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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: O Novo Banco de Cimento (Excerto - IV do Diário Secreto do Senhor Da Bruma - Capítulo IV)

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Olá Berta,

Não sei se viste as notícias ontem, se, por acaso, as acompanhaste sabes, como eu, que Portugal tem um novo banco. E não, nada tem a ver com o já velho Novo Banco pois que este se trata de um novo banco novo. O Estado volta a meter-se no campo pouco digno (a acreditar no que tem acontecido nos últimos anos no país) do setor bancário, sem pensar nas consequências.

Desta vez (uma vez mais) para agilizar a economia nacional e fazer chegar mais rapidamente às empresas e ao investimento os apoios, os fundos europeus e os incentivos económicos agilizados pela dispensa de um outro banco que, metido no meio da equação, apenas sirva de intermediário, com interesses e decisões próprias, que possam ser tendenciosas, ajudando principalmente a sua respeitada clientela fiel e, em muitos casos, amiga.

Na teoria tudo isto é muito bonito. Mas, depois de em 2019 termos injetado na CGD (do dinheiro dos contribuintes) mais 3,5 mil milhões de euros. Criar mais um banco estatal não me parece ser a mais sensata das soluções. Armando Vara foi condenado por que motivo? Ainda alguém se recorda? E vamos lançar mais um banco? Uma instituição que negoceia diretamente com as grandes empresas, o capital e os investidores, os fundos que devem chegar a Portugal nos próximos anos e mais as verbas geradas no próprio país…

Vamos com isso simplificar a burocracia? Num banco do Estado? Vamos avançar com mais 50 ou mais pessoas, entre direção e cargos de topo, encarregadas de distribuir e negociar biliões de euros com os grandes grupos e outros não menos grandes investidores? O tal novo Banco de Fomento, virá mesmo agilizar o setor? E será dirigido por gente impoluta, disposta a desenvolver ou ajudar a dinamizar a economia nacional sem burocracia, nem corrupção?

Pode ser que sim, vivemos num tempo em que (no “America’s Got Talent”) já vi uma galinha a tocar o hino nacional americano ao piano e em que, para manter os exemplos no mesmo país, um “galaró” é eleito Presidente da República. Vivemos igualmente num país em que BPN, BPP, Banif, Montepio, BCP, CGD, BES, Novo Banco, (e devo estar-me a esquecer de outros) já nos demonstraram quão fiável é o nosso setor bancário e quão sérios e idóneos são os nossos banqueiros.

E este novo Banco de Fomento vai trabalhar com e para os portugueses? Ajudar a erguer projetos fruto da nossa brilhante criatividade? Incentivar a cultura que se arrasta numa mendicidade de fazer corar Pessoa e Camões? Promover a Língua Portuguesa? Não, não, não e não. Isso são meras filosofias dos sonhadores e dos intelectuais de esquerda. A boa cultura é, para estes senhores, genuína apenas se nascida do seio do miserabilismo nacional.

Aliás, quanto muito, apoiarão hipoteticamente possíveis novos eventos e cimeiras às quais vestirão pomposamente o manto dourado da cultura. Uma capa conhecida, essa dos criadores (pelo eufemismo) de uma dita “Pseudocultura”. Um campo vasto criado para desviar fundos dos sempre marginalizados e despojados criadores nacionais de real mérito e valor. É muito mais fácil apoiar uma escola de samba do que uma de música. Disso não restam dúvidas, nem questões.

Eu cá, que não tenho que ser levado em consideração na matéria, uma vez que não passo de mais um simples e ingénuo popular, acho que, em vez de se criar um novo Banco de Fomento, se deveria fazer nascer um novo Banco de Cimento.

As vantagens seriam imensas. Um novo Banco de Cimento seria mais sólido, mais duradouro, mais estável e menos corrompível (é claro que teríamos de ter em atenção a quem encomendávamos a obra, não fosse o construtor aldrabar o banco trocando o cimento necessário por areia baratinha, desregulando as devidas proporções).

Enfim, amiga Berta, tenho dúvidas que tudo isto seja mais do mesmo e que, daqui a algum tempo, alguém venha dizer que era impensável imaginar que o que referi pudesse acontecer. Despede-se com um beijo, este teu grande amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

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