveja, quiçá, uns 2 cêntimos por trimestre. Os rótulos das garrafas, mostrarão fígados quase liquefeitos sob o efeito do álcool, corpos com mais manchas que as vacas malhadas da Suécia, bêbados a dormir à sombra dos Jerónimos ou debaixo da Ponte 25 de Abril. Ficarão famosas as frases inscritas em milhares, talvez milhões de garrafas: “O álcool causa impotência depois de lhe ter aberto o apetite”, “85% das violações ocorrem sobre o efeito do álcool”, “o álcool potencia a violência doméstica e os maus tratos incutidos aos animais”, “o álcool pode gerar violência gratuitamente de forma inesperada”, “é proibido beber em restaurantes, bares e recintos fechados”, “não é permitido o consumo de álcool em manifestações da Função Pública ou outras manifestações sindicais ou políticas, em concertos e festivais de música, parques de campismo e florestas”… enfim, as hipóteses são imensas, não será de espantar que apareça numa publicidade turística qualquer um anúncio do género: “beber causa perda de memória, cuidado, pode acabar por ser sodomizado e não saber”. Sim, porque vai certamente haver alguém, uma entidade qualquer, preocupada com o facto de podermos levar no cu e não nos lembrarmos disso, por termos bebido em excesso.

Sabes que mais minha querida Berta, acho que a hipocrisia devia ter um fim. O tabaco é taxado e perseguido apenas por ser uma boa maneira dos Estados ganharem com isso e fazer o cínico papel de estarem preocupados com o povo. No fundo, apenas os cifrões lhes interessam. Se eu fosse milionário punha o Estado em tribunal pela aplicação de medidas que não visam a saúde pública, mas que apenas fazem do tabaco um bode expiatório para que outras coisas sigam o seu caminho sem que ninguém repare.

Tem um resto de bom dia, deixo um beijo deste teu saudoso amigo,

Gil Saraiva

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