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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Das Ranchadas dos Santos Populares às Marchas Populares de Lisboa – Parte IV/V

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Olá Berta,

Espero que te esteja a agradar este pequeno rever da história. Principalmente no que ao Bairro de Campo de Ourique e aos Santos Populares diz respeito. Recordar outros tempos através da história, no que concerne a assuntos que me apaixonam, deixa-me sempre muito satisfeito. Mas continuemos:

Das Ranchadas dos Santos Populares às

Marchas Populares de Lisboa

– Parte IV/V

Ainda antes de se pensar na edição seguinte, a vontade de concorrer dos bairros que tinham ficado de fora da final, leva a que se faça uma segunda ronda de marchas ainda durante o mês de junho, com o 1º prémio entregue à Madragoa. Tal como na primeira ronda, o prémio entregue foi de um conto de reis. E as marchas seriam ainda convidadas a desfilar no Parque Estoril. Foi um mês para vincar definitivamente um novo evento em Lisboa. Estava lançada uma nova tradição: As Marchas Populares de Lisboa jamais deixariam de se realizar anualmente. Só o coronavírus as conseguiu parar.

No texto que recolhe informação sobre a primeira edição, José Ramalho lembra que, logo em 1932, a Câmara Municipal de Lisboa mostrou interesse em patrocinar a iniciativa, o que foi tratado com pinças pelo diretor do Parque Mayer que quis tirar o maior partido possível do evento ainda durante os 2 anos seguintes.

Contudo, o destino estava traçado em definitivo e, 2 anos depois, foi mesmo isso que veio a acontecer. Como era de esperar, logo em 1935, as marchas foram imediatamente incluídas, pela primeira vez, no programa das festas de Lisboa, pela mão de Luís Pastor de Macedo, vereador da cultura. Para espanto da própria edilidade, desde daí e por muitos e longos anos, as Marchas Populares de Lisboa, tornaram-se e foram o evento máximo da capital.

Como que a explicar a pressão da autarquia, o que foi escrito na imprensa, nomeadamente no “Diário de Lisboa” de 11 de junho de 1934, revelava, muito bem, uma aposta mais do que certeira:

“…cerca de 300 mil pessoas encheram Terreiro do Paço, rua Augusta, Rossio, Avenida e Parque Eduardo VII para ver passar as comitivas dos bairros, num cortejo marcado para a noite de domingo. Lisboetas, sim, mas também forasteiros…”

O que era mais do que a população na altura residente na cidade…:

“espanhóis que vieram em autocarros e estrangeiros de várias nacionalidades, instalados no Estoril, ou de passagem, todos se mostravam de acordo quanto à beleza incomparável do espetáculo de ontem”.

O movimento foi inédito. Aliás, o sucesso das marchas e a inacreditável adesão popular dos lisboetas, dos portugueses e dos espanhóis foram documentados na imprensa de toda a imprensa europeia da época. Contava-se que “Os táxis nunca fizeram tão bom negócio.

Os elétricos, estiveram sempre apinhados, funcionaram dia e noite, sem descansar. Houve condutores que trabalharam 20 horas seguidas, pois foram forçados a prosseguir o seu posto, às 2 horas da madrugada, quando os carros deviam recolher aos hangares. Os elevadores, que também tiveram grande concorrência, funcionaram até às 3 horas... na calçada da Glória, o cabo condutor de energia elétrica ainda estava quente ao chegar da manhã”.

É preciso lembrar que a população residente na cidade de Lisboa não atingia, à época, o quarto de milhão de pessoas. Não seria de esperar de maneira alguma uma afluência de público que fosse superior ao total dos habitantes da capital, em quase 20%. Pese embora, o facto de estas contas, apenas se referissem à cidade e não a toda a zona metropolitana e à Grande Lisboa, a quantidade de gente foi realmente avassaladora.

O concurso das marchas seria nessa noite, no Parque Eduardo VII, com 12 bairros em concurso (Bairro Alto, Ajuda, Alto do Pina, Alfama, Campo de Ourique, Sete Rios, Santo Amaro, Madragoa, S. Vicente, Benfica, Alcântara e Mouraria).

Depois do desfile, conta na edição do dia seguinte o mesmo jornal (o Diário de Notícias), o júri reuniu-se pelas 3 horas da madrugada para pontuar as exibições e a vencedora foi Alfama, sem qualquer margem para dúvidas, com uma votação largamente superior às outras marchas, com pontuações de topo em todos os indicadores. O diário escreveu inclusivamente:

“Alfama… obteve o máximo dos pontos em todos os boletins e em todas as considerações dos nove componentes do júri, sem exceção, de tal modo que nem discussão ou revisão foi preciso ser feita.”

Conforme podes verificar, minha querida amiga, as Marchas Populares de Lisboa tiveram um impacto imenso na sua época em Lisboa, contribuindo inclusivamente para o elevado crescimento populacional que se verificou na capital, durante toda a década de 30 e de 40.

Amanhã, querida Berta, termino esta pequena saga histórica. Não foi um estudo aprofundado, nem sequer exaustivo, apenas te quis dar uma ideia da real dimensão destas Ranchadas que viraram, magicamente, “As Marchas Populares de Lisboa”. Deixo-te um grande beijo e uma boa semana. Este teu bom amigo, sempre ao dispor,

Gil Saraiva

 

 

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