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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Parada's Garden: The Return Of The Yodas Concil - Part III /III

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Olá Berta,

Não quero terminar esta história sem referir, mais concretamente, as 46 senhoras séniores, que contabilizei sentadas, pelo Jardim da Parada, nos bancos proibidos fitados de vermelho e branco, à tarde, na passada terça-feira. Foram elas que me levaram a escrever a terceira parte da carta de hoje intitulada de:

“Parada’s Garden – The Return Of The Yodas  Council – Part III/III”

Tenho todo o respeito pelos cabelos brancos, grisalhos ou pintados de tons de louro ou de escuro, das matriarcas soberanas e séniores do meu bairro. Mas 46 é um número imenso e preocupante num jardim que ocupa a área de apenas um quarteirão. Igualmente de consideração são as árvores centenárias que lhes fornecem a sombra, tão desejada, em dias de Sol. O jardim tem muitas destas também. Algumas delas etiquetadas com os seus altivos nomes em latim, numa demonstração humana da estima que nos merecem.

Com efeito, ao contrário dos cavalheiros, estas damas anciãs, não se reúnem nas mesas do jardim, prontas para um desafio de sueca disputado a 4. Elas preferem matar saudades, com ajuntamentos de 2, 3, 4 ou 5 elementos do seu sexo só as vejo sozinhas ou em grupos maiores do que 5 pessoas quando estão, respetivamente, sentadas a falar para o telemóvel ou quando se encontram, em trajetos curtos, de pé, entre passeios, e um grupo se cruza com um outro grupo conhecido.

Contam as novidades do confinamento e do desconfinamento, falam das saudades de filhos e netos, conversam sobre os acontecimentos da vizinhança, relembram tempos antes da viuvez, ou discutem, como ouvi esta terça-feira, amiga Berta, a forma como puxariam as orelhas ao André Ventura se o dito fosse filho delas.  Aliás, ao contrário do que a minha mente, talvez ainda portadora de algum preconceito inconsciente, conferenciam sobre política e atualidade com perfeita noção de quem tem opinião definida e sabe perfeitamente o que diz.

São as Yodas sagradas no feminino, em toda a sua força e sabedoria. Ao contrário dos homens, não realizam concílios numerosos, dividem-no em partes, de forma a evitar que os temas dispersem e tenham que esperar demasiado tempo para ser de novo a sua vez de voltar a falar. O instinto feminino faz delas, muitas vezes, vozes mais sábias, mais ponderadas e lucidas do que as que normalmente constatamos nos machos séniores. Outra caraterística evidente é a capacidade que têm de lidar com o infortúnio, a desgraça ou a doença muito superior à masculina.

Só que, estas sagradas damas têm necessidade de trocar ideias, de se encontrarem, de manterem os círculos de amizade formados, muitos deles, num passado já remoto e, por isso mesmo, descuram alguns detalhes. Pormenores   de importância muito relevante nos dias que correm, seja a falta da máscara, perdida nos labirintos das suas carteiras, seja o distanciamento social ainda exigido pelo Estado de Calamidade, seja lá o que for, apenas porque o instinto de partilha falou mais alto.

É para evitar essas falhas que uma atenção redobrada da Junta de Freguesia e das Forças da Ordem teria, no Jardim da Parada, que aqui apenas é exemplo de tantas outras Paradas, uma importância determinante. Não era preciso muito, estou convencido que um pequeno alerta aqui ou ali, seriam suficientes para colocar tudo dentro dos parâmetros desejados e requeridos pela presente pandemia.

Com estas observações, minha querida amiga, termino a rúbrica do “Jardim da Parada – O Regresso do Concílio dos Yodas – Parte III/III”. Tenho uma grande e boa amiga de 92 anos, que se encontra institucionalizada num lar privado na Parede, que diz, depois de ter conseguido escapar a um Lar da Santa Casa, que em ambos, por estes tempos, se sente uma prisioneira obrigatoriamente confinada, mas que afirma que, neste último, o confinamento (e pagava o mesmo pelo outro) tem um terço dos utentes para o mesmo espaço e o respeito dos tratadores que a vêm como um ser e não como uma fonte de rendimento por força da sua boa reforma. O problema dos lares da Misericórdia ou da Santa Casa são a falta de nível do seu pessoal e o aquartelamento dos utentes como se fossem carne à espera da hora de partirem para o matadouro.

Porém, Berta, isso poderá ser tema para um dia, noutra carta, que não nesta. Recebe um beijo deste teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

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