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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: O Impossível Apenas Demora Mais Tempo...

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Olá Berta,

Depois das últimas 4 cartas que te escrevi, fiquei a pensar no assunto. Por isso mesmo hoje posso dizer-te que já estive bem pior do que no meio desta história da pandemia, do atraso na minha operação à vesícula e dos 9 AVC do último ano e pouco.

Com efeito, há cerca de 38 anos despertei de um coma de 6 meses, provocado por um acidente no serviço militar. Algo que me deixou um ano sem voz e um pouco mais do que isso sem andar. Na altura, tive uns dias desanimado em que um fado de Coimbra com uma quadra de Augusto Gil, me embalava o ser e o existir. Rezava assim a quadra:

 

“Se aquilo que a gente sente,

Cá dentro, tivesse voz,

Muita gente, toda a gente,

Teria pena de nós…”

                    Augusto Gil

 

Com base nessa quadra, usando-a como mote, eu escrevi um outro fado na época, bem demonstrativo daquilo que era o meu estado de espírito de então. É esse fado que hoje te envio. Para que fiques com a noção que tudo passa e que mesmo o impossível apenas demora mais tempo. Esta crise, como tantas outras há de passar. Temos que ter paciência, que tudo voltará ao normal. Deixo-te o fado de então:

 

"TODA A GENTE..."

 

Se aquilo que não tem voz,

Pudesse gritar, por fim,

Haveria quem de vós,

Jamais se risse de mim…

 

Porque ao escutar essas almas,

Onde vive eterna mágoa,

Não se encontram marés calmas,

Mas um remoinho de água…

 

Se aquilo que a gente sente,

Cá dentro, tivesse voz,

Muita gente, toda a gente,

Teria pena de nós…

 

Não perguntes quanto dói

Tudo o que sinto, por dentro,

Se a água a pedra mói,

Um dia, chega-lhe ao centro…

 

Ele há quem sofra de amor,

Quem sinta os males da paixão,

Porém, não há maior dor

Do que viver morto. Não!

 

Se aquilo que a gente sente,

Cá dentro, tivesse voz,

Muita gente, toda a gente,

Teria pena de nós…

 

Se tudo aquilo que me arde,

Gerasse um fogo real,

Cedo, se faria tarde,

Num fogo, em mim, tão fatal…

 

Se aquilo que nos faz gente,

Deixar de existir, um dia…

Perdemos nós a semente,

Ganhámos a agonia…

 

Se aquilo que a gente sente,

Cá dentro tivesse voz.

Muita gente, toda a gente,

Teria pena de nós…

 

Assim me despeço, querida Berta, fica a esperança e, lá bem no fundo, tudo ficará de novo bem. Recebe um beijo deste teu amigo,

Gil Saraiva

 

PS: Aqui fica um pouco do Haragano que me sinto:

 

Poema de Ary dos Santos, voz de Fernando Tordo

 

 

 

 

 

 

 

 

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