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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte IV

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Olá Berta,

Para não perderes o fio à meada, continuo, de imediato, a minha exposição de ontem, assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte IV

“Pegando no exemplo apresentado é evidente que a obra passou a ser bem ilustrativa do seu título “Instalação II – O Fracasso do Canguru Perneta”. Senão vejamos:

1) Ao chamar-lhe Instalação II, o autor retirou-lhe, à partida, importância, destaque e notoriedade. Nem sequer a palavra <<Instalação>> é conclusiva, parece algo que apenas constitui a parte de um todo, para que o mesmo funcione e não algo de verdadeiro relevo. Depois o “II” ainda minimiza mais a obra. O “II” é sempre o primeiro dos últimos. Ninguém se lembra do segundo lugar, seja no que for.

2) Depois vem <<O Fracasso>>. Ora, um fracasso não é uma mera falha ou defeito, pelo contrário, é algo no qual, por um qualquer motivo, mais ou menos visível, se deteve a esperança antecipada de um êxito, que, seja por que motivo for, nunca se alcançou. Em resumo, <<O Fracasso>>, é a derrota humilhante de quem devia ser campeão. Porque não se fala de um qualquer fracasso. Afinal o artigo <<O>> define aquele <<Fracasso>> como sendo o especial, o inesperado, o inimaginável derrotado.

3) <<Canguru>>, também não é uma escolha inocente. Uma vez que a mostra se realizou em Lisboa e não no continente australiano. Ao escolher um animal estranho aos europeus, quem vê a obra fica perante um possível animal exótico, existente nos antípodas, uma bizarria que de todo não conhece e até se estranha quando somos confrontados com a sua presença. Trata-se de algo que não pertence ao meio e, por isso mesmo, apresenta-se como uma excentricidade.

4) Por fim, o uso de <<Perneta>> para adjetivar o animal é a machadada final, a demonstração inequívoca da derrota antecipada e total. A caraterística mais evidente para qualquer europeu de um canguru é a sua faculdade de usar os membros inferiores para se locomover, aos saltos, pelas inóspitas e longínquas paisagens australianas. Ao ler <<Canguru Perneta>> o normal observador esquece imediatamente a bolsa marsupial tão caraterística deste bípede. Apenas vê o deficiente e desgraçado bicho, condenado a uma morte certa e de curto prazo.

5) Em resumo, <<Instalação II – O Fracasso do Canguru Perneta>> é o título de uma obra que se torna brilhante e conquistada porque o artista conseguiu traduzir numa única legenda, com um rótulo marcante, o significado da derrota total. Algo simplesmente genial. Porém, para manter viva e acesa a chama da glória de que a sua criação se revestiu, jamais o rótulo poderá ser separado da criação.

Isso faz-me lembrar outra obra, de um artista apelidado de experimental, que vi, há um tempo atrás, numa qualquer mostra internacional. Estava lá a fazer a cobertura do evento, para um magazine de arte conceituada (à época) que, entretanto, já faliu.

Ora, o dito cujo criador, tinha conseguido fazer um molde de um cagalhão, um daqueles bem alto e enrolado, como os que se vendem às criancinhas idiotas, nas lojas do chinês no Carnaval, e passara a poia para o bronze, colocando-a por cima de uma caixa de meio metro quadrado, representando, na parte do topo, um chão empedrado de calçada portuguesa. O título da obra prima era <<Organicidades>>.

A palavra nem consta no dicionário, mas isso não impediu o experimentalista de a usar. A mim só me apeteceu, quando o empinado artista me foi apresentado, dizer-lhe onde é que ele podia pôr aquela merda. Porém, fui simpático e perguntei-lhe se não tinha uma outra, mas feita em dia de diarreia. O criador, espanhol e com algum calo nas lides das artes e das críticas, olhou para mim, sorriu, e, por fim, respondeu-me, com um significativo encolher de ombros: <<-No entiendo…>>.”

Pois é, minha amiga do coração, saberás tu, eu e muita gente certamente, que o espanhol compreendeu perfeitamente a questão, contudo, na habilidade de quem já virou muitos frangos, optou singelamente por se esquivar a uma resposta que lhe poderia valer uma critica negativa no magazine em representação do qual eu me encontrava. Assim, pelo contrário, teve a sua obra fotografada e relatada na revista, apresentada e comentada de forma divertida, com a maneira graciosa como o criador se esquivara do incomodo da questão final.

Fico-me por aqui. Afinal, amanhã o tema seguirá o seu curso e eu tenho de ter matéria para o poder continuar. Recebe as minhas despedidas com o usual beijo deste amigo que sempre te recorda com amizade e muito, mas muito, carinho e saudade,

Gil Saraiva

 

 

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