Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Carta à Berta / Desabafos de um Vagabundo / Miga, a Formiga / Estro

Julho de 2022: blogs do Senhor da Bruma, assinados por Gil Saraiva, são reunidos em "alegadamente": Estro (poesia), gilcartoon (cartoons) e Desabafos de um Vagabundo (plectro). Tudo deve ser entendido no âmbito do alegadamente.

Julho de 2022: blogs do Senhor da Bruma, assinados por Gil Saraiva, são reunidos em "alegadamente": Estro (poesia), gilcartoon (cartoons) e Desabafos de um Vagabundo (plectro). Tudo deve ser entendido no âmbito do alegadamente.

Carta à Berta n.º 592: O Funeral das Tágides

Berta 592.jpgOlá Berta,

Há um ditado muito, mas muito, antigo em Portugal que advoga que: “de Espanha nem bom vento, nem bom casamento”. Tem este dito popular muito a ver com as nossas rivalidades seculares com os espanhóis, remontem elas ao tempo da criação de Portugal, à Época dos Descobrimentos, à ocupação nacional pelos Filipes, ou sejam causadas pelo clima porque, o vento, sempre sopra de Espanha, é muito frio e seco no inverno ou muito quente e seco no verão. Seja pelo que for, minha querida amiga Berta, o provérbio arranja sempre uma ou outra maneira de se manter atual.

Desta vez, minha querida, os nossos “hermanos”, resolveram ativar o regime de exceção do acordo que têm com Portugal, que lhes permite unilateralmente fechar a torneira dos rios que nascendo em Espanha desaguam em terras lusas. Para não darem muito nas vistas começaram pelo Guadiana, depois seguiram para o Douro e, finalmente, ei-los que chegam ao Tejo.

Eu sei, e tu também sabes minha amiga, que o mundo vive as consequências das alterações climáticas e também sei que a Península Ibérica se encontra quer sob o efeito de uma seca extrema, quer assolapada por uma onda de calor fora do comum, quer ainda, para cúmulo a atravessar uma enorme falta de água, como consequência lógica dos dois fenómenos anteriores.

Também sei, Berta, que em todo o mundo, e Espanha não é exceção, os governos olham primeiro para o seu umbigo antes de olharem em redor. Porém, o que eu gostaria de saber é quem foi o governante português, melhor dizendo, o estupor cretino e imbecil, que assinou um acordo com os espanhóis permitindo-lhes fechar-nos o acesso à água dos rios cuja nascente seja espanhola, precisamente naquelas alturas em que um caudal mínimo e sensato deveria estar assegurado, hum, quem foi?

Esta besta quadrada, querida Berta, é atualmente responsável pela liofilização do Tejo, pela ausência de peixes no rio, pelas travessias do rio que já se fazem, nalguns troços, a pé, pela concentração de fertilizantes e adubos em níveis venenosos que escorrem destes agora riachos vindos de Castela, e não só, e que entram em Portugal, enfim, pela morte das Tágides de Camões.

Porque este Adamastor de água doce, minha amiga, levou à desertificação dos nossos terrenos, ao abandono da nossa agricultura em zonas antes férteis, ao êxodo dos jovens do interior para as cidades ou à sua imigração, ao envelhecimento da população rural, ao desespero de milhares de famílias que, de um momento para o outro ficaram sem sustento, ao agravamento das alterações climáticas, à proliferação de incêndios e levará, em última análise à revolta justificada de um povo de brandos costumes. Depois não culpem o povo se lhes tiraram os costumes.

Pois é Berta, quando os passeios do Douro passarem a ser caminhadas pelo leito do rio, quando o Guadiana estiver tão seco que fique esquecida qual é a fronteira, ao Sul, entre Portugal e Espanha, quando a travessia entre o Minho e a Galiza deixar de ter como fronteira a travessia do Lima, quando tudo isto e muito mais acontecer, não te admires com o fim dos brandos costumes. Aliás, não te admires com nada.

A culpa podia ser inteiramente espanhola se o tal acordo não existisse, contudo, existe e foi assinado por um mentecapto do governo da República Portuguesa, não sei quando e nem me interessa saber porquê. O que eu quero, querida Berta, é que Costa arranje forma de revogar o quanto antes esta barbárie que nos está a condenar mais depressa do que aquilo que seria a nossa já longa morte lenta. Despeço-me triste e angustiado, recebe um beijo amigo deste teu solidário companheiro de anos, talvez nos encontremos no funeral das Tágides...

Gil Saraiva

 

 

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Em destaque no SAPO Blogs
pub