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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte III

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Olá Berta,

Continuo hoje a nossa nova saga. As confissões entram na sua terceira parte e espero que sejam do teu agrado. Sem mais demoras, cá vai disto:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte III

"Quem sempre luta pelo pódio na disputa do segundo ou terceiro lugar é o Castelhano. Correndo o risco de me repetir, tudo depende dos estudos e das fontes usadas, a língua alterna com o Inglês um dos 2 últimos dos 3 lugares do pódio. Esta é uma guerra antiga entre os estudiosos germânicos e os latinos, ambos a reivindicarem o fabuloso segundo lugar.

Uma guerra sem importância relevante para o Português que, desde 2019, se viu, finalmente, consagrado pela ONU, através da UNESCO, com o lançamento simbólico do Dia Mundial da Língua Portuguesa, existente desde o ano 2000 no seio da CPLP, mas agora reconhecidamente universalizado. Não é demais voltar a dizê-lo, porque sempre existiram muitos interesses instalados, mas é diferente saber que a UNESCO nos reconhece como a quarta maior língua do globo, com mais de 300 milhões de falantes do Português, como primeira língua, do que sermos nós a dizê-lo. É como comparar água com vinho, no que à relevância diz respeito.

Com efeito, a data de 5 de maio, escolhida pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) no ano 2000, em Cabo Verde, para celebrar a difusão e importância das culturas e do idioma no mundo, acabou por ser reconhecida pela UNESCO que a transformou em Dia Mundial a 25 de Novembro de 2019, reconhecendo (e finalmente atualizando os dados) que existem entre 300 e 310 milhões de pessoas no mundo que usam o Português como primeira língua. Este reconhecimento terminou abruptamente com todas as disputas e lóbis nos corredores da linguística. Já há muito que uma metodologia séria tardava em vingar, tendo, por consequência, posto um ponto final às questões sobre qual é a quarta língua mais falada no globo.

Contudo, nos campos da pureza, beleza e complexidade do Português, os estudiosos destas matérias parecem todos concordar, que não temos outra que se lhe compare, em termos evolutivos e de sofisticação de elaboração sintática, gramatical e semântica, no universo latino. Para além disso, não é só o facto de sermos escutados nos 5 cantos do mundo é, também, a riqueza do idioma e a sua capacidade de expansão que nos torna relevantes. Todavia, nunca é demais dizê-lo, do quarto lugar mundial saltamos para a liderança  e para o topo da tabela quando nos referimos apenas às línguas faladas no Hemisfério Sul. Aqui reinamos destacados e nem o Castelhano, o Inglês ou o Mandarim, nos chegam aos calcanhares.

Não posso deixar de referir algo que me irrita profundamente. Parece que o nosso país dá uma especial importância e relevância às coisas e às críticas que vêm de lá de fora, do estrangeiro. Mas, contudo, deveria ser o inverso. Importaria sim escutar, com redobrada atenção, quem connosco partilha o país e a existência, bem como a nossa difusão linguística, ou até, generalizando, os países que, no seu todo, geraram o orgulho generalizado que todos possuímos pelo nosso idioma. Não temos que nos mostrar ofendidos porque na América há muita gente a pensar que Portugal é uma província de Espanha. Não é, já foi. Mas a ignorância e a tacanhez é deles e não nossa e só a eles mesmos assenta mal.

Voltando agora ao título do presente capítulo, Confissões em Português”, a parte que se refere às Confissões é que deveria chamar a atenção em primeiro lugar. Já o facto de ter usado o nome da língua apenas pretende dar aquele ar muito intelectual ao texto.

Dou um exemplo claro: é como o artista plástico que cria uma obra que lhe corre mal, mas que, depois do imenso trabalho que teve na sua elaboração, tem alguma pena de a destruir, assim, devido a essa mesma trabalheira e ao tempo que a dita lhe consumiu em todo o processo criativo, resolve incluir a falhada criação numa mostra internacional relevante, sabendo, conscientemente, que a sua obra vai estar patente ao público, sujeita a críticas, possíveis achincalhamentos, podendo conduzir mesmo ao escarnecer da sua qualidade indiscutível enquanto artista plástico.

Não querendo reconhecer o seu fracasso criativo, depois de muito matutar no assunto, lança a obra, com lugar de destaque na exposição, apelidando-a com o maravilhoso nome de:

Instalação II - O Fracasso do Canguru Perneta.

Para sua surpresa, vence o primeiro prémio daquela Bienal de Arte, pelo modo magnífico como conseguiu, de forma genialmente única, representar tão crua e friamente o significado de fracasso.”

Como podes verificar, querida Berta, muitas vezes as coisas não valem apenas pelo que são em si mesmas. O contexto em que são inseridas é um dos mais determinantes fatores para a sua relevância ou valorização. Com esta observação te digo adeus por hoje, embora amanha me vá dar ao trabalho de deixar mais claro este título fabuloso para a obra em causa. Recebe o beijo habitual deste teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

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