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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Os Azares de um Homem de Sorte - Parte I

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Olá Berta,

Hoje é o dia de te contar as desventuras do meu regresso a casa. Uma saga inacreditável que demonstra bem os azares de um homem de sorte. A viagem em si decorreu muito bem e estava em casa três horas e meia depois de ter apanhado o comboio na Fuzeta. Contudo, ao subir os últimos dois lances de escada que me conduziam ao meu terceiro andar, fui sendo invadido por um cheiro desagradável que aumentava a cada degrau subido.

Abri a porta do apartamento e fui envolvido por um terrível odor a mortos que me deixou confuso porque a casa deveria estar vazia. Carreguei no interruptor para abrir a luz do corredor e nada aconteceu. Por instinto, abri a portinhola do quadro da luz e o disjuntor geral estava desligado. Foi nesse momento que me lembrei de imediato da arca congeladora. Corri até à cozinha e horror dos horrores o cheiro a carne e peixe podre que vinha da arca era tal que a vontade de vomitar se tornou instintiva.

Abri a janela da marquise, que dá para a cozinha, para deixar entrar o ar fresco. Atravessei de novo o corredor, que liga a frente e as traseiras do piso, e abri todas as janelas da casa. Precisava dos aromas da rua com urgência. Finalmente, ganhei coragem e abri a arca de quatro gavetas, que deveria estar carregada de peixe e carne. O fedor inacreditável fez-me vomitar pela segunda vez.

Enchi 5 sacos com quatrocentos euros de carne e peixe podre e fui colocar tudo no caixote do lixo do edifício, que tive de meter na rua para não empestar o prédio. De regresso ao último andar, perfumei a minha máscara de Covid e fui fazer as limpezas da arca, frigorifico e chão, cheio de um líquido bordeaux com fragrâncias vindas diretamente de um qualquer cemitério milenar.

Levei três horas e meia a higienizar tudo, incluindo o balde e a esfregona no final da festa. Os panos que usei, mais os rolos de papel de cozinha com os vestígios da podridão, encheram 3 sacos, que seguiram caminho imediato para o caixote fora do prédio.

Por sorte tinha bicarbonato de sódio e vinagre em casa que coloquei a absorver o fedor que, no termo das limpezas, ainda se fazia sentir. Acendi vários incensos enquanto tratava da higienização e finalmente senti-me num ambiente mais respirável.

Por hoje fico-me por aqui. Não faria muito sentido dizer-te que, depois desta primeira parte da saga, os «Azares de um Homem de Sorte» não tinham acabado, mas é a verdade. Amanhã conto-te a segunda metade destas desventuras amargas. Recebe um beijo de despedida deste teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

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