Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Caçadora de Sonhos...

Berta 46.jpg

Olá Berta,

Desejo-te uma boa quinta-feira. O clima por Lisboa está menos frio e a chuva, prevista para breve, ainda não começou a cair. Escusas de te rir por estares bem mais protegida das grandes diferenças de temperatura aí pelo Algarve. A falta de água nesse bocadinho de Portugal ameaça tornar essa terra num deserto a curto prazo. Fica atenta minha amiga, fica atenta.

Hoje, como ontem, a televisão voltou a noticiar mais uns escândalos ligados ao tráfico de mulheres. Parece que a humanidade não aprende nada com a sua história. As mulheres não são mercadoria de ninguém. Num mundo cada vez mais sofisticado custa-me a aceitar como é que coisas destas ainda podem acontecer. Lembrei-me de um poema que fiz, em 1998, já lá vão mais de 21 anos, sobre uma amiga minha, a Joana, que, por força das circunstâncias, se fez escrava, por vontade própria, do sexo. Foi a única maneira que encontrou para sobreviver dizia-me ela.

Nunca achei que não pudessem ter havido outras alternativas. Mas isso sou eu a pensar. Ela, que por um acidente na vida acabara de perder de uma vez pais e avós decidiu que esse era o único caminho. Neste caso, a escravatura voluntária pode ser menos penosa do que a forçada, mas não deixa de deixar profundas marcas a quem dela sofre. Fica aqui, para que me entendas, amiga Berta, a homenagem que lhe prestei há mais de 20 anos:

"CAÇADORA DE SONHOS"

 

Caçadora de sonhos

E tão sem saudade...

 

Armada de vida,

Carente de presas…

 

Eu, pela cidade

Procuro a saída

Encontro defesas

Na alma do mundo:

 

Ninguém se quer dar;

Ninguém sabe amar;

Ninguém quer, no fundo,

Saber encontrar

A paz, no profundo

Calor de um segundo...

 

Caçadora de sonhos

E tão sem saudade...

 

Eu vejo no dia,

Na noite bravia,

No caminho, na rua,

Entre gente,

Mais gente,

Vestindo essa moda

(Qual festa tardia

Ao néon da Lua),

A gente que mente

E em bares se acomoda...

 

E ali, nessa esquina,

Eu vejo no dia,

Na noite bravia,

Se vendendo toda,

Uma pobre menina

Que diz a quem passa:

"- Mil paus... tô na moda..."

 

No meio da praça,

Se vendendo toda

Joana sem caça,

Carente de presas,

Faz contas à vida:

<<- Nem dá “prás” despesas...

Que porra de vida!...>>

 

E gente infeliz,

Com hora marcada,

Passa e lhe diz:

<<- Dou cem e mais nada...>>

 

Caçadora de sonhos...

E tão sem saudade...

 

Eu já vejo agora

O riso da erva

Nos pés dessa serva,

Que vende por hora

O corpo... estragado...

De tão ser usado.

 

Caçadora de sonhos

E tão sem saudade...

 

Buscando, perdida,

A velha igualdade

Do mundo, da vida...

 

Buscando ilusões,

Conceitos, ideias,

Credos e orações,

Entre cefaleias...

 

Caçadora de sonhos

E tão sem saudade...

 

É assim: no leve sorriso

Dessa erva daninha;

No cato que cresce

Formando uma espinha;

Na espinha que pica

Aquela andorinha

(Coitada, infeliz,

Que sangue já chora),

 

Caçadora de sonhos

E tão sem saudade...

 

E choro, de mágoa,

O gozo sinistro

De certa gentinha,

Com cara de quisto

Pejado de tinha;

E a cara alegre

De um velho ministro

Que julga esconder

O que já foi visto...

 

Choro... choro e volto a chorar...

Mas riem as luzes p’la cidade fora...

 

Riem de mim na noite vizinha;

Riem... riem como quem ri

De uma adivinha prá qual a solução

Não se avizinha...

 

Riem... riem enquanto meu ser

De novo chora, chora como ontem,

Como hoje e agora:

 

Chora as meninas

No meio da praça

Se vendendo todas

Ao primeiro que passa...

 

Caçadora de sonhos

E tão sem saudade...

 

Como posso caçar

Sonhos no mundo?

 

Como posso amar

Mais que um segundo?

 

Não tenho saudades

Da terra maldita,

Onde o direito

Não passa de fita...

Minha alma:

 

Caçadora de sonhos

É tão sem saudade...

 

Despeço-me com um beijo, saudoso como sempre, este que nunca te esquece,

Gil Saraiva

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Em destaque no SAPO Blogs
pub