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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Campo de Ourique - A Morte da Galinha dos Ovos de Ouro - Parte I/II

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Olá Berta,

Aqui estou eu mais uma vez a escrever-te diretamente da minha aldeia, ou seja, de Campo de Ourique. Espero que te encontres bem e feliz como sempre. Mas vamos à carta de hoje:

Campo de Ourique - A Morte

da Galinha dos Ovos de Ouro

Parte I/II

Hoje descobri que existem algumas coisas coincidentes entre a minha aldeia e o universo restrito de uma capoeira. Logo à partida ambos têm penas. As do refúgio galináceo são mais visíveis, já pelo bairro, no entanto, embora existam algumas vestes de patos e de pombos espalhadas principalmente pelo Jardim da Parada, entre outros locais, por onde a passarada vai deixando, aqui ou ali, vestígios da sua passagem, a grande maioria das penas, desta minha aldeia, são de outra espécie, bem mais difícil de detetar.

Mais de um quarto dos residentes destes 1,65 quilómetros quadrados, já passou os 65 anos de idade e uma larga maioria deles vive, cada dia que passa, com as penas próprias da solidão, da doença ou da subsistência. Penas que em nada se assemelham em leveza às das galinhas. Mas são estoicos os anciãos e anciãs do meu pequeno burgo. Não se deixam abater com as primeiras adversidades e aguentam, não em poucas ocasiões, a DFS (doença, fome e solidão), as segundas, as terceiras e as outras contrariedades que mais vierem.

Tal como na capoeira esta minha terra tem no sexo feminino a sua grande força. Por aqui vivem mais 3 mil e tal mulheres do que homens. Não é por isso de admirar que exista tanto comércio de rua. Aliás, Campo de Ourique é considerado o Maior Centro Comercial ao Ar Livre do país. Este pequeno detalhe faz com que, durante as 9 da manhã e as 7 da tarde, a população feminina nos passeios e lojas quase que dobre face à masculina, mais dada a culturas de sofá.

Também, como na capoeira, o meu Bairro tem uma ave como seu símbolo máximo de poder. Se, no primeiro caso, me refiro ao galo do topo do galinheiro, no segundo, a ave assume ter 2 poleiros, ou seja, tanto é deputada da nação como, simultaneamente, presidente da Junta de Freguesia, isto para além da raridade de ser tratada no masculino, por Cegonho, em vez do termo vulgarmente utilizado de Cegonha.

Contudo, dizem as más línguas, que o Cegonho canta de galo melhor que o genuíno. É pena, ou talvez não, que ontem tenha sido o seu último dia enquanto autarca, mas não deixa penas num poleiro onde agora reina a monarquia do Oriente Lusitano. O que nada tem a ver com aquela conhecida loja de gente de avental, pelo menos nada que se saiba com certezas de afirmação, mas sim, unicamente, com as reais fundações da família real a que agora me refiro, são originários de Goa, na Índia.

Com efeito, na senda do ex-presidente da Câmara, António Costa, herda o condado, digo, a freguesia, o seu primeiro filho, Pedro Costa. O novo Príncipe de Campo de Ourique, Dom Pedro Costa Segundo ao Quadrado (da parte do pai, também Costa, e da parte do ex-presidente da junta, também Pedro). Afinal, gerir discotecas e bares não é negócio de futuro e daqui a 3 dias o Primogénito já faz 30 anos. Acredito que o presente recebido por Dom Pedro Costa II, na figura de novo Presidente da Junta de Freguesia de Campo de Ourique, fará com que o aniversariante faça justiça à Família Real de quem herdou o Condado, digo a Freguesia. Espero que o herdeiro consiga manter a Galinha dos Ovos de Ouro que se traduz pela identidade única e singular deste bairro.

Beijo minha querida Berta, já me estou a alongar demais, amanhã termino esta pequena história de capoeira comparada. Espero que pelo menos tu escutes as minhas penas e preocupações. Despeço-me com saudade, sem pena da partida da ave rara, o teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

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