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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Solidariedade às Mijinhas

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Olá Berta,

Apareceu recentemente na Europa a moda da “solidariedade às mijinhas”. Um tipo de solidariedade entre países da União Europeia que me dá alguma comichão no pescoço, quase uma alergia estranha. Eu explico. No passado dia três deste mês a Alemanha enviou para Portugal uma equipa de médicos e enfermeiros alemães constituída por 26 elementos que vieram prestar auxílio a oito pacientes internados com a Covid no Hospital da Luz.

O facto não foi inédito, pois tem havido troca de pacientes e equipas médicas entre países da União Europeia, principalmente no centro da Europa, mas todos dentro de números muito, mas muito limitados. A ministra da Defesa alemã, Annegret Kramp-Karrenbauer, utilizou o Twitter para anunciar a decisão da permanência do grupo de apoio alemão por mais seis semanas, depois do acordo firmado com os ministros portugueses da Defesa, João Gomes Cravinho, e da Saúde, Marta Temido.

Lembro que os germânicos trouxeram também 40 ventiladores móveis e 10 estacionários, 150 bombas de infusão e umas quantas camas hospitalares. No entanto, ficou por esclarecer se o material acompanhará ou não o regresso da equipa militar para o país de origem, na hora do seu retorno. Entre os 26 militares alemães há 6 médicos que se dizem preparados para o combate à pandemia.

Agora é a vez da Embaixada de França, em Portugal, afirmar (a informação é de ontem) que vai enviar uma equipa médica francesa para prestar apoio no Hospital Garcia de Orta, em Almada, no âmbito da "solidariedade europeia", tendo os franceses aproveitado a ocasião para recordar que também eles foram apoiados no início da pandemia.

O comunicado da embaixada diz, inclusivamente que: "A ajuda da França, que mantém com Portugal relações estreitas e de amizade, inscreve-se no âmbito desta solidariedade europeia natural, face a um vírus que só será eficazmente derrotado por meio da cooperação e da unidade internacional", e acrescentam mais à frente que o governo luso: "aceitou a proposta de colaboração do governo francês para apoiar a sua resposta à pandemia".

Com base neste anúncio somos informados que serão enviados quatro profissionais de saúde, sendo uma médica e três enfermeiras, para poderem cuidar de, pelo menos um paciente em cuidados intensivos, já a partir do próximo dia 15 de fevereiro e por um período de 15 dias. O comunicado explica ainda que: "A França também foi objeto de iniciativas de solidariedade durante a primeira vaga do vírus na primavera passada, tendo recebido ajuda de vários vizinhos europeus que aceitaram receber doentes franceses", garantindo que a embaixada se "mantém atenta às possíveis necessidades" de Portugal.

O extenso comunicado informa igualmente que a embaixada se movimentou no sentido da "mobilização de antigos médicos e enfermeiros franceses que vivem em Portugal e que se juntaram às equipas de voluntários da Cruz Vermelha Portuguesa" quanto o que se julgava saber era que, pelo que antes fora relatado nos nossos canais de televisão, estes voluntários se tinham oferecido por iniciativa própria.

O Ministério da Saúde de Marta Temido, também já fizera constar na passada quinta-feira, que vai poder contar, já nesta próxima semana, com uma equipa médica do Luxemburgo, que poderá constituir um "importante apoio" no tratamento de doentes de covid-19 em hospitais com elevada pressão de cuidados intensivos. Esta nova unidade de auxílio será constituída por dois médicos e dois enfermeiros, devendo ser encaminhada para o serviço de medicina intensiva do Hospital do Espírito Santo de Évora, dedicando-se ao cuidado de mais um paciente.

Em resumo, até ao momento, a colaboração europeia da “solidariedade às mijinhas” já conseguiu colocar no nosso país 34 profissionais de saúde, com vista a cuidar de um total acumulado de 10 pacientes Covid, todos chegados ou a chegar depois de ultrapassado que foi o pico da terceira vaga, que assolou Portugal. Isto, numa altura em que temos 862 doentes infetados pela pandemia em cuidados intensivos, de um total de 6.070 doentes em internamento hospitalar devido à Covid, com 127.867 casos ativos, ou seja, a “solidariedade às mijinhas” da Europa veio permitir suprir, em Portugal 1,16% da assistência necessária para os cuidados intensivos, ou, se enquadrarmos a situação ao nível dos internados com Covid em ambiente hospitalar, 0,16% das necessidades nacionais. Postas as coisas desta maneira é fácil entender que a “solidariedade” da Europa tem a mesma dimensão que uma pulga nas costas de um elefante.

Imagina, querida Berta, que o nosso universo de pacientes Covid é um campo de futebol, pois bem, a ajuda internacional equivale ao ponto pintado no centro do círculo do meio campo, ou seja, sabemos que está lá, mas a sua utilidade para o jogo jogado é a mesma do tapete da entrada dos fundos, para o staff no Hotel Ritz de Lisboa. Imagina que deves ao banco 128 mil euros e que me pedes ajuda para pagares a dívida e eu, como teu grande amigo do peito, dou-te um cêntimo para te ajudar a resolver o problema e ainda fico à espera que me agradeças e que digas a todos os nossos amigos que fui muito solidário.

É o extremo ridículo da situação e a desproporção entre o nosso problema e a dimensão da ajuda prestada pela “solidariedade às mijinhas” da Comunidade Europeia, acompanhado pelo alarde que disso tem sido feito pela nossa comunicação social e também pela própria comunidade europeia, que me deixa inconformado, incomodado e irritado. Se é para nos fornecerem uma ajuda a este nível, que venha ela, nós agradecemos, mas sem passadeiras vermelhas, trompetas ou festas de gala.

É claro que toda e qualquer migalha ajuda a aumentar o tamanho do bolo, mas a migalha em si mesma não pode é querer ser considerada com se de um bolo inteiro se tratasse. Por hoje é tudo, deixo um beijo franco deste amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

 

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