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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Livro - O diário Secreto do Senhor da Bruma - III - Conversas com a Consciência - Os Pensadores - 4) Agostinho da Silva - Parte I

(continuação – III – 8)

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Olá Berta,

Espero que esta carta te vá encontrar bem e feliz com as férias que estás a usufruir. Hoje, por estranho que te possa parecer, o meu filosofo e pensador é português. Se eu te falar no George Agostinho Baptista da Silva talvez isso te diga pouco. Porém, se te disser que vou falar de Agostinho da Silva, o meu quarto pensador de eleição, no Diário Secreto do Senhor da Bruma, já tudo fica bem diferente. Ora, isso acontece contigo e com a maioria das pessoas. Poucos são os que o reconhecem pelos nomes de George e Baptista, muito poucos.

Estou a referir-me a um dos grandes da cultura portuguesa do século XX, mas não só. No que concerne ao pensamento, a propósito da importância do Professor, ele está entre os maiores de toda a história do país. Por isso entro diretamente no tema, sem mais delongas:

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III

Conversas com a Consciência

4) Agostinho da Silva

Parte I

(continuação – III – 8)

Abril, dia 28:

4) Agostinho da Silva (13/02/1906 – 03/04/1994) - Formação superior em Filologia Clássica, Doutoramento com a apresentação da tese: “O Sentido Histórico das Civilizações Clássicas”, filólogo, filósofo, professor e pensador:                     

Sobre Agostinho da Silva há muito a dizer, seria relativamente fácil citar os seus cadernos editados periodicamente, os livros que publicou, as Universidades em Portugal e no Brasil onde lecionou e que ajudou a formar. Como também é fácil descrever a inovação que trouxe ao ensino em Portugal e no Brasil, a nível universitário, bem como a imensidão de gente a quem conseguiu tocar com o seu raciocínio e brilhantismo genial.

Abril, dia 29:

Há quem o considere um adepto praticante do panteísmo, do milenarismo e da ética da renúncia, contudo, ele é sim, a meu ver, o primeiro defensor da deontologia do ser em oposição às tendências do ter, ou seja, o poder e a riqueza não está no que se tem ou possuí, mas, inversamente, no que se conhece e absorve na plena posse de um estro livre de dogmas e preparado para se desenvolver sem contingências, ou seja, é na livre inteligência emocional que o ser humano se supera a si próprio.

Abril, dia 30:

Poderia falar da sua luta contra os regimes ditatoriais em Portugal e até no Brasil, descrever porque foi preso pela PIDE ou reportar a sua influência no meio intelectual e cultural nestes 2 países e nos outros Estados de Língua Oficial Portuguesa, mas não só. Seria até entediante apontar todos os países que visitou e onde fez questão de deixar a impressão marcante do seu pensamento. Não foi em vão que Agostinho criou os vários Centros de Estudos no Brasil e em Portugal. Em todos eles a intenção era a mesma: Reforçar o papel da língua portuguesa.

Maio, dia 1:

Fosse o Centro de Estudos Afro-Orientais, o Centro Brasileiro de Estudos Portugueses, ambos em terras de Vera Cruz ou o Centro de Estudos Latino-Americanos em território Luso, todos tinham, no seu conjunto, a defesa da nossa língua como vetor primário. A formação em Filologia Clássica, que examina os sistemas linguísticos da Antiguidade Clássica, com especial incidência no latim e no grego antigo, marcou, em Agostinho, a verdadeira importância da língua na história dos povos e das civilizações.

Maio, dia 2:

Agostinho da Silva considerava o trabalho uma excrescência social que os Estados tinham inventado para formatar e moldar os espíritos dos seus cidadãos, de acordo com as suas normas e interesses próprios. Para ele, quem fazia o que gostava, nunca trabalharia na vida, pois que, na sua definição desta labuta estava implícita a obrigação de se fazer diariamente o que se não gosta, com vista a poder-se sobreviver, num determinado contexto comunitário. Por outro lado, cumprir um papel numa qualquer área da qual se gostava, fosse tratar do lixo ou desenhar um edifício, não era trabalho, mas sim uma atividade criativa.

Maio, dia 3:

Formado no Porto com a classificação máxima de 20 valores e doutorado com louvor, no ano seguinte, em 1929, ainda com 23 anos de idade, Agostinho passou posteriormente pelo «Collège de France» e pela Sorbonne, na qualidade de bolseiro, absorvendo as luzes de Paris. Foi professor do ensino secundário em Aveiro, por pouco tempo. O Estado queria que os funcionários públicos assinassem um documento vinculativo ao regime, coisa que ele recusou.

Maio, dia 4:

Aproveita, então, uma bolsa do Ministério das Relações Exteriores de Espanha e ingressa como investigador no Centro de Estudos Históricos de Madrid. Em 1936 regressa a Portugal devido à probabilidade de deflagrar uma Guerra Civil em Espanha, como veio a acontecer. De volta ao seu país, cria o Núcleo Pedagógico Antero de Quental em 1939, e em 1940 lança em fascículos a Iniciação: Os Cadernos de Informação Cultural.

Maio, dia 5:

Entre outras coisas são os cadernos que o levam a ser preso pela polícia política em 1943. Libertado, decide abandonar o país e, no ano seguinte, ruma em direção à América do Sul, passando pelo, Uruguai, Argentina e o Brasil, como consequência da sua clara oposição a Salazar e ao seu Estado Novo. Em 1947, decide-se a ficar a residir no Brasil, onde viverá até 1969. Passando, a partir de certa altura, a ter dupla nacionalidade.

Maio, dia 6:

Começou por escolher São Paulo, como ponto de partida e, mais tarde, muda-se para Itatiaia, onde funda uma comunidade. Contudo, em 1948, começa a colaborar com o Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, onde estuda entomologia, enquanto se mantém, simultaneamente, como professor na Faculdade Fluminense de Filosofia. Por essa altura, junta-se ao seu amigo Jaime Cortesão, com quem colabora nas pesquisas sobre Alexandre de Gusmão. De 1952 a 1954, ensina na Universidade Federal da Paraíba em João Pessoa e também em Pernambuco.

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Para Agostinho da Silva é mais interessante conhecer e conversar com alguém que discorde da sua opinião, e que fundamente uma outra qualquer, do que ser simplesmente acompanhado nas ideias e na sua maneira de ver o mundo. Segundo o professor é do debate e do diálogo que o mundo evolui e se desenvolve.

Esta revelação serve de fecho para a carta de hoje, este teu amigo, minha querida Berta, despede-se com um beijo de imenso carinho e saudades, como alguém sempre ao dispor e ao serviço dos que lhe são queridos,

Gil Saraiva

 

 

 

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