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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: O Malandro Tipicamente Português - O Marginal de Trazer por Casa - Parte V - V/VI

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Olá Berta,

Neste que é hoje o quinto episódio do Malandro Luso é tempo de me referir ao «Marginal de Trazer por Casa». Este é um Malandro que pode ter cadastro. Nada de grave, alguns delitos menores, como ser apanhado a vender aos amigos algum material que caiu de um camião quando ele ia a passar, uma pequena lata com 10 cigarritos de haxixe a um hippie reformado e com artrite reumatoide ou até um bilhete para o próximo jogo de futebol no Estádio da Luz já com público nas bancadas.

Na verdade, o «Marginal de Trazer por Casa» é o típico desenrasca, para os amigos. É possível encontrá-lo em pequenos circuitos, seja na sociedade recreativa de um bairro ou aldeia, num pequeno clube desportivo que já viu melhores dias e onde hoje o que mais se pratica é o dominó e a sueca e até nas feiras e mercados que atravessam o país de uma ponta à outra. Contudo, para quem tenha conhecidos ou amigos junto da etnia cigana, não terá dificuldade em chegar a um destes artistas honrados que tentam sobreviver mesmo sobre o risco da lei.

Aliás, este tipo de Malandro é o herdeiro natural do antigo contrabandista de outros tempos e mantem a aura romântica de outrora ainda com alguma luz. Não se mete em grandes alhadas ou esquemas que o possam levar para o xadrez por demasiado tempo, mas não deixa de correr alguns riscos.

É, por assim dizer, um desenrasca com pinta de bandido o quanto baste. Se trouxer consigo uma arma ou não leva balas ou já nem funciona, apenas serve para manter o respeito, um certo mistério e a admiração do seu grupo de conhecidos e amigos.

A sua rede de contactos é admirável. Ele conhece o eletricista que aldraba os contadores de luz analógicos, o advogado que apenas cobra uma comissão nos casos em que há dinheiro envolvido, o talhante que vende bife do lombo ao preço do de peru, o gajo das apostas clandestinas, caso não seja ele próprio o negociador, a casa de penhores que aceita ouro e joias por fora sem perguntar a origem, o examinador da carta de condução que precisa de uns trocos extras para acabar a cozinha, porque a esposa lhe anda a massacrar a cabeça, o médico que coze uma facada de um meliante sem fazer perguntas ou que passa a receita “xpto” para a tiazinha que já não arranja outra forma de comprar o Victan.

Em resumo, o «Marginal de Trazer por Casa» é um desenrasca e conhece quem faça tudo o que ele diretamente não entrega pronto. É um pintas com pinta. Para além disso tem um peculiar, mas elevado, código de honra. É amigo do seu amigo e incapaz de fazer o papel de bufo seja lá do que for, independentemente da tentativa de coação que lhe tentarem aplicar. Por hoje é tudo, minha querida Berta, espero que te encontres bem, recebe um beijo de despedida do teu amigo sempre pronto,

Gil Saraiva

 

 

 

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