Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: O Sujo Negócio Europeu das Peles de Animais

Berta 225.jpg

Olá Berta,

A notícia de que te falo hoje já tem alguns dias. Não a abordei antes porque quis saber um pouco mais sobre o assunto e fazer alguma investigação antes de me pôr a opinar. Como resultado, acabei horrorizado. A minha carta, cara amiga, não é uma abordagem exaustiva sobre o problema da manutenção do negócio de peles de animais no seio da União Europeia, sejam elas de animais domésticos ou selvagens. É, apenas e somente, um olhar espantado sobre o assunto:

O Sujo Negócio Europeu das Peles de Animais

A minha atenção foi canalizada para a temática das peles dos animais selvagens no passado dia 20 de maio. Nessa altura uma notícia de rodapé na imprensa escrita dava a informação de que na Holanda tinha sido detetado um vison com Covid-19. Depois disso, uns dias mais tarde, já se informava o público de que, 2 martas, também na Holanda, tinham acusado positivo e que o Governo decidira mandar abater cerca de 10 mil martas numa vasta área de fazendas de criação destes animais no Sul do território holandês. Conforme algumas das notícias avançavam isso faria cair, com significado, a produção de peles de marta nos Países Baixos, prejudicando cerca de 160 fazendeiros e respetivas unidades de produção industrial.

Ora eu, um ignorante inocente da periferia da Europa, nem sequer fazia ideia que, nos nossos dias, no seio da União Europeia, ainda existiam quintas ou fazendas de animais selvagens para a produção de peles. Aliás, tirando suínos, bovinos, ovinos e caprinos, também utilizados na alimentação, desconhecia o uso europeu de quaisquer outros animais, por interesse de comercialização da sua pele. Já estou como Sócrates na Antiguidade Clássica: Quanto mais sei, mais sei que nada sei…

Já agora, por falar nessa época é bom lembrar que, para os Romanos, existiam uns povos no Norte da Europa, genericamente apelidados de Bárbaros. Pois é, mudam os tempos, mas pouco se alteram os factos. Com efeito, os Bárbaros, agora eufemisticamente chamados de Frugais, são um conjunto heterogéneo de povos egoístas e pouco solidários, de alma fria e coração de cristal de gelo.

Eu, que sempre defendi a União Europeia, vejo tristemente, cada vez com maior clareza, que existem, na melhor das hipóteses 2 tipos de povos completamente distintos entre si, podendo haver um terceiro grupo misto na fronteira entre ambos. Enquanto assim for, não serão, por certo, os povos do Sul da Europa a conseguirem transmitir sentimento aos que habitam lá mais para Norte. A minha esperança agarra-se agora à possibilidade de que as alterações climáticas e o aquecimento global possam levar, num esforço conjunto, algum calor aos corações gelados dessa gente.

Mas vamos às minhas assustadoras descobertas. Afinal, apenas 11 dos 27 países da União Europeia proíbem a criação de animais domésticos ou selvagens com a finalidade do uso comercial e industrial das suas peles, excetuando os suínos, bovinos, caprinos, ovinos e ainda coelhos.

De notar que a UE tem normas que determinam a extinção das quintas e fazendas de animais selvagens entre os anos de 2023 e final de 2025, sendo que é impossível prever quantos adiamentos mais deverá haver sobre esta lei, que se tenta impor sem grandes resultados, desde os anos 80 do passado século.

Fiquei a saber que a Holanda é o terceiro produtor mundial de martas, sendo a Dinamarca o segundo, quase colada à China. Aliás, entre animais deste tipo, existem não apenas as martas, como os minques e os visons, tendo estes últimos, na Dinamarca, o seu maior produtor mundial. Também no topo do mundo, mas no que se refere a raposas está a Finlândia, responsável sozinha pela produção de mais de 60% destas peles. Outros países como a Noruega e a Bélgica lutam também por um lugar no top na produção de visons, entre outros tipos de peles.

A título de curiosidade um site da especialidade apontava, com alguma mágoa, à perseguição das autoridades à melhor forma de matar estes animais e de enaltecer a qualidade das peles. O método consiste na electrocução anal e no esfolamento dos bichos ainda em vida.

Informava o dito site que a atual tentativa de imposição de usar o envenenamento dos bichos, por inalação de dióxido de carbono, retira brilho e vida às peles, diminuindo a sua qualidade. Afinal, a UE detém, à data de hoje, 63% da quota mundial da produção de peles de marta, minque e vison e 70% das peles de raposa.

Fora deste circuito, a América do Sul, fazem furor na produção de outros tipos de peles como é o caso das peles de Chinchila ou de esquilo, com o Peru, a Bolívia, o Chile, a Argentina e o Brasil a liderarem o top 5 deste comércio.

Mas, voltando à Europa, outro negócio paralelo, é a importação anual da China para a UE de mais de 2 milhões de peles de cães e gatos, uma vez que estas peles parecem ter propriedades de combate ao reumatismo e são muito utilizadas para produzir mantas e cobertores de topo de gama. Há ainda a questão das fazendas clandestinas de produção de gatos na União, sendo que a Bélgica é o país mais visado pelos ambientalistas.

Tudo isto para dizer, depois desta pequeníssima abordagem, muito pela rama, deste monstruoso problema, que ninguém no mundo (nem os Estados Unidos da América que produzem peles de mais de 80 animais selvagens de diferentes origens e espécies) tem a mínima moral de condenar a China, no que se refere ao comércio de animais, que ainda por cima são usados para a subsistência de mais de um bilião de pessoas.

Para haver moral não basta pregá-la. Há 11 países na União Europeia que podem armar-se em detentores da moral, se não nos pusermos a olhar para outros campos. No entanto, querida Berta, este meu pequeno estudo, acabou por fazer com que eu seja imensamente mais benevolente com o festival do tomate em Espanha, pelo desperdício alimentar ou com as touradas dos países latinos. Pelo menos os touros não são eletrocutados pelo cu e esfolados ainda em vida, nem nada que se pareça.

Não sou fundamentalista que eu saiba ou tenha consciência, por remota que seja, em coisa alguma, contudo, começo a ficar algo frugal no que respeita àqueles a quem os romanos chamavam de bárbaros. É que não me lembro, querida amiga, nem nas torturas chinesas de outros tempos, de ler, ou ouvir falar, em algo tão macabro com a electrocução anal, raios me partam se li. Essa agora…

Despede-se com carinho, este teu eterno amigo, sempre ao dispor para seja lá o que for,

Gil Saraiva

 

 

1 comentário

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

Em destaque no SAPO Blogs
pub