Carta à Berta nº. 687: André Claro Amaral (Ventura)
Olá Berta,
Realmente, minha amiga, é verdade. A perspetiva da morte muda a maneira como olhamos para as coisas. Antes de saber do meu cancro, já num estado tão avançado, eu era, sem qualquer dúvida, muito mais tolerante do que me sinto atualmente.
Agora, de repente, parece que perdi a paciência. Contudo, passei a ver outras coisas por ângulos bem diferentes daqueles onde anteriormente me enquadrava. São as voltas que a vida dá, temos que as aceitar, pois não há realmente muito mais que se possa fazer.
Desde que me conheço, Berta, sempre fui contra, xenófobos, racistas, fascistas, machistas, pedófilos, e violadores. Nunca seria capaz de apoiar defensores de islamofobia, populistas, oportunistas, vigaristas ou vendedores do conto do Vigário. Jamais poderia fazer parte do rebanho que segue cegamente o sr. André Claro.
O homem, amiguinha, é como um grão do pó soprado pelos ventos da vida que se infiltra em todo o lado, obstruindo engrenagens, minando a solidariedade entre próximos, contaminado tudo por onde passa com germes de ódio e divisão, colecionando descontentes, acumulando à sua volta uma orla de idiotas, medíocres, incompetentes e fãs.
Um dia, porém, a fazer fé em Fernando Pessoa, o vento pára, e o pó cai no esquecimento, Bertinha, acantonado na lixeira dos inúteis, dos vendilhões, das “fake news” e das falsas expetativas.
Todavia, querida confidente, até cair, o sr. André continuará a cultivar a desconfiança e o ódio, o medo e o racismo, como se estas fossem caraterísticas evidentes e inatas do povo português.
Quando me ponho a pensar nisto com conta, peso e medida, não consigo entender o que leva o sr. André Claro Amaral Ventura a agir assim. Pode até parecer evidente que o homem quer poder, mas será realmente possível que alguém que queria ser padre seja capaz de, agora, fazer um pacto o diabo? Será, Berta? Será que a sede pela fama e pelo protagonismo foram suficientes para envenenar este sujeito?
É aqui que eu chego, minha doce amiga, à conclusão que o Sr. Claro não acredita nas suas próprias palavras. Ele sabe que as suas convicções são apenas um meio para um fim. Contudo, se nem André acredita em si, o que é que sobra? Infelizmente, sobra a embriaguez pelo poder, uma fome de vencer cega, egoísta, suja e sem quartel. Este homem é um atentado à democracia e votar nele para presidente é como votar num bidão radioativo. Aos poucos veremos morrer tudo aquilo em que acreditámos nos últimos 50 anos.
Por hoje não tenho muito mais a dizer. Espero que o povo acorde e descubra, por fim, quem é este sujeito. Despeço-me com um beijo carinhoso, este teu amigo de sempre,
Gil Saraiva
