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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Das Ranchadas dos Santos Populares às Marchas Populares de Lisboa – Parte V/V

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Olá Berta,

É com alguma tristeza, nem sei bem porquê, que termino hoje esta pequena abordagem aos primórdios das Marchas Populares de Lisboa. Afinal, as Ranchadas dos Bairros de Lisboa, também conhecidas, mais tarde, por Marchas Populares dos Bairros de Lisboa, durante estes primeiros anos de mudança para a organização conjunta e sob a alçada da edilidade, foram responsáveis pelo nascimento das Marchas dos Santos Populares de Lisboa (e não esqueçamos, querida Berta, séculos antes, pelo aparecimento do Carnaval do Brasil).

Enfim, é bonito ver o que a imaginação pode criar quando a alegria e o convívio são genuínos. Mas regressemos concretamente a estes primeiros anos em que a mudança aconteceu e inundou Lisboa:

Das Ranchadas dos

Santos Populares às

Marchas Populares de Lisboa

– Parte V/V

 

A Grande Marcha de Lisboa

Depois do êxito retumbante, ainda sobre a batuta do Parque Mayer em 1934, a autarquia não hesita em repetir a dose no ano seguinte. Na bagagem a edilidade traz novidades. A principal inovação prende-se com a ideia (e obrigação) de passar a haver, para além das cantigas próprias e originais de cada Bairro, uma canção comum a todos os grupos participantes. Surge assim, pela primeiríssima vez, o conceito de uma “Grande Marcha de Lisboa”.

A primeira música original, deste ano inicial da Grande Marcha de Lisboa, ainda hoje é conhecida e cantada de cor por 90% dos alfacinhas com idade superior a 14 anos de idade. Apenas a primeira silaba da quadra mudou de “Ai!” para “Lá”. Tratou-se de uma música original do maestro Raul Ferrão, acompanhada com os versos que se eternizaram de Norberto de Araújo.

Hoje em dia, no Gabinete de Estudos Olisiponenses é possível, para quem o deseje e sob pedido expresso, consultar o programa original, com as letras de cada antiga, incluindo os refrões que ainda hoje vêm à memória sempre que há marchas, mas com uma pequena diferença face aos que fizeram história: em vez de “Lá vai Lisboa”, o original seria “Ai! Vai Lisboa”. Os versos são conhecidos e ainda muito cantados por todo o território nacional e nas comunidades portuguesas no mundo inteiro:

 “Ai! Vai Lisboa!

Com a saia cor do mar

 E cada bairro é um noivo

Que com ela vai casar.

 

 Ai! Vai Lisboa!

Com seu arquinho e balão

Com <<cantinguinhas>> na boca

 E Amor no coração.”

 

Na hora de conceder os prémios estalou alguma confusão, porque a luta entre os bairros tinha sido incrivelmente renhida, de tal modo que, por causa das pontuações muito aproximadas, o júri optou, depois de deliberar profundamente, por criar dois grupos: Alfama, Madragoa, Benfica, Graça e Campolide foram as primeiras classificadas e Alcântara, Mouraria, S. Vicente, Chelas, Ajuda e Santa Clara ficaram com o segundo lugar.

Mas há outra curiosidade nesta edição de 1935, uma novidade que, dizem os crentes e os místicos, seria a mola influenciadora de toda uma paixão, brilhantismo e garra: ainda longe de ser conhecida, a inigualável e única, Amália Rodrigues, com a muito tenra idade de 14 anos, estreia-se a cantar nas marchas. Mas não surge entoando uns versos no meio da marcha, por entre as diversas vozes de um dos bairros. Nada disso, Amália aparece, em grande destaque, pois ela é, simplesmente, a grande solista responsável pela Marcha de Alcântara.

Viria a ser madrinha do coletivo na década de 50 e uma das maiores entusiastas da tradição, além de dar voz a mais de 20 temas. Já bem mais tarde no tempo, não seria de estranhar que a escutassem dizendo, como tantas vezes o repetiu:

“Gosto tanto das marchas como do fado.”

 Isto foi proferido, pela primeira vez, em público, no ano de 1969 aquando de uma entrevista à revista Flama, quando, ao regressar de uma atuação na União Soviética. Foi nessa entrevista que lhe pediram para comentar a ausência de Alfama do desfile daquele ano. “Deve ser engano!”, exclamou.

Seriam muitas as histórias e disputas ao longo do tempo em torno dos desfiles, que passariam pelo Pavilhão dos Desportos e tiveram pequenas diferenças no formato ao longo dos anos. A ideia da Câmara Municipal de Lisboa era a de tentar superar a cada ano as marchas do ano anterior, mas nem todas as inovações foram bem sucedidas.

Contudo, um novo folego renasceu em 1952 quando as Marchas Populares de Lisboa começaram a descer a Avenida da Liberdade, com a pompa e toda a circunstância que facilmente lhe reconhecemos nos nossos dias. Um palco realmente digno das festas e do nosso Popular Santo António de Lisboa.

A festa deveria ter regressado na noite de 12 para 13 deste mês de junho, mas o coronavírus trocou as voltas às Marchas Populares de Lisboa. Curiosamente, depois de ter estado presente novamente em 2017 e 2018, este ano Campo de Ourique regressava sob a égide dos Alunos de Apolo, com uma nova Marcha. Porém, em 2020 a marchas só desfilaram nos corações dos lisboetas, fica a esperança de que a capital nos possa vir a trazer as maiores, mais grandiosas e resplandecentes Grandes Marchas Populares de Lisboa já no próximo ano de 2021.

Por aqui me fico, Berta, espero que o teu coração tenha, como o meu, descido a Avenida da Liberdade, durante estas 5 últimas cartas. Despede-se com um beijo repenicado a manjerico, este teu grande amigo,

Gil Saraiva

 

 

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