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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 17) Segundos Sentidos

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Olá Berta,

O dia 9 de fevereiro chega ao fim com o aparecimento da Lua Cheia. Entramos em noite de lobisomens, de bruxas, de encantamentos, isto se levarmos em linha de conta o lado místico e mais oculto dos cultos que se dedicam ao nosso satélite natural, ou seja, à Lua. Esta é a noite perfeita para pragas, feitiços e bruxedos, poções, magias e outros medos, feitos nas montanhas, nos montes, nas grutas e rochedos, tudo coisas importantes para mágicos, profetas, alquimistas, druidas, feiticeiros, bruxas e artistas dos contos absurdos de ocultos rituais, que tentam à força dar nas vistas.

É o caso concreto do site que dispõe de “videntes”, “astrólogos”, “tarólogos”, “numeralólogos” e “positivólogos” da Wengo, nome que por coincidência rima com trengo, que nos apresenta as caraterísticas desta específica Lua Cheia em Leão, sendo que estas explicações, pelo que me foi dado a compreender, nada têm a ver com o facto de estarmos perante uma Lua de Neve, a primeira grande “Super Lua” de 2020.

A Lua de Neve ganhou o seu nome dos indígenas americanos, pela forma quase fluorescente como a neve brilha sob a sua luz.  A NASA explica que se trata de uma Lua Cheia Maior, parecendo 14 porcento mais volumosa e 30 porcento mais brilhante do que uma Lua Cheia normal por se encontrar no perigeu lunar que é o ponto em que a Lua se encontra mais próxima da Terra, ora quando nessa altura especifica isso coincide com uma Lua Cheia ficamos, obviamente perante uma “Super Lua”.

Todavia, amiga Berta, eu queria era falar do tal site da Wengo.pt, que dá consultas sobre variadíssimos temas, a preços que oscilam entre 1 e 2 euros por minuto. As consultas aparecem no separador das terapias, sendo 14 os protagonistas. Passo a citar: Paulo Horta Silva, “psicólogo clínico” e “hipnoterapeuta”; Carla Santos, “naturopata” e “coaching”; Marcia Esteves, “naturopata”; Maria Silva, “líder yoga do riso”; Ana Gomes, “conselheira de moda”; Vitor Valente, “terapeuta”; Patrícia Chagas, “socióloga” e “psicoterapeuta holística”; Maria Amaral, “terapeuta” e “conselheira espiritual”; Maria do Rosário Fonseca, “chef de cozinha”; Paula Terapias, “terapeuta” e “naturopata”; Lília Abreu, “terapeuta de riso” e “risoterapeuta”; Rowena Terapeuta, “terapeuta holística”; Alexandra Silva, “terapeuta”; Cigana Sulamita, “terapeuta floral”.

Ora, as consultas, esclarece o site, podem ser feitas por chat, por email ou por telefone e só se iniciam depois do pagamento confirmado. Não pense, porém, que só há Trengo em Portugal, digo Wengo, nada disso eles existem no Brasil, na Turquia, na Dinamarca, nos Estados Unidos, na Alemanha, no Reino Unido, em Espanha, em Itália, em França e na Suíça, só para citar os principais.

A minha principal curiosidade sobre estes ditos especialistas, que prometem segredo (eu, no lugar deles, até o jurava), não é se no meio desta fantochada não possam existir uma ou 2 pessoas, com boas intenções, e até, com alguns conhecimentos reais, nada disso. O que me deixa realmente curioso, é saber como, por exemplo, a dona Lília Abreu me ia ajudar com a sua “risoterapia” estando eu a pagar um euro e dez cêntimos por minuto de consulta. É que se a minha cura é rir, basta-me o disparate da expressão “risoterapeuta” para eu me rir por algum tempo só de imaginar os papalvos na consulta, enquanto o taxímetro debita 1,10 euro por minuto.

E quanto tempo levará a “chef de cozinha” a dar-me a receita da felicidade? É que não sei se, a 2 euros por minuto, não seria melhor eu ir jantar ao restaurante do Ritz? E não ficaria, mesmo assim, mais barato? Por outro lado, adoro a ideia do “hipnoterapeuta” me hipnotizar por email. Não sei porquê, mas acho mais fácil eu livrar-me primeiro de uma prisão de ventre do que isso acontecer. Se bem que a merda é a mesma, mas estou mais acostumado à última, vá-se lá saber porquê. Por fim, quanto à “terapeuta floral” da Cigana Sulamita, eu mesmo era capaz de lhe explicar que era pela mitra, palavra educada para cu de galinha, que eu lhe metia as flores, se ela me tentasse tratar com um cheirinho de alfazema.

O mais espantoso disto tudo, nem é o disparate das terapias, mas a cobrança ao minuto, qual taxímetro frenético a dar com os “pseudo-pacientes” em “provável-depenados” no final de uma consulta. Muito mais fica por dizer, deste site que descobri por causa da Lua de Neve, mas acho que descrevi, suficientemente, a alegada fraude a que tudo isto cheira. Aliás nem vi, em lado nenhum, como são feitos os descontos se, por exemplo, um destes terapeutas resolve espirrar ou começar a tossir ou se lhe der uma caganeira a meio da consulta, fazendo a chamada cair, por força do perfume e da temática em causa. Devo confessar que, a dada altura, esperei poder encontrar uma “naturoputa” no meio de tanto especialista, pelo menos desta eu sabia perfeitamente o que esperar como remédio ou cura.

Passemos, mas é, para o teu desafio das quadras populares sujeitas a mote. Hoje, sob a égide dos Segundos Sentidos, passamos à que eu construi para ultrapassar o tema.

Série: Quadras Populares Sujeitas a Tema - 17) Segundos Sentidos.

 

Segundos Sentidos

 

Mezinha, não é remédio,

Omitir, não é mentir,

Cortejar, não é assédio

Nem ir p’ra cama, é dormir.

 

Gil Saraiva

 

Enfim, todos no mundo têm direito a ganhar a vida, eu, por exemplo, poderia ganhá-la como “carto-terapeuta”, e como levo, pelo menos, um bom par de horas em cada carta, sempre ganhava 240 euros por carta o que era um progresso imenso na minha vida. Recebe um beijo, despeço-me saudosamente, este teu amigo de todos os dias,

Gil Saraiva

 

 

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