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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Livro - O diário Secreto do Senhor da Bruma - III - Conversas com a Consciência: 1) Zygmunt Bauman

(continuação - III - 3)

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Olá Berta,

Sei que não sou pessoa que normalmente se ponha, nem muito nem pouco, a filosofar. Apesar desse pequeno grande detalhe adoro filosofia e teorias sobre o pensamento. Porém, é mais um hobby meu do que uma coisa para partilhar com terceiros. Foi aliás o meu gosto pelo pensamento humano que me levou a passar 3 anos e meio no curso de Filosofia.

Esses, pois tenho também de incluir o de Estudos Portugueses, foram os 2 únicos cursos que tive pena de não ter chegado ao fim. Não na altura, em que me apoiei perfeitamente nas minhas decisões, mas mais tarde, alguns bons anos depois.

Psicologia Clínica e História foram formações relevantes, todavia, nem hoje as terminaria se pudesse. Quanto a direito nunca fiz estágio nem, consequentemente, me inscrevi na ordem. Simplesmente detestei o curso, salvou-se, apesar de tudo, esse tempo vivido em Coimbra, graças à convivência universitária e ao meu crescimento pessoal enquanto individuo e ser humano com ideias próprias.

Já o jornalismo foi a minha profissão de eleição. Comecei aos 18 e  15 anos depois lá consegui a carteira profissional de jornalista através da pressão exercida pelo meu editor de então, embora com uns meses largos de atraso, graças ao tolo do meu diretor dessa altura, nos idos de 1996. Tolo porque achava que se me pedisse a carteira me teria de pagar mais do que até então pagava.

Portanto, já lá vão 40 anos de atividade e 25 enquanto detentor de uma carteira profissional. Nem a atividade paralela de funcionário aduaneiro durante 12 anos, nem mesmo os 16 anos de gestor de empresas, se comparam no tempo e na preferência ao meu amor pela profissão de jornalista.

Uma verdadeira paixão, principalmente, no que concerne aqueles fabulosos anos em que me dediquei de corpo e alma à investigação, mesmo com as ameaças de morte que os jornais onde trabalhei receberam, em meu nome, por força da publicação de certas verdades. Se bem me lembro foram 22. Um número bonito que ainda hoje me faz sorrir.

Contudo, a formação privada que tive, com 2 grandes mestres, em artes plásticas e, por outro lado, a escrita e a poesia, com o imenso apoio da minha mãe, formada em Românicas, foram os pilares fundamentais da constituição da minha consciência emocional e sensitiva. Disso não tenho a menor dúvida.

Desculpa se me alonguei em divagações, porém queria que entendesses o meu interesse pelo universo das ideias e do pensamento e porque tenho, como referências um certo número de pensadores contemporâneos. Mas vamos ao Diário:

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III

Conversas com a Consciência

(continuação – III – 3)

Março, dia 30:

Apontamentos sobre quem pensa. Os Últimos 9 Grandes Pensadores da Humanidade (segundo eu):

Não me parece relevante, no âmbito destas minhas notas, estar aqui a explanar todo o pensamento, atividade, teorias e suas aplicações, no que a cada um dos pensadores diz respeito, nem mesmo apresentar qualquer defesa relativamente às ideias de cada um. Isso poderá ser um trabalho para quem quiser ir mais longe no conhecimento da obra e nos contributos desta minha seleção de sábios para a humanidade e para o pensamento, dos últimos 120 anos. Basta-me referir porque os considero fundamentais, importantes e influenciadores do meu existir.

Março, dia 31:

Para os intelectuais as minhas escolhas podem vir a parecer estranhas ou inaceitáveis. Aliás, quem lidera as instituições ligadas ao conhecimento, à matemática, à ciência, à tecnologia e, consequentemente, à filosofia e ao pensamento, paradoxalmente, é muito conservador no que se refere à aceitação de novos paradigmas ou valores que possam pôr em causa o status quo pré-estabelecido. A história é farta em demonstrar a imensa dimensão deste fenómeno com o decorrer das eras e dos séculos.

Abril, dia 1:

1) Zygmunt Bauman (19/11/1925 a 09/01/2017) –Sociólogo, pensador:

Bauman, foi inicialmente um marxista ortodoxo, com ideias estalinistas, de origem judaica, não praticante, ateu, educado na Polónia, sob forte influência da URSS. Teve uma curta carreira militar. Integrou os quadros da inteligência polaca aos 19 anos e atingiu o posto de major oito anos mais tarde, no entretanto, lecionou como professor universitário em Varsóvia.

Abril, dia 2:

Em 1968, Bauman, foi expulso do seu país, por críticas ao governo comunista polaco. Por esse facto viajou para Israel, onde agarrou o ensino universitário e passou a lecionar na universidade de Telavive (ou Tel Aviv), onde se manteve até 1971. Foi nesse ano formalmente convidado pelos britânicos para se instalar em Leeds. Zygmunt não terá hesitado muito na decisão e mudou de vez, definitiva e convictamente, para terras de Sua Majestade.

Abril, dia 3:

 Uma vez instalado no Reino Unido, iniciou o leccionamento na universidade de Leeds. Cedo se tornou cidadão britânico. Foi por essa altura que começou, metodicamente, a adaptar as suas ideias à realidade. Rapidamente se tornou um defensor de um conceito em tudo inovador: o socialismo de cariz humanista, que o guiaria pelo resto da vida, até à sua morte, com 91 anos, em 2017. Bauman publicou cerca de 35 livros até 1999 e mais do que isso entre 2000 e 2017. Há quem o considere um fenómeno, um autêntico génio, no que à capacidade de racionalizar o meio diz respeito.

Abril, dia 4:

Contudo, independentemente de já ter muita obra publicada entre os 27 anos e os 46 anos, a sua visibilidade e fama têm as fundações com a mudança para terras britânicas. Na realidade, a sua notoriedade fortalece-se, com espetacular evidência, a partir de 1989, já com a bonita idade de 64 anos, quando começa a debruçar-se sobre a problemática da modernidade, do pós-modernismo e dos possíveis rumos a tomar daí em diante.

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Devido à minha longa introdução, não consegui terminar, sem me alongar demasiadamente, a apresentação de Zygmunt Bauman. Terá de ficar para amanhã. Despeço-me com um beijo e uma piscadela de olho, feliz por ter sabido que estás muito morena pela praia que tens feito, querida Berta, sempre ao teu serviço,

Gil Saraiva

 

 

 

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