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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Livro - O diário Secreto do Senhor da Bruma - III - Conversas com a Consciência

(continuação - III - 2)

Berta 264.jpg

(Faculdade de Letras da Universidade do Porto)   

Olá Berta,

Cá estou eu, sempre cumpridor, na medida do possível, com mais uma cartinha para a minha amiga. Posso garantir que esta minha promessa de durante o teu primeiro ano de ausência te enviar regularmente, a cada dia, uma carta, nem sempre é fácil de cumprir. Apesar de tudo, e mesmo contra alguns imprevistos, tenho conseguido manter a palavra. Mesmo quando te enviei mais do que uma carta no mesmo dia para repor outras em falha de dias anteriores. Juro que tenho feito tudo o que me é possível. Agrada-me imenso todo o apoio que me tens dado. Fica aqui o registo porque, muitas vezes, me esqueço de agradecer devidamente a atenção a mim dedicada, mas sinto-a.

Ah! Com que então achas que interrompi, ontem, propositadamente o Diário Secreto do Senhor da Bruma. Garanto que foi pura coincidência. Era incapaz de magicar propositadamente uma maldade dessas. Tu não mereces esse tipo de atitudes, nem que seja a brincar. Todavia, ter continuado iria alongar bastante a carta e tornava-se maçador. Contudo, se isso te deixou em suspense é porque te agradou e isso é muito bom, me ajudando a prosseguir motivado por te saber atenta e agradada com o que vais lendo. Assim, sem mais demoras, continuando:

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III

Conversas com a Consciência

(continuação - III - 2)

Março, dia 26:

O crápula do lente a que me refiro, adorava mostrar que acreditava na supremacia ariana, ora, embora isso me desagradasse, eram apenas as ideias parvas do fulano e eu nem ligava. O problema surgiu quando resolveu humilhar, em plena aula, um aluno negro, de origem cabo-verdiana, que conseguira acesso universitário com os 17 anos acabados de fazer, ou seja, quase 2 anos adiantado à média de idades dos outros, já na casa dos 19, tudo devido à mente brilhante que possuía. O jovem não aguentou a humilhação e começou a chorar.

Março, dia 27:

Ora, eu, que na altura teria uns 26 anos, acabado de chegar ao Porto para trabalhar, depois de 6 anos de Faculdade de Direito, em Coimbra, levantei-me em defesa do rapaz, falando alto, afirmando que aquela atitude era inadmissível. O anormal do catedrático, de olhar esbugalhado, fez o gesto de levantar a mão, como quem me ia agredir, e foi esse o erro. Quando dei conta já lhe desferira 2 sopapos, de punho fechado, no respetivo trombil, enquanto, em simultâneo, o ameaçava de, com a turma inteira a reboque. apresentar queixa dele na reitoria, caso o sujeito me quisesse expulsar. Nunca fez nada, mas eu perdi o gosto pelo curso e saí. Porém, somente depois do Fabiano, assim se chamava o rapaz, concluir, com aproveitamento, a cadeira em causa e se ver livre da idiota verborreia do docente.

Março, dia 28:

No ano seguinte acabei por mudar dentro da Universidade de Letras do curso de Filosofia para o de História, onde estive mais uns 3 anos e meio, enquanto o curso me foi útil e aliciante. Contudo, a atividade de jornalista, iniciada aos 18 anos, na imprensa algarvia e a carreira profissional na Alfândega, mais o nascimento da primeira descendente, acabariam por determinar as opções que me fizeram sair, por mais de um ano da universidade. Haveria de regressar, primeiro para o Curso de Estudos Portugueses na Universidade do Algarve e, logo depois, no polo universitário de Loulé, para o curso de Psicologia Clínica. Ao todo, passei uns bons 18 anos em diferentes Universidades e Faculdades, entre Coimbra, Porto e Algarve. Foi nesse tempo que elegi os 9 filósofos que mais me influenciaram.

Março, dia 29:

Estou a referir-me, apenas e só, àqueles que são, para mim, os 9 pensadores mais importantes dos últimos 120 anos. A importância dos anteriores a eles, não deixa de ser crucial, mas apenas serviu de base, de alicerce, á minha escolha final, mais centrada no contemporâneo das ideias, no que ao pensamento humano moderno diz respeito. Tivesse eu nascido noutras eras e, certamente, as opções seriam totalmente diferentes. O evoluir da filosofia acompanha o avanço das ideias, da tecnologia, do progresso e consequentemente as respetivas mudanças sociais e humanas em que, em cada fase, nos vamos sentindo mais enquadrados.

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Por hoje é tudo, amiga Berta, espero que o meu Diário Secreto seja mesmo do teu agrado. Gosto de te ver interessada e adoro saber que existe alguém que me lê sem ser por qualquer favor. Desabafos. Porém, tu sabes que eu sou mesmo assim, melindro-me com as pequenas coisas se não as sinto sinceras.

Posso não ter o melhor dos feitios, mas também não me tenho em má consideração em termos gerais. Lá está, preciso de agir de acordo com a minha consciência e a malandra acaba por ser determinante em todos os meus comportamentos e atitudes.

Por hoje é tudo, espero ter-te proporcionado mais um bom momento de leitura. Pelo menos já sabes algo mais sobre mim. Despeço-me com um beijo de alegria e desejo de bons banhos de mar, este teu amigo com quem sempre podes contar,

Gil Saraiva

 

 

 

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