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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Das Ranchadas dos Santos Populares às Marchas Populares de Lisboa – Parte I/V

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Olá Berta,

Infelizmente este ano não existirão as Marchas Populares de Lisboa, muito menos se celebrará o Santo António. É triste, muito triste minha querida Berta. Por isso penso não haver melhor maneira de relembrar a história do que falar um pouco de como as coisas começaram e dar um lamiré dos primeiros eventos.

Das Ranchadas dos Santos Populares às

Marchas Populares de Lisboa – Parte I/V

Afinal, sendo eu um amante ferranho do Bairro de Campo de Ourique, irei relembrar aqui, que fomos nós, Bairro de Campo de Ourique, o primeiro grande vencedor das Primeiras Marchas Populares de Lisboa. Sagrados campeões no remoto ano de 1932. Mas antes de me adiantar neste regresso ao passado, tenho de dizer algo sobre este triste ano de 2020.

Embora eu esteja, na generalidade das afirmações, de acordo com a Ministra de Estado, Mariana Vieira da Silva, o modo escolhido, e os termos usados para o fazer, levantam-me sérias preocupações. Não consigo encontrar justificação para o seu aparecimento na conferência diária da DGS.

O meu desacordo está no tom implícito da ministra. Nas palavras proferidas como sendo uma pacifica e muito calma ameaça velada, quase revelando um potencial recurso à força bruta se tal se vier a demonstrar necessário. Ora, esta atitude, nunca se ouviu em mais nenhum membro do Governo, nem mesmo na DGS, no Primeiro-Ministro ou nas palavras do Presidente da República.

A Ministra da Presidência afirmou, esta quarta-feira passada, que as autoridades “vão garantir” que não se fazem arraiais e festas populares, mesmo que sejam promovidas informalmente por estabelecimentos com licença para funcionar. Muito bem, mas isto quer dizer o quê?

O que significam as palavras de Mariana Vieira da Silva? Porque apareceu ela na conferência de imprensa diária de acompanhamento da pandemia da Covid-19? O que quer ela dizer com:

1)"Em articulação com os municípios e com as forças de segurança, procuraremos garantir que aquilo que está proibido não se realiza apenas por que se considera ser informal.”

Ou ainda com:

2)"A ideia de que nos podemos relacionar normalmente sem garantir o distanciamento físico, estando em festas em que nem sequer conhecemos todas as pessoas que lá estão é uma ideia errada que importa combater.”

Mariana Vieira da Silva ainda proferiu outras frases bem “lapalicianas” como:

3)"desconfinamento não significa normalidade."

4)"festas populares e arraiais estão expressamente proibidos."

5)"as regras de distanciamento social impedem a realização de festas, mesmo que privadas”.

6)Aliás, "têm sido pontos problemáticos nas últimas semanas."

7) Embora os estabelecimentos de convívio, que estejam encerrados, possam ir reabrindo "à medida que tenham orientações específicas para o seu funcionamento", discotecas e espaços de dança vão continuar fechados porque "é pouco possível pensar neles como espaços de distanciamento social.".

8)"Mesmo os que têm, sobre o seu próprio caso, uma perceção de menor risco devem saber que são sempre, pelo menos, um risco para os outros."

9) O controlo sobre todas as pessoas com quem se entra em contacto é necessário para que, "caso alguém adoeça, se possa reconstituir toda a rede de relação."

Ao que parece, todas estas verdades “lapalicianas” de Mariana Vieira da Silva, são coerentes e estão, segundo a própria afirmou, plasmadas na resolução de Conselho de Ministros, aprovada na quinta-feira passada. O que me confunde é o que a Senhora Ministra foi fazer a uma conferência de imprensa da Direção Geral de Saúde?

Não é a área dela, nunca lá esteve antes, porquê uma Ministra de Estado e da Presidência ali, nesse momento? Foi apenas para repetir o que já era público e que tinha sido, antecipadamente, 6 dias antes, comunicado à comunicação social? Numa ação da DGS com os órgãos de comunicação? Faz algum sentido? Não! Efetivamente não faz. Terá a presença de Vieira da Silva algo a ver com a mobilização de mil elementos da PSP e de mais 800 polícias municipais para fiscalizar os bairros de Lisboa hoje e durante o fim-de-semana?

Seria mesmo necessário avisar e fiscalizar, desta forma tão musculada, o Zé Povinho para que este não celebre, seja lá como for, os seus santos populares, nomeadamente o Santo António? Acho que não. Portugal teve mais casos, é certo, nas últimas 3 semanas, mas precisamente porque resolveu testar, testar e testar. Este final de semana deve atingir um milhão de testagens. Ora isso é quase 10% do seu número de habitantes. É normal que o número de infetados aumente com algum significado.

Aliás, o país tapou os olhos desde que a pandemia começou a 2 grandes grupos de risco. Quer o setor da distribuição, principalmente a componente alimentar, quer o pessoal da construção civil nunca haviam sido testados. Entre fevereiro e o fim de maio fizemos de conta que esta gente não existia. Porquê? Para não parar setores da economia fundamentais. O primeiro, devido à necessidade de continuidade do funcionamento da logística alimentar e sua distribuição e o segundo, pelo peso imenso que tem na economia.

Agora, não venham culpar o Santo António, pela estratégia conscientemente adotada. Os santos populares são populares por serem festas do Povo de Portugal. Que se evitem grandes arraiais é uma coisa, que se queira aniquilar de todo a época festiva, que tanto tem de religiosa como de pagã é outra bem diferente. Da minha parte, Berta, eu grito bem alto: Viva o Santo António.

Infelizmente, este ano, não teremos as Marchas Populares de Lisboa. Tenho pena, principalmente porque os Alunos de Apolo tinham conseguido angariar os fundos e as pessoas para que Campo de Ourique voltasse a estar presente. Fico com pena de não poder ir ver aqueles que continuam o imenso legado dos Primeiros Vencedores e Campeões das Primeiras Marchas Populares de Lisboa, em 1932, ou seja, o Bairro de Campo de Ourique.

Despeço-me, querida Berta, com um beijo de manjerico, e a alegria dos Santos Populares com um até amanhã. Este teu eterno amigo,

Gil Saraiva

 

 

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