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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: As Mulheres no País do Sol Nascente

Mulheres no Japão.jpg

Olá Berta,

Hoje fiquei chocado com uma notícia que li na imprensa online. A situação era tão surreal, absurda e estupida que, ao princípio, julguei tratar-se de uma piada de mau gosto. Contudo, depois de ler todo o artigo e de tentar encontrar alguma espécie de contraditório, descobri que não havia nada que contradizer porque, para meu espanto, as coisas são exatamente como o artigo as descrevia.

Relatava a notícia que nasceu no Japão, um dos países mais desenvolvidos do mundo, um movimento feminino com vista a exigir mudanças na legislação laboral de forma a permitir que as mulheres possam usar óculos no local de trabalho, seja ele qual for. Sim, sim! Leste bem, atualmente no país do Sol Nascente ninguém do sexo feminino pode usar óculos no emprego.

É o próprio Ministro do Trabalho japonês que afirma publicamente que as regras relativas ao Código de Vestimenta no trabalho são não apenas necessárias como apropriadas. Apresentando-se contra qualquer alteração como as propostas por este movimento nascido nas redes sociais. Aliás, esclarece o artigo que, se uma mulher usasse óculos no trabalho, a sua apresentação tornar-se-ia bem mais rude do que o expectável, o que era realmente inadmissível.

Indignado com tal chorrilho de disparates, e na procura de outras notícias que me desmentissem a que acabara de ler, acabei por descobrir uma outra em que o governo tentou impor que as empresas comerciais e de serviços, que empregassem mulheres nos seus quadros, as obrigassem a ir trabalhar de saltos altos.

A imposição ainda não foi totalmente descartada, mas encontrou resistência severa através de uma petição online, iniciada por uma atriz, que conta até ao momento com milhares de subscritores de ambos os sexos. A medida ainda não conseguiu ganhar forma de lei graças a esta oposição iniciada por uma atriz, mas o Estado já fez saber que a pretende vir a impor num futuro bem próximo.

Podia estar aqui a relatar-te mais umas 30 ou 40 regras deste Código de Vestimenta do Japão, mas, acho que a que já descrevi é suficiente para imaginares o restante chorrilho de disparates e imposições em vigor. O espantoso no Código em causa é que quanto maior for a responsabilidade da mulher numa empresa e mais elevado for o seu cargo, mais graves são as regras impostas e mais apertado é o Código. Aliás, já é obrigatório que toda e qualquer executiva empresarial use saltos altos, a alteração proposta visava apenas ser mais abrangente.

Não leves a mal a brincadeira que passo a descrever, mas eu estou mesmo a imaginar uma executiva japonesa, que possua algumas boas dioptrias, no que à miopia diz respeito, e mais uma abastada dose de astigmatismo, a andar de saltos altos, num piso acabado de lavar e ainda a caminho da secagem total. Deve ser algo como um principiante de patinagem no primeiro dia em que coloca os patins, só que sem as proteções que lhe amparem as sucessivas quedas e trambolhões.

Pois é Berta, sei que estás a pensar que te citei apenas um ou outro disparate em vigor nesse longínquo oriente, mas nem comecei sequer. Dou-te outros 2 exemplos: a tal míope, se cair, apenas terá os seios protegidos, porque é absolutamente obrigatório que vá trabalhar com sutiã. Porém, se a dita senhora tiver uma cintura superior a 90 centímetros, não irá laborar tão cedo porque o Estado a obriga a submeter-se a tratamento ambulatório ou internamento até o objetivo ser atingido.

Não estamos a falar de um país de terceiro mundo, nem de uma qualquer nação em desenvolvimento, estas regras são impostas pela lei numa das maiores e mais fortes economias mundiais. Nem o Japão é o Nepal, onde a religião Hindu obriga à expulsão das mulheres de sua casa e ao seu isolamento da comunidade durante os períodos menstruais, por considerar que a mulher está suja e em estado impuro. Nada disso, estamos mesmo a falar do Japão.

Depois de tamanhas bizarrias resolvi ir ver em que lugar estavam as terras do Sol Nascente no que às disparidades de género diz respeito. Não foi fácil, mas finalmente descobri um relatório do Fórum Económico Mundial, já de 2019, que, entre os 154 países analisados, coloca o Japão no centésimo décimo lugar, apenas a 44 do fim da tabela.

Vou pensar muitas vezes antes de voltar a dizer mal deste país à beira mar onde vivemos. Podemos não ter o índice de produtividade do Japão, mas tenho a certeza que somos bem mais felizes. Fica bem minha querida, despeço-me saudosamente, com um beijo deste, que não te esquece,

Gil Saraiva

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