Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Hoje Não Quero Falar...

Berta 458.jpg

Olá Berta,

Hoje, não sei porquê, não quero falar de pandemia, não quero falar de política, não quero falar de doença versus saúde, de SNS, de hospitais, de Ventura, de óbitos, de mortos, de falecidos, de sondagens, de alterações climáticas, enfim, não quero falar de porra nenhuma dessas. Nem quero criticar, apontar falhas seja ao que for, pois tudo isso não passará de uma opinião, a minha, e nem sempre é positivo estar a bater no ceguinho. Imagem que, por si só, é absolutamente absurda se lermos mesmo aquilo que escrevemos. Quem quer afinal “bater no invisual”? Penso que ninguém, muito menos eu.

Hoje vou falar-te, querida Berta, de quê? De repente parece não existir nada de bom ou positivo para se relatar neste mundo. Contudo, é impossível que não exista um tema agradável sobre o qual eu te possa escrever. O existir é constituído deste binómio infindável entre bem e mal, pelo que tem de haver um bem sobre o qual eu possa escrever, sem entrar pelo mal adentro.

Já sei! Vou-te escrever sobre o incrível caso dos gémeos que nasceram faz algum tempo na Colômbia. Eu sei que não é um tema totalmente casto ou puro, apenas repleto de bem ou de bondade, mas, pelo menos para nós os dois, minha amiga, não é algo que nos faça sofrer. Podemos conjeturar coisas menos positivas, mas, visto à distância, é uma situação algo cómica.

O caso começou no remoto mês de agosto de 2018 quando um pedido de um teste de paternidade de dois meninos gémeos chegou ao “Grupo de Genética de Poblaciones e Identificación de la Universidad Nacional de Colombia”.

Aconteceu que, o provável pai, desconfiou poder não ser o progenitor dos gémeos, que tinham acabado de nascer no hospital, logo após o parto, assim que os mesmos foram trazidos à sua presença e apresentados como sendo os filhos do casal. Segundo as notícias de então, o homem dizia não ver qualquer semelhança entre as crianças e ele próprio e exigiu nos dias seguintes, judicialmente, o apuramento da paternidade.

A situação, por ser bizarra, na forma como aconteceu, acabou por virar notícia, com a mãe a informar os órgãos de comunicação social que o marido devia ter enlouquecido. Efetivamente os jornalistas tinham conseguido apurar não haver histórico ou mesmo suspeitas anteriores ao parto, por parte do suposto pai, de que a sua esposa o andasse a enganar. Os tabloides do país procuraram, sem êxito, encontrar qualquer pista sobre uma eventual traição matrimonial.

O único registo existente descoberto, que saísse da normalidade, fora um assalto algo violento em casa do casal, em que ambos tinham sido anestesiados com éter ou um outro qualquer químico, tendo acordado um tempo depois com a casa despida de valores, mas ambos bem de saúde e apenas amarrados pelos braços e pernas, de costas um para o outro.

O casal acabaria, dias depois por recuperar a quase totalidade do roubo, exceto uma pequena verba em dinheiro, devido a pistas deixadas pelos bandidos, no caso, um talão de um recente aluguer de um pequeno armazém à saída da localidade, onde todo o espólio desse assalto e de um outro foram encontrados. Contudo, nunca se descobriram quem tinham sido os assaltantes.

Devido ao conflito judicial, por parte de cada um dos cônjuges, a situação demorou a ser resolvida. Tendo sido revelado o apuramento da paternidade, pelo Grupo de Genética, apenas no final do ano passado. Segundo o mesmo Grupo, o provável progenitor era apenas pai de um dos gémeos, sendo o outro filho de um pai desconhecido.

Um caso muito raro, mas possível de acontecer, disseram os cientistas. Segundo a explicação que apresentaram é possível uma mulher ter gémeos de pais diferentes devido a um fenómeno chamado “superfecundação heteropaternal”. Isto acontece quando um segundo óvulo, libertado durante o mesmo ciclo menstrual, é fertilizado por um espermatozoide de um indivíduo diferente, em relações sexuais distintas.

A investigação levada a cabo acabou por concluir que a senhora teria sido violada durante o tempo em que esteve anestesiada, e como o assalto ocorrera apenas uma hora depois do casal ter tido relações, a mulher acabou por ver dois dos seus óvulos fecundados. Ninguém, nem o próprio casal, tinha suspeitado da violação porque, ao acordarem, estavam com as mesmas roupas e nada indicava que um ato desses pudesse ter acontecido.

A história acabou em bem com o desconfiado marido a assumir a paternidade das duas crianças e a pedir publicamente perdão à esposa, para gáudio dos tabloides locais. Nunca foi revelado qual dos gémeos não era filho do assumido progenitor.

Como vês, querida Berta, esta alegada realidade, a ter efetivamente acontecido assim, demonstra que, não poucas vezes, a ficção fica, sem margem para dúvidas, apenas num honroso segundo lugar. Despede-se este teu amigo, com um beijo, sempre ao teu dispor,

Gil Saraiva

 

 

 

2 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

Em destaque no SAPO Blogs
pub