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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Das Ranchadas dos Santos Populares às Marchas Populares de Lisboa – Parte II/V

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Olá Berta,

Continuando a minha carta de ontem sobre as Marchas Populares de Lisboa e indo diretamente para as origens existem algumas coisas para referir com significado e muito valor sentimental. Assim:

Das Ranchadas dos Santos Populares às

Marchas Populares de Lisboa

– Parte II/V

Podes não saber, minha querida amiga, mas o Primeiro Concurso de Marchas de Lisboa foi organizado em 1932 por iniciativa e ideia do Dr. Campos Figueira, nessa altura, diretor do Parque Mayer. Aliás o sucesso de 32, 33 e 34 foram de tal forma relevantes que a Câmara Municipal de Lisboa agarrou a ideia e em 1935, com ganas de dar ainda maior projeção à iniciativa. A negociação com o Parque Mayer não foi difícil, pois a autarquia aceitou todas as condições impostas pelos, até então, responsáveis pelo notável evento.

Entre as alterações impostas pela edilidade, e foram várias, a principal prendeu-se com a existência de uma canção comum para todos os marchantes. Ainda longe da ribalta, foi também nesse ano que Amália se estreou como cantora solista pela Marcha de Alcântara, tinha apenas 14 anos de idade, esta jovem e então ilustre desconhecida.

Mas foi 3 anos antes, em 1932, ao som das quadras cantadas em tom de festa (transcritas abaixo), que Campo de Ourique, graças à brilhante direção da, ainda existente, Academia Filarmónica Verdi, fundada a 26 de maio de 1872 conquistou o Primeiro Lugar, vencendo o Prémio de Imponência e Movimento, que galardoava a melhor Marcha Popular de Lisboa. Vamos às quadras:

 

Não posso bailar na roda,

Deixá-lo pouco importa;

Quero andar a noite toda

À roda da tua porta

 

ai-ló! ai-ló! ai-ló!

ai-ló! É coisa boa

A gente é que ganha o prémio

do “Diário de Lisboa”

 

Com efeito, a divulgação do evento tivera o patrocínio do jornal “Diário de Lisboa”. Foi ainda a celebrar os seus 60 anos de existência que a Academia Filarmónica Verdi, cuja primeira sede tinha a Rua Maria Pia como morada e que depois se mudou para o Arco do Carvalhão, onde ainda se encontra nos dias de hoje, conquistou o “1º prémio” do novo evento denominado “Marchas Populares de Lisboa”. Os diretores da Marcha, honra lhes seja feita, foram os “Pimpões” Carlos Meneses, António Coelho e João Simões. O desfile foi efetuado na Sala do Capitólio, que estava a menos de um mês de celebrar o seu primeiro aniversário de existência e glamour.  Os derrotados desta final foram os bairros de Alto do Pina e Bairro Alto. Corria o ano de 1932, os versos não eram de poetas conhecidos, nem as músicas de compositores célebres ou consagrados. Também não houve padrinhos de renome ou nomeada, mas a vontade bairrista de vencer já lá estava e a adesão da população superou qualquer expectativa, arrasando por completo todos os eventos desse ano, em termos de sucesso, reportavam os jornais da época, para que o evento ficasse marcado para a posteridade, e ficou. Este feito haveria de ser repetido em 1939, com Campo de Ourique novamente a conhecer o sabor da glória, mais uma vez sob a batuta da Academia Filarmónica Verdi.

Volto a recordar-te, amiga Berta, que esta brilhante iniciativa partiu do diretor do Parque Mayer, Campos Figueira, que chefiava à época esta casa de espetáculos e todo o seu recinto, no centro da vida lisboeta, fundada 31 anos antes, em 1901.

Os Santos Populares já eram festejados nas ruas da cidade e havia a memória das “velhas marchas populares” de cada bairro, chamadas também de “Ranchadas”, que se encontravam junto ao chafariz da rua Formosa, hoje rua do Século, lembra o ensaiador José Ramalho, num texto guardado no arquivo do Gabinete de Estudos Olisiponenses da Câmara Municipal de Lisboa, a propósito das celebrações dos Santos Populares. Aliás, as “Ranchadas” tinham tradições muito antigas na história de Lisboa, organizavam-se por altura do Carnaval e dos Santos Populares.

Foram estas mesmas “Ranchadas” que fizeram chegar ao Brasil, umas centenas de anos antes, no século XVI, aquele que seria para sempre consagrado como o maior evento festivo do mundo: “O Carnaval do Brasil”.

Foi graças a Campos Figueira, que pensou em revitalizar a tradição das Ranchadas criando um “espetáculo inédito”, com direito a palco e prémios, que se criou a competição que, mesmo com alguns anos de menor entusiasmo, ainda dura nos dias de hoje, percorrendo atualmente a Avenida da Liberdade: "As Marchas Populares de Lisboa"

Por hoje é tudo, minha amiga, despede-se com um beijo de saudades, este teu sempre amigo do peito, com um sorriso no olhar e um brilhozinho de arraial no coração,

Gil Saraiva

 

 

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