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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

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Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - VIII - O Vocabulário e os Porquês: Contornos Primários

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Olá Berta,

Gostei de saber que achaste graça à expressão de que “os olhos também bebem” da minha última carta. Como sabes todos os nichos sociais têm termos e uma linguagem própria que os carateriza. O mesmo acontece nos universos da uva e do vinho, aliás, em toda a cultura do setor. Não é, portanto, motivo de espanto que me vejas dedicar alguns capítulos de “Os Segredos de Baco” a essa temática, começando já neste oitavo capítulo.

Contudo, é certamente algo que nunca deves ter lido em nenhuma outra publicação ligada ao mundo do vinho e se te questionares sobre os porquês eu respondo-te de forma simples e sem grandes revelações. Quando estamos perante uma coisa rotineira e evidente raramente nos passa pela cabeça sistematizá-la ou até mesmo escrever seja o que for sobre ela.

Como exemplo, quando se fala de futebol ninguém pensa em discutir ou apresentar as razões da forma da bola do jogo ser redonda, esférica, e não ter uma outra forma qualquer. Trata-se de um dado assumido que não carece de muito mais explicação. Mas se isto é verídico para uma situação desta simplicidade a situação é ligeiramente mais complexa no que ao vinho diz respeito. Os termos usados no mundo vitivinícola podiam muito bem ser todos de caráter técnico ou profissional, porém, visam também transmitir prazer.

Aliás, num setor que envolve problemas no que concerne ao setor da saúde, devido a quem faz um uso excessivo da ingestão de vinho e de outras bebidas com diferentes teores alcoólicos ou até de quem, devido ao seu quadro clínico não devia beber de todo, importa ser proativo na demonstração da confiança, tradição e qualidade do produto.

Não nos podemos esquecer que morrem, só em Portugal, 13 mil e 500 pessoas, por ano, devido a este hábito de se beber, por conjugação com os problemas de saúde dos indivíduos e pelos excessos fáceis de atingir, muitas vezes causados pelo desejo de uma euforia de momento, ou até, por problemas de viciação.

Não sendo o vinho o único responsável isolado deste problema, para além dos problemas individuais de cada um, no que respeita à sua tolerância ao álcool, há ainda a ter em conta que o setor é acompanhado pelo das cervejas e o das bebidas destiladas, que têm iguais responsabilidades.

Porém, quando se analisa toda esta problemática, que pode exigir controlo ou abstinência, os produtores do vinho e toda a industria em seu redor, têm a preocupação acrescida não apenas de transmitir a confiança, a qualidade e a tradição do setor, mas envolver cada consumidor numa comunidade unida em torno da apreciação e apreço por uma cultura dos vinhos associada ao prazer e ao  prestígio, ao sucesso e à degustação refinada, envolta em valores de classe e de charme, que as marcas tentam passar e promover.

É no seio desta realidade, que se tenta desenvolver a política do bem-estar, induzindo todos os envolvidos num universo subtil, quase divino, que o vocabulário e a terminologia ganham relevo, forma e importância. Continuando pelo caso português, que não difere muito daquilo que se passa nos outros países produtores, importa explicar certos porquês no que concerne à envolvente linguagem do vinho.

III) O Vocabulário da Terminologia usada nos Vinhos Nacionais e alguns Porquês…

A) Os Contornos do Prazer associado ao Conforto e ao Bem-Estar.

Secção I): Contornos Primários: Pensamento, Ideia, Antecedentes, Prazer, Conforto e Bem-Estar.

1) O Pensamento Comum:

Há quem pense que as coisas acontecem por acaso, que são fruto de coincidências normais e aparentemente sem uma intensão nas ações, sem uma finalidade pré-definida à partida. Ainda existem aqueles que consideram que certos fenómenos são gerados pelas necessidades do marketing. Realmente pode ser verdade. Admito que as coisas se possam passar de uma ou de outra maneira. em qualquer parte do mundo aliás.

2) A Ideia Diferente:

Mas, ao olhar para todo o universo que rodeia o vinho, acho que existe uma lógica e sou levado a pensar de forma diversa. Não faz sentido no atual contexto, abordar o fenómeno em termos globais, pelo que, neste trabalho, apenas me vou debruçar sobre o caso português embora possa usar, aqui ou ali, uma imagem que fuja dos contornos nacionais.

3) Os Antecedentes:

Para não ir mais longe, e focando-me apenas na civilização ocidental, podemos reparar que desde a antiguidade grega e romana o vinho tem um papel central na vida das pessoas. Os antigos até tinham um deus para o álcool, Baco para os gregos ou Dionísio no caso dos romanos. Ele era o deus do vinho, mas também da ebriedade e dos excessos, especialmente os sexuais sendo igualmente o deus da natureza, aquela que não inclui mão humana.

a) O Prazer, o Conforto e o Bem-Estar:

É de notar que as festas organizadas em honra de Baco eram denominadas bacanais, com tudo o que isso implica de excessos quer no vinho quer nos prazeres remanescentes. Celebrar o deus implicava a existência de prazer, de vivencias sensoriais, era um apelo à natureza e à terra, à religião, à aventura e ao mistério, na senda de sentimentos plenos de conforto e de bem-estar.

b) Influências e Marcas:

Estas celebrações religiosas, porque dedicadas a um deus, a que me referi no ponto anterior, eram organizadas por quem tinha nome, família e propriedade, por quem era, logicamente dono e senhor de um ou vários locais, e, sem exceção, eram regadas com vinho, muito vinho. Coisas que influenciaram toda uma civilização, atravessando, com o correr dos tempos, todos os estratos sociais. principalmente a nobreza e realeza europeias muito ligadas aos fenómenos da antiguidade. Foram elas que, aos poucos, marcaram assim, de forma evidente, tradições geradas nesse passado que transmitia ao vinho um simbolismo de protagonismo e poder.

Deixo a segunda secção para a carta de amanhã. Por hoje despeço-me grato por ter tão paciente leitora, recebe um beijo de despedida deste teu amigo, com um curto adeus e um até às próximas linhas.

Gil Saraiva

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