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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Das Ranchadas dos Santos Populares às Marchas Populares de Lisboa – Parte III/V

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Olá Berta,

Dando seguimento à nossa história, e pegando no que eram eventos dispersos pelos bairros realizados em modos bem mais singelos, Campos Figueira foi realmente o homem que, com um golpe de asa, criou e fez nascer a mais bonita tradição de Lisboa. As suas marchas populares, as quais celebrariam, este ano os seus oitenta e oito anos de experiência, maturidade e engrandecimento. Mas, vamos ao nosso tema, minha querida amiga:

Das Ranchadas dos Santos Populares às

Marchas Populares de Lisboa

– Parte III/V

Conforme já referi, a primeira edição foi promovida pela revista “Notícias Ilustrado”, com a ajuda e o envolvimento do entusiasmado diretor, o ilustre Leitão de Barros, e pelo “Diário de Lisboa”. Os “ranchos” de cada bairro, seculares, porque afinal a tradição se inspirava no folclore regional associado, pelas efemérides dos santos, às festividades, receberam mesmo um subsídio para ajudar nas despesas e para que a produção se apresentasse mais glamorosa do que nos seus festivos bairristas, em atos desgarrados.

 “Já se sentia em Lisboa que algo de novo ia a acontecer na noite de 12 de junho”, recorda José Ramalho. “Sucede que, alguns dias antes da data marcada para a exibição, só três ranchos estavam em perfeitas condições de se apresentarem em público, para o anunciado concurso.” A eliminação prévia dos os Bairros do desfile gerou, em toda a gente a expetativa de se tratar de uma grande final.

A imprensa envolvida tratou cuidadosamente de deixar clara essa mensagem, de forma a não causar demasiados danos nos Bairros não apurados e escolhidos e a permitir que os 3 que iriam desfilar se sentissem lançados num embate de finalistas em que, só uma garra titânica e um soberbo entusiasmo, poderiam, realmente, fazer a diferença.

Com as coisas anunciadas nestes termos a adesão da população geral, incluindo a dos Bairros eliminados ficou assegurada, bem para além das melhores expetativas da organização. Alto do Pina, Campo de Ourique e Bairro Alto disputariam o primeiro concurso e o Parque Mayer revelou-se pequeno e absolutamente diminuto, quase irrisório, para tanta euforia, fervor e bairrismo.

Não nos podemos esquecer, minha querida amiga, que aos moradores dos bairros que acompanharam as marchas até ao auditório, se foram juntando os curiosos, os, entretanto, eliminados daquela final e a população que os envolvia. A certa altura até parecia que Lisboa em peso estava ali.

“A multidão era tanta que as forças da PSP e da GNR, a cavalo, dificilmente continham esse mar de gente, que ia aplaudindo os ranchos conforme chegavam. E já dentro do Parque, eram dez horas da noite, os componentes não marchavam, deslizavam, perante aquela massa humana em delírio”, descreve o mesmo José Ramalho.

O “Notícias Ilustrado” publica imagens do “êxito popular” e o “Diário de Lisboa” deixa, para além do corpo das notícias, mais algumas notas, bem ao estilo da época, que fizeram as delicias dos leitores nos dias seguintes. A loucura foi tanta que quem não sabia ler arranjava quem soubesse. Foi banal observar grupos de gente reunida em volta de alguém que dava voz às letras impressas nas publicações:

 “A menina Natália Moura, com o seu par, num grupo de raparigas da marcha de Campo de Ourique, que ontem nos descantes e nos bailados provocou a atenção do público pela sua formosura e pelo seu donaire, mantendo as tradições da alegria do povo, no qual se encontram verdadeiros exemplares de beleza física”, lê-se, a título de exemplo, numa legenda da edição de 13 de junho de 1932 do DN desse dia da consagração dos heróis.

“Só quem assistiu no Parque e nas ruas a esse espetáculo impressionante de beleza popular – e foram dezenas de milhares de pessoas – pode bem avaliar do interesse público, da graça, da alegria, da originalidade, do pitoresco simpático e da bizarria que distinguiram a realização da iniciativa que o nosso jornal patrocinou”, relata o vespertino Notícias Ilustrado, concordando com o apelo feito no “Diário de Notícias” nesse mesmo dia: “Lançaram-se os fundamentos para uma grande festa anual, tipicamente portuguesa e popular, a organizar com extensão e superior critério, e que a Câmara Municipal devia tomar a si.”

De um momento para o outro, amiga Berta, a adesão alfacinha à iniciativa, numa festa que parecia não distinguir classes sociais, no que ao apoio à iniciativa dizia respeito, estava lançada. A festa popular fora ímpar, desde o primeiro momento, e quando o povo está feliz, todos estão, pela lógica instalada, igualmente contentes.

Por hoje termino, esperando que esta pequena história te ajude a fazer esquecer este momento em que não pudeste ver na televisão as Marchas Populares de Lisboa de 2020, nesse Algarve distante onde te encontras. Despeço-me, com um beijo de alecrim, repleto de saudades, com os meus beijos de Santo António, que já conheces, mas que aqui te recordo uma vez mais, na esperança de te poder fazer sorrir num dia como hoje:

 

Beijo, que é Stº. António,

Dia 13, sexta-feira,

Que o santo do matrimónio,

Não vai cair da cadeira.

 

Beijo nesta lua cheia,

Noite de marchas e festa,

Que beijar não dá cadeia,

Se for dado assim na testa.

 

Beijo “prá” doce menina,

Dado com muito carinho,

Que o santo não se amofina,

E nem vai fazer beicinho.

 

Fica ainda um grande abraço, com a esperança de que consigas recordar Lisboa com uma excelente sardinhada, pois que, pelo que sei, a sardinha aí também não falta. Este teu eterno amigo,

Gil Saraiva

 

 

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