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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta - Farto - Parte II/IV

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Olá Berta,

Gostei do teu ar de espanto pela minha carta de ontem, minha querida amiga. Com efeito, eu sou mesmo assim. Há dias em que ao atingirmos a beira do copo, somos forçados, à mínima gota, a derramar.

Eu sei que tens estado de férias. Ainda por cima, estando tu a viver no Algarve, no melhor sítio para as poder passar com calma e tranquilidade. Porém, eu, por estes lados, continuo na doce aldeia de Campo de Ourique, na labuta de um confinamento, com dieta zero para gorduras e álcool, por causa da minha vesícula calcetada.

Estou farto! Farto dos dias iguais a ontem e a amanhã. Farto de Cov-Sars-2, de Covid-19, de confinamento, de desconfinamento, de recuperados, de infetados, de tratarem os anciãos neste país como prisioneiros pagantes e sem direitos, em lares atulhados de urubus e sanguessugas. Farto de uma alegada Santa Casa que explora e não escuta quem implora, que encaixota gente em cubículos de 3 e 4 utentes e que depois disfarça, assobiando para o lado, uma área que evoca o Espírito Santo.

Farto de assistir a uma Segurança Social que não cumpre o seu papel fiscalizador, zelando pelo conforto e bem-estar daqueles que ontem foram Portugal e que hoje se deveriam manter como a nossa memória coletiva mais importante e fundamental.

Ontem estava apenas cansado, hoje estou farto. Nem quero imaginar como estarei amanhã.

Perguntarás tu, minha querida Berta, com alguma razão, se eu não me achava o homem mais feliz do mundo? Questionarás se ainda me julgo assim, depois do que acabaste de ler? Interrogar-te-ás sobre o que é feito do otimista que estavas habituada ouvir e a ler?

A resposta às 3 questões mantém-se. Continuo a achar que sou o homem mais feliz que conheço, pese embora, possa haver no mundo gente mais feliz que eu, contudo, se há, eu desconheço. Porém, isso não me impede de ter outros sentimentos e estes momentos de saturação.

Sou particularmente sensível às injustiças praticadas com os mais velhos, principalmente os que não têm como ripostar ou já não se podem defender e que continuam a ser explorados, com a complacência do Estado, por uma panóplia de energúmenos estropiados de consciência e com uma falsa aurela de anjinhos no topo dos seus balofos cocurutos.

Pronto minha amiga, mais um dia de desabafos, peço as minhas desculpas, recebe um beijo de despedida deste teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

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