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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Porque É Tão Difícil Confinar Agora?

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Olá Berta,

2.103.000 era, há 15 minutos atrás, o número de óbitos, por Covid, registados oficialmente no mundo. Dois milhões cento e três mil, este é o número de mortos oficiais por Covid, o que é muita gente e isto num universo em que, talvez já no próximo domingo, o globo atingirá os cem milhões de infetados. Então, perguntarás tu, minha querida Berta, porque é que não andamos todos em pânico?

Porque nos adaptamos, esta é a verdadeira resposta. O nosso cérebro tem a maravilhosa capacidade de se adaptar a todas as circunstâncias para conseguir sobreviver. Quando a notícia que aparece repentinamente, tem mostras de tragédia e é chocante, nós reagimos de imediato. Temos medo, pavor, pânico e insegurança nos instantes seguintes, todavia, a repetição continuada no tempo, de forma cíclica, de um mesmo tipo de desastre faz disparar os nossos mecanismos de defesa. Passamos a assimilar essas notícias como parte da rotina e o susto inicial é substituído por uma espécie de enfado triste até que um dia, sem sabermos porquê, passamos a achar normal tudo o que anteriormente nos horrorizou.

Não admira, portanto, embora a pandemia esteja bem mais grave agora do que no início, que a coisa nos pareça mais normal, menos preocupante, o que justifica que não entremos em pânico com a facilidade anterior.

Não passámos a ser mais insensíveis, nada disso, nós entrámos, isso sim, em modo de defesa cognitiva. Como consequência disso temos todos a tendência de sermos impelidos a voltar às velhas rotinas da pré pandemia, como se esta fosse algo que, embora existindo e sendo uma realidade, não nos diz diretamente respeito.

Aqui ou ali, um detalhe, um acontecimento sobre o tema, ou uma qualquer relação de proximidade, pode fazer regressar o medo, o pavor ou o pânico, contudo, tem de ser por um motivo específico, porque a generalidade do assunto se tornou corriqueira e banal.

Essa é a razão que explica porque fomos tão ordeiros e obedientes no primeiro confinamento de março do ano passado e porque procuramos, com a mesma naturalidade, as exceções ao isolamento desta vez.

Apesar disso ser naturalmente assim, há coisas que não aceitamos. Por exemplo, porque não perdemos a capacidade de pensar, é-nos difícil aceitar que as eleições de domingo para a Presidência da República não tenham sido atempadamente adiadas. Aliás, foi com sentimento de revolta que já reagimos à votação antecipada, marcada por filas e esperas sem sentido, do passado domingo.

Psicólogos, psiquiatras, analistas especializados, cientistas do comportamento, médicos, terapeutas e mais uma gigantesca parafernália de entendidos sabem bem o que nos acontece e porque agimos da forma como agimos e porque acabamos por nos comportar como nos comportamos.

Se os grandes senhores das gigantes tecnológicas usam os estudos do comportamento humano para nos fazerem consumir quase que por instinto, porque raio não há de o Estado usar os mesmos mecanismos para nos explicar o que estamos a fazer intuitivamente de errado?

A pergunta fica no ar, minha querida Berta, por hoje despede-se saudoso este teu amigo do coração, recebe um beijo de despedida deste que não te esquece,

Gil Saraiva

 

 

 

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